quinta-feira, 7 de março de 2019










“O COMUNISMO SEM VIOLÊNCIA

É CÃO SEM DENTES”
Luiz da Câmara Cascudo


 Pesquisa de Luiz Gonzaga Cortez (2)






 Pecar pelo silêncio quando se devia protestar, transforma homens em covardes. A. Lincoln. 

A obra cascudiana, apesar de vasta, talvez seja a menos estudada pelos intelectuais do Rio Grande do Norte e do resto do país. Nada foi pesquisado sobre Cascudo, o político. O profundo e extenso trabalho de pesquisas desenvolvido pela falecida poetisa Zila Mamede ( 1) não abriu nenhuma vereda nesse campo, pois, à exceção de poucas referências a artigos políticos-ideológicos da lavra de Câmara Cascudo, publicados no jornal natalense A República, não faz menção a sua atuação como jornalista, militante, dirigente e intelectual da Ação Integralista Brasileira, nos anos trinta. 


Câmara Cascudo foi um combativo jornalista anti-comunista do jornal A Ofensiva, do Rio de Janeiro, sob a orientação de Plínio Salgado e dirigido por Madeira de Freitas. O anticomunismo exarcebado, o nacionalismo xenófobo, o anti-capitalismo internacionalista e o misticismo cristão eram as características da ideologia da AIB, que possuía uma estrutura paramilitar, hierarquizada e disciplinada.

 Como intelectual integralista, Cascudo tinha que escrever pró-integralismo e contra o comunismo, cujas ações e atividades clandestinas desenvolvidas contra o governo de Getúlio Vargas eram acobertadas pela Aliança Nacional Libertadora-ANL, criada pelo Partido Comunista do Brasil-PCB e integrada, ainda, por grupos de socialistas, democratas liberais e oposicionistas diversos. Portanto, os artigos e crônicas de Cascuda, na sua maioria, versavam sobre os assuntos da atualidade política nacional e internacional, com forte colorido verde-amarelo e um ojeriza latente ao regime soviético, Lênin, Stálin, o Exército Vermelho, a tudo que cheirasse a marxismo-leninismo. 

Na época do Cascudo integralista, o Brasil vivia a dicotomia de comunismo e fascismo. Quem simpatizava com o comunismo se filiava ou colaborava com o PC ou a ANL; quem se atrevia a combater o comunismo, o PCB e a ANL, ingressava na Ação Integralista Brasileira-AIB. A maioria dos intelectuais brasileiros era conservadora e estava na AIB e/ou apoiava a ditadura Vargas, nos anos trinta. Por isso, não podemos analisar a militância política dos intelectuais brasileiros tomando por base os tempos atuais. Antes de Luiz Carlos Prestes, presidente de honra da ANL, lançar o apelo às armas para derrubar Getúlio Vargas, um gesto considerado precipitado e maluco, pois a ANL e o PCB não tinham o apoio das massas populares e as armas dos quartéis, de forma ampla e integral, o escritor e chefe da AIB, Plínio Salgado, em artigo publicado na primeira página de A Ofensiva, em  10,10.1935, dizia: Fala-se hoje em conspirações, em  preparativos de golpes de Estado, em confabulações de políticos, sentido de apoderar-se, de  surpresa, do poder. (2)



 Mais adiante, no mesmo editorial, intitulado Direito da Revolução, Salgado proclamava:... "Hoje, no Brasil, só duas correntes têm o direito de pretender transformar o Estado: o integralismo e o comunismo. O Brasil e a Rússia. O integralismo, para fazer a independência econômico-financeira da Pátria, sustentando os direitos do Brasil; o comunismo, para fazer voltar o Brasil aos tempos da Colônia, substituindo Dom João VI por Stálin I.". 
Pode dar vontade de rir, haja vista que o comunismo não é sinônimo de monarquia, mas esse era o estilo do jornalismo político de direita, na década de 30. No dia 1 de março de 1936, nas páginas 10 e 12, no órgão porta-voz da AIB, Cascudo publicou o artigo Violência Bolchevista, em que procurou mostrar que o comunismo é sinônimo de violência, a própria essência do regime soviético sob a égide de Stálin. Os violentos combates travados no Rio de Janeiro e Recife e, em menor grau, em Natal, durante a insurreição de oficiais, cabos e soldados das guarnições do Exército, entre 23 e 27 de novembro de 1935, para derrubar Getúlio, foram vistos com naturalidade, sem surpresas, pelo jornalista Câmara Cascudo, pois, para ele, o bolchevismo sem violência é cachorro sem dentes - é inofensivo e barulhento.

 Dezesseis meses antes da revolução comunista de Natal, Cascudo publicou em A Ofensiva ( 01.07.34) outro violento artigo contra o comunismo e a União Soviética, com o título sugestivo: É Mentira!. O artigo era curto e grosso. 

Leiamo-lo: A Rússia é um paraíso onde ninguém entra senão depois de atos de fé partidária. É o único país do mundo inteiro que se conserva fechado dentro dos seus limites e gelos, defendendose por negação sistemática. É um céu aberto onde cada dia morrem dezenas de felizes moradores que pretendem abandonar éden vermelho e são fuzilados pelas patrulhas que rondam as fronteiras. Somente na Rumânia vivem três milhões de russos que fugiram das delícias soviéticas. Quando afirmamos esses fatos a resposta dos bolchevistas é uma só ; -- Mentira! Invenção capitalista! Calúnia burguesa! E não provam nada em contrário. Continuam cerrando mais e mais as suas portas e matando quem se atreve a querer abandonar as supremas alegrias de um regime incomparável. 
Ivan Bunin, prêmio Nobel de Literatura de 1933, diz que a Rússia é o inferno vivo dos homens de inteligência. 

Bunin é russo e era um revolucionário. 

Mentira de Bunin! 


Henri Bérard diz que na Rússia o povo não pode escolher ninguém para representá-lo. Bérard é socialista radical. 

Mentira de Bérard! 

Jorge Popof diz que a Rússia está debaixo de uma organização policial sinistra e sanguinária como nunca se pode imaginar.

 Mentira de Popof! 

Leon de Poncin demonstra como nunca o capitalismo sem pátria e sem alma dominou selváticamente uma nação como agora a Rússia. 
Mentira de Poncin! 

Joseph Douillet, que viveu nove anos na Rússia escreve que a opressão oficial, a tortura declarada, as mortes sem processos, são formas comuns na República Soviética. 
Mentira de Douillet! 

George Le Fevre que a morte das iniciativas russas ante o moloch da G.P.U., toco mecanismo de espionagem e esmagamento, são processos oficiais para manter a população na obediência. 

Mentira de Le Fevre! 

Sergio Petrovich Melganov, da União Acadêmica Russa disse que o regime comunista é apenas o terror vermelho. 

Mentira de Melganov! 

Nilostonski chama o governo soviético de embriaguez de sangue dirigida por carrascos chineses.

 Mentira de Nilostonski! 

Boris Nolde transcreve as ordens de saques às populações do interior a palavra do governo autorizando a violação de todos os direitos humanos, os horrores de outubro de Mentira de Nolde! 


Trotski acusa Stalin de estar tornando ( desculpem se é pouco) um simples fascista. 

 Mentira de Trotski!

 Que será verdade, Deus meu? 

A verdade é que a Rússia Soviética é um paraíso onde todos os anjos querem sair... 

NOTAS; 1 - Luiz da Câmara Cascudo - 50 anos de vida intelectual , Fundação José Augusto, Natal/RN, volumes. 2 - Em meados de 1935, a conspiração andava no ar. Sentia-se, respirava-se a revolução, mas tudo parecia o resultado de um estado insuportável de insatisfação geral, corrobora Leôncio Basbaum, em História Sincera da República, Editora Edaglit, São Paulo, 1962, p. 91. 
Transcrito do livro Cascudo, o camisa  verde - Natal-RN - julho de 2004









































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