sexta-feira, 1 de maio de 2015

EPICURISTAS E CICLOTÍMICOS
Tomislav R. Femenick – Mestre em Economia, com extensão em Sociologia



Assistindo a televisão, ouvindo o rádio ou lendo os jornais e revistas, as notícias dos tempos atuais nos deixam com a sensação de que estamos vivendo uma era de incertezas absolutas. O que sai dos noticiários é um mundo errático e ciclotímico, isso é, com predisposição para a vagabundagem moral e para alternâncias de comportamento. Se pensarmos bem, já faz algum tempo que essa maneira de encarar a vida vem se insinuando no dia-a-dia da sociedade humana.


Segundo algumas teorias da antropologia social, a origem da civilização estaria, em grande parte, na contenção dos impulsos primitivos do ser humano. A evolução dos indivíduos teria ocorrido quando as pessoas deixaram de fazer uso dos seus impulsos instintivos, cedendo às regras de conduta que a sociedade espera dos indivíduos. Esse conceito nada mais é do que a interpolação do pensamento freudiano sobre as três instâncias do aparelho psíquico: o “id”, a área dos impulsos instintivos da personalidade e reservatório inicial da energia psíquica; o “ego”, dividido em duas camadas, uma interna, influenciada pelos impulsos instintivos, e outra externa, que age no plano consciente; e, finalmente o “superego”, que atua como mecanismo inibitório sobre o ego. Agindo concomitantemente, ao mesmo tempo, o id, o ego e o superego gerenciariam as situações de conflito do comportamento humano, submetendo o comportamento individual às regras determinadas pela razão coletiva.
Somente recorrendo a esses conceitos é que se percebe o movimento regressivo do processo civilizatório. Quando as pessoas abandonam o comportamento ditado pelas instâncias do aparelho psíquico, o que passa a existir é, simplesmente, a predominância dos instintos primitivos, uma desadaptação permanente que se traduz por uma agitação perturbadora de atitudes contrárias às normas da sociedade, uma impulsão do indivíduo em desequilíbrio com o ambiente em que vive. Quando isso acontece é porque a razão lógica individual é impotente para opor freios que conduzam à conduta esperada pelo grupo. O resultado é uma desadaptação permanente, que se traduz em agressividades gratuitas.
Quando os governantes apregoam, despreocupadamente, suas estripulias políticas, traições maritais e identificam seus amantes; quando famosos têm comportamento erráticos e escandalosos ou mesmo quando saem do armário para proclamar suas preferências sexuais, nada mais estão fazendo do que sobrepor seus instintos ao padrão social. Nada contra que tenham seus amantes, suas preferências sexuais não ortodoxas e que tomem seus porres de vez em quando. Isso é problema de fórum íntimo. Mas não há porque transformá-los em assunto público. Há quem diga que guardá-los seria hipocrisia, simulação, falsear a realidade. O problema não é negar o que se faz; o problema é tratar o que se faz na privacidade como se fosse um assunto de interesse público. Chamar a atenção para as originalidades individuais, em nome de qualquer outra coisa de não seja “busca de vitrine” para aparecer, é que é hipocrisia em dose cavalar.
Durante os anos vitorianos (de 1837 a 1901 – período do reinado da rainha Vitória, e quando a Inglaterra era a rainha do planeta), o mundo se comportava como se todos fossem epicuristas abstêmios; dados aos deleites do amor, da mesa e outros mais, porém abstém de desfrutá-los, cerceados que eram pela moral reinante. Agora parece que tudo é permitido.

Os exemplos mais notórios dessa onda de involução são esses chamados reality shows que submetem pessoas do povo, que estão em busca de notoriedade e dinheiro, a situações vexatórias, quando não ridículas e humilhantes. E isso acontece no mundo todo, não somente aqui no Brasil. O próprio modelo desses programas é importado. Hoje, parece até que vivemos em uma sociedade ciclotímica e errática; que alterna críticas e aplausos aos comportamentos extravagantes e excêntricos.