quarta-feira, 24 de maio de 2017

Um país sem futuro?





Tomislav Femenick

Mestre em economia, com extensão em sociologia e história

Não sei quantas vezes me ufanei pelo fato de ser brasileiro, de ter nascido em uma terra abençoada por Deus e bonita por natureza, como diz o Jorge Bem Jor. Viajando pelas minhas lembranças, acho que a primeira vez foi em 1945, na Praça Mauá, no Rio de Janeiro, então a capital federal, quando assisti o desembarque dos pracinhas brasileiros que tinham lutado na Europa contra o nazifascismo. Eu era criança, mas foi contagiado pelo entusiasmo e pela alegria das pessoas.
Outra vez, em 1950, foi no Colégio Santa Luzia, lá em Mossoró-RN, durante uma aula de civilidade (antigamente a escola também ensina educação) ministrada pelo padre Cornelio Dankers – um holandês de rosto avermelhado, que não sei como nem porque foi parar nas frondes da caatinga nordestina. Após descrever o Brasil, sua geografia, seu povo e sua história, disse ele que nós tínhamos todos os motivos para termos orgulho de uma pátria tão maravilhosa. Depois disso, quando entrava na fila que se formava antes do começo das aulas, passei a cantar o Hino Nacional com mais fervor.
Logo depois, ao ler “Brasil país do futuro” – o livro escrito nos anos 1940 pelo judeu-austríaco Stefan Zweig que é um retrato do nosso país sob a ótica de um estrangeiro –, me convenci que um dia eu viveria em um país esplendoroso; até que o meu tio, o Padre Mota, começou a abrir meus olhos para a vida real, bem diferente dos conceitos, ensaios e das manifestações. “Não se entusiasme de mais, o otimista sempre se fruta; não perca a esperança, o pessimismo embota as boas iniciativas”; foi mais ou menos o que ele me disse.
De lá para cá tenho vivido numa espécie de montanha russa. Cai no fosso com o golpe militar, subi às nuvens com o movimento das diretas já, me decepcionei com os planos de Sarney e de Collor, me encantei com o Plano Real (e nem tanto com os tucanos), até que o Lula subiu a rampa do Planalto. Ai tive um momento de expectativa (afinal no dia 10 de fevereiro de 1980, eu estava no Colégio Sion, em São Paulo, na reunião de Fundação do PT, acompanhando o meu professor Paul Singer). Gostei quando Lula resolveu manter a matriz econômica do governo FHC, da Bolsa Família, do PAC inicial e de mais algumas coisas. Mudei de opinião com os primeiros escândalos e com o sectarismo de alguns petistas históricos ou novatos. Voltei a ter alguma esperança quando meu ex-professor Guido Mantega foi nomeado ministro, afinal quando eu o conheci era um homem probo, honesto, honrado. Outro engano, outra decepção. O impeachment da presidente Dilma Rousseff, elevou um pouco, muito pouco, meu animo. Do jeito que estava qualquer coisa melhoraria o cenário do futuro.
Mas o Brasil parece que não tem jeito. Há pouco tempo estávamos no elevador que nos levaria a um futuro radioso, a economia estava bombando, a indústria estava produzindo perto de sua capacidade máxima, o comércio estava vendendo mais e mais, todos estavam comprando e os mais pobres estavam andando de avião, o nosso presidente “era o cara”... até que se revelou que tudo era artificial e veio a crise que levou quase que quinze milhões de pessoas ao desemprego. Em paralelo, o serviço de saúde entrou em colapso, o ensino nacional é um dos piores do mundo e a segurança pública quase que não existe.
Mas era pouco e vieram dois tsunamis: as delações da Odebrecht e da JBS. Se juntarem as duas delações, talvez não escape nenhum político, talvez todos estejam nas mãos de empresas poderosas – “empresas campeãs” criadas pelos governos petistas, financiadas pelo BNDES e outras instituições públicas.
Analisada de forma retroativa, chegamos à conclusão óbvia que a origem de toda essa crise e de ordem política. Apesar de existiram 35 partidos registrados no TSE e alguns outros em tramites de estruturação, na verdade não temos partidos. O que há são frequentadores de balcão de negócio. Quem der mais leva votos e almas dos homens e mulheres que foram eleitos para defender o povo, mas que preferem forrar seus bolsos com dinheiro sujo.
Mesmo assim, ainda credito no meu país. Afinal ainda nos resta a Lava Jato.

Tribuna do Norte. Natal, 24 maio 2017.