domingo, 2 de julho de 2017

O vai e vem da globalização


Tomislav R. Femenick – Economista e historiador

No início do século passado havia dois movimentos antagônicos entre si, que se posicionavam em campos contrários em quase todos os aspectos: a igreja católica e os comunistas. Tinham somente uma coisa em comum: enquanto os comunistas propagavam a internacionalização do seu movimento segundo a palavra de ordem do manifesto de Marx e Engels: “trabalhadores de todos os países, uni-vos”; a igreja não respeitava fronteiras porque seu próprio nome sintetiza sua doutrina. A palavra católica quer dizer mundial, universal (do grego katholikós, ê, ón: universal; do latim, catholìcus, a, um: mundial, universal, geral).

No final do século XX e inicio deste XXI o pragmatismo se impôs às teorias e a globalização foi a palavra da moda nas ciências economias. Em estado perfeito, a globalização seria a economia de mercado sem fronteiras, com a menor intervenção do governo nas trocas internacionais. Esse estado ideal não foi conseguido. O que houve foi uma maior liberdade econômica, com uma crescente parcela da população do mundo se beneficiando do comércio internacional, quer como produtora de artigos exportados quer como consumidora de mercadorias importadas.

As lojas de New York vendem suvenires da estátua da liberdade ou do Empire State Building fabricados na China, em Singapura ou em outro tigre asiático qualquer, roupas da América Central e equipamentos eletrônicos chineses e japoneses. Em Pequim, em Moscou e no Vietnã se pode comer um Big Mac, tomando Coca-Cola ou Pepsi-Cola. Londres é a sede da afamada linha esportiva Reebok, mais os produtos da marca ali vendidos podem ter sido fabricados na Coréia do Sul, na Tailândia ou na Indonésia. Os automóveis fabricados em tudo o mundo são consumidos, indistintamente, em toda a parte do planeta. Há carros “japoneses” fabricados na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. Isso para não falar nos filmes de Hollywood, assistidos nas maiores cidades e nos menores povoados de todos os países.

Historicamente, o inicio do processo de internacionalização das relações comerciais teve início com os descobrimentos ibéricos do final do século XV, quando portugueses e espanhóis se lançaram ao mar desconhecido, em busca do caminho das índias. Esse foi o passo que quebrou as economias fechadas da Europa de então, proporcionando meios de comercialização de mercadorias europeias na Ásia, África e América e de produtos dessas regiões no mercado internacional, se bem que em pequena escola. 

O passo seguinte foi o colonialismo, também um movimento europeu, que sedimentou o mercantilismo e intensificou a quantidade das trocas internacionais, objeto mesmo da empresa colonial. Junto com o comércio, intensificaram-se as relações culturais, que alteraram costumes e comportamentos de colonizados e colonizadores, num processo de assimilação mutua. 

Desmoronado a partir do final da Segunda Guerra mundial, o colonialismo deixou herdeiras: as empresas multinacionais que, a partir de então controlaram o comércio entre as nações do mundo, naquilo que se convencionou chamar de imperialismo econômico. Essas organizações são as maiores de alcance além-fronteiras. Na esfera capitalista, eram as norte-americanas: Exxon, General Motors, General Electric, MacDonald Douglas, Dow Chemical; as inglesas, British Petrolium, Guinnes, Rolls-Royce; as alemãs, Krupp, Siemens, Bayer; as francesas, Alsthon, Citroën, Renault, Elf; as italianas, Fiat, Agip, Pirelli; as japonesas, Honda, Sony, Mitsubishi, e as suíças, Nestlé e Ciba-Geigy. 

No mundo atrás da cortina de ferro, eram as grandes corporações estatais soviéticas e chinesas – e algumas poucas da Checoslováquia e da Alemanha Orientais – que desempenhavam esse papel, com o mesmo caráter de exploração comercial. 

Desde a recessão de 2008, teve inicio um movimento contrário à globalização. Essa mudança se acentuou com a saída do Reino Unido da União Europeia, com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e com reação idêntica em outros países. Mas nada voltará a ser como era antes. Com avanços e recuos pontuais, a globalização veio para ficar. 

Tribuna do Norte. Natal, 30 jun. 3017