Morre aos 93 anos, a filha caçula da primeira prefeita da América Latina.
A filha caçula da primeira prefeita da América Latina, Ivonilde Soriano de Souza aos 93 anos morreu na madrugada desta sexta-feira (2) .
Segundo informações, véspera do dia de finados ela sentiu-me mal e foi levada às pressas para Natal onde teve que fazer uma cirurgia de uma Hérnia no estômago.
SUA VIDA.
Na residência onde Alzira Soriano nasceu, em Jardim de Angicos, a 124 quilômetros de Natal, ela guarda carinhosamente fotos valiosas do começo do século XX, além de objetos pessoais.
Ivonilde fazia questão de mostrar aos visitantes com orgulho o local de nascimento de sua mãe, hoje museu particular, localizado ao lado da igreja matriz do município.
PEDIDO.
Morando na residência desde então e empenhada em não deixar morrer a memória da mãe, Ivonilde não deixava descaracterizar a casa. Seu maior sonho é transformá-la em memorial com o apoio do poder público municipal.
Fonte: Sezimar. Blog de Valdemar Tibá.
Fonte: Sezimar. Blog de Valdemar Tibá.
Alzira Soriano era a mãe de dona Ivonilde Soriano Varela, uma das testemunhas de fatos da rebelião comunista de 1935,no interior do RN. Abaixo, republicamos reportagem da Revista Preá, da Fundação José Augusto, edição de 2005. Dona Ivonilde deixou dois filhos, João Batista e Frederico e dezenas de netos e bisnetos, inclusive uma neta, Marnie, filha de Manoel Antunes, "Souzinha", já falecido, que reside na rua Raposo Câmara, em Candelária.
O pioneirismo e a coragem de Alzira Soriano
O Rio Grande do Norte é terra de
mulheres guerreiras. Desde os tempos de Clara Camarão, índia considerada uma heroína na luta para expulsão dos holandeses do Nordeste no século XVII. A escritora Nísia Floresta, primeira mulher potiguar a publicar livros na Europa, é outro exemplo da garra feminina pelo reconhecimento de seus direitos. Na política, fica ainda mais evidente o pioneirismo das mulheres potiguares. Luiza Alzira Soriano Teixeira, natural de Jardim de Angicos, pôs abaixo a discriminação ao ser eleita a primeira prefeita da América Latina em 1928. A tradição de mulheres batalhadoras é mantida por Wilma de Faria, primeira governadora do Rio
Grande do Norte e única mulher até hoje a ser prefeita da capital do estado.Nascida em 29 de abril de1897, Luiza Alzira Teixeira de Vasconcelos (nome de solteira) nunca aceitou ser subserviente. Casou aos 17 anos e, cinco anos mais tarde, sofreu com a morte prematura do marido Thomaz Soriano de
Souza Filho, antigo promotor da comarca de Ceará-Mirim. “Ele foi vítima da chamada gripe espanhola, que matou muita gente naquele tempo”, recorda Ivonilde Soriano de Souza, 85 anos, filha de Alzira e Thomaz.
A independência de Alzira, responsável em criar sozinha as três filhas, não era vista com bons olhos pelos homens da época. Nem mesmo seu pai, o fazendeiro Miguel Teixeira de Vasconcelos, antigo proprietário da Fazenda Primavera, conseguia controlar o ímpeto da filha em querer estar à frente do seu tempo. “Minha mãe costurava e fazia chapéus para sustentar a família”.O envolvimento com a política parece ter sido uma resposta aos antigos coronéis que duvidavam de sua capacidade de abraçar a causa do feminismo.
Aos 32 anos, disputou as eleições para prefeito de Lajes, pelo Partido Republicano. Naquele ano de 1928, imaginar uma mulher assumindo um cargo na administração pública era motivo de piadas. Os defensores da
candidatura de Sérvulo Pires Neto Galvão, candidato derrotado por Alzira, até que tentaram desqualificar a futura prefeita com boatos e chacotas.A filha lembra do episódio mais marcante após a campanha vitoriosa.
Ivonilde, então com 10 anos, acompanhava Alzira em uma caminhada pelas ruas de Lajes. Miguel Moreira da Silveira, político na região e opositor da prefeita, esperava a passagem de Alzira numa rua movimentada
cantando versos irônicos. “Cantava para o povo dizendo que o tempo de virola já tinha
acabado, querendo dizer prostituição”. Ao ouvir a cantoria, Alzira teria dito que
“tempo de virola tinha acabado, mas braço de mulher não”. Segundo Ivonilde, a mãe “deu uns bofetes emMiguel chegando a quebrar os óculos do adversário”. O caso está registrado
na biografia de Alzira Soriano, escrita pela jornalista Heloisa Galvão de Souza. A
jornalista potiguar também publicou uma ampla matéria sobre Alzira Soriano no “The
Brazilian Monthly”, informativo em inglês que circula em Boston, nos Estados Unidos. O curto mandato de Alzira Soriano, deposta pela Revolução de 1930, ficou marcado pelo compromisso, assumido no dia da posse, de não utilizar o cargo em benefício de nenhuma minoria. O discurso proferido por Alzira,
publicado no jornal A República em 4 de abril de 1929, deveria servir até hoje de lição
para os ocupantes de cargos públicos. “Não me prevalecerei do cargo para fazer favores
a amigos, e ainda menos para negar justiça aos adversários. Não abusarei dele para obter proventos, seja qual for a natureza destes”.Em 1947, dois anos depois de Getúlio Vargas ter devolvido o direito do voto às mulheres, Alzira é eleita vereadora de Jardim de Angicos, cargo que viria a ocupar outras duas vezes pela União Democrática Nacionalista - UDN.
Alzira Soriano faleceu em 1963.
J a r d i m d e A n g i c o s - A t e r r a d a p r i m e i r a p r e f e i t a d a A m é r i c a L a t i n a
84 Jan/Fev 2005

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