sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A REVOLTA COMUNISTA DE 35 EM NATAL (V)


A República, jornal do governo do Estado, considerou "heróicos" três oficiais da Polícia Militar.

Texto de Luiz Gonzaga Cortez.


NA PRAIA DO MEIO SE TRAMOU A REVOLTA



Com 25 anos de idade, João Batista Galvão, natural de Mossoró, secretário do Atheneu Norte-rio-grandense, aclamado nas ruas por uma multidão de insurretos, estudantes e simpatizantes, recebeu o cargo de “Ministro da Viação e Obras Públicas” do curto “Governo Popular Revolucionário”, que dominou a capital durante quatro dias, em novembro de 1935.
Mas, devido a ampla atuação burocrática durante os dias da revolução comunista e da Aliança Nacional Libertadora, organização de fachada do Partido Comunista do Brasil-PCB, João B. Galvão foi cognominado de “Primeiro Ministro” da insurreição que implantou o primeiro governo marxista-leninista no continente americano.
Casado com Maria Amélia da Nóbrega Santa Rosa (prima da esposa de Juvenal Lamartine – um dos “coronéis” do Estado – dona Silvina Lamartine), ele contraiu núpcias no dia 27 de outubro de 1928, quando tinha 18 anos de idade e já era membro do Partido Comunista do Brasil.  Participou das lutas estudantis de Natal e do Recife, para onde viajava constantemente para participar das reuniões da Aliança Nacional Libertadora (1935), codinome do Partido Comunista do Brasil.
Seu sogro, Cipriano Bezerra Galvão Santa Rosa, era partidário da Aliança Liberal. Por isso, João Galvão e sua família decidiram assistir ao comício da “Caravana de Batista Luzardo”, caudilho gaúcho, que se realizaria no bairro da Ribeira no dia 7 de fevereiro de 1930. Mesmo sabendo que o comício iria ser metralhado pela Polícia de Juvenal Lamartine, governador do Estado, Galvão e irmãos foram para o Hotel Internacional, na esquina da rua Chile com a rua Tavares de Lira, onde haveria posteriormente um banquete oferecido à caravana de Batista Luzardo, João Neves de Fontoura, cônego Olímpio de Melo e outros.
Com a revolução vitoriosa de 1930, a família de João Galvão, adversária dos políticos oligarcas e decaídos do Partido Popular, de José Augusto B. de Medeiros, recebeu a Prefeitura Municipal de Acari. Cipriano B. Galvão Santa Rosa, seu sogro, foi nomeado Prefeito Provisório de Acarí. Batista, delegado Regional de Polícia do Seridó, com sede em Acarí. Meses depois abandonou o cargo e veio para Natal, conforme declarações prestadas pelo seu filho, major da reserva remunerada do Exército, Cipriano Olyntho Santa Rosa Galvão, residente na avenida Nascimento de Castro, Morro Branco.

INGRESSO NO COMUNISMO

“Quem iniciou o meu pai no comunismo foi o seu amigo Adamastor Pinto, filho do coronel José Pinto, em 1928. Em Recife, nas reuniões do PC, ele recebia orientações de Lima Cavalcanti que, anos mais tarde, viria a se tornar Interventor de Pernambuco. No meio das suas atividades políticas, ajudava o seu sogro, Cipriano Bezerra Galvão Santa Rosa, na luta contra as oligarquias do Estado, representadas pelo Partido Popular, no tempo da República Velha. Em 1935, a família saiu de Acarí e veio morar em Natal, oportunidade em que meu pai empregou-se como secretário do Atheneu. Alugou uma casa na praia do Meio, na avenida que se chamaria Café Filho, perto do entroncamento do final da Ladeira do Sol, precisamente na frente do antigo “salva-vidas”. Nessa casa, o PC faria as reuniões noturnas. Nós, meninos (eu tinha 5 anos) não gostávamos de ficar do lado de fora da casa, enquanto se realizavam as reuniões. Nessas ocasiões, os chefes do PC daqui se reuniam numa mesa que ficava no centro de uma sala de visitas com portas e janelas fechadas. Adamastor Pinto, Lauro Cortez Lago, José Macedo, Praxedes e outros participavam dessas reuniões. Lembro-me também que um militar de São Paulo, chamado Cabanas, coronel ou tenente da Força Pública de São Paulo, veio a Natal, de navio, e participou de uma reunião, meses antes da revolução de novembro de 1935. Um vizinho, seo Honório, que era eletricista, quis denunciar o “aparelho subversivo” à polícia, mas não deixaram. Além dessa casa, o PC promovia reuniões debaixo dos postes de iluminação pública da cidade, com grupos de três comunistas. As decisões do “Comitê Regional”, que se reunia na nossa casa, eram passadas para os grupos dos postes, que, por sua vez, deveriam retransmiti-las para os outros comunistas.  O homem que fazia a ligação do CR com o grupo de poste mais próximo era Waldemar Diniz Henriques, militar do 21º BC. A casa pertencia a um judeu, José Palatnik, que nunca soube das reuniões do PC. À cerca de 20 metros morava Lauro Cortez Lago.
“Aproximando-se a revolução, meu pai mandou-nos para a “Fazenda Fortaleza”, em Acarí, de propriedade do sogro. Minha mãe, Maria Amália, pediu que o meu o pai não entrasse na revolução. Ele respondeu: “Eu já estou no movimento e vou participar”.
Nós fomos para Acari e ele ficou na casa da sua mãe, Cândida de Miranda Fontes Galvão, na avenida Rio Branco, n.º 711. Meu pai me contou que a revolução começou às 21 horas do dia 23 de novembro, mas a minha avó não permitiu que ele saísse de casa, tendo em vista que o tiroteio estava muito intenso. Na manhã de domingo, dia 24, ele disse para a mãe que ia sair para comprar carne no mercado, que ficava na mesma rua, onde hoje é a agência do Banco do Brasil. Minha avó nunca viu essa carne... (risos). Essa carne foi o pretexto para ele sair de casa. Quando ele andava pela avenida Rio Branco, esquina com a rua Ulisses Caldas, uma turba aclamou-o "Primeiro Ministro" e saíram carregando-o nos braços. A multidão levou-o para o Palácio do Governo, na praça Sete de setembro e para a Vila Ciccinato, onde funcionou a sede do chamado Governo Popular Revolucionário. Sem nenhuma atividade militar, apesar de ter pegado uma farda de oficial do Exército no primeiro dia da revolução, durante o período da insurreição ele ficou na Vila Cinccinato, na praça Pedro Velho, em frente ao Palácio dos Esportes "Djalma Maranhão". Exerceu apenas atividades burocráticas com o título de "Ministro da Viação e Obras Públicas" do 1º governo bolchevista das Américas. O comandante militar da revolta foi o sargento Quintino Clementino de Barros, do 21º BC. Durante esse período, ele não apareceu na casa da sua mãe, pois ficou na Vila Cinccinato.
Ele me contou que não chegou a conhecer os planos militares, inclusive o ataque ao quartel da Polícia Militar, pois era outro pessoal que lidava com esses assuntos. Outra coisa que precisa ser desmentida é sobre os famosos "salvos condutos", que apareceram depois do fracasso da revolução, com a assinatura do meu pai. Os salvos condutos com assinatura dele eram assinados "João Batista Galvão". Os que apareceram com "João Baptista Galvão" não foram dados por ele, pois não gostava de colocar o p.", disse Cipriano Santa Rosa Galvão, militar que se orgulha de ter passado 30 anos no Exército Brasileiro (1).

FUGA DOS ENGRAVATADOS

Cipriano conta que o seu pai lhe revelou que a revolução fracassou porque foi iniciada no dia 23 e não no dia 27 de novembro de 35, conforme estava planejado. A antecipação da revolta foi provocada por erro cometido pela pessoa que traduziu o telegrama codificado que veio do Rio de Janeiro (2).
“Não sei quem foi que descodificou o telegrama. Meu pai me dizia que os revolucionários não estavam preparados para a revolução, pois faltaram-lhes adestramento militar, suprimento, organização e pessoal de apoio. Por isso, muita gente se aproveitou da revolução. No dia 27 ele estava na Vila, quando chegaram Lauro Lago e José Macedo. Os dois disseram: "João, a revolução está fracassada. Vamos fugir!". De imediato, os três pegaram um trem e desembarcaram em Canguaretama. Todos trajados de paletós, gravatas, bolsas e chapéus. Esse foi o erro da fuga. Você já pensou três homens fugindo de paletó? Em seguida, entraram na "Mata da Estrela", uma mata muito fechada, conduzindo 600 contos de réis, muito dinheiro na época. O objetivo era atingir, a pé, Baía Formosa, onde então o grupo se dispersaria. Mas não chegaram às barcaças porque José Macedo cansou, pois era muito gordo, tendo os três decidido parar e dormir no meio da mata. Dormiram na mata perto da linha férrea da "Estrada de Ferro Central do RGN". Depois da dormida, meu pai teve o pressentimento de que iriam ser presos, tendo dito isso para Lauro e José Macedo. "Cachorro por perto é sinal de que tem gente por aqui", disse o meu pai ao amanhecer. Meu pai cavou um buraco para esconder os 200 contos de réis que conduzia. Foi o único que escondeu o dinheiro que levava. Em seguida, os 3 foram cercados e presos pela polícia da Paraíba e o delegado de Canguaretama. Meu pai contou-me que o delegado de Canguaretama notou que em certo local haviam folhas mexidas - era o local em que estava o dinheiro.  A polícia apreendeu 20 mil réis que estavam no bolso dele, uma pequena quantia comparada com a que deixou enterrada. O engraçado é que o delegado de Polícia de Canguaretama pouco depois tornou-se próspero comerciante e permaneceu rico até pouco tempo", disse Cipriano Santa Rosa Galvão.

ESPANCAMENTOS E TORTURAS


Cipriano Galvão, em foto de 1985.


Cipriano revelou ainda que, João Batista Galvão e José Macedo, "Ministro das Finanças" da revolução, foram os que mais apanharam dos policiais. Galvão passou vários dias incomunicável, inicialmente no quartel da PM, de onde era sempre retirado e levado por uma "tintureira" para as bandas do morro, atrás do Esquadrão de Cavalaria, no Tirol. Lá, os PMs promoviam sessões de fuzilamentos simulados ou encostavam os fuzis na nuca dos presos, enquanto um sargento ou oficial da PM contava até três e dava ordem de "Fogo!". "As torturas psicológicas foram muitas", conta Cipriano Galvão, acrescentando ainda que o sargento PM Aristides Cabral era o mais cruel torturador, apoiado pelo Dr. Ivo Trindade.
Batista Galvão passou 18 meses na cadeia, principalmente na Casa de Detenção (hoje Centro de Turismo de Natal). Nesse período, em consequência dos espancamentos, perdeu um rim. "Ele apanhou tanto que um companheiro de cela, um homicida comum, conhecido por Chico Caetano, certa vez não permitiu que ninguém batesse nele e ainda ameaçou os policiais, dizendo: "esse rapaz já apanhou demais e hoje não vou deixar ninguém bater nele. Quem entrar aqui, morre. Eu não tenho nada a perder". E os policiais não entraram. Depois achando que ele ia morrer, pois estava muito doente, mandaram-no para uma casa da praça André de Albuquerque, transformada em Presídio Político, onde hoje funciona o Sindicato dos Contabilistas. Como disseram que ele ia morrer, a família o conduziu numa cama, pelas ruas da cidade; desde o presídio até a casa de minha avó, na Av. Rio Branco. Mas, na casa de minha avó ele melhorou e novamente retornou para o Presídio e Casa de Detenção. O médico José Ivo Cavalcanti, ao vê-lo em péssimo estado de saúde, decidiu tratá-lo gratuitamente, no Hospital Miguel Couto, (hoje  Hospital Universitário "Onofre Lopes", tendo a família se cotizado para mantê-lo em um quarto de segunda classe.  Em 1937, chegou uma ordem do Ministro da Justiça, Macedo Soares, para liberar os presos que não tinham roubado dinheiro na revolução.  Meu pai e diversas figuras de proa da revolução foram soltas.  No mesmo dia, houve uma recepção na casa do professor Joaquim de Fontes Galvão, irmão do meu pai, que foi fotografado por João Alves.  Nessa recepção, a família decidiu que teria que ser providenciada a fuga dele, pois todos pressentiram que a ordem de soltura seria revogada.  E de fato aconteceu a revogação, mas João Galvão já tinha fugido", disse Cipriano Santa Rosa Galvão.

QUEM RESPEITAVA DIREITOS HUMANOS?

Os que foram soltos pela "Macedada" e permaneceram em Natal, retornaram à Casa de Detenção.  Galvão não retornou porque sua família alugou um táxi por 100 mil réis e conduziram-no para Jardim do Seridó, juntamente com a esposa, Maria Amália (viva) e as filhas Dalila e Mariana, homiziando-se na fazenda do Cel. Zuza Gorgônio Nóbrega, e providenciou a remoção imediata para São Mamede, Paraíba, onde ficaram na fazenda "São José", de Janúncio Abdon da Nóbrega, que hospedou e deu guarida a família fugitiva durante vários meses.  Mas Cipriano quer falar sobre uma pessoa que teve destacada participação no Governo de Rafael Fernandes, após o fracasso da revolução comunista.
"Durante a revolução, o Governador Rafael Fernandes e alguns dos seus auxiliares ficaram homiziados na casa de Xavier Miranda, primo de João Batista Galvão, que não mandou prendê-los porque não se pretendia a prisão deles.  O objetivo era deixar a revolução ser vitoriosa;  não era matar o Governador e seus auxiliares.
Quando se aproximava a hora do embarque dos presos de Natal para o Rio de Janeiro, no navio Butiá, minha avó foi falar com o governador Rafael Fernandes, na segunda tentativa, pois na primeira ele não quis recebê-la.  Na Vila Cinccinato, na praça Pedro Velho, minha avó pediu que o meu pai não fosse embarcado para o Rio de Janeiro, em virtude do seu grave estado de saúde.  Rafael Fernandes perguntou:  "Então, o seu filho é um anjo?".  A minha avó respondeu:  "Sim, é um anjo, pois se não fosse ele,  o senhor não estaria vivo.  João Batista sabia que o senhor estava na casa de Xavier e não mandou prendê-lo".  No mesmo instante, Rafael Fernandes disse para dona Cândida Miranda Fontes Galvão que ele não iria embarcar.  Por isso, meu pai continuou preso em Natal e jamais conheceu a cidade do Rio de Janeiro.
Trinta minutos antes do Butiá zarpar do porto de Natal, o chefe de polícia, Dr. João Medeiros Filho, autorizou que João Batista Galvão ficasse em Natal.  João Medeiros, como Chefe de Polícia era o maior responsável pela situação dos presos políticos e nada fez para impedir as sevícias e espancamentos sofridos pelo meu pai, apesar de na época, ele ser casado com uma prima da minha mãe.  Como ele se diz um democrata, eu desejo declarar que Direitos Humanos só existem para os amigos, pois nós sabemos que ele não respeitou os Direitos Humanos dos presos de 1935", afirmou Cipriano Santa Rosa Galvão.

ABANDONOU O COMUNISMO

Cipriano informa que o seu pai tinha conhecimentos do marxismo, pois chegou a ler obras de autores marxistas, apesar de ter negado ser comunista durante os interrogatórios prestados na polícia de Natal.  "Réu-confesso não tem defesa".  Cipriano lembra que o seu pai ficou muito magoado com a covardia de inúmeros comunistas de Natal, que tiveram medo de participar da revolução de 35.  Também lembrou que João Batista Galvão recebeu a visita de um membro do Partido Comunista do Brasil, com sotaque e aparência de estrangeiro, quando estava internado no Hospital Miguel Couto.  O enviado do "Socorro Vermelho" ofertou 200 mil réis para ajudá-los na compra de remédios, etc.  O estrangeiro perguntou-lhe se não desejaria morar na União Soviética, após ser solto.  Batista respondeu, categórico, que nunca sairia do Brasil.
"Após a redemocratização do Brasil, com a queda da ditadura de Getúlio Vargas, o PC de Natal não prestigiou os comunistas da "Velha Guarda", entregando a direção ao Dr. Manoel Vilaça, Jacob Volfson, Osvaldo Lamartine e muitos outros, conforme afirma Cipriano.
"Em 1946, ele me perguntou o que queria ser na vida.  Eu disse que queria ser Oficial do Exército.  "O que o partido fez por mim e por vocês?  Nada.  Abandonou os velhos comunistas.  Vou fazer uma carta à direção renunciando a condição de membro do partido, pois não quero mais saber de comunismo.  Eu não consegui ser Oficial do Exército.  Você quer ser e vá sê-lo".  Isso foi o que o meu pai me disse, na oportunidade em que externei a vontade de ingressar na Escola de Cadetes, o que ocorreu em 1947.  Em 1953, já era aspirante da Academia Militar das Agulhas Negras - AMAN.  Se no Exército sabiam ou não que eu era filho de um comunista, eu não sei, pois nunca houve a menor má vontade e perseguição comigo.  O Exército ainda é a organização mais democrática do Brasil e do mundo, apesar da imagem deixada pelos fatos ocorridos após 1964", afirmou Cipriano, que prepara um trabalho biográfico sobre João Batista Galvão.

GALVÃO VIROU CONTRABANDISTA


João Batista Galvão, que foi o "Primeiro Ministro" do "Governo Popular Revolucionário" de Natal, na sua fuga da perseguição policial, após ser liberado em 1937, passou vários meses na Fazenda São José, município de São Mamede, Paraíba, de propriedade de Janúncio Abdon da Nóbrega.  "Jamais andou sozinho", afirma o seu filho Cipriano Olintho Santa Rosa Galvão, major da reserva do Exército.
Depois homiziou-se nas fazendas de Pedro Ferreira e Manoel de Souza Lima, em Barra da Santa Rosa - PB, além de outras propriedades da família Queiroga, em Campina Grande e Pombal.  "A nossa família mudava sempre de local por causa da perseguição.  Por isso, papai teve várias carteiras de identidade na Paraíba, graças as amizades que os familiares tinham no governo de Argemiro Figueiredo, mesmo sabendo que o meu pai era comunista.  Os meus tios mandavam dinheiro para nós, mas papai gostava de dar aulas para os empregados das fazendas e de dar uma de médico.  Ele fazia isso para não ficar parado e compensar a ajuda dada pelos fazendeiros.  Todos esses fazendeiros sabiam que meu pai era comunista, mas ajudavam, pois testemunhei isso.  Passei três meses com ele, na Paraíba.  Em 1941, ele resolveu ir embora.  Foi para o Ceará e Piauí.  Tornou-se vendedor de leite em Floriano, PI, com 31 anos e vendia o produto na "Leiteria Rex".  Subiu para o Pará e lá tornou-se soldado da borracha para chegar a Manaus, Amazonas e Boa Vista, território de Roraima, onde chegou a vender contrabando.  Anistiado, em 19 de abril  retornou ao RN no dia 26 de dezembro de 1945 e, em 1951, separou-se de minha mãe, Maria Amália, que hoje tem 80 anos, residente em Acari, disse Cipriano Santa Rosa, lembrando a vida do seu pai, João Batista Galvão, o "Primeiro Ministro" da revolução comunista de 35 em Natal.(3) 

A REVANCHE DE ACARI



A segunda parte da entrevista de Cipriano Santa Rosa Galvão, será publicada em outra reportagem. (3)  De próprio punho, ele prestou o seguinte depoimento sobre a prisão de familiares, na cidade de Acari, por adversários políticos, em virtude da participação de João Batista Galvão no "Governo Popular Revolucionário" de Natal.
Na íntegra, a declaração de Cipriano:  "Os Valentes" de Acari, à frente o prefeito Gil de Brito, prenderam através do tenente Severino Bezerra, delegado local, o Coronel Cipriano Bezerra Galvão Santa Rosa, seu filho Januncio Nóbrega Santa Rosa e os amigos Severino Barroso, Antônio Gouveia, e o motorista Egídio e amigos de Cruzeta.  Um ato de covardia personificada.  Prenderam-nos em cadeia comum, sem direito a um leito e alimentação, esquecendo-se de que o Cel. Santa Rosa tinha sido Prefeito de Acari cinco vezes, deputado provincial e oficial superior da Guarda Nacional, título lhe conferido pelo Imperador Pedro II, cujos direitos e honras a República não os revogara.  Tal ato se traduzia na esperança de que o movimento, se vitorioso, atingisse Acari, eles serviriam de reféns, uma vez que o Cel. Santa Rosa e Janúncio eram sogro e cunhado de João Batista, respectivamente."

NOTAS:


1-           Cipriano Santa Rosa Galvão, da reserva remunerada do Exército, não foi localizado após 10.11.85, data da publicação desta entrevista em "O POTI" (Natal-RN).
Diz-se que mudou-se para um cidade da região Norte e que aparece em Natal, esporádicamente.

2-           Em "Natal do Meu tempo", Ivanaldo Lopes (Cia. Editora do RN - CERN - Natal -RN - 1985), dá a sua versão sobre a precipitação da insurreição de Natal:  "... Fora um erro de data, consequência de má interpretação de uma mensagem codificada.  Esta dizia assim 2 + 3= 12.  Entenderam eles tratar-se de 23 de Novembro, pois, pelas convenções, havia sempre o recuo de um mês, daí a falta de unidade no levante que seria geral, isto é, no Brasil inteiro" (p. 67). Ivanaldo Lopes, já falecido, era filho do capitão da Polícia Militar do RN, Genésio Lopes, Delegado de Ordem Social, em 1935 (ob. Cit., p. 73), falecido em 1986 com a patente de Coronel.  Ivanaldo Lopes não cita a fonte que originou a versão da tal "mensagem codificada".
3- Em virtude do tratamento superficial do repórter na XIII reportagem desta série, “Agente da polícia antecipou a revolta”, referente à palestra do professor Homero Costa na mesa redonda sobre o Movimento de 35, promovida pelo mestrado de Ciências Sociais da UFRN, em setembro de 1985, no auditório da Reitoria , é nosso dever adicionar, neste livro, o pensamento do palestrante sobre a "Intentona". Eis a carta : 

São Paulo, dezembro de 1985


Amigo Cortez:

Infelizmente não tive condições de acompanhar pelo "O Poti", o conjunto de suas reportagens sobre "O Comunismo e as lutas policiais no Rio Grande do Norte na década de 30".  Há pouco, enviado por um amigo comum, é que pude fazê-lo.  Na última, a XX da série, há, entre outras matérias, um resumo de uma exposição que eu fiz, por ocasião de um Seminário promovido pelo Mestrado de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.  Como, a meu juízo, em face do conteúdo do que foi resumido (fiz uma exposição de pouco mais de 1 hora e foi transcrito 2 parágrafos ), além de não dar uma idéia precisa do que expus, em especial, o último parágrafo, está muito confuso, com frases entrecortadas, o que poderia dar uma idéia de confusão que, espero, não ter feito na exposição... Em função disso e da importância que atribuo a essas matérias cuja tentativa de resgate da história política do Estado e em especial de um acontecimento que, por sua importância, transcende seus limites, gostaria de, em primeiro lugar, fazer alguns reparos, para em seguida, fazer um resumo de minha exposição.
1º) Eu não disse em nenhum momento que a ANL era  "uma frente do PCB". Seria uma extrema simplificação.  O que eu fiz, dentro dos limites de minha exposição, foi, entre outras coisas, historiar  a ANL, de sua formação - final de março de 1935 até o 11 de julho do mesmo ano, quando Vargas a coloca na ilegalidade.  A partir de então, as células operativas da ANL, passaram a ser, basicamente células do PCB atuando em nome da ANL...

2º) Eu não afirmei que Miranda era policial.  Disse apenas que havia versões nesse sentido -–o que é diferente.  A meu ver, ele não era um elemento policial infiltrado no Partido (se não, não fazia sentido seu longo tempo na prisão após o levante...).  E, se passou a colaborar com a polícia, deve ter sido após a morte de sua companheira, Elza, a mando da direção do Partido.

3º) Há uma foto na matéria, com uma legenda que “Professor afirma que Revolução foi Marxista”.  Na verdade, não cometi tal heresia... Em nenhum momento, durante toda a exposição, me referi a um ou outro termo.  Nem considero que foi revolução ( e de resto quem estudou minimamente o tema...) nem muito menos usei, como complemento, o termo marxista...

São esses os reparos principais que eu teria para fazer.  No que diz respeito a minha participação no debate sobre o levante de 1935 (que infelizmente não pôde contar com a participação de Prestes e do Giocondo, como estava previsto), faço um brevíssimo resumo:

De início salientei a importância de um estudo aprofundado sobre a insurreição militar de novembro de 1935, que, a despeito das recentes publicações sobre o tema, permanece ainda como um enigma.  Daí eu crer que, a nível mais geral, ainda está por ser feita uma rigorosa pesquisa histórica, que torne menos obscuro o levante.  Nesse sentido, considero seu trabalho da maior importância.
Após algumas considerações preliminares, tentei mostrar que a história dos acontecimentos que vão culminar em novembro de 1935 tem de necessariamente incorporar uma série de componentes que vão, desde a composição do movimento tenentista até as inflexões da Internacional Comunista.  No que diz respeito a IC fiz um breve relato dos seus Congressos e a questão dos “países semi-coloniais”.  E, claro, sobre o PCB, cujo nome não sem razão está associado ao movimento.  Ele vai representar igualmente um momento de inflexão:  significa a ruptura com o PCB anterior (em especial, as direções que assumem pós 1930).  Creio que as modificações ocorridas na composição social do partido nesse período é um fator importante na opção pela via insurrecional (com a adesão de alguns militares ao partido):  Ao mesmo tempo, claro, que tem a ver com a IC:  o levante só pode ser entendido como evento da etapa de transição tática do chamado “III Período” para as “Frentes Populares”.  E em relação ao método insurrecional creio que correspondia a tendências de outros períodos no âmbito da IC (citei alguns casos) e nesse sentido, era importante debater a questão da insurreição como via de revolução.  Isso tem a ver também com uma determinada leitura, presente dos documentos da IC, que tende a estabelecer uma articulação mecânica entre o imperialismo e as facções políticas internas.  No caso do Brasil, há uma certa leitura “militarista”, herança da coluna Prestes.
Finalmente, me referi ao caso específico de Natal, que, a meu juízo, tinha muito mais a ver com a situação política do Estado naquele momento.
É isso aí, caro amigo.  Continue firme no seu trabalho.  Há muito ainda que ser dito.  Talvez não para as classes dominantes – e as forças armadas em particular – que tem repetido à saciedade os mesmos argumentos anticomunistas nos últimos 50 anos – mas para a esquerda que, de um lado, pelo que pude perceber, há uma certa visão apologética e no caso específico no PCB, um silêncio de certa forma constrangido, com uma enorme dificuldade de enfrentar esse problema no curso de sua história.  Não desejo alongar muito esta carta.  Escrevo na expectativa de que, caso você venha publicar novas matérias sobre o tema, torne público também esses meus “reparos” e considerações.

Um grande abraço,
do amigo
Homero
Mr. BRAUNER QUASE ERA FUZILADO


Hoje os leitores lerão textos referentes ao gerente da empresa Bond and Share, mister Brauner, que explorava o transporte coletivo de Natal, na época da revolução de novembro de 1935;  as peripécias do cidadão Luiz Paulo, residente na rua Ari Parreiras, Vila São Paulo, 206, Alecrim, que viu muita gente correndo com medo de comunistas e as retificações de João Wanderley (vide entrevista publicada em outra reportagem desta série) a respeito do 21º Batalhão de Caçadores.  Ele explica porque o quartel do Exército em Natal tinha muita gente de fora e a atuação de Giocondo Dias em episódio da Revolução Constitucionalista de São Paulo em 1932.  O relato sobre o diálogo de João Galvão, Ministro da Viação no governo revolucionário de 35, com o cidadão Joseph Williams, o Mister Brauner foi me revelado por um filho de participante do tiroteio da Serra do Doutor, José Bezerra de Araújo, Haroldo Bezerra, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.  A versão desse fato, segundo o informante, foi lhe revelado pelo próprio João Galvão, “que ria pra burro quando contava essa história”.  Já as quatro últimas linhas das retificações de João Wanderley referem-se ao fato dele ter dito que tinha visto “três navios branquinhos no estuário do rio Potengi”..

GENRO DE LAMARTINE AMEAÇADO
Entre as muitas histórias que circulam sobre os acontecimentos de novembro de 1935 em Natal, existe uma que me foi contada por um Secretário de Estado, amigo do atual governador que por seu valor histórico, apesar de meio humorístico, não pode deixar de ser revelado. (1)
Conforme me foi contado, no primeiro dia do Governo Popular Revolucionário (noite de 24.11.35), os bondes foram retirados de circulação por ordem do gerente da empresa “Bond and Share”, Joseph Williams, conhecido como Mister Brauner, inglês que era casado com a Sra. Paulina Lamartine, filha do ex-governador Juvenal Lamartine.  Mister Brauner já faleceu.  Dona Paulina reside em São Paulo.  Em virtude da paralisação do sistema de transporte coletivo, o Ministro da Viação, João Batista Galvão, no seu gabinete instalado na Villa Ciccinato, sede do Governo Revolucionário, convocou Mister Brauner para convencê-lo a botar os bondes na linha.
Diante das explicações de Galvão de que o governo e a população da cidade do Natal necessitavam, urgentemente da normalização dos serviços de transportes urbanos, o gerente da empresa britânica disse para João Galvão que o clima revolucionário da cidade impedia que colocasse os bondes em circulação.  Galvão tornou a explicar que quem mandava na cidade era o Governo Revolucionário.  Mas o britânico, na sua calma peculiar, misturando português e inglês, disse para Galvão:  “Doutor Galvão, o senhor é um dos Chefes do Governo da Revolução, mas a situação não inspira confiança.  Os bondes são propriedades de sua Majestade  Britânica e eu não quero causar prejuízos a ela.”
Tendo observado que Mister Brauner estava teimoso e com medo de colocar os bondes na linha, o Ministro João Galvão chamou o seu ajudante de ordem, conhecido por Tarol e lhe ordenou:
“- Tarol, prepare o pelotão de fuzilamento para agora mesmo”.
Como observou que a ordem era pra valer, Mister Brauner de imediato, disse:  “Não precisa chamar o pelotão de fuzilamento.  Vou mandar botar os bondes na linha agora mesmo”.  Brauner saiu da Vila Ciccinato direto para o escritório da “Companhia de Força e Luz”, que ficava vizinho a Estrada de Ferro Central do RN, outra empresa que sofria forte influência cafeística e comunista.  No dia seguinte os bondes voltaram a trafegar com a tarifa 100% mais barata.
PERIPÉCIAS
“Em 1935, eu tinha 17 anos, e cursava a 2ª série no Ateneu da Junqueira Aires.  Naquele maravilhoso Ateneu lecionavam grandes Mestres – Pe. Monte, Dr. Luiz Antônio, Luiz Torres, Valdemar de Almeida, Câmara Cascudo, Véscio Barreto e tantos outros...
Pouco ou quase nada me lembro do que se falava no Ateneu e nas ruas, sobre a política da época.  Porém a estudantada do velho Ateneu era brava, estudiosa imitando a centenária Coimbra em Natal.  Estudavam já na última série do Ateneu, em 1935, valores como Geraldo Fernandes, Paulo Pereira Luz, Raimundo Nonato, e outros que ilustram a vida norte-rio-grandense.
Ouvi falar que na novembrada que durou só três dias em Natal; queimaram parte do arquivo do Ateneu e me parece que houve um Decreto promovendo todo mundo em vista da falta dos mapas escolares.
João Galvão, que foi membro da Junta Governativa instalada na Vila Ciccinato, na Praça Pedro Velho, em 1935, se não me engano era da Secretaria do Ateneu; e forte, alto, alvo, bravo, poeta e sonhador, era filho de nobre família natalense.  Este foi preso e depois conseguiu meios e ficou guardado muito tempo não sabemos onde.
Mais tarde, João Galvão reaparece e sempre bravo e inteligente demais forma-se advogado e passou a dar “quinau” em muito figurão.
Certa vez ouvi João Galvão contar que passava em uma rua do Grande Ponto, quando ouviu os tiros no velho quartel do Exército e logo lhe apareceu um amigo que lhe disse: “- Olha, já começou o tiroteio.  Você vai ou não vai?...”  E  nisso ele cheio de coragem e mocidade respondeu:  “ora vamos até lá...”
Conheci também Rosemiro Henrique de Freitas, isto na Penha ou Canguaretama em 1943.  Rosemiro era natalense e perdera o irmão Indaleto de Freitas, de 12 anos, no tiroteio havido contra a caravana de Batista Luzardo, no Hotel Internacional que ficava na Tavares de Lira, em 1930.  Aconteceu que Indaleto de Freitas, muito curioso subiu e ficou agarrado num poste apreciando os discursos, quando o tiroteio fechou contra os caravaneiros que pregavam os ideais da Revolução de 1930, veio uma bala doida e matou o menino.
Sei que houve uma rua com o nome de Indaleto, porém algum falso profeta conseguiu apagar depois... (É parecido com o caso do Palácio Djalma Maranhão, amaldiçoado por falsos profetas, e depois reabençoado por eles mesmos forçados pelo remorso, talvez...).
Rosemiro de Freitas era baixo, vibrante, autodidata famoso, e foi condenado como um dos intelectuais da Novembrada, a cinco anos de cadeia:  tirou uns três anos na Ilha no Rio e o restante tirou na cadeia de Canguaretama.  Certo dia quando Rosemiro fez as contas do tempo de cadeia verificou que já tinha tirado mais 6 meses do que devia e logo reclamou o seu alvará de liberdade.  Ele me contou que já na Ilha trabalhavam, mas os guardas da Ilha não permitiram nem chupar uma laranja que caísse no chão.  Ele guardava com muito carinho um número do jornal “A LIBERDADE” que ele ajudou a redigir no dia da revolta de 1935.
Eu não era de nada, tinha 17 anos, cursava a 2ª série do lendário Ateneu, ali eu entrara assombrado e quiseram me dá um purgante, como minhas pernas eram muito finas se condoeram e me bateram pouquinho.  Em novembro de 1935, numa Quinta-feira 21, eu de férias fui para o sitio Porto, em Nísia Floresta e no sábado pela manhã mandei um bilhete para a professora Germana Silva, (hoje com 74 anos e muito lúcida), e no bilhete eu dizia para ela que era Integralista ou Camisa Verde.  No final do bilhete, não sei hoje nada da razão, porque escrevi:  Anauê!  Anauê! prepara as pernas para correr!; e não é que às 7 horas da noite já corria em Natal muita gente, e dos Anauês e Integralistas, sei que ficou muito pouco...
(Porém na verdade confesso de nada eu não sabia;  e de política nada eu entendia.  Até uma vez eu ouvia um brilhante intelectual do integralismo discursando na sede do Partido que ficava embaixo do Edifício Leite, Alecrim, e no entusiasmo do discurso, ele exclamou.  “Estes Camisas vermelhas ou comunistas”, e eu que estava com uma camisa vermelha fugi... pois entendi que o orador estava me achando com cara de comunista).
A carreira e a surra de muriçocas começa aqui:  os meus bons parentes, amigos valiosos, Lermes Silva e Clodoaldo Cruz, ambos moços e gerentes de duas lojas no Alecrim, eram entusiastas Camisas Verdes.  Eram de confiança e de bravura, eram mesmo da linha de frente.
Quando começou o tiroteio no quartel da cidade, a população do Alecrim ficou curiosa para saber de que se tratava e não tardou a notícia da revolta no quartel e mais tarde Revolução Comunista.  Estes dois amigos com outros passaram a investigar pelas ruas, com muita cautela tudo e acreditavam em alguma reação mais positiva.  No domingo já às 16 horas, tudo estavam em poder dos vermelhos, e o Lermes e o Clodoaldo, temendo serem apanhados e jogados na cadeia ou coisa pior, pegaram um revólver 38, cano longo do patrão, José Leopoldino, dono da loja de calçados, e rumaram numa fuga para Nísia Floresta, pois sabiam que lá eu estava num sítio, romperam muito mato, e na segunda-feira, 25, era dez horas, vi eles apontarem no terreiro famintos e rasgados nas roupas.  Logo tomei providências de comidas e exigi assombrado que eles fossem ficar no mato próximo e lá eu daria as notícias e lhes levaria o comer.  Diante do meu assombro eles me atenderam, acho que mais com pena de mim do que por medo, lá ficaram até 8 horas da noite, quando as muriçocas que eram demais lhes deram em cima e não suportando, eles vieram para a casa onde me achava.  Logo na chegada deles em casa, ouvimos uma saraivada de balas, e eu tremendo, os empurrei para o mato e fui com eles mas lá ninguém suportou e viemos para casa outra vez.  Depois eu soube que as balas já eram fugitivos da Revolução que passaram ali às tontas.  Logo em seguida os meus dois hóspedes foram à sede do município e se incorporaram aos legalistas que armados já prendiam os revoltosos em debandada.  Dou fé.  Luiz Paulo”.

WANDERLEY CONTA MAIS SOBRE O 21º  BC

O 29º BC saiu em fins de 1932 de Natal para SP e retornou em fins do mesmo ano, depois de participar da Revolução Constitucionalista.
O 21º BC também saiu do Recife, em 1932, para combater a Revolução Constitucionalista no interior do Mato Grosso e São Paulo.  No nordeste de Mato Grosso, o 21º BC tentou se rebelar e ficar ao lado dos “Constitucionalistas” de São Paulo.  Por isso, como castigo, o 21º BC foi removido para o Amazonas, na fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia, que estavam em guerra.  O 21º BC não retornou a Recife e somente chegou a Natal no dia 13 de agosto de 1933, ocupando o quartel do 29º BC na rua Junqueira Aires.
“No meio do efetivo do 21º BC estavam soldados, cabos e sargentos de Pernambuco, Bahia e Pará.  Eu ingressei no Exército em Recife”.  Entre eles diversos soldados, cabos e sargentos que participaram da quartelada contra o interventor de Pernambuco, Carlos Lima Cavalcanti, usineiro e bicha assumido.  Giocondo Dias, que esteve no Mato Grosso, São Paulo e Amazonas, veio no meio desse povo e sempre foi impetuoso e líder durante os três meses de Revolução Constitucionalista 9 de julho.  Certa vez o capitão Caronbet Pereira da Costa precisou de seis voluntários para uma missão de reconhecimento da posição dos paulistas, nas margens do rio Sucuriú, em Três Lagoas, pois eles estavam com 2 canhões Krupp e nós com dois canhões Scheineder, martelando o nosso efetivo.  Então, Giocondo foi o primeiro a dar um passo à frente e, em seguida, cinco homens fizeram o mesmo.  Caronbet levou os 6 homens, fez o reconhecimento e o croqui.  Depois ordenou 3 disparos de canhão que destruíram os 2 canhões Krupp”.
“Os navios mexicanos ficaram no meio do rio Potengi, na altura do caís do porto.  Talvez dois ou três navios estivessem emparelhados.  Só vi três navios, mas talvez fossem cinco.  Os avisos  franceses de Latoécere ficavam ancorados no depósito flutuante, em frente a  atual Base Naval”, disse João Wanderley.
NOTA:


1-           O informante foi Haroldo de Sá Bezerra, Secretário da Fazenda do Estado do RN no governo José Agripino Maia, filho de José Bezerra de Araújo, fazendeiro e político em Currais Novos, já falecido.
2 – Segundo informou o escritor Hypérides Lamartine de Faria, Clóvis, seu pai, estava em Natal durante o governo revolucionário de 1935 e manteve contacto telefônico com Quintino Clementino de Barros, seu conterrâneo, em virtude dos rumores de que a sua família estava ameaçada de prisão. Pery tinha 10 anos e estava em Serra Negra do Norte. Clóvis indagou de Quintino sobre a natureza do movimento. “É um movimento de natureza comunista e viemos para ganhar, mas vocês não se preocupem, não, que não vamos mexer com vocês. Pode avisar a família”, teria dito Quintino a Clóvis. O filho de Juvenal desejou boa sorte a Quintino. Dias depois,  revolução derrotada, Juvenal Lamartine e família desembarcou do navio que os trazia da Europa. A família Faria e o político Dinarte Mariz retribuíram o gesto de Quintino em 1945, após a anistia, dando-lhe meios para sair da prisão, na ilha de Fernando de Noronha



MENELEU, DE TIPÓGRAFO A INDUSTRIAL, CONTA COMO IMPRIMIU O JORNAL DA REVOLUÇÃO, A LIBERDADE


Para desfazer muitas mentiras divulgadas sobre a revolução de novembro de 1935, principalmente as referentes à sua pessoa, um simples tipógrafo sem envolvimento direto com a insurreição militar, o industrial Francisco Meneleu dos Santos, residente em Fortaleza-CE, concedeu esta entrevista ao Diário de Natal.
Meneleu tinha 18 anos quando foi preso pela primeira vez, na noite de 27 de novembro de 1935, no quartel do Batalhão da Polícia Militar, na “Salgadeira” (hoje rua das Laranjeiras - Cidade Alta), onde centenas de presos políticos estavam trancafiados.  Naquela noite, no meio de dezenas de presos (“gente fina”), vestidos de paletó e gravata, ele passou pelo “corredor polonês”, formado por policiais armados com “rabo de galo” (uma espécie de facão que era usado pelos PMs para dar no povo), mas não sofreu nenhuma bordoada por causa do seu corpo franzino.
Natural de Areia Branca/RN, Francisco Meneleu chegou ainda menino na cidade de Mossoró.  Onde aprendeu a trabalhar como tipógrafo.  Trabalhou em Macau, na tipografia de seu Antunes, quando foi convidado por João Café Filho para trabalhar no “O Jornal”, que funcionava na rua Tavares de Lira, em frente a loja “4.400”, no bairro da Ribeira-Natal.

COMO VIROU “REVOLUCIONÁRIO”



Meneleu (ao centro) visitou a gráfica de A República no final do século passado. Ao lado, sua esposa, dona Lourdinha, ambos falecidos em Fortaleza, em 2010 e 2011, respectivamente. Na ocasião, ele visitava a gráfica onde imprimiu o jornal A Liberdade.



Depois de trabalhar vários meses no jornal de Café Filho, Meneleu ingressou na tipografia “A Comercial”, do major José Pinto, onde trabalhava de dia.  De noite, fazia “serão” no jornal católico “A Ordem”, na rua Dr. Barata.  Lá, ele tinha um companheiro e amigo, Abner.
Foi num desses “serões” (extra) na Ordem, noite de 23.11.35, que interrompeu o seu trabalho por alguns minutos para ouvir o tiroteio na cidade, pois não sabia do que se tratava.
“Passamos a noite dentro da Ordem, sem dormir direito.  Na manhã do dia 24, chegaram vários soldados do Exército, fardados e armados, que mandaram que todos os tipógrafos saíssem do jornal e se dirigissem para A República.  Saímos na marra, escoltados e avisados que iríamos fazer um jornal da revolução, A Liberdade.  Apesar de termos passado a noite sem dormir, fomos obrigados a aceitar a convocação.  E quem não iria?  Não estávamos numa revolução? Então, fomos eu, Loiola Barata, Abner, Israel Alves Pedroza, Ubirajara Pedroza, Pedro de tal e outros cujos nomes não me recordo.  Era um grupo de 8 a 10 tipógrafos.  Passamos dois dias trabalhando na confecção do jornal A Liberdade, cujos nomes dos seus redatores não me lembro porque não tinha contato com eles (1).  Eu era considerado como um dos melhores tipógrafos e fiquei com a responsabilidade de fechar o jornal.  Quando tinha acabado as matérias, ficou um espaço em branco na última página.  Então, procurei alguma coisa para encher o espaço e não encontrei nenhuma matéria.  A solução foi colocar um clichê de “Sal de Fruta Eno”, que estava jogado no chão de A República.  Não sei se o revendedor de Natal gostou daquilo.  Só sei que a solução foi aquela, sem nenhum objetivo de prejudicar ninguém.  Também não sei se houve consequências negativas para o vendedor de Sal de Fructa Eno (risos).

NO MEIO DE GENTE FINA
“Na noite do dia 27, um dedo-duro apontou o meu nome para a polícia que foi me prender na “república” em que morava, na rua Frei Miguelinho, na Ribeira.  Nos fundos da república, eu tinha uma pequena tipografia, para os meus biscates.  Os policiais entraram na casa, depois de arrombarem a porta e levaram a minha mala e 30 mil réis, as minhas economias.  Levaram até as minhas calças.  Fui conduzido para o quartel do 21º Batalhão de Caçadores, onde o Capitão Aluízio Alves de Moura, um moreno, forte e carrancudo, perguntou o que eu estava fazendo ali.  Eu contei o que tinha feito e ele perguntou:  “Só fez isso?  Então, vá para a sua casa.  Não matou ninguém, então vá embora”.  Fui para a casa do “major” José Pinto que, por sua vez, mandou que eu fosse para a minha “república”.  Foi aí que fui preso novamente pela polícia.  Desta vez, fui conduzido para o quartel do Batalhão da PM.  Às 22 horas do dia 27 de novembro, depois de escapar ileso do “corredor polonês”, os “tintureiros” (carros da polícia) levaram a gente para a Casa de Detenção, em Petrópolis, onde passamos 6 dias separados dos presos comuns.  Em seguida, fomos para a Escola de Artífices, na avenida Rio Branco, Cidade Alta.  Passei mais de um mês na Escola de Artífices, tendo sido o melhor período de prisão que passei na minha vida, pois vinha comida de hotel, com sobremesa, para os presos.  A maioria era médicos, jornalistas, dentistas, advogados, engenheiros, tudo gente fina.  Me lembro bem do Dr. Nizário Gurgel, dentista, João Maria Furtado, Amaro Magalhães e os filhos dele, Ramiro Magalhães e outros.  Meu pai, que morava em Mossoró, apesar de muito pobre, foi a Natal quando soube que eu estava preso.  Falou com o major Solon, um homem que gozava de muito prestígio no governo de Rafael Fernandes.  Só sei que o major Solon conseguiu a minha soltura e fui embora para Mossoró em janeiro de 1936.  Como se nada tivesse acontecido, me alistei no Tiro de Guerra de Mossoró, onde permaneci até 1938, trabalhando e vivendo a minha vida, tranquilamente.  Certo dia, alguém trouxe um jornal de Natal para mim, com uma notícia que trazia o meu nome como condenado a 6 anos e 6 meses, à revelia.  Eu quase caía para trás, porque fiquei sabendo que a minha condenação era resultado das acusações feitas pelos meus companheiros tipógrafos.  Eles disseram que eu tinha pegado um fuzil e ameaçado todo mundo para fazer o jornal A Liberdade, inclusive montando guarda na República.  Tudo mentira, pois nós, tipógrafos, fizemos a mesma coisa na confecção do jornal da revolução.  É claro que eles se aproveitaram do fato de eu estar em Mossoró e jogaram toda a culpa para cima de mim.  Todos eles foram absolvidos.  O delegado de Mossoró, Capitão Severino Elias, uma ótima pessoa, sabia que eu não era comunista e não mandava me prender, mesmo sabendo que eu era um condenado.  Eu era benquisto em Mossoró e ele dizia “enquanto eu não receber ordem de prisão, eu não lhe prendo”.  Certo dia, capitão Elias recebeu a ordem e mandou avisar Raul Caldas, engenheiro químico de Mossoró.  Uma pessoa boníssima e inteligente.  Raul Caldas, meu amigo, me procurou e ofereceu dinheiro e um automóvel para eu ir embora para onde quisesse.  Mas resolvemos que eu devia me apresentar, pois eu não tinha feito nada demais, apenas cumprido ordens dos revolucionários para fazer o jornal deles.  Mesmo assim, passei um mês em Mossoró, trabalhando na firma de Raul Caldas, onde já estava há vários meses.  Por causa de uma denúncia, a polícia teve que me colocar na detenção de Mossoró, ficando lá até meados de 1941, quando veio uma ordem de Aldo Fernandes, Secretário Geral do Governo do Estado.  Fui escoltado para Natal e trancafiado na Casa de Detenção de Petrópolis.  Minha esposa tinha 14 anos e ficou gravemente doente em Mossoró, mas não conseguimos autorização de Aldo Fernandes para que eu fosse visitá-la.  Aldo Fernandes negou a ordem sob a alegação de que eu estava preso por determinação do Ministro da Justiça.  Isso era uma grande mentira, pois eu não era um preso de importância. Apesar da negativa de Aldo Fernandes, o capitão José Medeiros, diretor da Detenção, me deu dinheiro e passagem para eu viajar para Mossoró. Fui, visitei a minha mulher e retornei para Natal. Em 1943, retornei a Mossoró para cumprir o resto da pena. Após a minha liberdade, fui empregado no dia seguinte por Vicente Carlos Sabóia Filho, Saboínha, na secção de engenharia da Estrada de Ferro de Mossoró, trabalhando ao lado do Dr. Ciarline. Saboínha era um homem bom e dele jamais esqueci”, conta Francisco Meneleu dos Santos.

GOSTANDO DO COMUNISMO

Francisco Meneleu dos Santos, residente no bairro da Varjota, em Fortaleza-CE, onde o repórter foi entrevistá-lo, é proprietário de uma fábrica de carimbos e etiquetas no centro da capital alencarina. Ele não tem nenhum ressentimento do então chefe de polícia do RN, João Medeiros Filho, autor do livro “82 Horas de Subversão”, no qual Meneleu é descrito como um dos responsáveis pela confecção do jornal A Liberdade e de ter vigiado, armado de fuzil, os tipógrafos de A Ordem e A República.
Esse relato sobre mim foi todo baseado nos processos elaborados pela polícia. A verdade é que os meus colegas tipógrafos se acovardaram e jogaram toda a culpa para cima de mim. É natural que o pessoal, preso em Natal, sofrendo humilhações na prisão, me denunciasse como o culpado. Só que as acusações não eram verdadeiras. João Medeiros não inventou nada contra mim, apenas transcreveu os processos. No ano passado, fui apresentado a ele na porta de um hotel.  Já Mário Cabral, que foi tenente da Polícia Militar do RN, seguidor de Mário Câmara, eu fiz questão de visitá-lo em sua residência, em Natal. Mário Cabral sempre foi um homem resoluto e de fibra. Para ganhar uns trocados na Casa de Detenção de Natal, ele aprendeu a ser barbeiro. Em 1935, eu não sabia patavina de comunismo. Mas como sofri muito com a repressão policial, que prejudicou muitos inocentes, principalmente simples adversários políticos de Rafael Fernandes e do Partido Popular, muitos anos depois resolvi ler alguma coisa sobre comunismo. Li muito e hoje gosto do marxismo, mas nunca de filiei a nenhum partido comunista.”

NOTA:


1-     Otoniel Menezes de Melo nasceu em Natal, a 10 de
março de 1895, e faleceu no Rio de Janeiro, a 19 de abril de 1969. Era considerado o “Príncipe dos Poetas do Rio Grande do Norte”. Foi promotor Público Interino, em Macau-RN. Participou, em 1926, como sargento do 29o BC, “na expedição de combate à Coluna Prestes”. Jornalista, colaborou em todos os jornais e revistas de Natal. Em 1955, publica o seu livro mais importante, A Canção da Montanha. Em 1958, ingressou na Academia Norte – Rio-grandense de Letras, ocupando a vaga de Bezerra Júnior, para a cadeira que tem como patrono Antônio Glicério. Foi o principal redator do jornal “ A Liberdade”, do efêmero governo comunista de novembro de 1935. ( Fonte: Revista da Academia norte-rio-grandense de Letras, Ano XIV, número 8, maio de 1970 – Natal - RN,  página 198 ).

HAVIA ATÉ DENTISTA ENTRE OS PRESOS


Loja de artigos religiosos de Carlos Gondin, integralista, situada na Ribeira,
foi depredada pelos revoltosos.


O jornal oficial “A República”, controlado pelo governo de Rafael Fernandes, no dia 30 de novembro de 1935, três dias depois do fracasso da insurreição vermelha, também não noticiou nada sobre o soldado Luiz Gonzaga de Souza, considerado como herói-mártir da Polícia Militar do Rio Grande do Norte.  É de se estranhar a omissão de um jornal governamental sobre esse propalado “herói” de uma corporação estatal que defendeu a ordem estabelecida durante 19 horas de tiroteio. O relatório do delegado de “Ordem Social”, Enock Garcia, sobre a insurreição de 35 em Natal, conforme está inserto no livro de João Medeiros Filho, “Meu depoimento”, 1ª edição (1937), Imprensa Oficial do RN, páginas 107 a 112. Medeiros defende intransigentemente a versão do herói da Polícia Militar no seu livro “82 horas de Subversão” (edição  do autor).  O relatório do delegado Enoch Garcia, autor do inquérito policial sobre a revolução comunista em Natal, não traz uma linha a respeito da morte de um soldado da PM chamado Luiz Gonzaga de Souza. Segundo denúncia do Procurador da República Carlos Gomes de Freitas, o dentista era Nizário Gurgel, pai de Romildo Gurgel e parente próximo do governador Rafael Fernandes Gurjão. (1)
Trnascrição:
A REPÚBLICA – NATAL, SÁBADO, 30 DE NOVEMBRO DE 1935.
N.º 1467 – 1ª Página.

A MALOGRADA REBELIÃO EXTREMISTA NO ESTADO.

A CHEGADA DAS FORÇAS DA POLÍCIA MILITAR DA PARAÍBA E DO 20º BC E A POLÍCIA DE ALAGOAS A ESTA CAPITAL – O 23º B. C. E A POLÍCIA DO CEARÁ EM MOSSORÓ – PRISÃO DE MEMBROS JUNTA EXTREMISTA – A ENÉRGICA RESISTÊNCIA DO SERIDÓ – LANCES DA BRAVURA SERTANEJA – A ATITUDE DA DIGNA OFICIALIDADE DO 21º B. C. E DO SEU BRAVO COMANDANTE – MORTOS E FERIDOS – SAQUES E DEPREDAÇÕES NO INTERIOR DO ESTADO – O ASSALTO DO ATHENEU – PRISIONEIROS CIVIS E MILITARES.
Cada hora que passa nesses dias de recomposição da ordem malbaratada pela intentona extremista que abateu o nosso estado, nos traz, por entre alegrias insopitáveis da vitória, as notícias do fatos tristes, do trem dos sucessos que se desencadearam nos momentos de desespero e horror sofridos pelo Rio Grande do Norte.  Históriar esses acontecimentos, descrevê-los em toda a nudez crua da verdade, transmite-os ao papel através da pena revoltada e comovida eis a tarefa a que nos obriga neste instante a função de informadores conscienciosos do povo.
Com estas notícias, nos chegam também os batalhões legais que se movimentaram urgentemente para o teatro da luta e que aqui aportam quando, felizmente, ao rumor de sua vinda, os criminosos salteadores já haviam fugido, em louca debandada, o 23º BC e a policia do Ceará em Mossoró.
Desde o dia 25 que, em marchas forçadas forte batalhão da policia cearense chegara a Mossoró, tendo neste sentido o governador Menezes Pimentel telegrafado ao governador Rafael Fernandes.
Anteontem, à noite, segundo telegrama do prefeito Duarte Filho, o 23º BC , de Fortaleza, chegou aquela cidade sob o comando do major Rodirico Dantas Barreto.  Sob entusiasmos vivas da população mossoroense, os 600 homens e 26 oficiais da unidade do Ceará entraram naquele importante império rio-grandense.
As forças Paraibanas e o 20º BC de Alagoas.
Ontem à tarde desembarcou nesta capital, na gare da Great Western, a gloriosa policia da Paraíba, que tão grande atuação exerceu, nas fronteiras do Estado, na luta de repressão às hordas dispersas dos extremistas. Com a policia paraibana, veio também o heróico 20º BC, de Alagoas.
São as seguintes as tropos chegadas ontem a esta capital:  Um destacamento sob o comando do major José de Andrade Farias, composto do BC, uma companhia, da policia paraibana e uma secção da Bateria de Artilharia de Dorso de João Pessoa.
A oficialidade do 20º BC se compõe dos Srs. capitão Romeu Azevedo, comandante do 20º BC, capitão Jansen Milher, subcomandante;  2º tenente João Tibuvitino Porto, comandante da 1ª companhia;  tenente Geroncio Quinteiro, comandante da 2ª Cia. de Metralhadores; 1º tenente Mário Lima, ajudante do Batalhão; 2º tenente Macario G. Melo; 1º tenente Dr. Aristides Meireles; 2º tenentes Amaro Apoluceno, Luiz Casado de Lima, Adolfo José A  Filho, Arthur Sales, Manoel Rocha de Lima, José Augusto dos Santos e José Mário Carneiro.
O 20º BC conta um efetivo de 300 homens, inclusive oficiais, sargentos e praças.
A policia paraibana se compõe de 350 homens, entre oficiais e praças.
A secção da Bateria de Dorso, também incorporada ao Desviamento, consta de 60 praças, sob o comando do 2º tenente Portela.

PRISÃO DE MEMBROS DE COMITÊ REVOLUCIONÁRIO EXTREMISTA

Os inspetores de policia Francisco Pontes, João Severino Batista, Heronides Gonçalves e o soldado João Inácio, prenderam em Canguaretama, três membros do comitê popular revolucionário que fugiam da perseguição das tropas legais.  Chamam-se José Macedo, que ocupava o cargo de tesoureiro dos Correios e se fizera Secretário da Finanças do comitê;  Lauro Cortez Lago, ex-diretor da Casa de Detenção, demitido como elemento perigoso à ordem , por  ato de 22 deste do governador Rafael Fernandes e que se constituíra ministro do Interior;  e João Batista Galvão, ex-Secretário do Atheneu também exonerado pelo governo, e que ocupava no comitê o lugar do Ministro da Viação:  José Macedo e Lauro Lago conduziam dinheiro num total de 210:632$6000, sendo que último escondera entre as pernas e as meias várias notas de contos de réis.
Na Repartição dos Correios verificou-se que o tesoureiro José Macedo dera um desfalque de quarenta e seis contos nos cofres a seu cargo.  Esses três elementos foram há muito denunciados pelo deputado José Augusto, no Rio, como declaradamente comunistas, ligados à interventoria passada. Os seus nomes, durante os dias de terror que chefiaram, assinaram inúmeras requisições violentas ao nosso comércio.
Mais dois cabeças da rebelião extremista foram presos pelas nossas forças entre outros implicados; - são o soldado Quintino, músico do 21o , e Eliziel Diniz Henriques, inferior dessa unidade, sendo o primeiro Ministro da Defesa do comitê daqui e o segundo, prócer extremista dos mais famigerados, que foi detido com 8 contos de réis no bolso.
O sapateiro José Praxedes, que se atribuíra o lugar de Secretário do Abastecimento e que lançou boletins de ameaças ao comércio natalense, ainda não foi encontrado, mas em sua residência foram apreendidos mais de vinte contos de réis
.
A RESISTÊNCIA IMPAVIDA DO SERIDÓ – LANCES DA BRAVURA SERTANEJA.

FOI ADMIRÁVEL DE ENERGIA E HEROÍSMO A RESISTÊNCIA DOS SERTANEJOS SERIDOENSES CONTRA A AVALANCHE EXTREMISTA QUE PROCURAVA DOMINAR A RICA E HERDEIRA ZONA DO SUDOESTE DO ESTADO. O CEL. DINARTE MARIZ, ENTRANDO EM LIGAÇÃO COM O DR. ENOCH  GARCIA, QUE PARTIRA DE MACAÍBA PARA O SERIDÓ PREVENINDO TODOS OS SETORES EM QUE TRANSITAVA, CHEFIOU A RESISTÊNCIA, MOVIMENTANDO-SE COM INCRÍVEL ENERGIA POR TODAS AS LOCALIDADES SERIDOENSES, COMUNICANDO-SE COM OS PREFEITOS E AUTORIDADES DA REGIÃO E VIAJANDO A CAMPINA GRANDE, PARAÍBA, ONDE RECEBEU DO GOVERNADOR ARGEMIRO DE FIGUEREDO TODO AUXÍLIO BÉLICO NECESSÁRIO À DEFESA.
Forças paraibanas sob o comando do major Elias Fernandes e oficiais cap. Benicio e ten. Marques, penetraram em nosso estado imediatamente ajudados brilhantemente pelos Drs. Mariano Coelho, Humberto Gama, Oscar Siqueira, João Agripino Filho, Ivo Trindade, Srs. Florêncio Luciano, Vivaldo Pereira e João Medeiros, Dinarte Mariz e Dr. Enoch Garcia se desdobraram na organização da resistência, concentrando as nossas forças em pontos estratégicos e se reunindo em Santa Cruz. Ao seu lado, combateram os bravos oficiais de nossa polícia capitão Severino Elias, os heróicos tenentes Pedro Ceciliano e Antônio de Castro. O Sr. José Epaminondas, brava figura de seridoense, foi um dos baluartes da resistência, defendeu corajosamente a sua terra com um reduzido número de combatentes.
Sob todos os aspectos foi homérica a coragem da gente sertaneja, que guiada por Dinarte Mariz, reuniu-se em poucas horas em números de 800 homens, para dominar, com munição reduzidíssima e inferioridade absoluta de armas, os troços insurretos. As nossas forças, sob o comando dos dignos oficiais capitão Severino Elias e tenentes Pedro Ceciliano a Antônio de Castro, contribuíram decisivamente para a derrota definitiva dos rebeldes, desbaratados na Serra do Doutor fugindo desordenadamente deixando mortos, feridos e prisioneiros.(2)
Entre os prisioneiros que tomaram parte no movimento subversivo e que estão envolvidos nas diferentes prisões desta capital, com plenas garantias e o relativo conforto dados pelo governo acham-se o Dr. João Maria Furtado, Antônio Alves de Oliveira, Mário Paiva, Severino Ribeiro, Austriclinio Vilarim, Odilon Rufino, João Alves da Rocha, Garibaldi Sobrinho, Rosemiro Freitas, Camilo Avelino e muitos outros.

A ATITUDE DA DIGNA OFICIALIDADE DO 21O BC DO SEU BRAVO COMANDANTE.

Diante da súbita erupção da rebeldia, tomado de surpresa, o cel. Pinto Soares, não podendo penetrar no quartel do seu comando, seguiu para o Batalhão da Polícia Militar, onde ao lado do major Luiz Júlio, dirigiu a defesa heróica da unidade estadual.
Ao mesmo tempo, os oficiais do 21o procuravam, sob o nutrido tiroteio aos sediciosos, aproximar-se do quartel. Os que lá penetraram foram logo detidos pelos extremistas e obrigados a rendição. Entre outros, os tenentes Ivo Borges, Moreira, Hélio e Vicente Euclides, estiveram prisioneiros dos seus comandos rebeldes, mas sempre fiéis à honra e à dignidade da farda que vestem para o defender as instituições e o regime.

MORTOS E FERIDOS.

Ainda não nos é possível fornecer um lista pormenorizada e completa dos mortos e feridos nos diversos pontos do Estado onde, em defesa das instituições, vidas preciosas se sacrificaram. Contra os rebeldes de repente se mobilizou, em luta implacável ao extremismo. Por isso, temos a registrar diversos mortos e feridos, principalmente da parte das sediciosos, que na Serra do Doutor sofreram tremenda derrota. Entre as forças legais, podemos desde já tranqüilizar a família conterrânea, poucas foram as vítimas, havendo apenas alguns dos nossos combatentes recebido ferimentos sem grandes gravidades.
PRISIONEIROS CIVIS E MILITARES
Os quartéis do 21 BC e Batalhão da Polícia, Casa de Detenção e Postos Policiais acham-se com suas prisões cheias de rebeldes e implicados no movimento extremista.
Entretanto, até a hora em que redigíamos estas notas não tinham sido ainda encontrados vários processos dos vermelhos, de atuação decidida no movimento, como o sapateiro Praxedes, dr. Nizário Gurgel (dentista), Raimundo Reginaldo, Benilde Dantas e João Francisco  Gregório, presidente do Sindicato dos Estivadores, que tomou parte ativa na rebelião, armado a fuzil e dinamites, embora tivesse feito na véspera, ao Governo do Estado, as mais calorosas juras de horror e de ódio ao comunismo”.




NOTAS:


1-   “O Doutor 129 Nicacio Gurgel foi, durante o movimento, elemento extremista de destaque.
No quartel do 21º BC foi visto em atitude de chefe, dando ordens a rebeldes (fls. 38 v.) tendo sua atividade observada por várias testemunhas a fls. 114, 51, 112,117 v., 120 v., 124, 127 v., 282 e 288 verso.  Destacou-se, principalmente, com descabidas exigências em nome do governo revolucionário, à esquadrilha mexicana, então fundeada nas águas do Potengy, impondo de modo descortês e ameaçador a entrega de alguns brasileiros que ahi tinham procurado e encontrado asilo carinhoso contra a violência dos rebeldes.  E fel-o, acompanhado de dois soldados rebeldes, e lamentavelmente de seu filho, uma irresponsável criança de 10 anos de idade, como tudo consta de fls. 47 v. e 48 e 49 e verso, 50 v., 52 e 65 v”.  Denúncia do Procurador da República Carlos Gomes de Freitas, in “ 82 Horas de Subversão”, de João Medeiros Filho, p. 138.
Segundo João Maria Furtado (Vertentes), o escrivão trocou o nome do dentista Nizário Gurgel para Nicacio Gurgel.  A criança de 10 anos trata-se de Romildo Fernandes Gurgel, mais tarde jornalista e Presidente do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte.  Nizário Gurgel passou 36 meses preso na antiga Escola de Artífices de Natal, na avenida Rio Branco, onde funcionou a Escola Industrial de Natal e abrigou os estúdios da Televisão Universitária da UFRN.

2- Dinarte Mariz não esteve na Serra do Doutor, assim como Enock Garcia e outros.
O herói da PM/RN deveria ser o tenenteAlberto Gomes, na minha opinião.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012


CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES, UM DOS HOMENAGEADOS NA COMEMORAÇÃO DOS 80 NOS DA OAB/RN.

DR. PAULO TEIXEIRA, CARLOS GOMES E OPHIR CAVALCANTI.

Por Anne Medeiros 
Foto: Elpídio Jr 

Uma noite repleta de reconhecimento e homenagens. Assim foi a solenidade em comemoração aos 80 anos da OAB/RN realizada na noite de ontem (03) no auditório do Centro de Operações da Justiça Eleitoral (COJE) e que contou com a presença do presidente nacional da OAB, Ophir Cavalcanti, e de presidentes de Seccionais do país. Na abertura, crianças e adolescentes do bairro de Felipe Camarão, da banda Ubaldo Medeiros, cantaram e encantaram os presentes. Na presença da governadora Rosalba Ciarline, vice-presidente OAB nacional, Alberto de Paula Machado; Secretário Geral Marcos Vinicius Coelho; presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande Norte, Judite Nunes; Procurador Geral de Justiça, Manoel Onofre Neto; desembargador do TRT 21ªRegião Eridson Medeiros e demais convidados, foi entregue a maior comenda da OAB/ RN, a Medalha Amaro Cavalcanti ao Membro Vitalício do Conselho Seccional Carlos Roberto de Miranda Gomes por sua dedicação à justiça. “Nessa trajetória foram muitas vitórias e percalços. Percorri nesta instituição um longo caminho”, destacou Carlos Gomes. A Medalha Amaro Cavalcanti é a comenda máxima conferida pela OAB/RN, uma única vez no prazo do mandato do Conselho, à grande personalidade da Advocacia Potiguar a quem tenha consagrado sua vida ao direito e à justiça. 
Na solenidade, foi entregue pelo presidente da OAB/RN, Paulo Teixeira, e da OAB nacional, Ophir Cavalcanti. CARLOS ROBERTO DE MIRANDA GOMES Natalense nascido em setembro de 1939, filho do Magistrado José Gomes da Costa e D. Maria Ligia de Miranda Gomes, teve seus primeiros estudos com Professoras particulares em Angicos, Canguaretama e Macaíba. Primário regular no Instituto Batista do Natal e 2º grau no Ginásio Natal, do saudoso Professor Severino Joaquim da Silva. Científico no Ateneu Norteriograndense e Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela tradicional Faculdade de Direito da Ribeira/UFRN, turma de 1968. Especialização em Direito Civil e Comercial na UFRN, Mestre em Direito Público (Ordem Constitucional) pela Universidade Federal do Ceará-UFC, em convênio com a UNIPEC, hoje UnP e URRN. Foi radialista, comerciário do SENAC; funcionário do Tribunal de Justiça; comerciante de 1960 a 1961, sócio da firma Gomes & Cia.; funcionário do TRE/RN, Chefe da 3ª Zona Eleitoral de 1962 até 1971. Provisionado da OAB/RN em 1965, Solicitador acadêmico de 1966 a 1968 e Advogado a partir de 1969. Nomeado Promotor de Justiça Substituto, após aprovação em concurso, declinou de sua aceitação, preferindo o cargo de Auditor do TCE/RN, aprovado em 1º lugar, onde teve a oportunidade de várias vezes ser convocado como Conselheiro Substituto, depois passando a integrar a Procuradoria do mesmo Tribunal, que se transformou no Ministério Público Especial, de onde aposentou-se. Presidente da OAB/RN. Ex-Juiz do TRE/RN. Primeiro Controlador Geral, da Controladoria Geral do Estado do Rio Grande do Norte. Foi Presidente da Comissão de Juristas da UFRN. Fundador e o primeiro Presidente do Nejur – Núcleo de Estudos Jurídicos e do Instituto Brasileiro de Tecnologia Jurídica-IBTJ. Integrou a composição do Primeiro Tribunal de Ética da OAB/RN. Ex-Diretor da Diretoria da Administração Indireta-DAI (TCE/RN). Professor aposentado da UFRN, na cátedra de Direito Financeiro e Tributário e Professor autônomo, prestando eventuais serviços às Universidades particulares do Estado na pós-graduação e/ou orientação de monografias e participação. Atualmente é Membro Honorário Vitalício da OAB/RN, sócio efetivo do IHGRN e membro da Academia de Letras Jurídicas do Rio Grande do Norte, da Academia Macaibense de Letras, membro e Assessor de assuntos jurídicos da UBE/RN, sócio do Instituto Norte-riograndense de Genealogia, sócio efetivo do Rotary Club de Natal-Sul desde 1984.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Nos "misteriosos" e "estranhos" casos de "seqüestros"..............


Novo delegado é designado para comandar investigação sobre crianças do Planalto

Publicação: 05 de Dezembro de 2012 às 10:35



O delegado Ben-Hur Cirino de Medeiros foi designado oficialmente hoje (5) para comandar a investigação sobre o desaparecimento das crianças do Planalto. O crime, que ocorreu entre 1998 e 2001, já teve treze delegados diferentes e ainda não teve solução.

Ben-Hur de Medeiros substitui o delegado Márcio Delgado Varandas, que admitiu durante audiência pública sobre tráfico de pessoas que não deu a atenção devida ao caso. Agora, o ex-delegado-geral de Polícia do Rio Grande do Norte assume a investigação.

A designação do delegado Ben-Hur Cirino de Medeiros é em caráter especial para que ele dê continuidade às investigações e finalize o inquérito dentro do prazo legal, analisando os novos indícios sobre a possibilidade de que os responsáveis pelos sequestros tenham sido identificados.
Fonte: Tribuna do Norte.
Notas: a edição de hoje, 5, do Novo Jornal, sai ampla matéria sobre o casal acusado de envolvimento no sumiço de crianças. Leiam as duas versões.

Quadrilha liderada por gêmeos adolescentes é desarticulada em Macaíba

Publicação: 05 de Dezembro de 2012 às 08:22

Uma quadrilha acusada de praticar diversos assaltos em Macaíba e outros municípios da região metropolitana de Natal, foi desarticulada por volta das 21h de ontem, dia 4, através de uma operação comandada pela Delegacia de Macaíba. O bando era chefiado por dois adolescentes gêmeos, de 17 anos.

Com os adolescentes, que foram apreendidos, foram presos Alisson Rodrigues, de 20 anos, João Maria Silva, de 24 anos, Ademir Silva Santos, de 24 anos, e Vanderson da Silva Gomes, de 21 anos.Todos foram reconhecidos por vítimas, que já haviam prestado queixa de assaltos, durante a madrugada desta quarta-feira (5). Com a quadrilha, dois revólveres de calibre 38 foram encontrados.

Os acusados maiores de idade foram encaminhados para o Centro de Detenção Provisória da Cidade da Esperança, onde devem aguardar julgamento. Os gêmeos, menores de idade, devem ser encaminhados para o Ceduc de Mossoró, visto que o Ceduc Pitimbu, em Natal, ainda se encontra em reforma.
Fonte: Tribuna do Norte.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


Prefeita afastada afirma ter sido condenada por 'indícios'
03/12/2012 - 05h30

RENATA MOURA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM NATAL
Afastada da Prefeitura de Natal há um mês sob suspeita de desviar dinheiro público, Micarla de Sousa diz ser um "arquivo vivo" e que foi "condenada moralmente" apenas por "indícios".
Em entrevista à Folha, a jornalista de 42 anos, cuja gestão era reprovada por 92% da população, afirma que seu "martírio" começou após "dizer não" a "poderosos e influentes" do Estado.
Segundo a Promotoria, havia uma "rede de corrupção" na prefeitura, alimentada por verbas da saúde e da educação. Os recursos teriam bancado supermercado, joias e até funcionários pessoais da prefeita afastada.
Com base em documentos e em dados telefônicos e fiscais, o Ministério Público afirma ainda que servidores do primeiro escalão da prefeitura agiam como tesoureiros pessoais de Micarla e do ex-marido.
Dona da afiliada local do SBT, Micarla diz que já vinha de família rica, e que se endividou por ajudar "pessoas necessitadas". Afirma que a crise de gestão em Natal, que enfrenta caos em diversas áreas, é resultado do baixo crescimento do país. Leia a entrevista concedida no último sábado (1º), mesmo dia em que o PV a retirou da presidência estadual do partido:
João Wainer - 9.abr.10/Folhapress
Prefeita afastada de Natal Micarla de Sousa (PV)
Prefeita afastada de Natal Micarla de Sousa (PV)
FOLHA - Como está a rotina desde o afastamento?
MICARLA DE SOUSA - É a primeira vez que sou mãe "full time". É um aprendizado. No começo foi difícil. Porque antes eu acordava às 6h30, tomava café com os meus filhos e ia para a prefeitura. Sempre cheguei tarde, não almoçava em casa. Quando aconteceu isso [afastamento], eu me perguntava: o que eu vou fazer hoje?
O que foi mais difícil nesse período?
Trabalho desde os 16 anos. Estou com 42. Sempre trabalhei fora, como jornalista, executiva, empresária, como política e empresária --porque quando fui deputada continuei cuidando das empresas da minha família-- e depois como política em tempo integral. Mas o mais difícil para mim, o maior aprendizado, não foi a rotina. Foi ver quantas máscaras caíram nesse período e como o poder faz amigos e a falta dele afasta as pessoas. Posso confirmar aquela frase que diz que o poder embriaga porque 90% ou mais das pessoas que me rodeavam desapareceram da noite para o dia.
A sra. recorreu para tentar voltar à prefeitura. Se tivesse obtido decisão favorável, como teria sido esse retorno?
Tenho pensado muito sobre isso. Porque sou a primeira gestora na história do país cassada por liminar judicial. Não fui julgada, não fui denunciada. Não existe nada. Existem, apenas, como é colocado pelo Ministério Público, indícios de que haja alguma coisa. E por indícios eu fui julgada, condenada moralmente e afastada do meu cargo. Isso tem sido doloroso porque fui eleita por 193 mil votos, por 50,8% da população. Fui julgada sem direito à defesa. Nem o pior dos bandidos passou pelo que passei.
Como avalia as acusações?
É muito fácil acusar as pessoas. Queria só lembrar que vim de família que já tinha estrutura financeira que me permitia desde jovem ter acesso a algumas coisas. Agora chegar e dizer que Micarla teve gasto mensal de R$ 140 mil. Onde? [Francisco] Assis, que era secretário-adjunto financeiro da Saúde, trabalhava comigo antes de meu pai falecer. Meu pai faleceu há 14 anos. Ele [Assis] sempre cuidou da minha vida financeira. Encontraram na casa dele uma planilha mostrando quanto eu devia e não quanto eu gastava. Será que o fato de alguém dever, de ter cheque especial estourado, de estar sem cartão de crédito há dois anos, dá a alguém o direito de pensar que é uma pessoa má, que não tem caráter?
Como chegou a essa situação de endividamento?
Por não conseguir dar "não" a pessoas necessitadas. Quantas vezes peguei meu salário, meu cartão de crédito, para ajudar alguém que chegava e dizia: preciso fazer tratamento em São Paulo e preciso de passagem e hospedagem? Quantas vezes reconstruí casas que estavam para cair na cabeça das pessoas. As pessoas podem achar piegas ou duvidar. Mas isso provocou um descontrole financeiro meu. Chegaram ao ponto de dizer que a prefeita usava o dinheiro [público] para pagar a escola dos filhos. A escola está no Imposto de Renda do meu ex-marido. O que querem provar de mim? Até agora o que conseguiram provar é que tenho muito débito.
  • O Ministério Público aponta indícios de que a sra. e seu ex-marido tenham recebido propina em contratos na área de educação.*
Encontrou-se um papel em que estava escrito "M" e "W" [segundo a Promotoria, as iniciais de Micarla e Weber, o ex-marido]. "M" com certeza não é Micarla. Posso provar e afirmar. Querem me transformar em uma bandida e eu não sou.
A sra. usou verba pública para fins pessoais?
Nunca. Durmo com minha consciência tranquila. Pedi ajuda à minha mãe com minhas contas. Isso é crime?
A Promotoria aponta que seus auxiliares se desdobravam para pagar suas contas pessoais. A sra. avalia isso como normal, considerando que ambos ocupavam cargos públicos?
Talvez tenha errado nesse ponto. Deixei a mesma pessoa [Assis] por questão de confiança. Porque ele fazia isso pra mim há mais de dez anos. Mas não acho que tenha algo de obscuro nisso. Ele trabalhava com a minha família há muito tempo. Ele fazia o trabalho dele na Saúde. Desdobrava-se às vezes, sim, mas nunca teve dinheiro público envolvido nisso.
Todos esses indícios são então inverdades, em sua visão?
Todos esses indícios me levam a crer que sou muito temida pelos poderosos. Tenho a sensação de que sei demais, de que sou um arquivo vivo de muitas coisas. O que aconteceu comigo foi uma grande história, uma grande estrutura montada, e não foi da noite para o dia. Acho que havia mais ou menos uma crônica da morte anunciada a partir do momento que comecei a dar "não" a algumas figuras.
Quais figuras?
A partir do momento que comecei a dar "não" às pessoas mais fortes e influentes do Estado minha vida começou a se transformar em um martírio, um calvário. Enquanto alguns sentiam que me tutelavam minha vida era tranquila. Quando viram que eu era um cavalo selvagem, que não tinha como colocar cabresto, a minha vida começou a tomar outro rumo.
Inimigos políticos deram munição ao Ministério Público?
Não posso dizer quem fez ou deixou de fazer isso. Foi uma somatória de questões como interesses quebrados e falta de apoios. Minha vida política foi meteórica. Em quatro anos participei de três campanhas e venci as três. Fui vice-prefeita em 2004, fui a deputada mais votada em Natal em 2006 e em 2008 fui eleita prefeita no primeiro turno contra todas as estruturas de poder da época. Fiz uma parceria com o povo.
Quais foram os frutos dessa parceria?
Entreguei 53 escolas de educação infantil em três anos. Investi muito em saúde. Entreguei três Ames [ambulatórios médicos de especialidades], uma UPA [unidade de pronto atendimento], o Hospital da Criança Sandra Celeste, reinaugurei o Hospital dos Pescadores, o Hospital da Mulher. Entreguei três maternidades. Passei de 2.000 crianças na pré-escola para 16 mil crianças. Três mil e duzentas famílias que moravam em favelas agora têm casa.
Atualmente vemos algumas dessas áreas com problemas. A educação ameaça suspender o ano letivo, há problemas de limpeza pública, ruas esburacadas. Você se sente responsável por essa situação?
Não. Natal não é uma ilha. Está no contexto do Brasil, que quando assumi tinha taxas de crescimento superiores a 8% e que vai crescer 1,9% neste ano. Um país em que para os metalúrgicos da região do ABC paulista, uma das maiores praças eleitorais do PT, não serem demitidos, retirou-se o IPI dos carros. O IPI e o Imposto de Renda são formadores do Fundo de Participação dos Municípios. Todos os municípios enfrentam empobrecimento. Outro ponto agravante é que tivemos nesse último ano bairros com inadimplência de 86% em relação ao IPTU. Alcançamos na média geral 50% de IPTU não pago. Não existe mágica. É igual na nossa casa. Se você tem despesa "X" e começa a ganhar menos, você tem que cortar. E chega uma hora que não tem mais de onde cortar.
O descontrole financeiro pessoal da sra. não se refletiu na prefeitura?
De forma alguma. Que atire a primeira pedra o município brasileiro que diga que não tem problemas. Em Fortaleza, em Recife, as pessoas reclamam de lixo e buraco. Há exemplos positivos, claro. O Rio de Janeiro, por exemplo, onde [o prefeito] Eduardo Paes [PMDB] tem apoio incondicional do governo federal e do Estado. Em Natal falta apoio do Estado. No âmbito do governo federal, quando Dilma assumiu consegui conquistar muitos projetos. Sempre tive apoio dela. Infelizmente nada chegou em tempo por causa de burocracia.
O que explica o índice de rejeição de 92% de sua gestão?
A falta de apoio político fez com que eu fosse um alvo fixo. E o fato de eu não abrir exceções fez com que todos quisessem que eu não estivesse mais ali. Eles precisam de alguém que seja manipulado, algo a que não me propus.
Acredita que pode voltar ao cargo antes do dia 1ë [de janeiro de 2013]?
O mínimo que deveria acontecer seria me darem o direito de voltar e fazer a minha defesa. Se sou colocada como bandida, como sustento depois os meus filhos? Vai ter sempre alguém me olhando e desconfiando se a história é verdade. Isso afeta não só a mim, mas aos meus filhos, minha família. Como cristã, fico pensando quando Jesus estava ao lado de Barrabás e Pilatos perguntou se ele queria se defender. Até ali, do lado do pior bandido, Jesus teve direito de defesa. Eu não tive isso. Temo que isso abra precedente para que outros gestores sejam julgados moralmente, condenados, tenham suas vidas completamente dizimadas antes de um processo judicial ser completamente concluído. Isso abre um precedente perigoso para a democracia do país.
Qual é a Natal que você entrega a Carlos Eduardo [Alves, PDT]?
Uma Natal que por um lado tem possibilidades imensas. Consegui conquistar R$ 338 milhões de recursos para a Copa. Tem um túnel, com mais R$ 140 milhões, que vai acabar com todos os problemas de alagamentos em Natal. Entrego uma cidade com R$ 10 milhões para asfaltamento. Entrego uma cidade com possibilidades mil por conta da Copa, mas também uma cidade que tem problemas sérios que são vivenciados pelos gestores brasileiros, de redução de arrecadação e isso faz diferença grande. Deixei uma Natal com certeza melhor do que quando assumi. E ele [novo prefeito] vai ter a sorte que não tive: a questão dos apoios. Eu desejo a ele muita sorte.
Quais são seus planos para 2013?
Eu saí da política. Volto a cuidar do que é meu, minha casa, minha vida como jornalista, minhas empresas. Quero ficar com os meus filhos. Quero escrever um livro, fazer uma trilogia sobre o início da cruz até os dias futuros.
Vai continuar filiada ao PV?
Não. Acho que a Justiça, o Ministério Público, até parte da população que não me conhece podia me tratar de forma distante, desconfiar de mim ou colocar qualquer tipo de questionamento. Mas o meu partido e meus companheiros não tinham esse direito. Durante oito anos fui presidente do partido. E agora, no dia que acontece o afastamento, me trataram da mesma forma do que os desconhecidos e a Justiça. Ninguém da direção nacional chegou para me prestar solidariedade, perguntar o que estava acontecendo. Simplesmente decidiram me afastar da presidência do partido. Não fui convidada nem sequer para o ato do novo presidente. O PV me tratou com ingratidão. Minha história com o PV sempre foi de amor. Agora esse amor acabou. Essa dor do PV foi infinitamente maior do que a dor da injustiça da Justiça. Vou me desfiliar nos próximos dias e fechar esse ciclo.

Cade o inquérito da rebelião militar-comunista de 1935 em Natal?

A Revolta de 35 em Natal.

Até hoje não vimos o autos do inquérito policial da revolta comunista de novembro de 1935 em Natal. Conhecemos cópia da cópia do relatório do inquérito feito pelo Delegado Auxiliar Dr. Enock Garcia, concluído em abril de 1936, inserido no livro MEU DEPOIMENTO, de João Medeiros Filho, editado em 1937, no qual não consta a morte de nenhum soldado do Batalhão de Segurança de Natal. Já fizemos buscas no Arquivo Público do Estado, quando funcionava em Neópolis, mas nada foi encontrado, além das fichas das pessoas fichadas na Delegacia de Ordem Política e Social/DOPS, da Secretaria de Segurança. João Medeiros Filho era o chefe da política na noite de 23 de novembro de 25 e foi preso pelo sargento Amaro. O seu livro são relatos sobre o movimento sedicioso e os  três dias em que esteve detido pelos revoltosos.
Quem souber do paradeiro do inquérito policial, favor entrar em contacto conosco.


Soldado Glicério Lucena quando treinava em Capim Macio, em 1935, meses antes da revolta do Quartel do Exército (21º BC), em Natal.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Hospital de Parnamirim em greve amanhã.


Médicos de Natal (RN) voltam a paralisar as atividades

Elendrea Cavalcante
Do UOL, em Natal
  
Os atendimentos de urgência e emergência na ortopedia de dois hospitais de Natal, um de Parnamirim (a 15 quilômetros da capital) e o Samu Metropolitano, estão paralisados desde a manhã deste sábado (1º). A interrupção ocorre em protesto contra uma dívida de R$ 1,5 milhão do Estado com a Cooperativa Médica do Rio Grande do Norte (Coopmed).
A cooperativa havia alertado desde o último dia 22, em reunião na Secretaria de Saúde do Estado, sobre a suspensão dos serviços, caso o pagamento não fosse realizado.
Há quatro dias, médicos da mesma cooperativa voltaram ao trabalho nas unidades do município após sete dias de paralisação nos atendimentos de baixa complexidade, também pela falta de pagamento.
Porém, além da paralisação nas unidades do Estado a partir de hoje, a mesma cooperativa informou que paralisaria o atendimento de média e alta complexidade nas unidades do município, na segunda-feira (3), caso o pagamento do município por esses dois contratos de serviço não seja realizado até este domingo (2).
A interrupção iniciada neste sábado deve-se, segundo a cooperativa, ao atraso do Estado no pagamento dos plantões de agosto, setembro e outubro, que juntos, somam R$ 1,5 milhão.
O presidente da Coopmed, Fernando Pinto, informou que o atraso no pagamento dos médicos cooperados já está entrando no quarto mês (novembro).
Por enquanto, um dos hospitais mais prejudicados com a interrupção do atendimento é o Monsenhor Walfredo Gurgel, em Natal. Principal hospital de urgência e emergência do Estado, a unidade passou os últimos meses acumulando pacientes – principalmente da ortopedia – em seus corredores.
Além dele, está prejudicado o atendimento no Hospital Universitário Onofre Lopes, localizado em Natal, e no Deoclécio Marques de Lucena, em Parnamirim – cidade da Grande Natal.
O secretário estadual de Saúde classificou como intransigente a decisão da Coopmed de interromper mais uma vez os atendimentos nas unidades de saúde públicas. Segundo ele, a cooperativa foi alertada de que o pagamento do Estado será feito na segunda-feira.