Djalma Maranhão ia participar da rebelião.
Juvenal Lamartine irritou-se com um vigário.
ENTREVISTA DE JAIR
SIQUEIRA CALÇADA, COMPANHEIRO DE CASERNA DE DJALMA MARANHÃO, EM JUNDIAÍ,
SÃO PAULO.
POR EDUARDO
MAFFEI, ESPECIAL PARA ESTE LIVRO.
JAIR SIQUEIRA CALÇADA X DJALMA
CARVALHO MARANHÃO – ENTREVISTA
Jair Siqueira Calçada, industrial paulista de boa
cultura, durante alguns dos anos 30, conviveu estreitamente com Djalma Carvalho
Maranhão, o grande prefeito de Natal caçado e cassado pelos que se apoderaram
do poder em abril de 1964. Esse contacto
aconteceu por dois motivos, um dos quais é acontecimento histórico do nosso
país. Deu ao historiador Eduardo Maffei,
seu amigo, a entrevista que se segue sobre como viu e ainda vê Maranhão.
Conheci Djalma Maranhão em outubro de
1933 como praça de pré no 1º Batalhão do 6º R. I. (Sexto
Regimento de Infantaria) composto de quatro companhias – 1ª, 2ª,
3ª, e de metralhadoras. Eu
fazia parte da primeira e ele da segunda, mas com sua arte de fazer amizades,
tornou-se amigo de todos nós, tendo mais estreito contacto comigo. A sede fixa desse regimento era em Caçapava
mas como, em virtude do movimento constitucionalista de 1932, havendo aderido
aos rebelados, o 2º C.A. do (Segundo Grupo de Artilharia de Dorso)
de Jundiaí foi dissolvido, a unidade militar passou a ser reconstituída com 1º
Batalhão do 6º R.I., com sede em Caçapava em Jundiaí. E para essa reconstituição foram recrutados
muitos convocados de Campinas nos quais me achei incluído. Logo mais, para complementar, transferido de
Natal, chegou um contigente composto na maioria de potiguares, entre os quais se
achava Djalma Maranhão. Lembro-me de outros,
além dele: Rubem Sampaio, Elisiolino
Santana, Lucas Ferreira da Silva, Alfredo Pegado Cortez e Adalberto Alves de
Souza.
Durante praticamente todo ano de 1934
fizemos, primeiramente o concurso de candidatos a cabo e logo em seguida de
sargentos. O que mais se sobressaiu de
todos nós foi Djalma Maranhão. Era o de
maior cultura, tinha muita curiosidade pelos seus problemas e lia muito. No mesmo logradouro em que se sediava o
quartel à praça Rui Barbosa, havia o Gabinete de Leitura com o mesmo nome e
Maranhão, desde logo passou a influir sobre todos nós para que tornássemos
sócios do mesmo, sempre dizendo que a boa leitura era necessária para a boa
formação do homem. Como a maioria de nós
era virgem em matéria de ilustração, passou a nos indicar livros. Grande parte da minha formação cultural devo
a ele. Lembro-me ainda – todos nós
éramos de origem pobre – de um livro por ele indicado que nos fez vibrar,
tornando-se tema de nossas conversas.
Foi O Germinal de Emile Zola.
Explicava-nos que esse autor, contra a opinião pública francesa dirigida
por calúnias, defendera o capitão Dreyffus da falsa acusação de traidor da
pátria.
Passou-nos, mas sigilosamente a alguns
companheiros em quem mais confiava, entre os quais eu me achava incluído, para
ser lido, um livro de autoria do marechal Klementi Vorochilov, comissário para
os negócios de guerra da URSS, equivalente ao nosso ministro da guerra e de
Luís Carlos Prestes, exilado na república dos sovietes. Explicava a necessidade e do porque tornar
apto o Exército Vermelho, quantitativa e qualitativamente, para revidar
eventuais agressões aos país sob cerco permanente, embora já armado, mas em
paz, desde a Revolução Bolchevista de outubro de 1917. Durante a intervenção estrangeira nos
negócios internos da novel república socialista, para cobrir os sangrentos
acontecimentos, Assis Chateaubriand como correspondente do “Correio da Manhã”,
no dia 18 de novembro de 1919, portanto 30 anos antes que, em sentido inverso,
Churchill usasse a expressão, escreveu: “Por
detrás da cortina de ferro, em que os aliados envolveram a República
dos Sovietes”. Foi, portanto,
Chateaubriand e não Churchill quem cunhou a expressão cortina de ferro.
Djalma Maranhão revelou-se um recrutador
político de fino senso. Abriu-me os olhos
para muita coisa que, mesmo existindo, eu não via. Quase todos os dias trazia um exemplar de “A
Platéia”, jornal popular que viria a ser em São Paulo o órgão oficioso
da Aliança Nacional Libertadora Paulista.
Em fins de 1934 começou a nos demonstrar porque razões se desiludira da
revolução de 30. Não pelo que fora, mas
pelo que não conseguira ser. Nesse tempo
a maioria do povo que vivera o entusiasmo eufórico dos dias que se seguiram à
vitória, estava também desiludida. Havia
desemprego e carestia. Passou a sondar
quem de nós poderia ser recrutado para a luta de libertação do latifúndio e do
imperialismo, as duas maiores pragas, como nos dizia, que afligiam o
Brasil. Nem se falava em Aliança
Nacional Libertadora que viria a ser lançada em 23 de março de 1935. Quando ela surgiu, tomou-se de entusiamo que
nos contagiou. Mas, no quartel, a coisa
não passou a ser senão entusiasmo. E quando
se realizou o comício aliancista em Jundiaí que foi realizado na praça em que se situava o quartel, a maioria da tropa,
aliciada por Maranhão, o assistiu e mesmo fardada batia palmas às tiradas
oratórias. O comandante da unidade não
se opôs à nossa presença e, inclusive, fez parte da assistência. Esse comandante Vitor Cesar da Cunha Cruz,
depois de transferido, viria a ser muito lealmente bem descrito, por sua
fidelidade aos amigos, por Fernando de Morais em seu livro OLGA, como participante
daqueles angustiosos momentos da undécima hora do movimento que irromperia logo
depois no Rio de Janeiro, na madrugada de 27 de novembro de 1935. Demos pois a palavra a Fernando de Morais:
“ Quando a noite caiu, Prestes e Olga
mudaram-se da casa de Ipanema para outra de Vila Isabel, a meio caminho da Vila
Militar, a mais importante guarnição da capital. No momento que os revoltosos tomassem as
unidades, bastariam uns poucos minutos para que Prestes assumisse, da Vila
Militar, o comando do país. Movidos por
alguma arte do instinto, Prestes e Olga resolveram que não seriam levados para
Vila Isabel por Erika, a jovem mulher de Gruber (Gruber era um agente da
Gestapo infiltrado, como informante, no movimento comunista internacional) que
até então servira como motorista do casal.
Por isso, Prestes chamou um velho amigo seu, o major Vitor Cesar da
Cunha Cruz, naquela época cursando a
Escola de Comando e Estado Maior do Exército.
EMBORA NÃO COMUNISTA, Cunha Cruz era de total confiança, e,
sendo oficial do Exército eliminava os riscos de serem interceptados por alguma
patrulha (Fernando Morais, Olga, 3ª edição, editora
Alfa-Ômega, 1986, pgs. 98/9 e 100).
“Fracassado o movimento, logo na manhã do mesmo dia, eles puderam,
apesar das barreiras que a polícia estabelecera em cada esquina da cidade,
chegar de Vila Isabel para Ipanema, levados pelo major Cunha Cruz sem ser
importunados” (Ob. cit. pg. 107)
Depois do major Vitor Cesar, assumiu o
comando da tropa em Jundiaí o major Iberê Leal Ferreira, muito educado,
apartidário, bom militar e amigo da tropa, mas creio que era subretipciamente
simpatizante da A.N.L, pois conversava sempre mais que o necessário
militarmente com Djalma Maranhão que era conhecido aliancista. Maranhão pediu licença para o dia 7 de
outubro de 1934, o que lhe foi concedido.
Dirigiu-se à capital, tendo participado, integrando a frente única
popular de forças antifacistas, na dissolução violenta do desfile e
concentração de 10 mil integralistas que haviam programado para a tarde daquele
dia uma demonstração de força na praça
da Sé. Foi o único do batalhão que
participou da luta, mas transmitiu aos companheiros como viria o entrevere,
pois, muito cuidadoso, não baixava a guarda e dizer que participara seria ser
incriminado.
Em junho de 1935 esse batalhão foi
transferido de Jundiaí para Caçapava afim de se reintegrar à sua verdadeira
unidade e a Aliança Nacional Libertadora, lançada em março, ia de vento
favorável e Maranhão fez permanentemente nas conversas com os companheiros
explicações sobre seus objetivos. Sempre
preocupado com a cultura e o antifacismo, passou a editar um jornalzinho
humorístico, custeado por nós, seus companheiros, “O Misterioso”, juntamente
com Elisolino Santana e Rubem Sampaio, satirizando a civilização mussolínica
que atirava bombas sobre aldeias indefesas da Abissínia, país ao qual, sem mais
aquela , para ampliar no seu ridículo Império Romano.
Dias depois da insurreição de Natal, Recife e Rio, foi lida no quartel
uma ordem do dia do Ministro da Guerra João Gomes (o mesmo, como se soube
depois, que numa reunião do ministério,
depois do esmagamento das três insurreições, propôs o fuzilamento dos
comunistas e que tais), ditando que se abrisse um inquérito em todos corpos de
tropa e “fosse imediatamente detido todo e qualquer elemento que houvesse
demonstrado o mais leve indício ou suspeita de ser comunista, demonstrando que
se o movimento apanhara de surpreza os aliancistas, não apanhara a reação que,
segundo a história demonstrou posteriormente, já se achava preparada.
Antes da eclosão do movimento, havia um ambiente de insatisfação entre
muitos dos subgraduados que, por isso mesmo, tornaram-se prosélitos da ANL,
porque fora baixada uma ordem de Ministro da Guerra com o objetivo de elitizar
o exército, que todo aquele que fora promovidos lutando em 30 e 32, ao lado de
Getúlio e na repressão ao movimento constitucionalista, se não fizesse o necessário
curso e fosse aprovado para o posto, deveria ser rebaixado. Um dos que seria atingido era o 3º
sargento José Maciel que, desgostoso, tornou-se alcoolatra, embebedando-se com
frequência. Apesar de não participar da
Aliança, no dia em que chegou a nova da insurreição de Natal, alegre por isso
mesmo e porque bebera além da conta, em comemoração, postou-se no local do
Corpo de Guarda, declamando repetidas vezes o seu repente: “No norte desabrochou uma flor / No sul está
em botão”. Foi o primeiro a ser preso e
agradeceria o acontecido porque, além de se tornar abstêmio, aculturou-se na
Universidade do presídio.
Quando a ANL foi posta na ilegalidade Djalma Maranhão passou a
conspirar, dizendo: “Não respeitam mais
a vontade popular; isso não pode ficar assim”. Entre os que toparam achava-se o sargento
Milton Miranda que fora condenado há mais de 20 anos, preso, portanto já
afastado da sociedade, porque assassinara um colega por motivos fúteis,
aguardando a transferência para a penitenciária. Todos os dias o cabo Antônio Balotta, o
branco – pois que havia, com o mesmo sobrenome, o preto – postava-se frente às
grades por largo tempo, doutrinando-º
Este cabo, pouco mais que alfabetizado, foi um dos muitos detidos que
muito ganharam na permanência no presídio, o que Maranhão apelidava, sempre com
a mesma verve, de colégio interno.
Balotta aprendeu, na universidade, com João Baptista Dubieux falar
corretamente o japonês. Quando, 19 meses
depois, no começo de julho de 1937, foram soltos todos aqueles que não tivessem
culpa formada, exigência que, para ser nomeada Ministro da Justiça, José Carlos
de Macedo Soares fizera, pelo ato que viria a ser historicamente conhecido por
“macedada”, o presídio praticamente se esvaziou e entre os que foram soltos
achava-se o criminoso condenado há mais de 20 anos que ganhou liberdade depois
de 19 meses, por artes de mágica do arbítrio reacionário. Costumava, depois, bendizer a prisão,
desaparecendo, em seguida, do mapa.
Foram presos na unidade do 6º R. I. em Caçapava em seguida à
insurreição aliancista, entre 30 – 35 elementos, todos, menos um que era
soldado, cabos e sargentos, a maioria dos quais nada tinha que ver com o movimento. Obrigado, pela ordem do dia que fora lida em
todas guarnições do país, a informar, o comandante major Iberê Leal Pereira,
procedeu com muita lealdade, relatando que nada havia contra os detidos, pois
nada acontecera no quartel, não encontrando motivo para abertura de inquérito,
além do que todos eram ótimos militares cumpridores dos seus deveres. Entretanto, um capitão integralista forçou a
barra. Este pouco sabia como exercer o
oficialato, pois fora anistiado e promovido em 1930, desligado que fora –
também por suspeita – da Escola Militar em 1924, onde era aluno. Era muito posudo. Tratava a tropa fria e autoritariamente. Certa vez – ele tinha a mania de se mostrar
-, montado num cavalo, resolveu pôr sua companhia em forma para assistir sua
demonstração. Caiu do cavalo e recebeu
uma sonora vaia dos comandantes mesmo quebrando a disciplina militar. Como os apupadores eram em sua maioria do 1º
e 2º batalhões, passou a votar aversão aos seus componentes,
especialmente Djalma Maranhão que levava tudo aquilo na flauta como dizia. Esse integralista, capitão João Batista
Mondini Beletti, publicara um livreco chinfrim, A Esfinge, de
proselitismo verde e insinuou aos seus comandados sua leitura. Os poucos que o leram faziam troça e ele
soube disso. Afinal ele conseguiu, à
força de tanto fazer, a abertura do inquérito e, no sumário de culpa, em fevereiro
de 36 o comandante do regimento, Iberê Leal Ferreira, militar decente, apesar
das perguntas capciosas do promotor, respondeu que nada tendo acontecido no
quartel não via motivos para indiciar os sumarizados. Mas o integralista fez pé firme. Indiciou, segundo sua interpretação, todos os
detidos no artigo 10 da Lei de Segurança Nacional que previa penas para todos
aqueles que incitassem militares uns contra outros. Djalma Maranhão, nessa ocasião, estudou a dita
lei e nos disse: “A lei diz uma coisa,
mas os reacionários a interpretam à sua moda”.
Quando o Inquérito Policial Militar chegou às vistas do juiz federal
Bruno Barbosa, apegando-se ao espírito da lei, ridicularizou-º Haviam enquadrado, forçando esse espírito,
arbitrariamente. Disse que procurara no
IPM, onde eram indiciados, mais de três dezenas de incitadores, os incitados e
não encontrara nenhum que fizesse a prova.
Mas despachou que os presos deveriam ficar à disposição da polícia até
que fossem apuradas as responsabilidades.
Maranhão nos disse, sem perder o humor:
“Se não temos culpa de nada não haverá responsabilidades, e, então
estamos fritos porque vão ficar procurando-as durante a eternidade; assim estamos condenados à prisão
perpétua”. Não foi à prisão perpétua,
mas foram 19 meses de detenção sem culpa formada. No presídio, de vez em quando, me dizia: “Viu no que deu você não ler A
Esfinge? E dar vaia em quem cai do cavalo?
Ignoro quais as ligações políticas que Maranhão mantinha antes. Eu mesmo o seu amigo mais chegado, por ele me
haver dito, só soube no presídio que desde que morava em Natal pertencia à
Juventude Comunista, organização de jovens do PCB. Entretanto, quando a insurreição eclodiu em
novembro de 1935, disse-nos, ainda livres, no quartel: “Precipitaram a coisa: não era para agora”.
Estiveram presos comigo, entre outros de que não me lembro, além de
Maranhão, Elisiolino Santana, Lucas Ferreira da Silva, Rubem Sampaio, Alfredo
Pegado Cortez, Adalberto Alves de Souza, Ubaldo Marino, Antônio Balota e
Marcelino Ferreira, pois fazíamos parte de um grupo mais estreitamente
ligado. E lembro-me bem de outros
dois: o cabo Marcelino Ferreira e Milton
Miranda, este porque viera de uma prisão dura para outra mais branda.
Lucas Ferreira da Silva foi um dos que, mais tarde, transferido para o
presídio do Paraizo, fugiria por um tunel escavado pelos presos. A idéia desta fuga foi do militar José de
Castro Correia, Issa Maluf e Jorge Raful.
O projeto de autoria, tanto quanto a supervisão de sua construção, foi
da cabeça do engenheiro Alexandre Weinstein.
Foi o primeiro editor (editora Pax) que, no Brasil, em 1931, editou
obras de ficção e esclarecimento sobre a URSS, pelo que, sem culpa formada
também, esteve preso. Rompera a “cortina
de ferro” cultural. E por isso o prenderam
também. Era um judeu nascido em Odessa,
na URSS, muito inteligente e irônico.
Quando esse tunel estava pronto Paulo Emílio Salles Gomes foi convidado
a evadir-se por ele, o que aconteceu.
Pouco depois o seu exílio para a França foi negociado por seu pai, uma
vez que a polícia política não desejava ser desmoralizada com a fuga. Ele viveu em Paris até quando os exércitos
nazistas romperam, aparentando invencibilidade, as fronteiras da França. Retornando, procurou antigos prisioneiros que
conviveram com ele no presídio fazendo derrotismo hitlerista sobre a
invencibilidade dos exércitos nazistas, pedindo que se conformassem. procurou inclusive a mim. Mas passou a assoalhar, por um estelionato
histórico, à sua claque, para cuja formação demonstrou-se hábil, que a idéia e
supervisão da construção do tunel fora dele.
Fora preso em 1936, ao retornar do Peru, entusiasmado com a APRA
(Associação Peruana da Revolução Anti-imperialista), criada por Haya della
Torre, intitulando-se aprista, não sendo, no presídio – ele estivera no Maria
Zélia e fora logo transferido para o Paraizo – levado a sério por ninguém. Era então um meninão ingênuo de 19 anos. Entre os que puxaram o cordão da claque
esteve Jorge da Cunha Lima que foi secretário de cultura do governo montoro. Escreveu, em setembro de 1977, na revista
“Isto é” que “em Paris convivera com Trotsky, Bukharin e Kamenev”. Todos ex-membros do comitê central do partido
belchevique que cooperaram para a vitória da Revolução de outubro). Paulo Emílio nunca deixou por menos. Transformou-se num dos mais sábios
conhecedores de cinema, mas fazia cinema também com sua mitomania. Quando Paulo Emílio achava-se em Paris nos
anos 30, Trotsky estava rigorosamente confinado na Noruega, passando logo a
residir no México e os outros dois jamais sairam da União Soviética, países
onde ele não esteve.
Os militares presos em Caçapava, antes de ser recolhidos ao presídio
político, foram removidos de Caçapava para a Delegacia de Ordem Política e
Social na capital. Viemos num trem
leitero que parava exasperantemente em todo lugar onde tivesse galões de leite
a recolher, em péssimas condições como se fizessemos parte de uma manada de
animais – e Maranhão sempre fazendo humor -, sob a guarda de um pelotão de
maior número que nós, armado até os dentes sob o comando do sub tenente Cid,
sempre amável, pelo que Maranhão nos disse que tanto soldados armados para nos
vigiar fazia-o começar a se sentir muito perigoso à sociedade! Chegando à uma e meia da madrugada fomos
levados, como se fossemos uma vara de porcos, num caminhão em que transitamos
como sardinhas em lata, para o Quartel General da 2ª Região Militar
do Exército, de onde o oficial de dia nos encaminhou para a delegacia de Ordem
Política e Social (DOPS). O desconforto
era temperado pelo sal do espírito de Maranhão que fazia até os homens do
pelotão se rir. Quando todos nós
chegamos, presos e escoltadores, subindo as escadas do prédio, à delegacia de
Ordem Política e Social foi um tal de corre-corre. Os tiras da portaria, ao ver tanta gente e
muitos armados, deram no pé. E assim
fomos subindo todos os andares e em cada qual todo mundo, inclusive o delegado
de plantão, fugira pelo elevador.
Maranhão fazia piadas e todo mundo se ria da poltronice. Enfim encontramos um tira escondido e
apavorado, e único que não conseguira se escafeder. Enfim o subtenente Cia, entregou-nos a ele,
dizendo que nos tratasse bem porque éramos boa gente. E passamos o resto da noite, mais de 30,
presos por um só. Maranhão lhe
disse: “Se fossemos tão perigosos como
se fala de nós, acabaríamos com você, destruiríamos a delegacia com seu arquivo
e íriamos embora, sem mais aquela. O
inspetor apavorou-se, mas quando percebeu que se tratava mesmo de “boa gente”
passou a nos interrogar policialanescamente.
E ele estava no blá-bla quando Maranhão lhe perguntou: “Enfim aqui não se dorme?” Então o funcionário nos serviu
café e depois nos deitamos espalhados pelo chão, até que aparecesse, de manhã o
novo delegado de plantão.
Dali fomos removidos para o presídio Paraizo, o único que havia como
detenção política. Mas como logo
superlotou, o governo de São Paulo alugou a fábrica de tecidos Maria Zélia de
dois grandes pavilhões contíguos, aproveitando só um, porque no outro ficaram
armazenados as máquinas. Para ali fomos
removidos logo em janeiro de 1936, sempre sem culpa formada e sempre para
averiguações... Ali o cabo Ubaldo Marino
de Oliveira, com quem Djalma Maranhão dava-se bem – Maranhão dava-se bem com
todos – enlouqueceu e Djalma o tratou, no pouco tempo que continuou a
permanecer entre nós como amigo e enfermeiro.
Ele combatera em 1930 ao lado das tropas getulistas e fora ferido por um
estilhaço de granada que penetrara por um dos olhos, alojando-se no cérebro de
onde, por não causar danos, pois o local era neutro, não foi extirpado. Usava, para encobrir a cicatriz ocular,
óculos pretos. Desde que fomos detidos,
não suportando a injustiça de sua prisão ele já se desesperava e quando fomos
atirados ao presídio, percebendo que ali ficaríamos por muito tempo,
enlouqueceu, conclusão a que chegaram os médicos presos.
Desde o início Djalma Maranhão procurou transmitir sua cultura e receber
de quem sabia mais que ele. Ficava horas
conversando com o historiador e sociólogo Caio Prado Júnior de quem se tornou
amigo. Caio apreciava-o muito e não
fazia mistério do seu apreço, vaticinando, para ele, um grande futuro
político. E Maranhão nos dizia que,
quando retornasse à vida civil, sairia com grande débito cultural para com ele.
Ele sempre foi um aficcionado pela prática de esportes e, no quartel lhe
demos o apelido de Farol, porque, quando nos cumprimentava, tomava a posição
clássica dos boxeadores. Por isso
transformou-se, no presídio, em instrutor de ginástica. Mas não foi só disso que participou. Havia ali um jornal interno, editado e
caligrafado à mão, num só número que corria de mão em mão, saindo sempre que
era materialmente possível seus redatores – home se chama editores – eram
Ermelindo Maffei, Clóvis Gusmão, Reginaldo de Carvalho e Hilário Correia, o
poeta. Maranhão nele escreveu um artigo
demonstrando que o cangaço era uma consequência da equação em que um dos termos
era aquilo que o camponês subconscientemente deseja e aquilo que o latifúndio
impede-o de conseguir, procurando resolver o problema pela revolta.
Havia no Maria Zélia uma universidade pela direção do coletivo –
coletivo é uma assembléia democrática que elege seus diretores como
administradores. Seus organizadores
foram Roberto Silva, um corretor de café de Santos, Quirino Puca, verdadeiramente
um sábio, Caio Prado Júnior, Ermelindo Maffei, Clóvis Gusmão e Reginaldo de
Carvalho. Era seu diretor Roberto
Silva. Com ela também aconteceu a
escamoteação assoalhada pela claque de Paulo Emílio que propalou aquilo que ele
dizia ter sido, o seu organizador. Nela
Djalma Maranhão, assessorado por Caio Prado Júnior, fez palestras sobre a
sociologia do cangaço, fixando-se no problema camponês brasileiro. Esse vezo de mascarar e ignorar os
precurssores, não é só de Paulo Emílio;
é da esquerda e especialmente dos trotsquistas. Assim na biografia de Pagu, uma figura
apagada na prisão no Maria Zélia, e no Rio onde não foi sequer entrevistada por
Graciliano Ramos, à página 261 está transcrito o necrológio dela por Geraldo
Ferraz, o último dos homens com quem ela viveu que, presa em agosto de 1931 num
comício comunista em Santos, tornara-se “a primeira mulher detida no Brasil em
virtude da luta ideológica revolucionária”.
Como se qualquer luta revolucionária não fosse ideológica. Quem não conhece a história, inventa. Para citar só uma mulher antes que Pagu fosse
a “primeira”, lembrarei uma das heroínas do tenentismo, Nuta Bartlett James que
ficou presa dias seguidos, depois de detida em casa, dormindo, à noite, jogada
num cubículo da Polícia Central em promiscuidade com taradas, viciadas,
assassinas e prostitutas, segundo Maurício de Lacerda, à página 261, História
de uma Covardia e também em Seara de Caim, de Rosalina Coelho de
Lisboa, pág. 399 e em Memórias de um Revoltoso ou Legalista,
de Carlos Avelino, pgs. 221/2.
Maranhão foi o organizador dos quadros de voleibol. Quando se pensou na construção de um túnel
para a evasão dos presos – note-se que o do Paraizo foi antes – Djalma Maranhão
participou da comissão do seu planejamento.
Por sugestão dessa comissão coube a ele uma tarefa muito
importante. Promover um torneio de
quadras de volei que se realizava todas as manhãs sob intensa algazarra dos
quadros e torcidas, incitada por ele, para encobrir o ruido gerado pelo uso das
ferramentas, o que só se fazia nesse período.
E quando ficou pronto, Djalma Maranhão participou da comissão que
selecionou quais os que deveriam se evadir.
Muito pouco dos presos estavam ao par do túnel construído bastante
sigilosamente. A escolha recaiu sobre os
militares e dirigentes políticos mais
diferenciados. Especialmente os
militares mais visados para os quais não se pensava em libertá-los, com culpa
formada ou não. O que, entretanto, não
aconteceu com a aplicação da “macedada”.
A evazão fracassou e foram assassinados friamente e indefesos, depois de
aprisionados Augusto Pinto, João Varlotta, José Constâncio Mendes e Naurício
Maciel Mendes, cujo nome se grafava e se pronunciava como ene. A polícia de choque, organização criada
durante a interventoria do “constitucionalista” Armando Salles de Oliveira,
especializada na luta antipopular foi a responsável. Embora criada por um poder que se intitulava
democrático fora moldada segundo as tropas de assalto nazista. Nela se sobressaíam dois russos brancos,
facinorosamente anti-esquerdistas, Gregório Kovalenke e Francisco Dulink que
comandaram o trucidamento. Eu e Maranhão
atravessamos o túnel e quando atingimos o pátio do pavilhão contíguo que
deveríamos percorrer – a fuga fora bem planejada, mas ignorando que seria realizado
numa noite de lua cheia – antes de escalar o muro para adquirirmos a liberdade,
verificando que seríamos cercados, pelo que retornamos para o presídio. Dias depois nosso companheiro do 6º
R.I., o cabo Adalberto Alves da Silva, natural de Palmares em Pernambuco onde
sustentava sua família da qual era arrimo, desesperado por não o poder fazer
repentista, cantador de emboladas, que vivia angustiado, alguns dias depois
enlouqueceu, pois antes ficara reduzido a um trapo de gente, pois não suportara
a idéia que não merecesse confiança dos planejadores, admitindo que não o
haviam convidado para a fuga supondo-o
capaz de delação. Maranhão sintetizou
muito bem a situação ao dizer que ele enlouquecera por companheirismo
Pouco tempo depois fomos transferidos para a Delegacia de Ordem Política
e Social, de onde saimos na noite de 9 de julho de 1937. Maranhão liderou o grupo que não tinha para
onde ir, dormiram ali e de manhã sairam.
Os potiguares organizaram-se em seguida numa república que se situou
numa água-furtada de um prédio velho da Praça de Sé, e para se manterem,
inclusive Djalma Maranhão, trabalharam em armazens, carregando sacos. Vi-o, depois disso, pela última vez nos
últimos anos 30, mantendo o mesmo entusiasmo antifacistas apesar das
avassalantes vitórias das tropas hitleristas.
Trabalhava então numa agência de publicidade.
Foi esse o homem com quem convivi intensamente nos anos 30 e do qual
orgulho-me de ter sido amigo.
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Eduardo Maffei Jair Siqueira Calçada
Carta do Dr. Juvenal Lamartine de
Faria
a d. Marcolino Dantas
Natal, 31 de janeiro de 1936.
Exmo. Senhor D. Marcolino Dantas.
Para que V. Ex. não dê uma interpretação diferente ao meu gesto
recusando-me a aceitar a sua visita, escrevo-lhe esta carta, que contem as
razões do meu procedimento, expostas com a lealdade e a franqueza com que
sempre agi, quer na minha vida privada quer na minha vida pública.
Durante os dias em que estive acamado fui confortado com a visita de
inumeras pessoas, desde as mais ilustres às mais humildes desta terra. A todos recebi com o mesmo carinho e
gratidão.
V. Ex. porém, cavou entre V. Ex., aqui recebido por mim com as mais
significativas demonstrações de apreço e respeito, e a minha pessoa, um abysmo
intransponivel. Exercendo uma funcção
que o devia manter sempre superior a todos os partidos e paixões politicas, V.
Ex. achou por bem desertar dessa posição privilegiada para se tornar o cortesão
de todos os interventores, que passaram por este maltratado Rio Grande do
Norte, até se solidarisar, acumpliciando-se, com o ultimo delles... esse
monstro, que pretendeu dobrar a dignidade do povo de minha terra, praticando os
mais hediondos crimes: desde o
espancamento de homens e sacerdotes respeitáveis até aos assassinios dos seus
adversarios.
Aos autores materiaes da morte do meu querido filho, um sacerdote
infame, a quem V. Ex. confiou, por espirito de baixa politicagem, a regencia de
uma das mais importantes freguezias da diocese, offereceu a Egreja do Rosario
da cidade do Caicó para servir-lhes de abrigo.
Isso foi feito se não com a autorização de V. Ex. pelo menos com a sua
tolerancia, pois o sacerdote indigno la se ficou até o movimento de Novembro
ultimo que aplaudiu, só então sendo transferido e isso mesmo para uma das
melhores freguezias do litoral. Pessoas
insuspeitas do Caicó informaram-me que noite avançada os soldados assassinos
levavam rameiras para o templo, que se transformara em “boite de nuit”.
Os sacerdotes que não quizeram se curvar ao suborno ou às ameaças do
monstro interventor, V. Ex. perseguiu transferindo-os para as peiores e mais
longiquas freguezias da diocese, concorrendo directa e deliberadamente para o
desprestigio do nosso clero.
Para avaliar do conceito de que V. Ex. gosa entre nós, basta lembrar a
anedocta que foi espalha e na qual muita gente acreditou; de que V. Ex. mandara cumprimentar a junta
comunista reunida na Villa Cincinato afim de levar-lhe o seu apoio, como já
fizera a todos os governos que depois de 30 passaram pela administração deste
Estado.
Se V. Ex. quizer experimentar até onde vae o seu desprestigio no Rio
Grande do Norte, submetta a sua permanencia a frente da nossa diocese a um
plebiscito, e verá que a maioria da população catholica, votará gostosamente,
pelo afastamente de V. Ex.
Posso ter sido demasiadamente rude em fallar a V. Ex. com essa
franqueza, mas o que lhe posso affirmar, sob minha palavra de honra, é que esse
é o sentir de todos os homens de bem de minha terra.
Os meus antepassados foram velhos sertanejos que souberam transmitir aos
seus descendentes a lealdade e o amor à familia, como um culto sagrado, como um
verdadeiro dogma religioso, do qual não posso, não devo, nem quero apostatar.
Saudações.
Juvenal Lamartine.
N. A. : Foram vigários de Caicó – Luiz Teixeira de Araújo (1932 a 1935)
e Luiz Gonzaga do Monte (1935 a 1936), segundo o livro “Caicó”, editado pela
Fundação José Augusto, em 1982, p.73.


Djalma Maranhão foi sargento do Exército em 1935.