sábado, 1 de dezembro de 2012

A Revolta Comunista de 35 em Natal (IV).


VETERANO COMUNISTA DIZ QUE 35 FOI UMA PRECIPITAÇÃO.

SIZENANDO: EU MATEI LUIZ GONZAGA.

ADULTERARAM O RELATÓRIO DA INSURREIÇÃO.

CHEFE DE POLÍCIA CAIU EM CILADA.

JORNAL DO GOVERNO NÃO REGISTROU "HERÓI".


O secretário Geral do Partido Comunista do Brasil, João Amazonas, no dia 14 de agosto de 1985, após o encerramento da solenidade de instalação das comissões Regional e Municipal do PC do B, na Assembléia Legislativa do RN, respondeu a uma pergunta deste repórter sobre a natureza do movimento armado de novembro de 1935, ocorrido em Natal, Recife e Rio de Janeiro.  Como se tratava de uma solenidade e conferência sobre as atividades do seu partido na Nova República, aquele não era o momento para uma digressão aprofundada sobre 35.  Mesmo assim, Amazonas disse o seguinte sobre a insurreição militar de novembro de 35:
“- A questão é muito mais ampla, é um assunto que precisava ser examinado sob diferentes ângulos.
Eu entrei no Partido Comunista do Brasil, em abril de 1935 – há 50 anos eu era recém-membro do PC do B quando se deu o movimento da ANL e a insurreição de 35.  Mas naturalmente não é por isso que eu desconheço os fatos, porque estudamos todas as questões que se relacionam com o partido, que é o nosso dever.  Tenho impressão que:
Primeiro:  O movimento de 1935 foi patrocinado pela Aliança Nacional Libertadora, num movimento de frente única, anti-imperialista e antifascista que surgiu no Brasil com uma grande potencialidade.
Segundo:  Me parece que esse movimento e a resistência que se procurou fazer à marcha do fascismo no Brasil, não pode deixar de merecer aplausos de todos os patriotas.  Todos nós sabemos que o fascismo constituiu uma grande ameaça não somente internacional como também no nosso país.  Ameaça fascista aberta e o dever de todos nós, patriotas, democratas, era opormos decididamente contra as tentativas do fascismo.  Penso também que de qualquer maneira a ação armada que se desenvolveu em Natal, Recife e no 3º Regimento do Rio, apresentou aspectos heróicos e gloriosos.  No entanto do ponto de vista histórico, tenho a opinião de que avaliou-se mal  o momento político que se vivia.  O Governo de Vargas fechou a Aliança em agosto de 35.  E fechou porque a Aliança ganhava força em todo o país.  Pressionado pelos militares, Getúlio decidiu pôr em ilegalidade a Aliança Nacional Libertadora.
Se fosse hoje, teríamos raciocinado de maneira diferente, embora que nessa ocasião não dependeu de mim nem de companheiros que formam hoje a direção do Partido Comunista.  Outros eram os elementos.  Mas raciocinaram de maneira diferente.  O Governo fechou dentro de uma provocação.  Eu acho que se respondeu a provocação do governo tal como ele desejava.  Eu penso que foram precipitados os acontecimentos armados de novembro de 35.  É preciso dizer isso abertamente, francamente, o que não foi.  Eu creio que ao invés de depois do fechamento da ANL, pelo Governo, ao invés dos aliancistas, comunistas terem procurado reforçar a organização popular sobretudo no campo e demais movimentos das vastas áreas camponesas do Brasil, e encontrar mil e uma formas de prosseguir na luta pelos ideais que a Aliança levantava, não, precipitou-se e caiu-se na questão de resolver o problema pelas armas.  E eu acho que esse problema foi resolvido à margem da participação da grande massa do povo brasileiro.  E esse foi um dos fatores que levou à derrota esse movimento.  Se fosse hoje, no que dependesse de mim, eu não responderia dessa forma.  Eu acho que a vida nos ensinou agora, recentemente, nesses vinte e um anos, que sempre se encontrará mil e uma maneiras, desde as mais radicais às menos decisivas, menos confrontantes, formas de levar adiante o movimento e de criar as condições populares para depois acionar todo um processo que se consiga tornar vitoriosa a idéia que se defendeu.  Essa é a opinião que eu tenho a cerca do movimento de 35, falando em síntese.
“ Provocação do inimigo não se responde precipitando acontecimentos, pois a gente acaba fazendo jogo que ele desejava que se fizesse.  Quer dizer que quando o 3o Regimento de Infantaria, de Praia Vermelha, se levantou, estava totalmente cercado. Os revolucionários sequer conseguiram sair do quartel.  Ora, nessas condições, tomar iniciativa é um pouco um gesto que não encontrava apoio num raciocínio lógico.  Então, essa questão assim, que é muito mais complexa, restou um pensamento um tanto sintético, sei a maneira como reajo em relação a 35.  Nem por isso deixo de destacar 35 como marco glorioso na história das lutas do nosso povo oprimido, sacrificado e humilhado que tem o direito de, em certas circunstâncias, ter de renascer as soluções extremas, heróicas para fazer valer os seus direitos.


LINHA DO PC do B

Sobre a linha do Partido Comunista do Brasil, João Amazonas disse que o PC do B não tem “nada de linha chinesa, albanesa, soviética.  “A linha do PC do B, é elaborada no Brasil por brasileiros, de acordo com a nossa compreensão dos problemas sociais, políticos, históricos e culturais do nosso povo.  Portanto não pode ser linha de nenhum outro partido.  Somos amigos da Albânia que luta pela transformação de sua sociedade e solidários com a luta do povo albanês, do ponto de vista do internacionalismo proletário.
Mas não somos albaneses, não ligamos a questões e problemas deles.
Dou opinião sobre os nossos problemas e nunca procurei me imiscuir em assuntos de outros partidos e estados estrangeiros, mesmo sendo um estado socialista.  Sobre perseguição religiosa na Albânia, eu não falo, mas quanto ao Brasil digo que a Constituição de 46, assegurou a liberdade religiosa, pois até 46 havia perseguição religiosa feroz contra religião de homens simples e do povo pobre, ao candomblé e até seitas protestantes.  Se existe na constituição de 46 um dispositivo que assegurou a liberdade religiosa no Brasil foi de iniciativa da bancada do PC do Brasil.  O primeiro signatário foi o Deputado Jorge Amado, seguido de todos os membros da nossa bancada.  A nossa posição é de assegurar a liberdade religiosa, que é um direito que o povo tem e não podemos mudar as crenças do povo e a concepção das pessoas por decreto e com medidas de hostilidades...”

SIZENANDO: "Eu  matei Luiz Gonzaga''






Sizenando Filgueira.


“ Eu matei o falso soldado Luiz Gonzaga durante a revolução de 35 “, disse o aposentado Sizenando Filgueira da Silva, 75 anos, residente no bairro de Lagoa Seca, na manhã de quinta-feira passada.  Ele não quis ser fotografado em virtude de ter sido operado recentemente.  Sem titubear, Sizenando forneceu detalhes sobre o rapaz conhecido por Luiz Gonzaga que, por motivos desconhecidos, envolveu-se nos acontecimentos militares de novembro de 1935.
Sargento da Polícia Militar do Estado, Sizenando disse que participou dos combates da insurreição, principalmente no ataque ao quartel do “ Batalhão de Segurança” ( hoje Casa do Estudante do RN, na rua da Misericórdia ) que durou 19 horas.  Ele disse que foi o comandante do grupo de insurretos que prendeu os oficiais ( um da PM e outro do 21ºBC ), praças e sargentos da PM que tentavam fugir pelos fundos do Batalhão, na tarde do dia 24 de novembro de 1935.  Antes da rebelião, ele era encarregado da agitação no quartel e homem de confiança do interventor Mário Câmara, pois também comandava um grupo de 15 homens do serviço secreto do Chefe do Executivo.
“Ele não era herói nem militar na época.  Ele apenas era um débil mental, menor de idade, e deram-lhe um fuzil para acompanhar os que fugiam do quartel em procura da Base Naval.  Depois que fiz a prisão do major Luiz Júlio ( comandante do Batalhão da PM ), e de um coronel do Exército, eu olhava para a direita e vi quando ele estava procurando fazer pontaria para atirar.  Antes que ele atirasse, eu atirei;  só dei um tiro e ele caiu.  Ele estava por trás de uma moita, no mangue, fazendo pontaria, vi que era para mim, a uns 80 metros de distância.  O tiro foi no peito, deu um pulo e caiu para um lado e para o outro.  Aí mandei buscá-lo e botei o corpo dele ao lado dos prisioneiros, do major Luiz Júlio e do coronel Pinto Soares, comandante do 21º BC.  Eram 27 prisioneiros, inclusive o tenente Zuza ( José Paulino de Medeiros), que foi baleado no braço por um soldado da polícia.  Eu prendi o soldado da polícia e mandei Zuza para o hospital, onde foi operado pelo Dr. José Tavares e depois mandei-o ficar na casa de José Anselmo.  O tenente Zuza perdeu o braço”, disse Sizenando Filgueira, membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1932, na época em que chamava-se Partido Comunista do Brasil.  Ele disse que entrou no PCB durante a Revolução Constitucionalista de São Paulo, que participou como soldado do 29º BC de Natal.  Nos intervalos dos combates, leu dois livros marxistas emprestados pelo tenente Bicudo, do Exército.
Uma das pessoas que participaram ativamente da revolução de novembro de Natal foi o tenente Mário Cabral, da Polícia Militar, um dos manobradores da metralhadora pesada do 21º BC que ficou estacionada na casa da esquina da rua João da Mata, em frente a praça André de Albuquerque, despejando balas na frente do quartel do Batalhão de Segurança.  Mário Cabral, vestia farda do Exército durante os combates, segundo informou João Wanderley, que foi cabo telegrafista do 21º BC.
- Mário Cabral era tenente da Polícia.  Quando tomei o quartel da Polícia, na entrada tinha um presídio, com uma porta da cela do tenente Rangel.  Quebrei o cadeado e soltei Rangel.  Aí soube que Mário Cabral estava na sala da Ordem, armado.  Ele estava com o fuzil a tiracolo e abrindo as gavetas ( isso eu já disse, certa vez, ao coronel Bento, muitos anos depois ).  Mário Cabral era o único oficial que estava lá e mais três ou quatro doentes na enfermaria.  Aí eu disse a ele que se retirasse do quartel.  Ele respondeu-me que ia se apresentar e “ estou também com vocês “.  Então, vá, que eu preciso do quartel desocupado para entregar, disse para ele.  Eu quero deixar claro também que, quando foi mandado por Quintino ( sargento músico do 21ºBC, chefe militar da insurreição, natural de Serra Negra do Norte, cujo nome completo era Quintino Clementino de Barros ) para tomar o quartel só estava o cabo Walfredo, lá em cima do quartel.  Então, eu botei três muros abaixo, na rua das Laranjeiras e cheguei na casa de um bodegueiro, pai do coronel Armindo Aguiar, da Polícia Militar.  Seo Júlio, pai de Armindo, cedeu a casa dele para a gente atirar.  Mandei Odilon deixar seu Júlio na rua Padre Pinto, pois ele queria ficar lá.  Depois ficamos entrincheirados na mercearia e atirando contra o quartel da Polícia, até o fim.  Depois fui para o antigo matadouro, atrás do quartel, onde tinha uma rampa para a Estrada de Ferro, juntamente com mais quatro soldados.  Aí avistei o pessoal descendo para o mangue, mandei os soldados cercarem esse pessoal e dei voz de prisão a todos eles.  Eu disse, gritando, que se rendessem ou morreriam, pois estavam cercados.  Eles se renderam e assim prendi 27 de uma vez.  Depois que eu prendi os 27, vi uma moita se mexendo e gritei “ quem está aí? “.  “Sou eu, Sizenando não atire”, respondeu a pessoa.  Veio e me abraçou, dizendo:  “vocês não fizeram ligação comigo.  Se tivessem feito, eu tinha abafado essa merda lá dentro”.  A pessoa era o tenente Zuza.  A gente estava conversando quando apareceu o tiro no braço esquerdo dele.  O soldado que atirou quis fugir, mas eu botei o fuzil para cima e disse “tá ferrado, soldado”, e ele não pôde fugir.  Eu não sei porque o soldado atirou nele, se foi enganado ou se vinha observando os passos do tenente Zuza.  Isso aconteceu na manhã de domingo (24.11.35).  Nessa época, eu não vestia farda.  Aliás, eu nunca vesti farda porque Mário Câmara disse que eu era homem de confiança dele e mandou que fosse tomar conta da investigação e repressão política e ainda prometeu que promoveria a oficial, se ele fosse eleito governador”, afirmou Sizenando Filgueira.
Por causa da sua participação no movimento de 35, ele passou dez meses na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, além de outros longos meses na Casa de Detenção de Natal.  O tempo integral que passou na cadeia Sizenando não sabe, “porque fui solto e preso tantas vezes que perdi a conta”.  Ele estranha o fato de ninguém ter sabido que foi o autor do disparo que matou Luiz Gonzaga, vulgo Doidinho, conhecido como o mártir da Polícia Militar do Rio Grande do Norte.
- Anos depois contei a história para o desembargador João Maria Furtado, autor do livro “Vertentes”, tendo ele me dito que não daria em nada, pois tudo aconteceu no meio de uma revolução e atirei nele em legítima defesa.  Se eu não tivesse atirado, talvez eu estivesse morto hoje.  Quando o livro saiu, coronel Bento Medeiros mandou me chamar para conversar sobre isso.  Mas eu confirmei tudo e disse “ foi eu quem matei”.  Ele perguntou se eu não estava enganado e eu disse que não.  Matei não foi por matar, não. Fiz para me defender.  Ele estava com pontaria para mim e eu atirei primeiro.  Coronel Bento disse que aquilo foi coisa de uma revolução mesmo, se fosse crime matar em revolução, eu pegaria prisão perpétua.  “Você em São Paulo era conhecido como doido”, disse Bento, se referindo a minha participação impetuosa na revolução de 32, em São Paulo, onde o major Zenóbio gostava muito de mim.  E Zenóbio chegou a ser Ministro da Guerra, contou Sizenando Filgueira, aposentado que vive de uma pensão de salário mínimo.
Finalizando, Sizenando diz que “o culpado de tudo, dessa estória do herói Luiz Gonzaga, é o Dr. João Medeiros Filho.  Todos os anos fazem essas comemorações para refrescar a memória contra o comunismo.  Fazem discursos para os comunistas serem odiados pela população.  Nada é verdade sobre essa história do herói Luiz Gonzaga, que nunca foi herói de nada, tudo foi criado”. (A respeito do assunto ver “Herói de 35 nunca foi soldado da PM”, de Luiz Gonzaga Cortez, in Tribuna do Norte, Natal/Rn, 12/02/1995, p.1, Caderno Domingo, entrevista com André Batista, contemporâneo de “Doidinho”, em Sacramento, hoje Ipanguassú/Rn)

JORNAL OFICIAL NÃO REGISTROU “HERÓI”


A partir de hoje, iniciamos a publicação das reportagens do jornal do governo do Estado do Rio Grande do Norte, sobre a insurreição de 23 de novembro de 35 em Natal, inclusive fac-símile da edição de “A República” de 29.11.35.  Em nenhuma edição do jornal governamental aparece o nome do suposto soldado Luiz Gonzaga como uma das vítimas dos combates entre as forças legais e os insurretos. Nota: Em mensagem enviada à Assembléia Legislativa, no segundo semestre de 1936, o governador Rafael Fernandes Gurjão, se refere aos acontecimentos de novembro de 1935, mas não faz nenhuma referência a soldado morto na defesa do quartel da Polícia Militar).
Cabe aos leitores observarem que os relatos são oficiais e abundantemente adjetivados e facciosos.  E qualquer menino pode notar isso.  A nossa intenção é fornecer o máximo de informações sobre os acontecimentos da novembrada de 35, cujo responsáveis foram anistiados em 1945 pelo então ditador Getúlio Vargas.
Eis a primeira reportagem do jornal do Governo do Estado do Rio Grande do Norte sobre 35:

A REPÚBLICA – NATAL – QUINTA-FEIRA, 28 DE NOVEMBRO DE 1935.  N.º 1465, 1ª PÁGINA.

A MALOGRADA REBELIÃO EXTREMISTA NO ESTADO.  DIAS E HORAS DE CALAMIDADES – OS TIROTEIOS TRESLOUCADOS, AS CORRERIAS, OS SAQUES E DEPREDAÇÕES – A LUTA NAS RUAS – A HERÓICA RESISTÊNCIA DO QUARTEL DA POLÍCIA MILITAR – A ORGIA DOS AUTOMÓVEIS.

Natal, em toda a sua existência de cidade pacata, não fora ainda constrangida a assistir espetáculos tão triste e de tão sangrenta dramaticidade como os das noites e dias 23, 24, 25 e 26 do corrente, dias e noites de desespero e horror.  Sob o domínio cruel da estupidez desenfreada dos elementos extremistas.
Pelas 19:30 horas de sábado, quando o Governador do Estado, alguns dos seus secretários e grande parte da sociedade natalense, com os alunos das escolas, assistiam no “Carlos Gomes” à festa de diplomação dos Contabilistas do Colégio Marista, foram surpreendidos pela interrupção de um levante que logo aos primeiros momentos caracterizou nitidamente extremista.
Os tiroteios esparsos pelos bairros da cidade e correrias nas ruas, apavoraram as famílias, lançando o desassossego em todos os espíritos.  Logo mais, soube-se que elementos do 21º BC, ligados a indivíduos de idéias sabidamente avançadas, se achavam apossados de vários pontos da capital, paralisando o tráfego de bondes e automóveis e tiroteando desvairadamente os pedestres que se arriscavam a percorrer as ruas, de regresso aos lares.
Toda a noite de sábado foi assim, de incalculável terror.  Os rebeldes, no intuito de aterrorizar a população, lançavam rajadas de  metralhadoras por toda parte.  O Batalhão de Polícia Militar, sob o comando do major Luiz Júlio, que ali se achava em companhia do coronel Pinto Soares, comandante do 21º BC, vários oficiais e alguns civis, trinta e poucos homens, ao todo, foi logo assediado pelo sediciosos, que se entrincheiraram nos prédios e ruas adjacentes.  O Batalhão resistiu com uma coragem extraordinária, durante 19 horas à superioridade numérica e bélica dos assaltantes.
Depois do assédio do Batalhão, que com seu edifício quase desmoronando, as paredes crivadas de balas, caiu às 15 horas do domingo, a cidade inteira se tornou campo de ambição, do ódio e dos instintos dos masoqueiros.  A caça aos automóveis públicos e particulares, “Limousines” e caminhões “Ford” e “Chevrolet”, que se encontravam nos depósitos de suas agências, foi um dos primeiros atos da situação desgovernada, acéfala, confusa e titubeante.  Então,  aos tiros e clamores bárbaros de rua em rua, em doida disparada, os sublevados puseram em pé de guerra a cidade, varejando casas, praticando arrombamentos de toda espécie, saqueando armazéns, carregando mercadorias em caminhões, abrindo à turba sanguinária casas comerciais.
Durante os dias de horror, foram assaltadas e roubadas, entre outras as seguintes firmas:
a)    “A Chilentes”;
b)   “M. Martins e Cia.” (Agência Ford, com prejuízo de cerca de 200 contos );
c)    “Severino Alves Billa” (Agência Chevrolet, com cerca de 170 contos de perda);
d)   “M. Machado” (armazéns de gêneros alimentícios);
e)    “Cia. Sul América”;
f)    “Viana e Cia.” (ferragens);
g)    “Cia. Souza Cruz”;
h)   “M. Alves Afonso” (joalheiria);
i)     “A Paulista” (filial do Alecrim);
j)     “A Casa das Fazendas Baratas” (molhados);
k)   “Armazéns Copacabana”.

O mercado público e os quiosques circunjacentes também foram assaltados e depredados, sem nenhuma consideração pelos seus pobres ocupantes que ali ganhavam a vida no pequeno comércio.
Quase todas as repartições públicas, federais e estaduais sofreram as consequências da baixaria reinante.  Os cofres do Banco do Brasil, Banco do Rio Grande do Norte, Delegacia Fiscal, Recebedoria de Rendas foram criminosamente arrombadas, à maçarico, ficando os documentos, papéis públicos, selos, espalhados pelo chão, de mistura com cinzas e detritos de destruição.








Policiais de Natal contam o dinheiro apreendido com os chefes da rebelião presos em Canguaretama.

Enquanto isso, de rua em rua, procediam os rebeldes a caça às autoridades constituídas.  O Governador Rafael Fernandes, em companhia do seu secretário e inúmeros amigos, saiu do Teatro “Carlos Gomes” sob o tiroteio dos rebeldes, em direção a residência do Sr. Xavier Miranda, transferindo-se depois para o Consulado da Itália acompanhado do Dr. Aldo Fernandes, Secretário Geral do Estado.  O Cônsul Sr. Guilherme Lettiére, cercou do maior conforto o governo constituído.   Entretanto em ligação com as forças legais, o governador do Estado pôs a par do que ia sucedendo, orientando providências e se comunicando com diversos pontos.
O Monsenhor João da Mata, presidente da Assembléia Constituinte, e os Drs. Gentil Ferreira, Prefeito da capital, Paulo  Viveiros, Chefe do Gabinete do Governo e Edgar Barbosa, diretor da imprensa oficial abrigaram-se durante os dias de luta no Consulado do Chile recebendo da família dos Srs. Carlos e Amador Lamas Elihimas as maiores demonstrações de conforto e fidalguia.
A população da capital atravessou momentos terríveis, que as palavras mal podem descrever.  As dificuldades insuperáveis para se conseguir gêneros alimentícios, com as ameaças constantemente feitas pelos rebeldes, puseram pânico em Natal inteira.  Enquanto isso os boatos alarmantes andavam de ouvidos sendo os sublevados os primeiros a lançar as notícias terroristas.
As famílias que veraneavam na praia da Redinha, e que hospedaram inúmeras pessoas foragidas desta capital, tiveram também terríveis sobressaltos.
Os seus chefes foram intimados a se apresentar a uma Junta Governativa constituída de elementos cuja vida progressa não autorizava ninguém a acreditar em garantia de qualquer espécie.
Nessa praia a busca de armas foi vexatória, tendo o pelotão que ali praticou arruaças trazido presos vários cidadãos, entre eles o Sr. Arnaldo Lira, que aqui na casa em que se instalara a Junta Revolucionária, foi gravemente ferido a sabre.
Temos a lamentar diversas mortes e ferimentos em pessoas reconhecimente pacatas, contra as quais se atirava a esmo, numa caçada selvagem.  Oportunamente, publicaremos minuciosa reportagem dessas tristes ocorrências.
O Governador Rafael Fernandes, prestigiado pelo povo e pelas autoridades da República, tomou desde ontem as medidas mais severas de vigilância e repressão contra esses elementos que deram ao Brasil no Rio Grande do Norte e em Pernambuco, o mais sangrento e triste exemplo de suas verdadeiras intenções políticas.

AO COMÉRCIO

Restabelecida a ordem pública e assegurada todas as atividades profissionais, o comércio desta capital, que foi obrigado a cerrar as suas portas durante os dias de terrorismo, abrirá hoje reiniciando os seus negócios.  Assim, podem os senhores comerciantes recomeçar o seu trabalho, pois as repartições públicas, escolas e demais estabelecimentos também funcionaram em seus expedientes regulares retomando o ritmo normal.

TELEGRAMAS DO DR. RAFAEL FERNANDES ÀS ALTAS AUTORIDADES DO PAÍS.
O DR. RAFAEL FERNANDES DIRIGIU ONTEM AOS EXMO. Srs. PRESIDENTE DA REPÚBLICA, MINISTRO DE ESTADO E GOVERNADORES O SEGUINTE TELEGRAMA:


“Tenho pesar comunicar vossência que sábado, 19 horas, momento me achava no Teatro Carlos Gomes assistindo festa escolar grandemente concorrida famílias rebentou levante caráter extremista quartel 21º BC. Dentro alguns minutos vários pontos da capital foram ocupados soldados rebeldes que iniciaram forte fuzilaria metralhando aliados elementos extremistas.  Batalhão Polícia Militar atacado rebeldes resistiu tremendo sítio que durou 19 horas seguidas, dada rendição Btl. Policial 15 horas Domingo, presos seu bravo comandante dignos oficiais que souberam tão alto defender ordem constitucional v.g. rebeldes ficaram senhores toda cidade pt. foram espalhados boletins explicando movimento partido Aliança Libertadora sendo organizada junta de operários soldados que se instalou residência particular governador estado pt. Comércio, casas bancárias foram pilhados pt. cofres Banco do Brasil, Banco do Rio Grande do Norte,  Banco Rural, Recebedoria do Estado, Delegacia Fiscal foram rebeldes arrombados calculando-se tenham rebeldes apoderado quantia superior a 5.00:000$000 pt. Há grande número de mortos pt. Interior Estado foi organizada resistência contra incursão rebeldes que não puderam além Santa Cruz onde estalada bases operações legalista pt. Momento telégrafo Capital está recompondo atividade estando oficiais exércitos polícia respectivos quartéis ultimando providência pt. tenho apresentar vivas congratulações vossa excelência pela vitória ordem legal restabelecimento império lei para honra da Nação pt. respeitosas saudações.

Rafael Fernandes

Governador do Estado.”

O GOVERNADOR CONSTITUCIONAL DO ESTADO AO POVO DO RIO GRANDE DO NORTE.

NOTA OFICIAL

O Governador Constitucional do Rio Grande do Norte, prestigiado pelo povo unanime que não esqueceu um momento os seus sentimentos de cristandade, nos dias e nas horas dolorosas por que passou a nossa querida terra, amparando pelas forças legais e pela solidariedade absoluta do Governo Federal, com os poderes do Estado legitimamente firmados em funções, recomenda aos nossos conterrâneos a maior calma perante a situação.
Quando o Rio Grande do Norte marchava para um período de reconstrução e trabalho, dentro da ordem e do sossego que tranquilizava os espíritos, uma rebelião de saqueadores tentou implantar o maior negregado regime de espoliações, assaltos e assassínios, dominado pela violência e pela satisfação dos desenfreados instintos de selvageria cujos resultados sinistros todos assistimos nos três dias e nas quatro noites terríveis que atravessamos. A heróica Polícia Militar Norte-rio-grandense durante um assédio de 19 horas, tudo fez para resistir à avalanche dos bárbaros, mantendo-se impávida, até os derradeiros minutos, com os seus oficiais e soldados que se cobriram de glória.
Na defesa do regime democrático e das instituições que estão formando e dirigindo a Nacionalidade, o Governador Rafael Fernandes conta com o grande povo conterrâneo para colaborar na tarefa urgente de reconstrução da ordem e composição dos elementos primordiais do Governo. O Presidente Getúlio Vargas, autorizado pela maioria quase absoluta da Comarca e do Senado, decretou o Estado de Sítio para o país inteiro, com suspensão das garantias constitucionais. Entretanto, o Governo do Rio Grande do Norte garantirá a todos, em seu lar e em sua propriedade, nas suas profissões e no seu trânsito, sendo porém implacável na manutenção da ordem, agindo severamente contra os que ainda quiserem lançar a confusão e promover desordens.
No cumprimento do programa comum ao Brasil, na defesa do regime, na imposição do respeito às famílias e aos bens, na vigilância indormida contra os masorqueiros e propagandistas do famigerado credo político que nos acaba de dar tão sangrento e terrível exemplo, o Governo será intransigente, agindo com a máxima autoridade.
Assim, fique tranquila a população natalense, que soube sofrer com heróica firmeza as horas tristes dos assaltos, dos tiroteios loucos, das correrias selvagem dos extremistas. Fiquem tranquilos todos os nossos conterrâneos, que o regime da paz e da ordem, da lei e justiça, se acha assegurado em toda sua plenitude. Às 12 horas de hoje Natal viu o seu céu, que tremera sob o fragor da metralha dos bárbaros, iluminado pelas asas serenas dos aviões do Exército e da Marinha Nacional. O invencível 22º Batalhão de Caçadores, que se cobriu de louros nas trincheiras do Recife, derrotando os rebeldes de Socorro, chegará ainda hoje a esta capital, afim de mais perfeitamente tranquilizar o povo com a sua presença confortadora.
Os últimos comunistas sem coração e sem alma fugiram a esta notícia, debandaram em desordem, perseguidos sempre pela nossa gloriosa polícia e por centenas de voluntários civis que pegaram em armas para defender os sentimentos de cristandade que nos embalam desde o berço e que nunca poderemos substituir pelas idéias sanguinárias indesejáveis e loucas dos adeptos de uma doutrina que procura assaltar o mundo com a sua onda de sangue e de desonra.
(NOTA OFÍCIAL DISTRIBUÍDA ONTEM E HOJE NESTA CAPITAL E NO INTERIOR DO ESTADO ).



O CHEFE DA POLÍCIA CAIU NUMA CILADA




Sargento Amaro, do 21º BC, foi quem prendeu o chefe de polícia, na noite de 23 de novembro de 1935.


Conforme prometemos na edição passada, continuamos a publicação do noticiário do jornal oficial do Governo do Estado do Rio Grande do Norte sobre a insurreição de novembro de 1935 em Natal, conhecida com novembrada, revolta vermelha, intentona comunista, quartelada de 35, etc. O noticiário do jornal "A República" de 29 de novembro de 1935, que transcrevemos hoje, também não registra que o combate ocorrido entre revoltosos e defensores do quartel do Batalhão da Polícia Militar, na rua das Laranjeiras, revelou um herói supostamente chamado Luiz Gonzaga de Souza. Segundo o desembargador João Maria Furtado, autor do livro "Vertentes", juiz de direito na época da insurreição, Luiz Gonzaga era conhecido por "Doidinho", um agregado do quartel da Polícia Militar e não soldado. Sizenando Filgueira disse que matou "Doidinho" e que prendeu os oficiais da PM no mangue do Passo da Pátria, no rio Potengi.
Mas os arquivos da PM registram que Luiz Gonzaga foi alistado como conscrito, dias antes de rebentar a revolta. Já o coronel da reserva da PM, Sebastião de Souza Revoredo, que era sargento e lutou durante o tiroteio de quase 20 horas, afirmou que Luiz Gonzaga, Doidinho, era o rapaz que ficava segurando os "pentes" de balas da metralhadora do quartel. Por isso, ficou conhecido como "municiador".  O coronel Revoredo, por motivos ignorados , apesar da insistência do repórter, no restaurante da Assembléia Legislativa, que frequentava cotidianamente, jamais quis falar profundamente sobre o assunto.Já Sizenando Filgueira da Silva, que disse ter sido o autor do disparo que vitimou L. Gonzaga, relembra que a vítima trajava calção cáqui, molhado, "nu da cintura para cima", no momento que foi abatido. "O tiroteio já tinha acabado, quando prendi toda a oficialidade do quartel. Nesse instante, vi o mato se mexendo, perto do mangue que existia atrás do quartel. Notei que era um homem fazendo pontaria para mim e resolvi meter bala. O tiro fez a vítima cair para trás, como estivesse dando um pulo. Ao olhar o cadáver, notei que o calção estava molhado, como se estivesse saído do Rio Potengi naquele instante", conta Sizenando.
O noticiário da oitava página de A República registra detalhes da prisão do Chefe da Polícia, João Medeiros Filho, pelos revoltosos de novembro de 35. Eis a transcrição:

A REPÚBLICA - NATAL - SEXTA-FEIRA, 29 DE NOVEMBRO DE 1935. N.º 1466.

A MALOGRADA REBELIÃO NO ESTADO

Em nossa tarefa de  informar ao público os lutuosos fatos que foi campo o Rio Grande do Norte e particularmente esta capital, durante os dias do terror extremista, continuamos hoje a publicação do intenso noticiário dos acontecimentos ocorridos aqui e em outros pontos do estado.
A CHEFIA DE POLÍCIA ANTE A SURPRESA DOS PRIMEIROS TIROS – A DETENÇÃO DO DR. JOÃO MEDEIROS.


Em companhia do governador Rafael Fernandes, também se achava no “Carlos Gomes” o Dr. João Medeiros Filho, Chefe da Polícia do Estado, que imediatamente se transportando ao quartel do B.P.M. e outros pontos da cidade, tomou as providências que, surpresa do momento, se faziam necessárias à repressão de um movimento cujo caráter logo se manifestou.  Usando de todos os meios ao seu alcance, o Dr. João Medeiros procurou entrar em ligação com o coronel comandante do 21º BC e os oficiais, sendo porém detido, às 22 horas do sábado, por uma cilada, dos rebeldes, que conduziram S.S. ao quartel sedicioso.
Ali, já se encontravam presos diversos oficiais do Exército sendo o Chefe de Polícia fechado numa prisão infecta e sem conforto, sob as ameaças e injurias dos que para lá o haviam atraído.
Por duas vezes, o Dr. João Medeiros foi retirado da prisão pelos elementos mais extremados, para ser conduzido por paizanos para lugares ignorados, aonde certamente iriam ultimar as sucessivas ameaças feitas à sua pessoa, uma das mais visadas pela sede de sangue dos rebeldes.

A ENÉRGICA REAÇÃO SERTANEJA

“Logo que chegou ao Seridó a notícia do levante extremista, rebentado na noite de sábado, o bravo coronel Dinarte Mariz à frente de uma coluna de decididos sertanejos, partiu de Caicó em defesa do poder legalmente constituído, tendo travado, o primeiro encontro com os rebeldes, domingo, em Serra Caiada, conseguindo destroça-los dali seguiu em direção a Panelas, onde após cinco horas de combate, obteve nova vitória sobre as forças sediciosas, que debandaram, com grandes perdas, além de vários prisioneiros.
Naquela zona a ordem foi logo restabelecida, e para sua manutenção não mediram sacrifícios os heróicos sertanejos comandados pelo Cel. Dinarte Mariz, vivo exemplo de bravura e lealdade.

CHEGADA DE TROPAS A ESTA CAPITAL

A bordo do “POCONÉ” deverá chegar, hoje à noite ou amanhã, o 20º Batalhão de Caçadores, de Alagoas, que conjuntamente com as forças da Paraíba, esperada hoje pela manhã, no trem da Great Western, asseguração, cada vez mais, a tranquilidade do povo mantida desde anteontem pelas forças do Governo.


RESTABELECIDO O TRÁFEGO DA GREAT WESTERN E DOS AVIÕES

Já restabelecido o tráfego dos trens da Great Western, suspenso em virtude da intentona extremista.
Ontem mesmo, à hora habitual partiu o interestadual para Recife, tendo corrido, sem nenhuma alteração no horário, conforme haviam noticiado na edição passada, os trens da estrada de ferro central.
O tráfego dos aviões acha-se normalizado.  Ontem, passou para o sul o avião carreira “PANAIR”.  Ás 15 horas chegou, de retorno da Bahia, a aeronave do sindicato Condor que havia deixado Natal na manhã de anteontem.
Algumas vitimas.
Durante os sucessivos tiroteios verificados nos diversos bairros desta capital e no interior foram feridas, entre outras, as seguintes pessoas:  Francisco Lopes, Horacio Antônio, Francisco Vital da Silva e Raimundo Alves Pereira, soldados do 21º BC;  Joaquim Barbosa, Antônio Gervásio, Severino Mendes e João Barbosa da Silva, praças do Batalhão Policial Militar, Geraldo Palma da Rocha; Manoel Ribeiro de Souza, ferido em Ponta Negra; Ideval Barros, soldado do 21º BC, ferido em Panelas;  Arnaldo Lira, ferido na Vila Cincinato; Tenente José Paulino de Medeiros, ferido no quartel do B.P.M.
Entre outras mortes podemos registrar as seguintes pessoas:  -Otacilio Werneck, morto em sua residência, à rua General Glicerio, no bairro da Ribeira; José Pedro Celestino, morto na Detenção:  Maria Carmen Tavares;  morta no Tirol;  Arthur Mangabeira e Gervasio Mangabeira, morto numa povoação do município de São Thomé (1).

OS SAQUES NO INTERIOR DO ESTADO

Diversas cidades, vilas e povoados do interior sofreram terrivelmente durante os dias de ganância dos extremistas provação que lhes infringiram os bandos armados.  Macaíba, Ceará-Mirim, São José do Mipibú, Vila Nova, Lagoa de Montanhas, Nova Cruz e outras localidades tiveram vários dos seus estabelecimentos comerciais e residências particulares arrombados ou saqueados.



VÁRIAS NOTAS:


“O Sr. José Alves dos Santos, chefe da firma M. Martins & Cia, desta praça, foi preso pelo extremista Epifanio Guilherme que à frente de um troço de homens armados, exigiu daquele comerciante sob pena de não o fazendo ser fuzilado.  Abertas as portas da agência Ford dali retiraram os extremistas todos os automóveis e caminhões existentes, levando mais dois contos de réis em dinheiro.
O saque feito na Dispensa Natalense da Viuva M. Machado, sucessora, foi vultoso, calculando-se em cerca de 200 contos os prejuízos dessa firma.
Da agência Internacional, da S. A . Wharton Pedrosa foi retirado um caminhão “Internacional”, de capacidade de 2.850 Kilos, motor n.º 35.811 e diversos acessórios para automóveis tudo no valor de 90.000$000.
A agência da Texaco & Cia, em Macaíba, foi assaltada pelos revoltosos, que levaram setenta e quatro caixas de gasolina sem que fornecessem ao respectivo agente, Sr. José Magalhães, qualquer documento.”

NOTAS:


NATAL – SEXTA-FEIRA, 29 DE NOVEMBRO DE 1935, N.º 1466.  1ª Página.

MANUTENÇÃO DA ORDEM.

O EXMO. SR. DR. RAFAEL FERNANDES, GOVERNADOR DO ESTADO, RECEBEU ONTEM OS SEGUINTES TELEGRAMAS:

CURRAIS NOVOS – 28, Todo o Seridó completamente calmo, havendo apenas grupos rebeldes já destroçados que estão sendo perseguidos por nossas forças.  Vou telegrafar a três colunas paraibanas rumavam esta zona agradecendo serviços vinham prestar nosso Estado ao mesmo tempo fazendo ver desnecessidade continuação marcha.  Acaba chegar tenente Carvalho tendo feito na serra 28 prisioneiros com grande quantidade material bélico.  Exulto brilhante vitória congratulando-me prezado amigo.  Cordiais Saudações.
Dinarte Mariz.


CANGUARETAMA – 28, Força sob meu comando acaba ocupar esta cidade e Nova Cruz, encontrando tudo em paz.  Este comando felicita V.Excia. por ter vitoriado causa lei e não ter sido sacrificado.  Aqui aguardo ordem que as cumprirei Saudações.
Major Elias Fernandes, comandante Batalhão Forças de João Pessoa.

NOTAS
1 – Muito sintomático o fato do jornal oficial não registrar o suposto herói da PM, mas registrou (erradamente) dois homicídios no interior, em São Tomé, como decorrência da rebelião militar.Ora, se tivesse morrido um herói de verdade, teria havido o registro no jornal do governo do populista Rafael Fernandes Gurjão.
Quanto às afirmações de Sebastião Revoredo, feitas no restaurante da Assembléia Legislativa, onde trabalhava, o repórter tentou diversas vezes uma entrevista aprofundada, mas ele recusou, por motivos ignorados. “Eu não quero mais falar sobre isso, não. Não gosto de falar sobre esse assunto”, disse-me o coronel Revoredo, já falecido.


ADULTERARAM O RELATÓRIO DA INSURREIÇÃO


Relatório do delegado Enock Garcia foi republicado no livro MEU DEPOIMENTO na página 111, edição de 1937. Detalhe: não registra a morte de um tal de Luiz Gonzaga de Souza. O inquérito foi encerrado em abril de 1936, portanto mais de cinco depois da chamada "intentona comunista".


Enquanto o aposentado Sizenando Filgueira, residente em Lagoa Seca e que não foi ressuscitado, pois concedeu entrevista em setembro passado ( a gravação está conosco), afirma que Luiz Gonzaga era um débil mental que ele matou nas margens do mangue do rio Potengi, no dia 24 de dezembro de 1935, o ofício do major Luiz Júlio, comandante do Batalhão Policial, endereçado ao Governador Rafael Fernandes, no dia 24 de dezembro de 1935, confirma que se tratava de um soldado da PM e que foi morto após o tiroteio que durou 19 horas.
O citado ofício confirma que Sizenando Filgueira não é um mentiroso, mas que foi ele e Odilon Rufino, que comandavam um grupo de rebeldes, que prenderam o tenente-coronel Pinto Soares e o major Luiz Júlio, a uns 200 metros do quartel do Batalhão.  “O tenente José Paulino de Medeiros, encontrando-se com uma patrulha rebelde, recebeu uma rajada de arma automática que o atingiu no tronco e no antebraço esquerdo que teve de ser amputado.  O signatário seguia em companhia do Tenente Coronel Pinto Soares rumo à Escola de Aprendizes Marinheiros, quando um troço de insurrectos chefiado pelos indivíduos Odilon Rufino e Sizenando Filgueira, fardados de Sargento do Exercito, os aprisionaram a uns duzentos metros do Quartel tiroteiado, sendo ambos recolhidos presos ao Quartel dos rebeldes”, afirmou o major Luiz Júlio no ofício ao governador.
No final do ofício, o major Luiz Júlio diz que “ após a retirada deste Quartel foi atingido e morto por certeiros tiros do inimigo, o soldado Luiz Gonzaga, que na metralhadora pesada se salientara como um bravo.”
Por que falsificaram?
Não foi o repórter que disse que Luiz Gonzaga não era soldado da PM e um falso herói-mártir da Polícia Militar do RN.  Sizenando Filgueira, que pode ser facilmente localizado, foi quem disse que ele matou “Doidinho”, nu da cintura para cima, vestindo um calção cáqui molhado, nos fundos do quartel da PM, no dia 24 de novembro de 35.  “Essa história do herói Luiz Gonzaga foi invenção do Dr. João Medeiros Filho para motivar comemorações anuais e alimentar o anticomunismo”.  Essa declaração é de Sizenando Filgueira, o “S. F.”.
No seu livro “Vertentes”, o desembargador João Maria Furtado, vitima da repressão pós 35, também sustenta a versão dita por Sizenando Filgueira.  “J.M.F.” acha que o herói Luiz Gonzaga tornou-se soldado com efeito retroativo.  Basta ler “Vertentes”.
Sem querer servir de “refrão a inimigos do Estado Democrático” nem desafinar a harmonia da pesquisa jornalística sobre o comunismo no RN na década de 30, onde não cabe levantar opiniões jurídicas ou anti-jurídicas, devemos comunicar aos leitores, a bem da verdade, que constatamos adulterações no “Relatório do Delegado da Ordem Social (sobre a insurreição) – Departamento de Segurança Pública – Delegacia de Ordem Social e Investigações”, datado de 18 de abril de 1936.
O relatório foi encaminhado ao Chefe de Polícia quase cinco meses depois da revolução comunista de 35 e não registra morte do tal soldado Luiz Gonzaga.  O relatório, assinado por Enoch Garcia, “Del. Auxiliar responsável pela Delegacia de Ordem Social”, foi inserido no livro “Meu Depoimento” , de autoria de João Medeiros Filho, publicado em 1937.  O relatório está transcrito entre as páginas 107 e 112 de “Meu Depoimento”, editado dois anos depois da insurreição.  E nenhum fala no soldado Luiz Gonzaga.  Por quê?
Mas no livro “ 82 Horas de Subversão”, impresso no Centro Gráfico do Senado Federal, em 1980, de autoria de João Medeiros Filho, chefe de polícia do RN em 1935, o relatório do Delegado de Ordem Social, Enoch Garcia foi novamente enxertado nas páginas 97 a 101.  Mas o enxerto sofreu uma adulteração.  É no trecho “As Victimas” (página 111 da 1ª edição de “Meu Depoimento”), na página 100 do livro “82 Horas de Subversão”.  A adulteração enxertada no relatório está na segunda linha do intertítulo “As Víctimas”:  “Soldado Luiz Gonzaga, do Batalhão Policial”.  Observem que a segunda linha do citado trecho começa com “Entre os mortos contam-se as seguintes:  Octacilio Werneck assassinado barbaramente à porta de sua residência a tiros de fuzil pelo comunista Epiphanio Guilhermino de Oliveira”...
Por quê a adulteração?

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