A rebelião integralista de 1938
e seus reflexos no Estado
Levante deteve Getúlio em casa
mas faltou o apoio do Exército
Texto de Luiz Gonzaga Cortez*
A rebelião de setores da Ação Integralista Brasileira-AIB contra o ditador Getúlio Vargas, em 11 de maio de 1938, no Rio de Janeiro, permanece esquecida pelos nossos políticos, historiadores e intelectuais. Os episódios de 23 a 27 de novembro de 1935, em Natal, Recife e Rio de Janeiro, são lembrados anualmente, pelos simpatizantes daquele movimento, inclusive pelos seus adversários.
A insurreição não passou de uma tentativa de golpe para tirar Getúlio do poder e contou com a participação de dezenas de civis armados e oficiais do Exército, dentro os quais se destacaram o tenente Severo Fournier e o médico Belmiro Valverde. A rebelião ficou conhecida como a "intentona integralista", fracassou horas depois da recusa do general Gaspar Dutra, Ministro da Guerra, em apoiar o "putsch" dos camisas-verdes da AIB, organização fundada pelo escritor paulista Plinio Salgado, uma das figuras proeminentes da Semana de Arte Moderna de 1922.
Os integralistas mantiveram Getúlio detido num quarto do seu palácio durante quase 4 horas, segundo versões de historiadores, mas os líderes militares que tinham prometido apoio ao golpe, não atenderam aos apelos de reforços para derrubarem o ditador. Há versões de que o chefe Plinio Salgado não apoiou o golpe militar e se refugiou em São Paulo após não conter a sedição de seus liderados civis e militares da Marinha e do Exército.
Getúlio Vargas tornou-se ditador com o golpe de 10 de novembro de 1937, apesar de vir governando o país com amplos poderes desde outubro de 1930. Enganou seus aliados à direita e à esquerda para se perpetuar no poder, inclusive Plínio Salgado, a quem ofereceu o cargo de Ministro da Educação. Plinio tinha trabalhado duramente em 1937 para sair candidato à Presidência da República pela AIB, organização conservadora, anticomunista, nacionalista e cristã ( contou com apoio de quase toda a cúpula da Igreja Católica brasileira). José Américo de Almeida e Armando Sales de Oliveira, representantes da burguesia industrial paulista e do latifúndio nordestino também estiveram em campanha eleitoral em 37. Os integralistas fizeram um plebiscito nas suas fileiras e 800 mil camisas-verdes, incluindo os do RN, apoiaram o nome de Plínio para Presidente. Cem mil integralistas desfilaram no Rio de Janeiro oferecendo apoio a Getúlio Vargas. Foram ao Palácio do Catete, no inicio de maio de 1937, ocasião em que Plínio Salgado, Gustavo Barroso e outros líderes integralistas comunicaram ao ditador o resultado do plebiscito.
Maquiavélico, Getúlio incentivou os integralistas e os setores liberais para prosseguirem suas campanhas para as eleições previstas para o ano seguinte, conforme preceituava a Constituição em vigor. Astuto e hábil articulador político, Getúlio executou o golpe em silêncio, com apoio das Forças Armadas, principalmente do general Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército. O menor civil do golpe de 10 de novembro de 1937 foi o intelectual mineiro Francisco Campos, um dos criadores de uma organização de direita em Belo Horizonte/MG.
O GOLPE
Após a implantação do "Estado Novo" - autoritário e repressivo - , os adversários de Getúlio Vargas se articularam numa conspiração para derrubá-lo do poder. Empresários e políticos de São Paulo participavam da trama que culminaria com o golpe militar em janeiro ou março de 38. No entanto, a insurreição somente ocorreu na noite de 11 de maio de 1938 com o ataque ao Palácio do Catete, residência do ditador.
Um dos chefes do integralismo, Olbiano de Melo, no seu livro "A Marcha da Revolução Social no Brasil", a polícia política prendeu dezenas de integralistas no Rio, São Paulo e outros Estados, após fracassada invasão da Rádio Mayrink Veiga do Rio de Janeiro, em março , comandada pelo dr. Jair Tavares e o tenente Loyola. Plínio refugiou-se em São Paulo, onde foi preso pela polícia política do regime, levado para a Fortaleza Santa Cruz, no Rio de Janeiro, de onde saiu para o exílio em Portugal. Somente retornaria em 1945. No exílio, escreveu uma das suas mais belas obras literárias, "A Vida de Jesus".
Conta Olbiano, que Plínio Salgado concordou com o golpe durante uma reunião secreta, realizada no Rio, que contou com a presença do Brigadeiro Newton Braga, mas que ele determinaria a data do levante golpe integralista. No entanto, em março o levante precipitou-se, após o fracasso de janeiro, com a tentativa de ocupação da rádio Mayrinck Veiga . "...viera em 11 de maio, com o ataque de Belmiro Valverde, chefiando um grupo de "camisas- verdes", ao Palácio Guanabara, já em desespero de causa, articulado com o general reformado Castro Júnior e com o grupo civil dos srs. Armando Sales de Oliveira, Júlio Mesquita Filho, Flores da Cunha e Otávio Mangabeira, tendo como agente de ligação o dr. José Paranhos do Rio Branco, e com os quais Plínio Salgado se unira para a insurreição geral de março".
Olbiano de Melo, que afirma nunca ter omitido sua opção pelo fascismo, então no auge na Europa e em crescimento no próprio Estados Unidos da América do Norte (Câmara Casucod escreveu um artigo sobre o crescimento do fascismo nos EUA), registra que ao médico Belmiro Valverde coube a tarefa de cercar o Palácio, "deter ali o Ditador e ainda os ministros militares em suas residências, sublevar parte da Marinha, até que o General Castro Júnior, secundado por outras altas patentes, comprometidas com o movimento, descesse com a Guarnição da Vila Militar para a cidade e se organizasse uma Junta Governativa que imediatamente promoveria o retorno da Nação aos quadros legais da Constituição de 1934. Valverde cumpriu integralmente a palavra empenhada. Teve em suas mãos por toda a madrugada do dia 11 de maio de 1938 o Sr. Getúlio Vargas completamente isolado do mundo, cercou as residências dos ministros militares, inclusive o apartamento do General Góis Monteiro, Chefe do Estado-Maior do Exército e levantou parte da guarnição da Escola Naval e do Arsenal da Marinha. Mas ao invés de terem a cobertura da Vila Militar, os rapazes que se assenhorearam do Palácio Guanabara, comandados pelo Tenente Severo Fournier, foram cercados e dominados ao raiar do dia por um contingente de tropas do Forte São João, dirigidas pessoalmente pelo General Gaspar Dutra, Ministro da Guerra. A reação continuou ainda pela manhã do lado da Marinha sob o comando do Tenente Halzzemann, que também foi dominado com os seus revoltosos, após ter sido gravemente ferido. Esta foi uma das atitudes mais varonis do movimento do Sigma que, de um modo geral, em todos os seus quadros pelos país afora sentia-se vilipendiado pelos senhores da situação. Valeu como um protesto, embora tenha custado a vida de vários "camisas-verdes", após serem presos, nos jardins do Palácio" ( Olbiano, op. cit., p.128, Edição O Cruzeiro, 1958).
Foram mortos friamente, após presos, por Lutero Vargas, irmão do ditador, os seguintes integralistas: Tenente Teófilo Otoni Jacould, Dionísio Pereira da Silva, Mário Salgueiro Viana, Waldemiro Petrone, José Rodrigues, Luis Candido, Manoel Gomes Vidal, Artur Pereira de Holanda e o cabo Juvêncio Henrique Pereira Dias. o tenente Fournier viria a falecer anos mais tarde vítima dos maus-tratos na prisão, no Rio.
O chefe de polícia era o Capitão Felinto Muller, descendente de alemães, admirador de Hitler e responsável pela entrega da comunista alemã Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, aos nazistas. O coronel Euclides Figueiredo, pai do falecido general e ex-Presidente João B. Figueiredo, participou da "intentona" integralista e foi obrigado a se exilar. ( tinha sido condenado a 4 anos e 4 meses de prisão).
As forças do governo não sofreram baixas, mas mais de 1.500 pessoas, integralistas, simpatizantes e adversários de Getúlio, foram presas em todo o país. Respaldado pelo decreto-lei 428, de 16 de maio de 1938, o regime iniciou violenta repressão e transformou os julgamento do Tribunal de Segurança Nacional em uma verdadeira "blitz". O comandante Fernando Cockrane, Ayrton Plaissant, Lauro Antunes e Oswaldo Belém, condenados a l ano, foram punidos com três anos e quatro meses de prisão. Valverde foi condenado a 8 anos de prisão na Ilha de Fernando de Noronha( que estava cheia de presos comunistas que participaram da intentona de 1935) , de onde enviou vasta correspondência para Carlos Gondim, um dos dirigentes da AIB no Rio Grande do Norte. Gondim era chefe do serviço secreto dos integralistas potiguares e colaborou com os americanos em Natal durante a segunda guerra. As cartas de Valverde chegavam por via aérea, graças a intervenção consul americano em Natal.
Em Natal, a repressão policial atingiu diversas pessoas que nada sabiam da conspiração integralista, como o comerciante católico Carlos Gondim, detido por 13 dias, na Chefatura de Polícia, na Ribeira. Os comerciantes e integralistas Manoel Genésio Cortez Gomes e Sérgio Severo de Albuquerque Maranhão, entre outros, foram interrogados, tiveram suas residências vasculhadas pela polícia estadual. Foram considerados subversivos de direita. Governava o Estado o interventor Rafael Fernandes Gurjão, que tinha sido eleito em 1934, por via indireta, e aceitou ficar no poder após o golpe de novembro de 1937. Câmara Cascudo, conhecido folclorista e figura proeminente da cultura potiguar, não escreveu nada sobre a repressão policial contra os seus companheiros da Ação Integralista Brasileira, organização da qual foi um dos fundadores e um dos seus líderes no Rio Grande do Norte.
*Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador.
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