quarta-feira, 14 de novembro de 2012

23 de novembro 1935 - a rebelião militar.


1935 – uma opinião pessoal


Oriundo e educado numa família católica e integralista, desde menino ouvia comentários sobre a cognominada intentona comunista de 1935. Ouvia relatos de parentes próximos que participaram da luta contra a revolta na Serra do Doutor ( aos 15 anos, levado por um tio, fui ver o local do célebre  tiroteio) e de outras pessoas que estavam em Natal entre os dias 23/27 de novembro de 35. A minha bisavó, dona Zefinha, ficava nervosíssima quando nós, garotos sapecas, imitávamos os ruídos de metralhadoras atirando. Ouvi muitas “estórias” sobre pessoas que enriqueceram com os despojos e dos dinheiros abandonados pelos líderes do movimento na Vila Cincinato, na praça Pedro Velho, assim como também de relatos verídicos sobre os acontecimentos. Mas isso é outra história...
O fato é que eu resolvi pesquisar sobre a chamada intentona por volta de 1984, já com quase 35 anos de idade, incentivado por dois editores do Diário de Natal, Manuel Barbosa e Carlos Jorge. O diretor geral do jornal, Luiz Maria Alves, autorizou a publicação das matérias após ler a primeira da série. O mesmo que autorizou foi o mesmo que guilhotinou o seu prosseguimento, em dezembro de 1985. Mesmo assim, tivemos oportunidade de publicar relatos de testemunhas, participantes e sobreviventes daqueles acontecimentos que hoje os comunistas do PC do B estão reverenciando. A investigação nos propiciou o conhecimento das versões distorcidas e mentirosas da historiografia oficial sobre o movimento de 35.
A revolta dos militares do 21º Batalhão de Caçadores de Natal, foi conseqüência da luta política local, da demissão de policiais civis e de dezenas cabos e soldados. O clima era de conspiração geral e os comunistas se aproveitaram da situação política caótica para darem o golpe. Foram derrotados e os seus principais adversários não foram os militares da Polícia Militar do Estado, mas os sertanejos de vários municípios do Seridó, principalmente de Parelhas, Carnaúba dos Dantas, Caicó, Currais Novos, Acari, entre outros, tendo à frente diversos integralistas que, vestidos com camisas-verdes atiraram e jogaram bombas nos veículos dos revoltosos que pretendiam tomar a cidade de Caicó.  Os revoltosos saíram de Natal para dominar o Seridó, sem um pelotão de reconhecimento na vanguarda de suas tropas, o que representou um erro primário e fatal para a derrocada do movimento no interior.
A respeito da Serra do Doutor, conseguimos desmontar o edifício de mentiras que erigiram em torno desse tiroteio, não somente sobre a não participação no mesmo de políticos proeminentes no Seridó e no Estado, desmascarando a existência do “General da Serra do Doutor”. Mas ainda existem literatos e historiadores que teimam escrever obras ficcionais sobre a resistência dos sertanejos seridoenses, aliciados pelos fazendeiros, políticos e líderes integralistas, que enfrentaram os revoltosos na Serra do Doutor, a 147 quilômetros de Natal, derrotando-os nas trincheiras e cercas de pedras, com bombas caseiras e tiros de espingardas, em poucos minutos de tiroteio.Também descobrimos que o então delegado de polícia de Currais Novos, José Gomes de Souza Bastos, foi o responsável pela prisão e execução de diversos militares do 21º BC que sobreviveram ao “fogo da Serra do Doutor”. Eles pretendiam tomar Caicó, mas foram barrados e alguns presos, sendo fuzilados nas grutas da “Dorna”.
Também constatamos uma grotesca adulteração no relatório policial sobre a revolta comunista em Natal, elaborado pelo delegado Enock Garcia e concluído quase seis meses depois, no qual ele não citou a existência de mortes no interior do quartel da Polícia Militar, entre os dias 23 e 27 de novembro de 1935. O relatório foi concluído em 1936, publicado em livro em 1937 e nele não havia nenhuma referência ao suposto soldado Luiz Gonzaga de Souza. O “herói” criado anos depois pelos vitoriosos.
Comandado e executado por militares do Exército, sargentos, cabos e soldados ligados ao Partido Comunista do Brasil-PCB, com a colaboração e participação efetiva de civis – operários, funcionários públicos, estivadores, sapateiros, etc -, dentre eles elementos do cafeísmo e partidários de Mário Câmara, interventor derrotado por Rafael Fernandes e o Partido Popular, o movimento insurrecional teve motivações locais, foi precipitado, portanto, sem coordenação e sem planejamento adequados. Não obedeceu a ordens do Partido, de Prestes e dos enviados da Internacional Comunista, com sede em Moscou.
A documentação existente sobre aquele período comprova que até elementos do Partido Popular, como o foi o caso de Alfredo Mesquita e Paulo Teixeira, em Macaíba, andaram armados e defendendo o governo comunista na vizinha cidade. Mais tarde, eles disseram que pensavam que era um movimento para derrubar Getúlio Vargas. ( João Maria Furtado, no seu livro Vertentes, publicado em 1975, assegura o fato, jamais desmentido. Em 1997, Paulo Teixeira, sem desmentir que andou armado, sorrindo, disse que João Maria Furtado tinha exagerado...) O mesmo ocorreu com o vendedor de jornais, Gastão Nunes da Costa, cafeísta, que chegou a comandar uma pequena tropa fardada e armada em Natal durante os três dias do Governo Popular Revolucionário. Por isso, ele passou quase 10 anos preso, em Natal e no Rio de Janeiro, na companhia de figuras importantes da insurreição que se pretendia nacional, como bem retrata Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere.
A Igreja não aderiu ao movimento, mas ficou omissa e há informações de que o vigário de Caicó abrigou rebeldes foragidos na igreja local, o que causou irritação no coronel Juvenal Lamartine de Faria, ex-presidente da província do Rio Grande do Norte. Decorridos 66 anos da revolta vermelha, um doente mental que perambulava nos arredores do quartel da polícia e comia restos de comida da soldadesca foi transformado em herói e nome da principal comenda do Governo do Estado do Rio Grande do Norte. As elites políticas dominantes não gostam mesmo da verdade histórica, preferindo reverenciar um doido que morreu baleado na lama do mangue da Salgadeira ou Passo da Pátria pelo tiro certeiro de Sizenando Filgueira. Prefiro ficar ao lado dos que reverenciam os que tombaram na defesa de um ideal, dos direitos de ter um emprego, uma vida digna, da solidariedade humana, do que ao lado dos pusilânimes, dos que executaram presos amarrados, dos que adulteraram documentos oficiais para alterar a verdade histórica.
(Publicado na “Tribuna do Norte”, Natal/Rn, página 2, 26.11.2001, na seção Artigos, com o título “1935 – uma opinião pessoal”.

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