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Dai-me paciência
Data: 25 julho 2012 - Hora: 18:05 - Por: Tulio Lemos
Dai-me paciência. Uma expressão típica dos senhores de idade de
minha época de menino, irritados com as bagunças que fazíamos na rua.
Dai-me paciência. Era o que eles diziam, quando botávamos gatos para
brigar em suas varandas que acabavam de ser lavadas e enceradas, ou
jogávamos urina em suas janelas. Dai-me paciência. Era o que ouvíamos,
enquanto corríamos, depois da colagem de fita adesiva na campainha da
casa alheia.Dai-me paciência. Peço a sei lá quem, depois de receber tantos e-mails bobos em minha caixa postal. É solução para tudo no mundo. Da impotência sexual à insolvência financeira. Não cheguei a nenhum dos dois cúmulos do fracasso, mas é chato ao menos abrir as correspondências eletrônicas professorais.
Dai-me paciência com a hipocrisia. Ontem, durante o expediente, recebo outra carta virtual. É um texto sociológico propondo a extinção, pura e simples, por decreto, da Polícia Militar em todo o Brasil. O idiota que escreveu a asneira nem merece ser citado. É um desses teóricos que deveriam criar um marginal em seu quintal. Ou no hall.
Dai-me paciência. O escriba que invoca Engels, entre outros gurus ultrapassados, acha que a PM deve acabar por sua violência extrema contra as classes menos favorecidas e que o país deve ser vigiado por uma polícia educativa e desarmada.
Dai-me poder. Eu escalarei o obtuso de tenente dessa tropa para subir o Morro da Chatuba, no Rio de Janeiro, onde traficantes mataram, somente no ano passado, nove policiais, um deles com 10 tiros de fuzil no rosto. Imagino a recepção que o revolucionário mereceria.
O texto cheio de citações(duvide de todo texto cheio de citações), é provocado pela ação desastrada de policiais militares que mataram um publicitário de 39 anos em São Paulo. O rapaz furou uma blitz e os policiais confundiram um celular com uma arma, matando-o com vários tiros.
Comoção nacional e justa. A polícia errou. Os PMs amadores estão atrás das grades. Nenhuma família perdoará um erro tático que custa uma vida. Comoção nacional. Ainda mais quando a vítima não morava numa favela nem num beco de encruzilhada de bairro pútrido. Família de classe média. Atrai mídia.
Ainda ontem, passando a vista pelo noticiário de internet, que certamente o estúpido criador do e-mail não leu, dou de cara com a manchete do Jornal O Dia, do Rio de Janeiro. A PM Fabiana Aparecida de Souza, de 30 anos, havia sido assassinada durante a madrugada enquanto lanchava em seu plantão na Unidade de Polícia Pacificadora(UPP), do Complexo do Alemão.
Fabiana estava comendo um sanduíche quando um bando de traficantes começou a disparar tiros de fuzil 7.62, arma tão letal que seu projétil atravessa 11 carros colados um no outro.
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Uma bala perfurou o colete e atingiu o peito de Fabiana, que morreu dentro do carro da UPP antes de chegar ao hospital. Ela tinha um ano e quatro meses de polícia e a mensagem de apoio que recebeu no facebook e reproduzida pela imprensa foi da irmã, com quem morava. Ninguém fará passeata por ela.
Dai-me paciência. Fabiana, a policial, virou estatística. O Bope, a tropa de elite da PM que admiro e daí sou chamado de “reacionário “com muito orgulho, subiu o morro e certamente caçará os assassinos da jovem soldado.
Então, o idiota do e-mail pedirá novamente o fim da Polícia Militar por ter matado pobres cristãos que acabaram de sair do confessionário e foram injustamente acusados de um crime. É cinismo demais.
Sou praticante de tiro esportivo(registrado e certificado legalmente) e tenho amigos também atiradores da polícia. Saio com eles para tomar cervejas algumas vezes e sinto os olhos de censura de conhecidos de classe alta quando nos veem nos bares.
Vez por outra, telefone toca, de madrugada, e um dos indignados pela amizade que tenho com policiais, especialmente os caveiras do Bope, berra, grita e pede o telefone de um deles, pois o seu carro foi roubado. Dá vontade de mandar o mauricinho ligar para o ladrão.
O mosaico da vida é imperfeito. Há jornalista correto e indecente. Há médico solidário e boçal. Há sacerdote cristão e de cifrão. Há político correto e ruim. Há empresário lícito e desonesto. Há o bom, o mau e o feio do faroeste de Sérgio Leone em qualquer ramo da vida.
É cômodo falar mal da polícia. Entre polícia e bandido, sou polícia e não abro. Se o bandido estiver fardado, que a Justiça faça dele o que estiver na lei. Caso o missivista porta-voz de criminoso escutasse a família do jovem Popó Porcino , libertado na Praia de Pitangui, depois de 37 dias sequestrado, certamente não ouviria ofensas à polícia.
Foi o trabalho bem feito, articulado e inteligente o responsável pela prisão dos sequestradores(um morreu na invasão policial), animais que mantiveram em cativeiro um adolescente.
Menino que poderia ser, meu, seu e até filho do babaca autor do e-mail mais infame da história. Polícia é assim. De perto incomoda, de longe faz falta. Sobretudo à burguesia que gosta de um pozinho, uma maconha. Dai-me paciência.
Crônica de Rubens Lemos Filho, no Jornal de Hoje, ed. de 25.07.12, na sua coluna PASSE LIVRE.
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