“O
COMUNISMO SEM VIOLÊNCIA
É
CÃO SEM DENTES”
Luiz da Câmara Cascudo
Pesquisa de Luiz Gonzaga Cortez (2)
Pecar pelo silêncio
quando se devia protestar, transforma homens em covardes. A. Lincoln.
A obra
cascudiana, apesar de vasta, talvez seja a menos estudada pelos intelectuais do
Rio Grande do Norte e do resto do país. Nada foi pesquisado sobre Cascudo, o político.
O profundo e extenso trabalho de pesquisas desenvolvido pela falecida poetisa
Zila Mamede ( 1) não abriu nenhuma vereda nesse campo, pois, à exceção de
poucas referências a artigos políticos-ideológicos da lavra de Câmara Cascudo,
publicados no jornal natalense A República, não faz menção a sua atuação como
jornalista, militante, dirigente e intelectual da Ação Integralista Brasileira,
nos anos trinta.
Câmara Cascudo foi um combativo jornalista anti-comunista do
jornal A Ofensiva, do Rio de Janeiro, sob a orientação de Plínio Salgado e
dirigido por Madeira de Freitas. O anticomunismo exarcebado, o nacionalismo
xenófobo, o anti-capitalismo internacionalista e o misticismo cristão eram as
características da ideologia da AIB, que possuía uma estrutura paramilitar,
hierarquizada e disciplinada.
Como intelectual integralista, Cascudo tinha que
escrever pró-integralismo e contra o comunismo, cujas ações e atividades
clandestinas desenvolvidas contra o governo de Getúlio Vargas eram acobertadas
pela Aliança Nacional Libertadora-ANL, criada pelo Partido Comunista do
Brasil-PCB e integrada, ainda, por grupos de socialistas, democratas liberais e
oposicionistas diversos. Portanto, os artigos e crônicas de Cascuda, na sua
maioria, versavam sobre os assuntos da atualidade política nacional e
internacional, com forte colorido verde-amarelo e um ojeriza latente ao regime
soviético, Lênin, Stálin, o Exército Vermelho, a tudo que cheirasse a
marxismo-leninismo.
Na época do Cascudo integralista, o Brasil vivia a dicotomia
de comunismo e fascismo. Quem simpatizava com o comunismo se filiava ou
colaborava com o PC ou a ANL; quem se atrevia a combater o comunismo, o PCB e a
ANL, ingressava na Ação Integralista Brasileira-AIB. A maioria dos intelectuais
brasileiros era conservadora e estava na AIB e/ou apoiava a ditadura Vargas,
nos anos trinta. Por isso, não podemos analisar a militância política dos
intelectuais brasileiros tomando por base os tempos atuais. Antes de Luiz
Carlos Prestes, presidente de honra da ANL, lançar o apelo às armas para
derrubar Getúlio Vargas, um gesto considerado precipitado e maluco, pois a ANL
e o PCB não tinham o apoio das massas populares e as armas dos quartéis, de
forma ampla e integral, o escritor e chefe da AIB, Plínio Salgado, em artigo publicado
na primeira página de A Ofensiva, em 10,10.1935, dizia: Fala-se hoje em conspirações, em preparativos de golpes de Estado, em confabulações de políticos, sentido de apoderar-se, de surpresa, do poder. (2)
Mais adiante, no mesmo editorial, intitulado Direito da
Revolução, Salgado proclamava:... "Hoje, no Brasil, só duas correntes têm o
direito de pretender transformar o Estado: o integralismo e o comunismo. O
Brasil e a Rússia. O integralismo, para fazer a independência
econômico-financeira da Pátria, sustentando os direitos do Brasil; o comunismo,
para fazer voltar o Brasil aos tempos da Colônia, substituindo Dom João VI por
Stálin I.".
Pode dar vontade de rir, haja vista que o comunismo não é sinônimo de
monarquia, mas esse era o estilo do jornalismo político de direita, na década
de 30. No dia 1 de março de 1936, nas páginas 10 e 12, no órgão porta-voz da
AIB, Cascudo publicou o artigo Violência Bolchevista, em que procurou mostrar
que o comunismo é sinônimo de violência, a própria essência do regime soviético
sob a égide de Stálin. Os violentos combates travados no Rio de Janeiro e Recife e, em menor grau, em Natal, durante a insurreição de oficiais, cabos e
soldados das guarnições do Exército, entre 23 e 27 de novembro de 1935, para
derrubar Getúlio, foram vistos com naturalidade, sem surpresas, pelo jornalista
Câmara Cascudo, pois, para ele, o bolchevismo sem violência é cachorro sem
dentes - é inofensivo e barulhento.
Dezesseis meses antes da revolução
comunista de Natal, Cascudo publicou em A Ofensiva ( 01.07.34) outro violento artigo
contra o comunismo e a União Soviética, com o título sugestivo: É Mentira!. O
artigo era curto e grosso.
Leiamo-lo: A Rússia é um paraíso onde ninguém entra
senão depois de atos de fé partidária. É o único país do mundo inteiro que se
conserva fechado dentro dos seus limites e gelos, defendendose por negação
sistemática. É um céu aberto onde cada dia morrem dezenas de felizes moradores
que pretendem abandonar éden vermelho e são fuzilados pelas patrulhas que
rondam as fronteiras. Somente na Rumânia vivem três milhões de russos que
fugiram das delícias soviéticas. Quando afirmamos esses fatos a resposta dos
bolchevistas é uma só ; -- Mentira! Invenção capitalista! Calúnia burguesa! E
não provam nada em contrário. Continuam cerrando mais e mais as suas portas e
matando quem se atreve a querer abandonar as supremas alegrias de um regime
incomparável.
Ivan Bunin, prêmio Nobel de Literatura de 1933, diz que a Rússia
é o inferno vivo dos homens de inteligência.
Bunin é russo e era um revolucionário.
Mentira de Bunin!
Henri Bérard diz que
na Rússia o povo não pode escolher ninguém para representá-lo. Bérard é
socialista radical.
Mentira de Bérard!
Jorge Popof diz que a Rússia está
debaixo de uma organização policial sinistra e sanguinária como nunca se pode
imaginar.
Mentira de Popof!
Leon de Poncin demonstra como nunca o capitalismo
sem pátria e sem alma dominou selváticamente uma nação como agora a Rússia.
Mentira de Poncin!
Joseph Douillet, que viveu nove anos na Rússia escreve que a
opressão oficial, a tortura declarada, as mortes sem processos, são formas
comuns na República Soviética.
Mentira de Douillet!
George Le Fevre que a morte
das iniciativas russas ante o moloch da G.P.U., toco mecanismo de espionagem e
esmagamento, são processos oficiais para manter a população na obediência.
Mentira de Le Fevre!
Sergio Petrovich Melganov, da União Acadêmica Russa disse
que o regime comunista é apenas o terror vermelho.
Mentira de Melganov!
Nilostonski chama o governo soviético de embriaguez de sangue dirigida por
carrascos chineses.
Mentira de Nilostonski!
Boris Nolde transcreve as ordens de
saques às populações do interior a palavra do governo autorizando a violação de
todos os direitos humanos, os horrores de outubro de Mentira de Nolde!
Trotski
acusa Stalin de estar tornando ( desculpem se é pouco) um simples fascista.
Que será verdade, Deus meu?
A verdade é que a Rússia Soviética é um paraíso onde todos os anjos querem sair...
NOTAS; 1 - Luiz da Câmara Cascudo - 50 anos de vida intelectual , Fundação José Augusto, Natal/RN, volumes. 2 - Em meados de 1935, a conspiração andava no ar. Sentia-se, respirava-se a revolução, mas tudo parecia o resultado de um estado insuportável de insatisfação geral, corrobora Leôncio Basbaum, em História Sincera da República, Editora Edaglit, São Paulo, 1962, p. 91.
Transcrito do livro Cascudo, o camisa verde - Natal-RN - julho de 2004
Nenhum comentário:
Postar um comentário