terça-feira, 13 de junho de 2017

Como esse povo mente na Internet! È só o que se comenta nas ruas.

Ilustração: Karina Freitas
Ilustração: Karina Freitas
Todo dia, uma maior parcela da população mundial se conecta pelas redes sociais e faz circular, com velocidade instantânea, informações nem sempre confiáveis


Uma das bases filosóficas de validação do conhecimento científico é a possibilidade, defendida por Karl Popper, de que a verdade seja falseada. Somente assim as hipóteses na ciência podem avançar e ganhar respaldo na realidade, sendo submetidas aos filtros da crítica e da coerência entre a teoria e os fatos. Nos últimos meses, outro tipo de falseabilidade vem recebendo a atenção da considerável parcela da população mundial conectada pelas redes sociais: as fake news, ou notícias falsas. Sem o rigor da epistemologia, a Continente aproveita a atualidade do tema – objeto de intenso debate no meio acadêmico e na mídia global – para abordar, por mais de um ângulo, a falseabilidade dos fatos que circulam, com velocidade instantânea, nas redes sociais da internet.

Depois de provarem o seu alcance na influência que teriam exercido na eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, as notícias falseadas passaram a ser alvo de campanhas publicitárias em defesa da imprensa em todo o mundo. Campanhas realizadas por veículos isolados, como o New York Times, ou por entidades como a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), no Brasil, têm pregado o discurso de que as mentiras lançadas e disseminadas nas redes sociais devem ser combatidas com o resgate da confiança na credibilidade nos meios de comunicação e, antes disso, no exercício do jornalismo. A Organização das Nações Unidas (ONU) entrou na briga contra as fake news, especialmente através da Unesco, com declarações de sua diretora-geral, Irina Bokova. “A mídia como atividade empresarial está sendo abalada em seu núcleo, com o advento das redes digitais e das mídias sociais. Jornalistas cidadãos estão redesenhando os limites do jornalismo”, disse ela, referindo-se ao desafio das empresas de comunicação e realçando a importância de um “jornalismo original, crítico e bem-fundamentado, orientado por altos padrões profissionais e éticos, e por uma educação em mídia de qualidade”. No Brasil, o slogan da campanha da ANJ, publicada em diversos veículos do país, em maio, dizia: “Nunca se precisou tanto da imprensa. Compartilhe isso”.

O duopólio que domina a internet – Google e Facebook – foi chamado a participar dos esforços contra a suposta onda de desinformação que assustou até governos de potências como a Alemanha. A chanceler Angela Merkel se pronunciou sobre o assunto, exigindo medidas concretas do Facebook. Aliás, entre os alemães, essa história tem dolorosa lembrança: a expressãoLügenpresse era usada por Adolf Hitler para atacar o que denominava como imprensa mentirosa.

Outra potência europeia se voltou para a questão. Nos dias que antecederam o segundo turno presidencial na França, foi levantada a suspeita sobre o uso de fake news para prejudicar o candidato Emmanuel Macron, que terminou se sagrando vitorioso. Meses antes, em fevereiro, o projeto CrossCheck foi lançado em Paris, conjuntamente, pelo Google e pelo Facebook, em parceria com grandes veículos franceses de comunicação.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, Trump ataca a imprensa tradicional desde os primeiros dias de mandato, chamando os grandes jornais do país, como o NY Times e o Washington Post, de produtores de fake news, numa manobra diversionista que inflamou ainda mais os ânimos. O duelo do presidente norte-americano com a mídia possui outras nuances. No entanto, sobretudo após a manifestação do governo e de parlamentares na Alemanha, os mecanismos de checagem das informações na internet, bem como de inibição da distribuição de notícias falsas, devem ser aprimorados por causa da pressão política que tomou conta do debate acerca do tema.

Um professor da Universidade de Nova York, Jeff Jarvis, manifestou à imprensa norte-americana uma preocupação que não deve ficar fora do debate. “Cuidado com o que desejamos. Queremos mesmo colocar o Facebook e o Google como censores do mundo? Queremos que decidam o que é real e fake, verdadeiro e falso?” De fato, a instauração da checagem da informação com o intuito de legitimá-la carrega, junto, a possibilidade de manipulação similar à que ostentam asfake news.

A reação institucional às notícias falseadas rebate na qualidade do jornalismo praticado pelas grandes empresas de mídia – qualidade posta em xeque pela crise de financiamento dos meios de comunicação – que deságua invariavelmente na eterna discussão sobre imparcialidade perante os fatos. Rebate na atração das pessoas ao que se parece com a verdade que querem ver, e, ainda, na afronta à liberdade de expressão que se vincula à virtual proibição de proliferação de boatos. De onde vêm as notícias falsas – e para onde vai a sociedade da informação a partir do reconhecimento de que o falseamento dos fatos, amplamente compartilhado, é um fato, em si, inescapável?

Leia texto na íntegra na edição impressa da Continente #198, edição de junho de 2017.

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