VETERANO COMUNISTA DIZ QUE 35 FOI UMA PRECIPITAÇÃO.
SIZENANDO: EU MATEI LUIZ GONZAGA.
ADULTERARAM O RELATÓRIO DA INSURREIÇÃO.
CHEFE DE POLÍCIA CAIU EM CILADA.
JORNAL DO GOVERNO NÃO REGISTROU "HERÓI".
O secretário Geral do Partido Comunista do Brasil, João
Amazonas, no dia 14 de agosto de 1985, após o encerramento da solenidade de
instalação das comissões Regional e Municipal do PC do B, na Assembléia
Legislativa do RN, respondeu a uma pergunta deste repórter sobre a natureza do
movimento armado de novembro de 1935, ocorrido em Natal, Recife e Rio de
Janeiro. Como se tratava de uma solenidade
e conferência sobre as atividades do seu partido na Nova República, aquele não
era o momento para uma digressão aprofundada sobre 35. Mesmo assim, Amazonas disse o seguinte sobre
a insurreição militar de novembro de 35:
“- A questão é muito mais ampla, é um assunto que
precisava ser examinado sob diferentes ângulos.
Eu entrei no Partido Comunista do Brasil, em abril de
1935 – há 50 anos eu era recém-membro do PC do B quando se deu o movimento da
ANL e a insurreição de 35. Mas
naturalmente não é por isso que eu desconheço os fatos, porque estudamos todas
as questões que se relacionam com o partido, que é o nosso dever. Tenho impressão que:
Primeiro: O
movimento de 1935 foi patrocinado pela Aliança Nacional Libertadora, num
movimento de frente única, anti-imperialista e antifascista que surgiu no
Brasil com uma grande potencialidade.
Segundo: Me parece
que esse movimento e a resistência que se procurou fazer à marcha do fascismo
no Brasil, não pode deixar de merecer aplausos de todos os patriotas. Todos nós sabemos que o fascismo constituiu
uma grande ameaça não somente internacional como também no nosso país. Ameaça fascista aberta e o dever de todos
nós, patriotas, democratas, era opormos decididamente contra as tentativas do
fascismo. Penso também que de qualquer
maneira a ação armada que se desenvolveu em Natal, Recife e no 3º Regimento do
Rio, apresentou aspectos heróicos e gloriosos.
No entanto do ponto de vista histórico, tenho a opinião de que
avaliou-se mal o momento político que se
vivia. O Governo de Vargas fechou a
Aliança em agosto de 35. E fechou porque
a Aliança ganhava força em todo o país.
Pressionado pelos militares, Getúlio decidiu pôr em ilegalidade a
Aliança Nacional Libertadora.
Se fosse hoje, teríamos raciocinado de maneira diferente,
embora que nessa ocasião não dependeu de mim nem de companheiros que formam
hoje a direção do Partido Comunista.
Outros eram os elementos. Mas
raciocinaram de maneira diferente. O
Governo fechou dentro de uma provocação.
Eu acho que se respondeu a provocação do governo tal como ele
desejava. Eu penso que foram
precipitados os acontecimentos armados de novembro de 35. É preciso dizer isso abertamente,
francamente, o que não foi. Eu creio que
ao invés de depois do fechamento da ANL, pelo Governo, ao invés dos
aliancistas, comunistas terem procurado reforçar a organização popular
sobretudo no campo e demais movimentos das vastas áreas camponesas do Brasil, e
encontrar mil e uma formas de prosseguir na luta pelos ideais que a Aliança
levantava, não, precipitou-se e caiu-se na questão de resolver o problema pelas
armas. E eu acho que esse problema foi
resolvido à margem da participação da grande massa do povo brasileiro. E esse foi um dos fatores que levou à derrota
esse movimento. Se fosse hoje, no que
dependesse de mim, eu não responderia dessa forma. Eu acho que a vida nos ensinou agora,
recentemente, nesses vinte e um anos, que sempre se encontrará mil e uma
maneiras, desde as mais radicais às menos decisivas, menos confrontantes, formas
de levar adiante o movimento e de criar as condições populares para depois
acionar todo um processo que se consiga tornar vitoriosa a idéia que se
defendeu. Essa é a opinião que eu tenho
a cerca do movimento de 35, falando em síntese.
“ Provocação do inimigo não se responde precipitando acontecimentos,
pois a gente acaba fazendo jogo que ele desejava que se fizesse. Quer dizer que quando o 3o
Regimento de Infantaria, de Praia Vermelha, se levantou, estava totalmente
cercado. Os revolucionários sequer conseguiram sair do quartel. Ora, nessas condições, tomar iniciativa é um
pouco um gesto que não encontrava apoio num raciocínio lógico. Então, essa questão assim, que é muito mais
complexa, restou um pensamento um tanto sintético, sei a maneira como reajo em
relação a 35. Nem por isso deixo de
destacar 35 como marco glorioso na história das lutas do nosso povo oprimido,
sacrificado e humilhado que tem o direito de, em certas circunstâncias, ter de
renascer as soluções extremas, heróicas para fazer valer os seus direitos.
LINHA DO PC do B
Sobre a linha do Partido Comunista do Brasil, João
Amazonas disse que o PC do B não tem “nada de linha chinesa, albanesa,
soviética. “A linha do PC do B, é
elaborada no Brasil por brasileiros, de acordo com a nossa compreensão dos
problemas sociais, políticos, históricos e culturais do nosso povo. Portanto não pode ser linha de nenhum outro
partido. Somos amigos da Albânia que
luta pela transformação de sua sociedade e solidários com a luta do povo
albanês, do ponto de vista do internacionalismo proletário.
Mas não somos albaneses, não ligamos a questões e
problemas deles.
Dou opinião sobre os nossos problemas e nunca procurei me
imiscuir em assuntos de outros partidos e estados estrangeiros, mesmo sendo um
estado socialista. Sobre perseguição
religiosa na Albânia, eu não falo, mas quanto ao Brasil digo que a Constituição
de 46, assegurou a liberdade religiosa, pois até 46 havia perseguição religiosa
feroz contra religião de homens simples e do povo pobre, ao candomblé e até
seitas protestantes. Se existe na
constituição de 46 um dispositivo que assegurou a liberdade religiosa no Brasil
foi de iniciativa da bancada do PC do Brasil.
O primeiro signatário foi o Deputado Jorge Amado, seguido de todos os
membros da nossa bancada. A nossa
posição é de assegurar a liberdade religiosa, que é um direito que o povo tem e
não podemos mudar as crenças do povo e a concepção das pessoas por decreto e
com medidas de hostilidades...”
“ Eu matei o falso soldado Luiz Gonzaga durante a
revolução de 35 “, disse o aposentado Sizenando Filgueira da Silva, 75 anos,
residente no bairro de Lagoa Seca, na manhã de quinta-feira passada. Ele não quis ser fotografado em virtude de
ter sido operado recentemente. Sem
titubear, Sizenando forneceu detalhes sobre o rapaz conhecido por Luiz Gonzaga
que, por motivos desconhecidos, envolveu-se nos acontecimentos militares de
novembro de 1935.
Sargento da Polícia Militar do Estado, Sizenando disse
que participou dos combates da insurreição, principalmente no ataque ao quartel
do “ Batalhão de Segurança” ( hoje Casa do Estudante do RN, na rua da
Misericórdia ) que durou 19 horas. Ele
disse que foi o comandante do grupo de insurretos que prendeu os oficiais ( um
da PM e outro do 21ºBC ), praças e sargentos da PM que tentavam fugir pelos
fundos do Batalhão, na tarde do dia 24 de novembro de 1935. Antes da rebelião, ele era encarregado da
agitação no quartel e homem de confiança do interventor Mário Câmara, pois
também comandava um grupo de 15 homens do serviço secreto do Chefe do
Executivo.
“Ele não era herói nem militar na
época. Ele apenas era um débil mental,
menor de idade, e deram-lhe um fuzil para acompanhar os que fugiam do quartel
em procura da Base Naval. Depois que fiz
a prisão do major Luiz Júlio ( comandante do Batalhão da PM ), e de um coronel
do Exército, eu olhava para a direita e vi quando ele estava procurando fazer
pontaria para atirar. Antes que ele
atirasse, eu atirei; só dei um tiro e
ele caiu. Ele estava por trás de uma
moita, no mangue, fazendo pontaria, vi que era para mim, a uns 80 metros de
distância. O tiro foi no peito, deu um
pulo e caiu para um lado e para o outro.
Aí mandei buscá-lo e botei o corpo dele ao lado dos prisioneiros, do
major Luiz Júlio e do coronel Pinto Soares, comandante do 21º BC. Eram 27 prisioneiros, inclusive o tenente
Zuza ( José Paulino de Medeiros), que foi baleado no braço por um soldado da
polícia. Eu prendi o soldado da polícia
e mandei Zuza para o hospital, onde foi operado pelo Dr. José Tavares e depois
mandei-o ficar na casa de José Anselmo.
O tenente Zuza perdeu o braço”, disse Sizenando Filgueira, membro do
Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1932, na época em que chamava-se
Partido Comunista do Brasil. Ele disse
que entrou no PCB durante a Revolução Constitucionalista de São Paulo, que
participou como soldado do 29º BC de Natal.
Nos intervalos dos combates, leu dois livros marxistas emprestados pelo
tenente Bicudo, do Exército.
Uma das pessoas que participaram ativamente da revolução de
novembro de Natal foi o tenente Mário Cabral, da Polícia Militar, um dos
manobradores da metralhadora pesada do 21º BC que ficou estacionada na casa da
esquina da rua João da Mata, em frente a praça André de Albuquerque, despejando
balas na frente do quartel do Batalhão de Segurança. Mário Cabral, vestia farda do Exército
durante os combates, segundo informou João Wanderley, que foi cabo telegrafista
do 21º BC.
- Mário Cabral era tenente da Polícia. Quando tomei o quartel da Polícia, na entrada
tinha um presídio, com uma porta da cela do tenente Rangel. Quebrei o cadeado e soltei Rangel. Aí soube que Mário Cabral estava na sala da
Ordem, armado. Ele estava com o fuzil a
tiracolo e abrindo as gavetas ( isso eu já disse, certa vez, ao coronel Bento,
muitos anos depois ). Mário Cabral era o
único oficial que estava lá e mais três ou quatro doentes na enfermaria. Aí eu disse a ele que se retirasse do
quartel. Ele respondeu-me que ia se
apresentar e “ estou também com vocês “.
Então, vá, que eu preciso do quartel desocupado para entregar, disse
para ele. Eu quero deixar claro também
que, quando foi mandado por Quintino ( sargento músico do 21ºBC, chefe militar
da insurreição, natural de Serra Negra do Norte, cujo nome completo era
Quintino Clementino de Barros ) para tomar o quartel só estava o cabo Walfredo,
lá em cima do quartel. Então, eu botei
três muros abaixo, na rua das Laranjeiras e cheguei na casa de um bodegueiro,
pai do coronel Armindo Aguiar, da Polícia Militar. Seo
Júlio, pai de Armindo, cedeu a casa dele para a gente atirar. Mandei Odilon deixar seu Júlio na rua Padre
Pinto, pois ele queria ficar lá. Depois
ficamos entrincheirados na mercearia e atirando contra o quartel da Polícia,
até o fim. Depois fui para o antigo
matadouro, atrás do quartel, onde tinha uma rampa para a Estrada de Ferro,
juntamente com mais quatro soldados. Aí
avistei o pessoal descendo para o mangue, mandei os soldados cercarem esse
pessoal e dei voz de prisão a todos eles.
Eu disse, gritando, que se rendessem ou morreriam, pois estavam
cercados. Eles se renderam e assim
prendi 27 de uma vez. Depois que eu
prendi os 27, vi uma moita se mexendo e gritei “ quem está aí? “. “Sou eu, Sizenando não
atire”, respondeu a pessoa. Veio e me
abraçou, dizendo: “vocês não fizeram
ligação comigo. Se tivessem feito, eu
tinha abafado essa merda lá dentro”. A
pessoa era o tenente Zuza. A gente
estava conversando quando apareceu o tiro no braço esquerdo dele. O soldado que atirou quis fugir, mas eu botei
o fuzil para cima e disse “tá ferrado, soldado”, e ele não pôde fugir. Eu não sei porque o soldado atirou nele, se
foi enganado ou se vinha observando os passos do tenente Zuza. Isso aconteceu na manhã de domingo
(24.11.35). Nessa época, eu não vestia
farda. Aliás, eu nunca vesti farda
porque Mário Câmara disse que eu era homem de confiança dele e mandou que fosse
tomar conta da investigação e repressão política e ainda prometeu que
promoveria a oficial, se ele fosse eleito governador”, afirmou Sizenando
Filgueira.
Por causa da sua participação no movimento de 35, ele
passou dez meses na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, além de outros longos meses
na Casa de Detenção de Natal. O tempo
integral que passou na cadeia Sizenando não sabe, “porque fui solto e preso
tantas vezes que perdi a conta”. Ele
estranha o fato de ninguém ter sabido que foi o autor do disparo que matou Luiz
Gonzaga, vulgo Doidinho, conhecido como o mártir da Polícia Militar do Rio
Grande do Norte.
- Anos depois contei a história para o desembargador João
Maria Furtado, autor do livro “Vertentes”, tendo ele me dito que não daria em
nada, pois tudo aconteceu no meio de uma revolução e atirei nele em legítima
defesa. Se eu não tivesse atirado,
talvez eu estivesse morto hoje. Quando o
livro saiu, coronel Bento Medeiros mandou me chamar para conversar sobre
isso. Mas eu confirmei tudo e disse “
foi eu quem matei”. Ele perguntou se eu
não estava enganado e eu disse que não.
Matei não foi por matar, não. Fiz para me defender. Ele estava com pontaria para mim e eu atirei
primeiro. Coronel Bento disse que aquilo
foi coisa de uma revolução mesmo, se fosse crime matar em revolução, eu pegaria
prisão perpétua. “Você em São Paulo era
conhecido como doido”, disse Bento, se referindo a minha participação impetuosa
na revolução de 32, em São Paulo, onde o major Zenóbio gostava muito de
mim. E Zenóbio chegou a ser Ministro da
Guerra, contou Sizenando Filgueira, aposentado que vive de uma pensão de
salário mínimo.
Finalizando, Sizenando diz que “o culpado de tudo, dessa
estória do herói Luiz Gonzaga, é o Dr. João Medeiros Filho. Todos os anos fazem essas comemorações para
refrescar a memória contra o comunismo.
Fazem discursos para os comunistas serem odiados pela população. Nada é verdade sobre essa história do herói
Luiz Gonzaga, que nunca foi herói de nada, tudo foi criado”. (A respeito do
assunto ver “Herói de 35 nunca foi soldado da PM”, de Luiz Gonzaga Cortez, in
Tribuna do Norte, Natal/Rn, 12/02/1995, p.1, Caderno Domingo, entrevista com
André Batista, contemporâneo de “Doidinho”, em Sacramento, hoje Ipanguassú/Rn)
JORNAL OFICIAL NÃO REGISTROU “HERÓI”
A partir de hoje, iniciamos a publicação das reportagens
do jornal do governo do Estado do Rio Grande do Norte, sobre a insurreição de
23 de novembro de 35 em Natal, inclusive fac-símile da edição de “A República”
de 29.11.35. Em nenhuma edição do jornal
governamental aparece o nome do suposto soldado Luiz Gonzaga como uma das
vítimas dos combates entre as forças legais e os insurretos. Nota: Em mensagem
enviada à Assembléia Legislativa, no segundo semestre de 1936, o governador
Rafael Fernandes Gurjão, se refere aos acontecimentos de novembro de 1935, mas
não faz nenhuma referência a soldado morto na defesa do quartel da Polícia
Militar).
Cabe aos leitores observarem que os relatos são oficiais
e abundantemente adjetivados e facciosos.
E qualquer menino pode notar isso.
A nossa intenção é fornecer o máximo de informações sobre os acontecimentos
da novembrada de 35, cujo responsáveis foram anistiados em 1945 pelo então
ditador Getúlio Vargas.
Eis a primeira reportagem do jornal do Governo do Estado
do Rio Grande do Norte sobre 35:
A REPÚBLICA – NATAL –
QUINTA-FEIRA, 28 DE NOVEMBRO DE 1935.
N.º 1465, 1ª PÁGINA.
A MALOGRADA
REBELIÃO EXTREMISTA NO ESTADO. DIAS E
HORAS DE CALAMIDADES – OS TIROTEIOS TRESLOUCADOS, AS CORRERIAS, OS SAQUES E
DEPREDAÇÕES – A LUTA NAS RUAS – A HERÓICA RESISTÊNCIA DO QUARTEL DA POLÍCIA
MILITAR – A ORGIA DOS AUTOMÓVEIS.
Natal, em toda a sua existência de cidade pacata, não
fora ainda constrangida a assistir espetáculos tão triste e de tão sangrenta
dramaticidade como os das noites e dias 23, 24, 25 e 26 do corrente, dias e
noites de desespero e horror. Sob o
domínio cruel da estupidez desenfreada dos elementos extremistas.
Pelas 19:30 horas de sábado, quando o Governador do
Estado, alguns dos seus secretários e grande parte da sociedade natalense, com
os alunos das escolas, assistiam no “Carlos Gomes” à festa de diplomação dos
Contabilistas do Colégio Marista, foram surpreendidos pela interrupção de um
levante que logo aos primeiros momentos caracterizou nitidamente extremista.
Os tiroteios esparsos pelos bairros da cidade e correrias
nas ruas, apavoraram as famílias, lançando o desassossego em todos os
espíritos. Logo mais, soube-se que elementos
do 21º BC, ligados a indivíduos de idéias sabidamente avançadas, se achavam
apossados de vários pontos da capital, paralisando o tráfego de bondes e
automóveis e tiroteando desvairadamente os pedestres que se arriscavam a
percorrer as ruas, de regresso aos lares.
Toda a noite de sábado foi assim, de incalculável
terror. Os rebeldes, no intuito de
aterrorizar a população, lançavam rajadas de
metralhadoras por toda parte. O
Batalhão de Polícia Militar, sob o comando do major Luiz Júlio, que ali se
achava em companhia do coronel Pinto Soares, comandante do 21º BC, vários
oficiais e alguns civis, trinta e poucos homens, ao todo, foi logo assediado
pelo sediciosos, que se entrincheiraram nos prédios e ruas adjacentes. O Batalhão resistiu com uma coragem
extraordinária, durante 19 horas à superioridade numérica e bélica dos
assaltantes.
Depois do assédio do Batalhão, que com seu edifício quase
desmoronando, as paredes crivadas de balas, caiu às 15 horas do domingo, a
cidade inteira se tornou campo de ambição, do ódio e dos instintos dos
masoqueiros. A caça aos automóveis
públicos e particulares, “Limousines” e caminhões “Ford” e “Chevrolet”, que se
encontravam nos depósitos de suas agências, foi um dos primeiros atos da
situação desgovernada, acéfala, confusa e titubeante. Então,
aos tiros e clamores bárbaros de rua em rua, em doida disparada, os
sublevados puseram em pé de guerra a cidade, varejando casas, praticando arrombamentos
de toda espécie, saqueando armazéns, carregando mercadorias em caminhões,
abrindo à turba sanguinária casas comerciais.
Durante os dias de horror, foram assaltadas e roubadas,
entre outras as seguintes firmas:
a)
“A Chilentes”;
b)
“M. Martins e Cia.” (Agência
Ford, com prejuízo de cerca de 200 contos );
c)
“Severino Alves Billa” (Agência
Chevrolet, com cerca de 170 contos de perda);
d)
“M. Machado” (armazéns de gêneros
alimentícios);
e)
“Cia. Sul América”;
f)
“Viana e Cia.” (ferragens);
g)
“Cia. Souza Cruz”;
h)
“M. Alves Afonso” (joalheiria);
i)
“A Paulista” (filial do Alecrim);
j)
“A Casa das Fazendas Baratas”
(molhados);
k)
“Armazéns Copacabana”.
O mercado público e os quiosques circunjacentes também
foram assaltados e depredados, sem nenhuma consideração pelos seus pobres
ocupantes que ali ganhavam a vida no pequeno comércio.
Quase todas as repartições públicas, federais e estaduais
sofreram as consequências da baixaria reinante.
Os cofres do Banco do Brasil, Banco do Rio Grande do Norte, Delegacia
Fiscal, Recebedoria de Rendas foram criminosamente arrombadas, à maçarico,
ficando os documentos, papéis públicos, selos, espalhados pelo chão, de mistura
com cinzas e detritos de destruição.
Enquanto isso, de rua em rua, procediam os rebeldes a
caça às autoridades constituídas. O
Governador Rafael Fernandes, em companhia do seu secretário e inúmeros amigos,
saiu do Teatro “Carlos Gomes” sob o tiroteio dos rebeldes, em direção a
residência do Sr. Xavier Miranda, transferindo-se depois para o Consulado da
Itália acompanhado do Dr. Aldo Fernandes, Secretário Geral do Estado. O Cônsul Sr. Guilherme Lettiére, cercou do
maior conforto o governo constituído.
Entretanto em ligação com as forças legais, o governador do Estado pôs a
par do que ia sucedendo, orientando providências e se comunicando com diversos
pontos.
O Monsenhor João da Mata, presidente da Assembléia
Constituinte, e os Drs. Gentil Ferreira, Prefeito da capital, Paulo Viveiros, Chefe do Gabinete do Governo e
Edgar Barbosa, diretor da imprensa oficial abrigaram-se durante os dias de luta
no Consulado do Chile recebendo da família dos Srs. Carlos e Amador Lamas
Elihimas as maiores demonstrações de conforto e fidalguia.
A
população da capital atravessou momentos terríveis, que as palavras mal podem
descrever. As dificuldades insuperáveis
para se conseguir gêneros alimentícios, com as ameaças constantemente feitas
pelos rebeldes, puseram pânico em Natal inteira. Enquanto isso os boatos alarmantes andavam de
ouvidos sendo os sublevados os primeiros a lançar as notícias terroristas.
As famílias que veraneavam na praia da Redinha, e que
hospedaram inúmeras pessoas foragidas desta capital, tiveram também terríveis
sobressaltos.
Os seus chefes foram intimados a se apresentar a uma
Junta Governativa constituída de elementos cuja vida progressa não autorizava
ninguém a acreditar em garantia de qualquer espécie.
Nessa praia a busca de armas foi vexatória, tendo o
pelotão que ali praticou arruaças trazido presos vários cidadãos, entre eles o
Sr. Arnaldo Lira, que aqui na casa em que se instalara a Junta Revolucionária,
foi gravemente ferido a sabre.
Temos a lamentar diversas mortes e ferimentos em pessoas
reconhecimente pacatas, contra as quais se atirava a esmo, numa caçada
selvagem. Oportunamente, publicaremos
minuciosa reportagem dessas tristes ocorrências.
O Governador Rafael Fernandes, prestigiado pelo povo e pelas
autoridades da República, tomou desde ontem as medidas mais severas de
vigilância e repressão contra esses elementos que deram ao Brasil no Rio Grande
do Norte e em Pernambuco, o mais sangrento e triste exemplo de suas verdadeiras
intenções políticas.
AO COMÉRCIO
Restabelecida a ordem pública e assegurada todas as
atividades profissionais, o comércio desta capital, que foi obrigado a cerrar
as suas portas durante os dias de terrorismo, abrirá hoje reiniciando os seus
negócios. Assim, podem os senhores
comerciantes recomeçar o seu trabalho, pois as repartições públicas, escolas e
demais estabelecimentos também funcionaram em seus expedientes regulares
retomando o ritmo normal.
TELEGRAMAS DO DR. RAFAEL FERNANDES ÀS ALTAS AUTORIDADES
DO PAÍS.
O DR. RAFAEL FERNANDES DIRIGIU ONTEM AOS EXMO. Srs.
PRESIDENTE DA REPÚBLICA, MINISTRO DE ESTADO E GOVERNADORES O SEGUINTE
TELEGRAMA:
“Tenho
pesar comunicar vossência que sábado, 19 horas, momento me achava no Teatro
Carlos Gomes assistindo festa escolar grandemente concorrida famílias rebentou
levante caráter extremista quartel 21º BC. Dentro alguns minutos vários pontos
da capital foram ocupados soldados rebeldes que iniciaram forte fuzilaria
metralhando aliados elementos extremistas.
Batalhão Polícia Militar atacado rebeldes resistiu tremendo sítio que
durou 19 horas seguidas, dada rendição Btl. Policial 15 horas Domingo, presos
seu bravo comandante dignos oficiais que souberam tão alto defender ordem
constitucional v.g. rebeldes ficaram senhores toda cidade pt. foram espalhados
boletins explicando movimento partido Aliança Libertadora sendo organizada
junta de operários soldados que se instalou residência particular governador
estado pt. Comércio, casas bancárias foram pilhados pt. cofres Banco do Brasil,
Banco do Rio Grande do Norte, Banco
Rural, Recebedoria do Estado, Delegacia Fiscal foram rebeldes arrombados
calculando-se tenham rebeldes apoderado quantia superior a 5.00:000$000 pt. Há
grande número de mortos pt. Interior Estado foi organizada resistência contra
incursão rebeldes que não puderam além Santa Cruz onde estalada bases operações
legalista pt. Momento telégrafo Capital está recompondo atividade estando
oficiais exércitos polícia respectivos quartéis ultimando providência pt. tenho
apresentar vivas congratulações vossa excelência pela vitória ordem legal
restabelecimento império lei para honra da Nação pt. respeitosas saudações.
Rafael Fernandes
Governador do Estado.”
O GOVERNADOR CONSTITUCIONAL DO ESTADO AO POVO DO RIO GRANDE DO NORTE.
NOTA OFICIAL
O
Governador Constitucional do Rio Grande do Norte, prestigiado pelo povo unanime
que não esqueceu um momento os seus sentimentos de cristandade, nos dias e nas
horas dolorosas por que passou a nossa querida terra, amparando pelas forças
legais e pela solidariedade absoluta do Governo Federal, com os poderes do
Estado legitimamente firmados em funções, recomenda aos nossos conterrâneos a
maior calma perante a situação.
Quando
o Rio Grande do Norte marchava para um período de reconstrução e trabalho, dentro
da ordem e do sossego que tranquilizava os espíritos, uma rebelião de
saqueadores tentou implantar o maior negregado regime de espoliações, assaltos
e assassínios, dominado pela violência e pela satisfação dos desenfreados
instintos de selvageria cujos resultados sinistros todos assistimos nos três
dias e nas quatro noites terríveis que atravessamos. A heróica Polícia Militar
Norte-rio-grandense durante um assédio de 19 horas, tudo fez para resistir à
avalanche dos bárbaros, mantendo-se impávida, até os derradeiros minutos, com
os seus oficiais e soldados que se cobriram de glória.
Na
defesa do regime democrático e das instituições que estão formando e dirigindo
a Nacionalidade, o Governador Rafael Fernandes conta com o grande povo
conterrâneo para colaborar na tarefa urgente de reconstrução da ordem e
composição dos elementos primordiais do Governo. O Presidente Getúlio Vargas,
autorizado pela maioria quase absoluta da Comarca e do Senado, decretou o
Estado de Sítio para o país inteiro, com suspensão das garantias
constitucionais. Entretanto, o Governo do Rio Grande do Norte garantirá a
todos, em seu lar e em sua propriedade, nas suas profissões e no seu trânsito,
sendo porém implacável na manutenção da ordem, agindo severamente contra os que
ainda quiserem lançar a confusão e promover desordens.
No
cumprimento do programa comum ao Brasil, na defesa do regime, na imposição do
respeito às famílias e aos bens, na vigilância indormida contra os masorqueiros
e propagandistas do famigerado credo político que nos acaba de dar tão
sangrento e terrível exemplo, o Governo será intransigente, agindo com a máxima
autoridade.
Assim,
fique tranquila a população natalense, que soube sofrer com heróica firmeza as
horas tristes dos assaltos, dos tiroteios loucos, das correrias selvagem dos
extremistas. Fiquem tranquilos todos os nossos conterrâneos, que o regime da
paz e da ordem, da lei e justiça, se acha assegurado em toda sua plenitude. Às
12 horas de hoje Natal viu o seu céu, que tremera sob o fragor da metralha dos bárbaros,
iluminado pelas asas serenas dos aviões do Exército e da Marinha Nacional. O
invencível 22º Batalhão de Caçadores, que se cobriu de louros nas trincheiras
do Recife, derrotando os rebeldes de Socorro, chegará ainda hoje a esta
capital, afim de mais perfeitamente tranquilizar o povo com a sua presença
confortadora.
Os
últimos comunistas sem coração e sem alma fugiram a esta notícia, debandaram em
desordem, perseguidos sempre pela nossa gloriosa polícia e por centenas de
voluntários civis que pegaram em armas para defender os sentimentos de
cristandade que nos embalam desde o berço e que nunca poderemos substituir
pelas idéias sanguinárias indesejáveis e loucas dos adeptos de uma doutrina que
procura assaltar o mundo com a sua onda de sangue e de desonra.
(NOTA
OFÍCIAL DISTRIBUÍDA ONTEM E HOJE NESTA CAPITAL E NO INTERIOR DO ESTADO ).
O CHEFE DA POLÍCIA CAIU NUMA CILADA
Conforme
prometemos na edição passada, continuamos a publicação do noticiário do jornal
oficial do Governo do Estado do Rio Grande do Norte sobre a insurreição de
novembro de 1935 em Natal, conhecida com novembrada, revolta vermelha,
intentona comunista, quartelada de 35, etc. O noticiário do jornal "A
República" de 29 de novembro de 1935, que transcrevemos hoje, também não
registra que o combate ocorrido entre revoltosos e defensores do quartel do
Batalhão da Polícia Militar, na rua das Laranjeiras, revelou um herói
supostamente chamado Luiz Gonzaga de Souza. Segundo o desembargador João Maria
Furtado, autor do livro "Vertentes", juiz de direito na época da
insurreição, Luiz Gonzaga era conhecido por "Doidinho", um agregado
do quartel da Polícia Militar e não soldado. Sizenando Filgueira disse que
matou "Doidinho" e que prendeu os oficiais da PM no mangue do Passo
da Pátria, no rio Potengi.
Mas os
arquivos da PM registram que Luiz Gonzaga foi alistado como conscrito, dias
antes de rebentar a revolta. Já o coronel da reserva da PM, Sebastião de Souza
Revoredo, que era sargento e lutou durante o tiroteio de quase 20 horas,
afirmou que Luiz Gonzaga, Doidinho, era o rapaz que ficava segurando os
"pentes" de balas da metralhadora do quartel. Por isso, ficou
conhecido como "municiador". O
coronel Revoredo, por motivos ignorados , apesar da insistência do repórter, no
restaurante da Assembléia Legislativa, que frequentava cotidianamente, jamais
quis falar profundamente sobre o assunto.Já Sizenando Filgueira da Silva, que
disse ter sido o autor do disparo que vitimou L. Gonzaga, relembra que a vítima
trajava calção cáqui, molhado, "nu da cintura para cima", no momento
que foi abatido. "O tiroteio já tinha acabado, quando prendi toda a
oficialidade do quartel. Nesse instante, vi o mato se mexendo, perto do mangue
que existia atrás do quartel. Notei que era um homem fazendo pontaria para mim
e resolvi meter bala. O tiro fez a vítima cair para trás, como estivesse dando
um pulo. Ao olhar o cadáver, notei que o calção estava molhado, como se
estivesse saído do Rio Potengi naquele instante", conta Sizenando.
O
noticiário da oitava página de A República registra detalhes da prisão do Chefe
da Polícia, João Medeiros Filho, pelos revoltosos de novembro de 35. Eis a
transcrição:
A REPÚBLICA - NATAL - SEXTA-FEIRA, 29 DE NOVEMBRO DE 1935. N.º 1466.
A
MALOGRADA REBELIÃO NO ESTADO
Em
nossa tarefa de informar ao público os
lutuosos fatos que foi campo o Rio Grande do Norte e particularmente esta
capital, durante os dias do terror extremista, continuamos hoje a publicação do
intenso noticiário dos acontecimentos ocorridos aqui e em outros pontos do
estado.
A CHEFIA DE POLÍCIA ANTE A SURPRESA DOS PRIMEIROS
TIROS – A DETENÇÃO DO DR. JOÃO MEDEIROS.
Em
companhia do governador Rafael Fernandes, também se achava no “Carlos Gomes” o
Dr. João Medeiros Filho, Chefe da Polícia do Estado, que imediatamente se
transportando ao quartel do B.P.M. e outros pontos da cidade, tomou as
providências que, surpresa do momento, se faziam necessárias à repressão de um
movimento cujo caráter logo se manifestou.
Usando de todos os meios ao seu alcance, o Dr. João Medeiros procurou entrar
em ligação com o coronel comandante do 21º BC e os oficiais, sendo porém
detido, às 22 horas do sábado, por uma cilada, dos rebeldes, que conduziram
S.S. ao quartel sedicioso.
Ali, já
se encontravam presos diversos oficiais do Exército sendo o Chefe de Polícia
fechado numa prisão infecta e sem conforto, sob as ameaças e injurias dos que
para lá o haviam atraído.
Por
duas vezes, o Dr. João Medeiros foi retirado da prisão pelos elementos mais
extremados, para ser conduzido por paizanos para lugares ignorados, aonde
certamente iriam ultimar as sucessivas ameaças feitas à sua pessoa, uma das
mais visadas pela sede de sangue dos rebeldes.
A ENÉRGICA REAÇÃO SERTANEJA
“Logo
que chegou ao Seridó a notícia do levante extremista, rebentado na noite de
sábado, o bravo coronel Dinarte Mariz à frente de uma coluna de decididos
sertanejos, partiu de Caicó em defesa do poder legalmente constituído, tendo
travado, o primeiro encontro com os rebeldes, domingo, em Serra Caiada,
conseguindo destroça-los dali seguiu em direção a Panelas, onde após cinco
horas de combate, obteve nova vitória sobre as forças sediciosas, que
debandaram, com grandes perdas, além de vários prisioneiros.
Naquela
zona a ordem foi logo restabelecida, e para sua manutenção não mediram
sacrifícios os heróicos sertanejos comandados pelo Cel. Dinarte Mariz, vivo
exemplo de bravura e lealdade.
CHEGADA DE TROPAS A ESTA CAPITAL
A bordo
do “POCONÉ” deverá chegar, hoje à noite ou amanhã, o 20º Batalhão de Caçadores,
de Alagoas, que conjuntamente com as forças da Paraíba, esperada hoje pela
manhã, no trem da Great Western, asseguração, cada vez mais, a tranquilidade do
povo mantida desde anteontem pelas forças do Governo.
RESTABELECIDO O TRÁFEGO DA GREAT WESTERN E DOS AVIÕES
Já
restabelecido o tráfego dos trens da Great Western, suspenso em virtude da
intentona extremista.
Ontem
mesmo, à hora habitual partiu o interestadual para Recife, tendo corrido, sem
nenhuma alteração no horário, conforme haviam noticiado na edição passada, os
trens da estrada de ferro central.
O
tráfego dos aviões acha-se normalizado.
Ontem, passou para o sul o avião carreira “PANAIR”. Ás 15 horas chegou, de retorno da Bahia, a
aeronave do sindicato Condor que havia deixado Natal na manhã de anteontem.
Algumas
vitimas.
Durante
os sucessivos tiroteios verificados nos diversos bairros desta capital e no
interior foram feridas, entre outras, as seguintes pessoas: Francisco Lopes, Horacio Antônio, Francisco
Vital da Silva e Raimundo Alves Pereira, soldados do 21º BC; Joaquim Barbosa, Antônio Gervásio, Severino
Mendes e João Barbosa da Silva, praças do Batalhão Policial Militar, Geraldo
Palma da Rocha; Manoel Ribeiro de Souza, ferido em Ponta Negra; Ideval Barros,
soldado do 21º BC, ferido em Panelas;
Arnaldo Lira, ferido na Vila Cincinato; Tenente José Paulino de
Medeiros, ferido no quartel do B.P.M.
Entre
outras mortes podemos registrar as seguintes pessoas: -Otacilio Werneck, morto em sua residência, à
rua General Glicerio, no bairro da Ribeira; José Pedro Celestino, morto na
Detenção: Maria Carmen Tavares; morta no Tirol; Arthur Mangabeira e Gervasio Mangabeira,
morto numa povoação do município de São Thomé (1).
OS SAQUES NO INTERIOR DO ESTADO
Diversas
cidades, vilas e povoados do interior sofreram terrivelmente durante os dias de
ganância dos extremistas provação que lhes infringiram os bandos armados. Macaíba, Ceará-Mirim, São José do Mipibú,
Vila Nova, Lagoa de Montanhas, Nova Cruz e outras localidades tiveram vários
dos seus estabelecimentos comerciais e residências particulares arrombados ou
saqueados.
VÁRIAS NOTAS:
“O Sr.
José Alves dos Santos, chefe da firma M. Martins & Cia, desta praça, foi
preso pelo extremista Epifanio Guilherme que à frente de um troço de homens
armados, exigiu daquele comerciante sob pena de não o fazendo ser
fuzilado. Abertas as portas da agência
Ford dali retiraram os extremistas todos os automóveis e caminhões existentes,
levando mais dois contos de réis em dinheiro.
O saque
feito na Dispensa Natalense da Viuva M. Machado, sucessora, foi vultoso,
calculando-se em cerca de 200 contos os prejuízos dessa firma.
Da
agência Internacional, da S. A . Wharton Pedrosa foi retirado um caminhão
“Internacional”, de capacidade de 2.850 Kilos, motor n.º 35.811 e diversos
acessórios para automóveis tudo no valor de 90.000$000.
A
agência da Texaco & Cia, em Macaíba, foi assaltada pelos revoltosos, que
levaram setenta e quatro caixas de gasolina sem que fornecessem ao respectivo
agente, Sr. José Magalhães, qualquer documento.”
NOTAS:
NATAL – SEXTA-FEIRA, 29 DE NOVEMBRO DE 1935, N.º 1466. 1ª Página.
MANUTENÇÃO DA ORDEM.
O EXMO. SR. DR. RAFAEL FERNANDES, GOVERNADOR DO ESTADO, RECEBEU ONTEM OS
SEGUINTES TELEGRAMAS:
CURRAIS NOVOS – 28, Todo o Seridó completamente calmo, havendo apenas
grupos rebeldes já destroçados que estão sendo perseguidos por nossas
forças. Vou telegrafar a três colunas
paraibanas rumavam esta zona agradecendo serviços vinham prestar nosso Estado
ao mesmo tempo fazendo ver desnecessidade continuação marcha. Acaba chegar tenente Carvalho tendo feito na
serra 28 prisioneiros com grande quantidade material bélico. Exulto brilhante vitória congratulando-me
prezado amigo. Cordiais Saudações.
Dinarte Mariz.
CANGUARETAMA – 28, Força sob meu comando acaba ocupar esta cidade e Nova
Cruz, encontrando tudo em paz. Este
comando felicita V.Excia. por ter vitoriado causa lei e não ter sido
sacrificado. Aqui aguardo ordem que as
cumprirei Saudações.
Major Elias Fernandes, comandante Batalhão Forças de João Pessoa.
NOTAS
1 – Muito sintomático o fato do jornal oficial não registrar o suposto herói da PM, mas registrou (erradamente)
dois homicídios no interior, em São Tomé, como decorrência da rebelião
militar.Ora, se tivesse morrido um herói de verdade, teria havido o registro no
jornal do governo do populista Rafael Fernandes Gurjão.
Quanto às afirmações de Sebastião Revoredo, feitas no restaurante da
Assembléia Legislativa, onde trabalhava, o repórter tentou diversas vezes uma
entrevista aprofundada, mas ele recusou, por motivos ignorados. “Eu não quero
mais falar sobre isso, não. Não gosto de falar sobre esse assunto”, disse-me o
coronel Revoredo, já falecido.
ADULTERARAM O RELATÓRIO DA INSURREIÇÃO
Relatório do delegado Enock Garcia foi republicado no livro MEU DEPOIMENTO na página 111, edição de 1937. Detalhe: não registra a morte de um tal de Luiz Gonzaga de Souza. O inquérito foi encerrado em abril de 1936, portanto mais de cinco depois da chamada "intentona comunista".
Enquanto
o aposentado Sizenando Filgueira, residente em Lagoa Seca e que não foi ressuscitado,
pois concedeu entrevista em setembro passado ( a gravação está conosco), afirma
que Luiz Gonzaga era um débil mental que ele matou nas margens do mangue do rio
Potengi, no dia 24 de dezembro de 1935, o ofício do major Luiz Júlio,
comandante do Batalhão Policial, endereçado ao Governador Rafael Fernandes, no
dia 24 de dezembro de 1935, confirma que se tratava de um soldado da PM e que
foi morto após o tiroteio que durou 19 horas.
O
citado ofício confirma que Sizenando Filgueira não é um mentiroso, mas que foi
ele e Odilon Rufino, que comandavam um grupo de rebeldes, que prenderam o
tenente-coronel Pinto Soares e o major Luiz Júlio, a uns 200 metros do quartel
do Batalhão. “O tenente José Paulino de
Medeiros, encontrando-se com uma patrulha rebelde, recebeu uma rajada de arma
automática que o atingiu no tronco e no antebraço esquerdo que teve de ser
amputado. O signatário seguia em
companhia do Tenente Coronel Pinto Soares rumo à Escola de Aprendizes Marinheiros,
quando um troço de insurrectos chefiado pelos indivíduos Odilon Rufino e
Sizenando Filgueira, fardados de Sargento do Exercito, os aprisionaram a uns
duzentos metros do Quartel tiroteiado, sendo ambos recolhidos presos ao Quartel
dos rebeldes”, afirmou o major Luiz Júlio no ofício ao governador.
No
final do ofício, o major Luiz Júlio diz que “ após a retirada deste Quartel foi
atingido e morto por certeiros tiros do inimigo, o soldado Luiz Gonzaga, que na
metralhadora pesada se salientara como um bravo.”
Por que
falsificaram?
Não foi
o repórter que disse que Luiz Gonzaga não era soldado da PM e um falso
herói-mártir da Polícia Militar do RN.
Sizenando Filgueira, que pode ser facilmente localizado, foi quem disse
que ele matou “Doidinho”, nu da cintura para cima, vestindo um calção cáqui
molhado, nos fundos do quartel da PM, no dia 24 de novembro de 35. “Essa história do herói Luiz Gonzaga foi
invenção do Dr. João Medeiros Filho para motivar comemorações anuais e
alimentar o anticomunismo”. Essa
declaração é de Sizenando Filgueira, o “S. F.”.
No seu
livro “Vertentes”, o desembargador João Maria Furtado, vitima da repressão pós
35, também sustenta a versão dita por Sizenando Filgueira. “J.M.F.” acha que o herói Luiz Gonzaga
tornou-se soldado com efeito retroativo.
Basta ler “Vertentes”.
Sem querer
servir de “refrão a inimigos do Estado Democrático” nem desafinar a harmonia da
pesquisa jornalística sobre o comunismo no RN na década de 30, onde não cabe
levantar opiniões jurídicas ou anti-jurídicas, devemos comunicar aos leitores,
a bem da verdade, que constatamos adulterações no “Relatório do Delegado da
Ordem Social (sobre a insurreição) – Departamento de Segurança Pública –
Delegacia de Ordem Social e Investigações”, datado de 18 de abril de 1936.
O
relatório foi encaminhado ao Chefe de Polícia quase cinco meses depois da
revolução comunista de 35 e não registra morte do tal soldado Luiz
Gonzaga. O relatório, assinado por Enoch
Garcia, “Del. Auxiliar responsável pela Delegacia de Ordem Social”, foi inserido
no livro “Meu Depoimento” , de autoria de João Medeiros Filho, publicado em
1937. O relatório está transcrito entre
as páginas 107 e 112 de “Meu Depoimento”, editado dois anos depois da
insurreição. E nenhum fala no soldado
Luiz Gonzaga. Por quê?
Mas no
livro “ 82 Horas de Subversão”, impresso no Centro Gráfico do Senado Federal,
em 1980, de autoria de João Medeiros Filho, chefe de polícia do RN em 1935, o
relatório do Delegado de Ordem Social, Enoch Garcia foi novamente enxertado nas
páginas 97 a 101. Mas o enxerto sofreu
uma adulteração. É no trecho “As
Victimas” (página 111 da 1ª edição de “Meu Depoimento”), na página 100 do livro
“82 Horas de Subversão”. A adulteração
enxertada no relatório está na segunda linha do intertítulo “As Víctimas”: “Soldado Luiz Gonzaga, do Batalhão Policial”. Observem que a segunda linha do citado trecho
começa com “Entre os mortos contam-se as seguintes: Octacilio Werneck assassinado barbaramente à
porta de sua residência a tiros de fuzil pelo comunista Epiphanio Guilhermino
de Oliveira”...
Por quê
a adulteração?
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