1935 – uma opinião pessoal
Oriundo e educado numa família
católica e integralista, desde menino ouvia comentários sobre a cognominada
intentona comunista de 1935. Ouvia relatos de parentes próximos que
participaram da luta contra a revolta na Serra do Doutor ( aos 15 anos, levado
por um tio, fui ver o local do célebre
tiroteio) e de outras pessoas que estavam em Natal entre os dias 23/27
de novembro de 35. A minha bisavó, dona Zefinha, ficava nervosíssima quando
nós, garotos sapecas, imitávamos os ruídos de metralhadoras atirando. Ouvi
muitas “estórias” sobre pessoas que enriqueceram com os despojos e dos
dinheiros abandonados pelos líderes do movimento na Vila Cincinato, na praça
Pedro Velho, assim como também de relatos verídicos sobre os acontecimentos.
Mas isso é outra história...
O fato é que eu resolvi pesquisar sobre a chamada
intentona por volta de 1984, já com quase 35 anos de idade, incentivado por
dois editores do Diário de Natal, Manuel Barbosa e Carlos Jorge. O diretor
geral do jornal, Luiz Maria Alves, autorizou a publicação das matérias após ler
a primeira da série. O mesmo que autorizou foi o mesmo que guilhotinou o seu
prosseguimento, em dezembro de 1985. Mesmo assim, tivemos oportunidade de
publicar relatos de testemunhas, participantes e sobreviventes daqueles
acontecimentos que hoje os comunistas do PC do B estão reverenciando. A
investigação nos propiciou o conhecimento das versões distorcidas e mentirosas
da historiografia oficial sobre o movimento de 35.
A revolta dos militares do 21º Batalhão de Caçadores
de Natal, foi conseqüência da luta política local, da demissão de policiais
civis e de dezenas cabos e soldados. O clima era de conspiração geral e os
comunistas se aproveitaram da situação política caótica para darem o golpe.
Foram derrotados e os seus principais adversários não foram os militares da
Polícia Militar do Estado, mas os sertanejos de vários municípios do Seridó,
principalmente de Parelhas, Carnaúba dos Dantas, Caicó, Currais Novos, Acari,
entre outros, tendo à frente diversos integralistas que, vestidos com
camisas-verdes atiraram e jogaram bombas nos veículos dos revoltosos que
pretendiam tomar a cidade de Caicó. Os
revoltosos saíram de Natal para dominar o Seridó, sem um pelotão de
reconhecimento na vanguarda de suas tropas, o que representou um erro primário
e fatal para a derrocada do movimento no interior.
A respeito da Serra do Doutor, conseguimos desmontar
o edifício de mentiras que erigiram em torno desse tiroteio, não somente sobre
a não participação no mesmo de políticos proeminentes no Seridó e no Estado,
desmascarando a existência do “General da Serra do Doutor”. Mas ainda existem
literatos e historiadores que teimam escrever obras ficcionais sobre a
resistência dos sertanejos seridoenses, aliciados pelos fazendeiros, políticos
e líderes integralistas, que enfrentaram os revoltosos na Serra do Doutor, a
147 quilômetros de Natal, derrotando-os nas trincheiras e cercas de pedras, com
bombas caseiras e tiros de espingardas, em poucos minutos de tiroteio.Também descobrimos
que o então delegado de polícia de Currais Novos, José Gomes de Souza Bastos,
foi o responsável pela prisão e execução de diversos militares do 21º BC que sobreviveram
ao “fogo da Serra do Doutor”. Eles pretendiam tomar Caicó, mas foram barrados e
alguns presos, sendo fuzilados nas grutas da “Dorna”.
Também constatamos uma grotesca adulteração no
relatório policial sobre a revolta comunista em Natal, elaborado pelo delegado
Enock Garcia e concluído quase seis meses depois, no qual ele não citou a existência
de mortes no interior do quartel da Polícia Militar, entre os dias 23 e 27 de
novembro de 1935. O relatório foi concluído em 1936, publicado em livro em 1937
e nele não havia nenhuma referência ao suposto soldado Luiz Gonzaga de Souza. O
“herói” criado anos depois pelos vitoriosos.
Comandado e executado por militares do Exército,
sargentos, cabos e soldados ligados ao Partido Comunista do Brasil-PCB, com a
colaboração e participação efetiva de civis – operários, funcionários públicos,
estivadores, sapateiros, etc -, dentre eles elementos do cafeísmo e partidários
de Mário Câmara, interventor derrotado por Rafael Fernandes e o Partido
Popular, o movimento insurrecional teve motivações locais, foi precipitado,
portanto, sem coordenação e sem planejamento adequados. Não obedeceu a ordens
do Partido, de Prestes e dos enviados da Internacional Comunista, com sede em
Moscou.
A documentação existente sobre aquele período
comprova que até elementos do Partido Popular, como o foi o caso de Alfredo
Mesquita e Paulo Teixeira, em Macaíba, andaram armados e defendendo o governo
comunista na vizinha cidade. Mais tarde, eles disseram que pensavam que era um
movimento para derrubar Getúlio Vargas. ( João Maria Furtado, no seu livro
Vertentes, publicado em 1975, assegura o fato, jamais desmentido. Em 1997,
Paulo Teixeira, sem desmentir que andou armado, sorrindo, disse que João Maria
Furtado tinha exagerado...) O mesmo ocorreu com o vendedor de jornais, Gastão
Nunes da Costa, cafeísta, que chegou a comandar uma pequena tropa fardada e
armada em Natal durante os três dias do Governo Popular Revolucionário. Por
isso, ele passou quase 10 anos preso, em Natal e no Rio de Janeiro, na
companhia de figuras importantes da insurreição que se pretendia nacional, como
bem retrata Graciliano Ramos, em Memórias
do Cárcere.
A Igreja não aderiu ao movimento, mas ficou omissa e
há informações de que o vigário de Caicó abrigou rebeldes foragidos na igreja
local, o que causou irritação no coronel Juvenal Lamartine de Faria,
ex-presidente da província do Rio Grande do Norte. Decorridos 66 anos da
revolta vermelha, um doente mental que perambulava nos arredores do quartel da
polícia e comia restos de comida da soldadesca foi transformado em herói e nome
da principal comenda do Governo do Estado do Rio Grande do Norte. As elites
políticas dominantes não gostam mesmo da verdade histórica, preferindo
reverenciar um doido que morreu baleado na lama do mangue da Salgadeira ou
Passo da Pátria pelo tiro certeiro de Sizenando Filgueira. Prefiro ficar ao
lado dos que reverenciam os que tombaram na defesa de um ideal, dos direitos de
ter um emprego, uma vida digna, da solidariedade humana, do que ao lado dos
pusilânimes, dos que executaram presos amarrados, dos que adulteraram
documentos oficiais para alterar a verdade histórica.
(Publicado na “Tribuna do Norte”, Natal/Rn, página 2,
26.11.2001, na seção Artigos, com o título “1935 – uma opinião pessoal”.
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