terça-feira, 2 de maio de 2017

Da arte de falar mal

 Carlos Heitor Cony 

Jornalista e da Academia Brasileira de Letras.
Parcialmente extraído do livro "As Cem Melhores Crônicas Brasileiras".
Durante anos, em minhas primeiras andanças no ofício de cronista, mantive no "Correio da Manhã" e quase simultaneamente na "Folha de S. Paulo", onde revezava com Cecília Meirelles dia sim, dia não, uma seção assim intitulada: "Da arte de falar mal". Não chegava a falar mal de ninguém, mas, genericamente, de tudo, o que até hoje faço, sem o mesmo vigor, é certo, mas com igual dose de razão. De lá para cá, o tempo não conseguiu melhorar nem a mim nem ao mundo.

Pode parecer que fui ou continuo sendo o único a cultivar semelhante e maléfica arte. Nem tanto, nem tanto. Lembro dois, aliás, três episódios que demonstram a saudável tendência comum a muita gente boa sem necessariamente me incluir nesse tipo de gente.

Numa tarde antiga do passado, quando eu era vizinho de Guimarães Rosa, ali no Posto Seis, ele, sentindo-se sozinho e sem ter nada a fazer ou sem vontade de fazer qualquer coisa, me convocou para jogar conversa fora. Rosa morava na rua Francisco Otaviano e eu, ao pé (a expressão era do gosto e uso de Machado de Assis), ou seja, morava na rua Raul Pompéia.

Ele me recebeu com aquela cara que ficava um pouco infantil, passara a manhã revendo uns textos, já havia me ensinado o seu método, quando suprimia uma palavra, riscava-a toda, nada deixando que lembrasse a eliminação. Gostava de riscar palavras como "amena" ou "sincera", não por serem adjetivos que julgasse redundantes, mas porque as letras tinham a mesma altura, ficava fácil apagar tudo sem deixar nenhum vestígio. O mesmo não ocorria quando havia um "q", um "p" ou um "t", que davam maior altura ou profundidade à palavra escrita, obrigando-o a aumentar o volume do retângulo feito a tinta.

O bibliófilo José Mindlin, se não estou enganado, tem uma edição do "Grande Sertão: Veredas" cheio desses cubinhos azulados, dando a impressão de que foram feitos com um carimbo ou com uma régua e compasso. Infelizmente, não lhe herdei nem o gênio nem o estilo, mas herdei essa mania, até a chegada do computador que deleta a palavra indesejável com menos esforço e compenetração.

Mas não foi para isso que ele me chamou naquela tarde. Queria conversa. Duas horas depois e dois chás que ele mesmo preparou, levou-me até a porta, olhou-me com aquele jeito de gato safado e comentou: "Puxa! Como falamos mal de todo mundo!".

Pulo alguns anos e estou na sala de Rachel de Queiroz. Haviam-me feito candidato à Academia Brasileira de Letras. Não fiz campanha, apenas duas visitas a acadêmicos que revelaram o mau gosto de me conhecer em carne e osso. Não foi o caso de Rachel, mas ela mandou um recado pela sobrinha. Exigia que eu fosse buscar o voto dela pessoalmente. Dirigi-me ao prédio no Leblon, que tem hoje o nome de sua mais ilustre moradora. Ela me recebeu em sua cadeira de balanço. Tudo ali lembrava a miniatura de pequena casa-grande, sala senhorial, despojada, redes, cadeiras e sofás de palhinha, aquele cheiro bom de limpeza, claridade e paz das casas nordestinas.

Mal entrei e, antes de pedir que me sentasse à sua frente, ela me entregou um envelope: "Pronto! Aqui estão os votos para os quatro escrutínios! Não se fala mais nisso. Vamos agora falar mal de todo mundo!".

Anoiteceu e ainda estávamos botando em dia a vida e os feitos alheios. Política, sociedade, Academia, artes em geral, não ficou pedra sobre pedra de nada e de ninguém. Grande Rachel. Não se faz outra igual.

Os dois casos acima lembrados tiveram a minha participação. Lembrarei agora um terceiro, que, por acaso, já contei resumidamente em outro canto de jornal por aí. Noite de chuva, meia dúzia de escritores estava reunida na casa de um famoso dicionarista. De repente, lembraram-se de um colega, notável ensaísta, jurista, historiador, parlamentar e ex-ministro de Estado. Um dos intelectuais foi encarregado de telefonar para o ausente. Recebeu uma resposta definitiva: "Não, meu caro, sinto muito, mas está chovendo, já estou recolhido, lendo o meu Montaigne...".

O intelectual desligou o telefone e informou com cara desolada: "Ele não pode vir, está chovendo, já se recolheu, está lendo o Montaigne dele...".

O dono da casa ficou furioso. Acusou o colega de não ter feito a convocação como devia. Pegou o telefone, discou com raiva para a casa do ensaísta, jurista, historiador, parlamentar e ex-ministro de Estado, exigindo a sua presença. A resposta foi a mesma: "Não posso, sinto muito, está chovendo, já estou recolhido, lendo o meu Montaigne...".

-Uma pena, realmente uma pena! Estamos aqui reunidos, falando mal do Gilberto Freyre...

Do outro lado da linha, a voz veio, terrível: "Nem mais uma palavra! Me esperem! Daqui a 15 minutos estou aí!".



Folha de São Paulo (São Paulo) 09/09/2005