Um pouco da história de "Doidinho", que virou herói de araque anos depois da tentativa de golpe militar contra Getúlio Vargas.
Um certo “soldado” chamado Luiz Gonzaga.
Durante sete décadas acreditou-se – porque assim foi oficialmente instituído – o fato
de que um certo “soldado” chamado Luiz Gonzaga, pertencente à corporação da
Polícia Militar do Rio Grande do Norte, teria sido o único e grande herói da
Inssurreição Comunista de 1935, que ocorreu em Natal, quando rebeldes do 21 º
Batalhão de Caçadores, liderados pelo sargento Quintino Clementino de Barros e pelo
cabo Giocondo Alves Dias, aliançados com células do Partido Comunista do Brasil
(na época PCB) e com organizações de esquerda da capital, dominaram a sede do
batalhão e metralharam o quartel da PM, saindo vencedores, materializando assim o
primeiro governo marxista-leninista das Américas, que durou exatamente 82 horas, do
dia 23 ao dia 27/11/1935, para o qual foi constituída um Comitê Popular
Revolucionário (CPR), composto pelos seguintes membros:
Quintino Clementino de Barros, 36 anos, sargento-músico do Exército – Secretário de
Defesa;Lauro Cortês Lago, 36 anos, funcionário público estadual – Secretário do Interior e Justiça;José Macedo, 33 anos, Diretor dos Correios – Secretário de Finanças;João Galvão, 33 anos, Secretário do Atheneu – Secretário de Viação;José Praxedes, 36 anos, sapateiro – Secretário de Aprovisionamento.
Geralmente, quando se fala na Intentona Comunista de 35, relembra-se logo as
quarteladas do Recife e do Rio de Janeiro, e incluí-se aí, erroneamente, Natal como
parte integrante dessas quarteladas. É bem verdade que os movimentos comunistas
deflagrados no Recife e no Rio de Janeiro, foram realmente intentonas, pois lá,
nessas capitais, o movimento não tomou corpo e forma, como ocorreu em Natal. Na
capital potiguar houve realmente uma inssurreição, onde progrediu para o
enfrentamento bélico, culminando com a vitória dos inssurretos e a instalação de um
governo provisório, mesmo que esse tenha durado tão somente 82 horas. Mas, é uma
pena que alguns autores não queiram aceitar essa verdade histórica e ainda
prossigam subvertendo a ordem natural do desenrolar dos nossos fatos históricos.
Assim conta a história permitida ...
Após ás 14h00 do dia 24 de novembro, quando a resistência do Quartel da Polícia,
representada por dois oficiais e quarenta e seis soldados, sem munição, é obrigada a
abandonar o front pelos fundos do prédio, numa passagem que dava para o Rio
Potengí, retirada esta comandada pelos majores Luís Júlio e Pinto Soares, um
inssurreto defronta-se com um “soldado” agachado, ás margens do Rio, portando um
fuzil. Quando o tal “soldado” avistou os inssurretos, levantou-se rapidamente, aidna
segurando a arma, quando foi alvejado por um único e certeiro tiro, tombando sem
vida. Sobre isso escreveu Home Costa:...No combate do quartel da polícia militar
foram feridos os sargentos Celso Anselmo Pinheiro e Celso Dantas Neto, o cabo
Severino Mendes e os soldados Antônio Jósimo e Antônio Gervásio de Medeiros –
todos com ferimentos leves. Houve um morto: Luiz Gonzaga”. O autor do comentário
declina as graduações dos militares feridos no combate, não referindo-se a Luiz
Gonzaga como soldado ou integrante da defesa do quartel.
Sobre a conturbada figura de Luiz Gonzaga, muita polêmica foi travada. Agora, á luz
dos acontecimentos históricos, sem paixões e sem ideologias, procuramos pesquisar
a vida do tal “soldado” na bibliografia disponível, chegando á conclusão de que,
realmente, Luiz Gonzaga nunca pertenceu aos quadros da Polícia Militar do Rio
Grande do Norte, pelo menos até novembro de 1935. Era um débil mental, natural de
Santana do Matos, que residia nas imediações do quartel, e que costumeiramente
vivia a fazer mandados da soldadesca, recebendo deles gorros, gandolas, calças e
botas usadas, com o que passou a se trajar, por força das necessidades. Era
comensal do quartel da polícia. Sobre isso escreveu o desembargador João Maria
Furtado: (...) sempre afirmaram que, realmente morreu nas proximidades do quartel
da polícia um pobre demente que vivia perambulando pelas ruas de Natal, ms nunca
fora soldado da polícia militar (...)
Sizenando Figueira, então militante do Partido Comunista, que participou ativamente
do movimento de novembro de 1935, disse, referindo-se a Luiz Gonzaga: “(...) ele não
era nem herói nem militar na época. Era apenas um débil mental (...). Afirma o Sr.
Sizenando Figueira que foi quem matou o tal “soldado”, “em legítima defesa”,
adiantou.
Passado o período do movimento, resolveu então o comando da Polícia Militar alistar,
com data retroativa, o tal “Luiz Gonzaga”, única vítima fatal do movimento, como bem
disse o desembargador João Maria Furtado: “Entretanto, o major Luiz Júlio resolveu
alistar depois de morto Luiz Gonzaga como soldado da polícia que, assim, teve uma
morte de herói(...) Segundo um artigo do jornalista Luiz Gonzaga Cortez, intitulado “O
Comunismo e as Lutas Políticas no Rio Grande do Norte na Década de 30”, publicado
no Jornal “O Poti”, edição de 29/09/1985, diz: (...) Houve uma adulteração no relatório
da inssurreição, no qual Luiz Gonzaga teria sido inscrito como soldado depois dos
acontecimentos (...) O escritor Manuel Rodrigues de Melo, integralista á época dos
acontecimentos, comentou em entrevista: Muitos anos depois é que começaram a
falar nesse soldado...” No livro “Meu Depoimento”, publicado em 1937, o Dr. João
Medeiros Filho exibe anexo um relatório do delegado auxiliar Enock Garcia, que
referindo-se ás vítimas do movimento, não aparece o nome de Luiz Gonzaga. O
professor Homero Costa prossegue: “No dia 30 de novembro de 1935, portanto, logo
após a derrota da inssurreição, o governador Rafael Fernandes visita os quartéis do
21º BC e da Polícia Militar. Acompanhado pela imprensa, e não faz qualquer
referência á morte de soldado da polícia militar. No dia 5 de dezembro de 1935, o
coronel Otaviano Pinto Soares, comandante do 21º BC, em longa entrevista que
concedeu ao jornal “Correio da Manhã”, do Rio de Janeiro, detalha sua participação e
não faz também qualquer referência á morte de soldado da polícia militar. No entanto,
em documento datado de 7 de janeiro de 1936, o governador do estado envia ao
comandante da 7ª Região Militar o relatório do comandante da Polícia Militar (anexos
2, 3 e 4) datado de 23 de dezembro de 1935, em que diz: “... Após a retirada do
quartel foi atingido e morto por certeiros tiros do inimigo o soldado Luiz Gonzaga, que
na metralhadora pesada se salientara como um bravo(...). O fato mais curioso é que o
jornal oficial do governo do estado “A República” publica diversas matérias nos dias
subseqüentes á insurreição e não faz qualquer referência á morte de soldado da
polícia militar, nem que existisse tal soldado manobrando essa tal “metralhadora
pesada”.
Em 1980, o Dr. João Medeiros Filho, em outro livro - “82 Horas de Subversão” - ao
transcrever o mesmo relatório, acrescenta, como primeiro da lista, o “soldado” Luiz
Gonzaga, do batalhão Policial. Finalmente, no dia 12 de outubro de 1985, o jornal
publica uma carta do Dr. João Medeiros Filho, chefe de polícia á época, autor do livro
anteriormente citado, afirmando o mesmo que, “reconhece ter adulterado o relatório,
mas que o fez de boa fé”. Esta foi a prova maior de que a farsa foi realmente feita,
resistindo até os nossos dias, onde o “soldado” Luiz Gonzaga nasceu por “obra e
graça” do major Luiz Júlio, então comandante da Polícia Militar do RN, e que foi,
posteriormente, transformado em mártir e herói da “Intentona Comunista de 1935”,
Infelizmente, aquela era a hora de se fabricar “heróis”, e o herói foi feito. Hoje, Luiz
Gonzaga, o “soldado” mártir, é reverenciado como patrono da PM, tendo inclusive
uma medalha de mérito da corporação que leva o seu nome e um mausoléu no
cemitério do alecrim. “O feitichismo político exigia manipansos de farda. Escolheram-no para novo ídolo”.
Volney Liberato
Nos anos 30, nossa época de maior efervescência política e social, já não bastava a
simbologia que encerrava Luiz Carlos Prestes, Getúlio Vargas, Plínio Salgado, Café
Filho, Juarez Távora, José Américo de Almeida e de todos aqueles que levavam o
povo a pensamentos e ações. Já não bastavam os ânimos sempre acirrados, a
propaganda e a contra-propaganda ideológicas, os dogmas e as doutrinas... Já não
bastava simplesmente semear as idéias utópicas da luta sem a realidade da luta. Já
não bastavam as idéias, mas sim a prática.
Para se vivenciar a prática ideológica, fez-se necessária á constituição de “heróis”,
para que assim pudessem ser erguidos os totens e os monumentos eméritos e
beneméritos para a posteridade. Não a quem realmente de direito, mas sim para
aqueles a quem as circunstâncias e as oportunidades concederam toda a honra, mas
nenhuma glória, como é comum nesses partos ideológicos.
1935 – A grande forja de Heróis – De Doidinho a Batalha de Itararé



