quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Portugal: o país que mais lucrou com a II Guerra.

DN - 16.02.2017
Passaporte do "mais importante espião do mundo" que inspirou James Bond de Ian Fleming
Ian Fleming inspirou-se num espião de carne e osso para criar James Bond. Larry Loftis escreve a sua biografia e grande parte passa-se em Lisboa.
O americano Larry Loftis pretendia escrever um thriller, mas ao fazer a investigação para o livro decidiu-se por uma biografia de Dusko Popov... Quem? A pergunta não será só dos leitores portugueses, mas de quase todo o mundo, porque o espião nascido na Sérvia é mais conhecido sob o nome de James Bond do que pelo próprio. Aliás, enquanto serviu como agente duplo a alemães e ingleses durante a II Guerra Mundial jamais imaginaria que o criador de 007 se inspirasse nele para inventar um dos mais sedutores agentes das secretas britânicas.
Tudo começou no Casino Estoril durante o terrível conflito, quando Lisboa era o maior ninho de espiões vindos de toda a Europa, EUA e União Soviética, e o agente do MI 5 Ian Fleming estava encarregado de vigiar Popov. Este, para desviar as atenções sentou-se numa mesa de bacará e pôs sobre a mesa 50 mil dólares, dinheiro que não era sequer seu. Uma aposta gigantesca que Fleming nunca esqueceu, tanto que anos depois, ao criar Bond, refez tudo o que vira acontecer nessa noite no casino a que deu o nome de Royale, o título do primeiro volume das aventuras do mais conhecido agente ao serviço de Sua Majestade. Foi essa personagem da espionagem que alterou o rumo da escrita de Fleming e há três anos fez o mesmo a Larry Loftis, trocando o thriller que iria escrever por uma biografia de Dusko Popov, que se lê como um thriller biográfico.
Loftis chegou a Lisboa e foi logo visitar o Casino Estoril e o Hotel Palácio, cenário onde o seu biografado se movimentou naqueles anos loucos da espionagem e contraespionagem na capital portuguesa, revendo os locais onde Popov jogou, foi atacado e recolheu informações.
O que sentiu ao rever os locais onde Dusko Popov se movimentou?
Foi surreal, é só o que posso dizer após visitar os locais por onde andei virtualmente nos três anos de escrita do meu livro. Estive no Hotel Palácio, onde encontrei um dos funcionários daquele tempo; fui ao Casino, que mudou muito e agora tem um glamour mais à Las Vegas, onde no hall recordei as descrições de Popov sobre esse local onde mantinha os encontros amorosos. O triângulo entre a praia do Tamariz, o hotel e o casino era o seu local de eleição e foi nesses jardins que ainda existem que se deu a cena da luta com o alemão, tendo conseguido recuperar o envelope que revelava que era um agente duplo e seria decerto uma sentença de morte.
É a primeira vez que vem a Portugal?
Sim, a investigação para Na Toca do Lobo foi feita com base em fotografias e informações que me enviaram e só conhecia o local através do Google Earth. Agora, confirmei que tudo o que memorizara era muito parecido.
Lisboa e Estoril eram os grandes centros de espionagem da época?
Os maiores eram Lisboa e Madrid, mas Popov estava entre cá e Londres.
Afirma que era o maior espião de sempre. Não é exagero?
Não tenho dúvida. Há uns meses houve um debate online sobre isso e alguém disse que existia um russo melhor. Perguntei o que era feito dele e a resposta foi: "infelizmente, descobriram-no e executaram-no". Portanto, não poderá ser o maior.
Não foi subestimado pelos alemães?
Creio que não, davam-lhe muito valor, tal como os ingleses. Era um homem fabuloso pois falava cinco línguas, doutorado e com um savoir faire que o permitia adaptar-se a todos os ambientes. Era perfeito para espião.
Lisboa é o cenário constante. Porquê?
Lisboa é também uma personagem deste livro porque ninguém é capaz de compreender Fleming e Bond sem ela. Lisboa era neutral mas, ao mesmo tempo, um ninho de espiões e a última esperança para refugiados e judeus. Seria um local fascinante e muito importante para contactos. Aliás, Portugal foi o único país da Europa que ganhou com a II Guerra Mundial, porque Salazar foi esperto e negociou com ingleses e alemães e nunca se entalou.
Ian Fleming nunca referiu a inspiração em Popov. Não fica desconfiado?
Não há conhecimento público desse facto, a única confirmação é do próprio Popov, que garantiu ter conversado com Fleming e este ter-lhe assegurado que se inspirara em si para criar Bond. Mas Fleming estava proibido por lei de fazer qualquer comentário sobre as operações secretas durante a guerra. Quando morre, em 1964, estava tudo classificado e já tinha sido ameaçado de confisco dos seus livros e de prisão caso revelasse segredos.
Suspeitou-se que Popov alterou datas na sua vida para coincidir com a atividade de Fleming na guerra. É verdade?
Não, e isso fica claro no livro. Fleming compõe 007 a partir de Popov: charme, inteligência e aspeto são os mesmos. Compara-se e verifica-se que têm ambos olhos claros, cabelo escuro e o mesmo magnetismo animal.
Qual dos dois é mais brilhante para si?
Ambos o são, é difícil escolher. Um é real e o outro ficção, portanto inclino-me para o que tem vida real. Ambos eram bons atiradores mas Popov era campeão de tiro; ambos bem sucedidos com mulheres, mesmo que Fleming tenha dito que Bond não era um playboy e que só se apaixonava uma vez por romance - mas Popov tinha duas ou três namoradas em cada cidade onde estava regularmente.
Na toca do lobo
Larry Loftis
Editora Vogais
414 páginas
PVP: 20 euros

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