A República, jornal do governo do Estado, considerou "heróicos" três oficiais da Polícia Militar.
Texto de Luiz Gonzaga Cortez.
NA PRAIA DO MEIO SE TRAMOU A REVOLTA
Com 25
anos de idade, João Batista Galvão, natural de Mossoró, secretário do Atheneu
Norte-rio-grandense, aclamado nas ruas por uma multidão de insurretos,
estudantes e simpatizantes, recebeu o cargo de “Ministro da Viação e Obras
Públicas” do curto “Governo Popular Revolucionário”, que dominou a capital
durante quatro dias, em novembro de 1935.
Mas,
devido a ampla atuação burocrática durante os dias da revolução comunista e da
Aliança Nacional Libertadora, organização de fachada do Partido Comunista do
Brasil-PCB, João B. Galvão foi cognominado de “Primeiro Ministro” da
insurreição que implantou o primeiro governo marxista-leninista no continente
americano.
Casado
com Maria Amélia da Nóbrega Santa Rosa (prima da esposa de Juvenal Lamartine –
um dos “coronéis” do Estado – dona Silvina Lamartine), ele contraiu núpcias no
dia 27 de outubro de 1928, quando tinha 18 anos de idade e já era membro do
Partido Comunista do Brasil. Participou
das lutas estudantis de Natal e do Recife, para onde viajava constantemente
para participar das reuniões da Aliança Nacional Libertadora (1935), codinome
do Partido Comunista do Brasil.
Seu
sogro, Cipriano Bezerra Galvão Santa Rosa, era partidário da Aliança Liberal.
Por isso, João Galvão e sua família decidiram assistir ao comício da “Caravana
de Batista Luzardo”, caudilho gaúcho, que se realizaria no bairro da Ribeira no
dia 7 de fevereiro de 1930. Mesmo sabendo que o comício iria ser metralhado
pela Polícia de Juvenal Lamartine, governador do Estado, Galvão e irmãos foram
para o Hotel Internacional, na esquina da rua Chile com a rua Tavares de Lira,
onde haveria posteriormente um banquete oferecido à caravana de Batista
Luzardo, João Neves de Fontoura, cônego Olímpio de Melo e outros.
Com a
revolução vitoriosa de 1930, a família de João Galvão, adversária dos políticos
oligarcas e decaídos do Partido Popular, de José Augusto B. de Medeiros,
recebeu a Prefeitura Municipal de Acari. Cipriano B. Galvão Santa Rosa, seu
sogro, foi nomeado Prefeito Provisório de Acarí. Batista, delegado Regional de
Polícia do Seridó, com sede em Acarí. Meses depois abandonou o cargo e veio
para Natal, conforme declarações prestadas pelo seu filho, major da reserva
remunerada do Exército, Cipriano Olyntho Santa Rosa Galvão, residente na
avenida Nascimento de Castro, Morro Branco.
INGRESSO NO COMUNISMO
“Quem
iniciou o meu pai no comunismo foi o seu amigo Adamastor Pinto, filho do
coronel José Pinto, em 1928. Em Recife, nas reuniões do PC, ele recebia orientações
de Lima Cavalcanti que, anos mais tarde, viria a se tornar Interventor de
Pernambuco. No meio das suas atividades políticas, ajudava o seu sogro,
Cipriano Bezerra Galvão Santa Rosa, na luta contra as oligarquias do Estado,
representadas pelo Partido Popular, no tempo da República Velha. Em 1935, a
família saiu de Acarí e veio morar em Natal, oportunidade em que meu pai
empregou-se como secretário do Atheneu. Alugou uma casa na praia do Meio, na
avenida que se chamaria Café Filho, perto do entroncamento do final da Ladeira
do Sol, precisamente na frente do antigo “salva-vidas”. Nessa casa, o PC faria
as reuniões noturnas. Nós, meninos (eu tinha 5 anos) não gostávamos de ficar do
lado de fora da casa, enquanto se realizavam as reuniões. Nessas ocasiões, os
chefes do PC daqui se reuniam numa mesa que ficava no centro de uma sala de visitas com portas e janelas
fechadas. Adamastor Pinto, Lauro Cortez Lago, José Macedo, Praxedes e outros
participavam dessas reuniões. Lembro-me também que um militar de São Paulo,
chamado Cabanas, coronel ou tenente da Força Pública de São Paulo, veio a
Natal, de navio, e participou de uma reunião, meses antes da revolução de
novembro de 1935. Um vizinho, seo Honório,
que era eletricista, quis denunciar o “aparelho subversivo” à polícia, mas não
deixaram. Além dessa casa, o PC promovia reuniões debaixo dos postes de
iluminação pública da cidade, com grupos de três comunistas. As decisões do
“Comitê Regional”, que se reunia na nossa casa, eram passadas para os grupos
dos postes, que, por sua vez, deveriam retransmiti-las para os outros
comunistas. O homem que fazia a ligação
do CR com o grupo de poste mais próximo era Waldemar Diniz Henriques, militar
do 21º BC. A casa pertencia a um judeu, José Palatnik, que nunca soube das
reuniões do PC. À cerca de 20 metros morava Lauro Cortez Lago.
“Aproximando-se
a revolução, meu pai mandou-nos para a “Fazenda Fortaleza”, em Acarí, de
propriedade do sogro. Minha mãe, Maria Amália, pediu que o meu o pai não
entrasse na revolução. Ele respondeu: “Eu já estou no movimento e vou
participar”.
Nós
fomos para Acari e ele ficou na casa da sua mãe, Cândida de Miranda Fontes
Galvão, na avenida Rio Branco, n.º 711. Meu pai me contou que a revolução
começou às 21 horas do dia 23 de novembro, mas a minha avó não permitiu que ele
saísse de casa, tendo em vista que o tiroteio estava muito intenso. Na manhã de
domingo, dia 24, ele disse para a mãe que ia sair para comprar carne no
mercado, que ficava na mesma rua, onde hoje é a agência do Banco do Brasil.
Minha avó nunca viu essa carne... (risos). Essa carne foi o pretexto para ele
sair de casa. Quando ele andava pela avenida Rio Branco, esquina com a rua
Ulisses Caldas, uma turba aclamou-o "Primeiro Ministro" e saíram
carregando-o nos braços. A multidão levou-o para o Palácio do Governo, na praça
Sete de setembro e para a Vila Ciccinato, onde funcionou a sede do chamado
Governo Popular Revolucionário. Sem nenhuma atividade militar, apesar de ter
pegado uma farda de oficial do Exército no primeiro dia da revolução, durante o
período da insurreição ele ficou na Vila Cinccinato, na praça Pedro Velho, em
frente ao Palácio dos Esportes "Djalma Maranhão". Exerceu apenas
atividades burocráticas com o título de "Ministro da Viação e Obras
Públicas" do 1º governo bolchevista das Américas. O comandante militar da
revolta foi o sargento Quintino Clementino de Barros, do 21º BC. Durante esse
período, ele não apareceu na casa da sua mãe, pois ficou na Vila Cinccinato.
Ele me
contou que não chegou a conhecer os planos militares, inclusive o ataque ao
quartel da Polícia Militar, pois era outro pessoal que lidava com esses
assuntos. Outra coisa que precisa ser desmentida é sobre os famosos
"salvos condutos", que apareceram depois do fracasso da revolução,
com a assinatura do meu pai. Os salvos condutos com assinatura dele eram
assinados "João Batista Galvão". Os que apareceram com "João
Baptista Galvão" não foram dados por ele, pois não gostava de colocar o
p.", disse Cipriano Santa Rosa Galvão, militar que se orgulha de ter
passado 30 anos no Exército Brasileiro (1).
FUGA DOS ENGRAVATADOS
Cipriano
conta que o seu pai lhe revelou que a revolução fracassou porque foi iniciada
no dia 23 e não no dia 27 de novembro de 35, conforme estava planejado. A
antecipação da revolta foi provocada por erro cometido pela pessoa que traduziu
o telegrama codificado que veio do Rio de Janeiro (2).
“Não
sei quem foi que descodificou o telegrama. Meu pai me dizia que os
revolucionários não estavam preparados para a revolução, pois faltaram-lhes
adestramento militar, suprimento, organização e pessoal de apoio. Por isso,
muita gente se aproveitou da revolução. No dia 27 ele estava na Vila, quando
chegaram Lauro Lago e José Macedo. Os dois disseram: "João, a revolução
está fracassada. Vamos fugir!". De imediato, os três pegaram um trem e
desembarcaram em Canguaretama. Todos trajados de paletós, gravatas, bolsas e
chapéus. Esse foi o erro da fuga. Você já pensou três homens fugindo de paletó? Em seguida, entraram na "Mata da Estrela", uma mata muito fechada,
conduzindo 600 contos de réis, muito dinheiro na época. O objetivo era atingir,
a pé, Baía Formosa, onde então o grupo se dispersaria. Mas não chegaram às
barcaças porque José Macedo cansou, pois era muito gordo, tendo os três
decidido parar e dormir no meio da mata. Dormiram na mata perto da linha férrea
da "Estrada de Ferro Central do RGN". Depois da dormida, meu pai teve
o pressentimento de que iriam ser presos, tendo dito isso para Lauro e José
Macedo. "Cachorro por perto é sinal de que tem gente por aqui", disse
o meu pai ao amanhecer. Meu pai cavou um buraco para esconder os 200 contos de
réis que conduzia. Foi o único que escondeu o dinheiro que levava. Em seguida,
os 3 foram cercados e presos pela polícia da Paraíba e o delegado de Canguaretama.
Meu pai contou-me que o delegado de Canguaretama notou que em certo local
haviam folhas mexidas - era o local em que estava o dinheiro. A polícia apreendeu 20 mil réis que estavam
no bolso dele, uma pequena quantia comparada com a que deixou enterrada. O
engraçado é que o delegado de Polícia de Canguaretama pouco depois tornou-se
próspero comerciante e permaneceu rico até pouco tempo", disse Cipriano
Santa Rosa Galvão.
ESPANCAMENTOS E TORTURAS
Cipriano
revelou ainda que, João Batista Galvão e José Macedo, "Ministro das
Finanças" da revolução, foram os que mais apanharam dos policiais. Galvão
passou vários dias incomunicável, inicialmente no quartel da PM, de onde era
sempre retirado e levado por uma "tintureira" para as bandas do
morro, atrás do Esquadrão de Cavalaria, no Tirol. Lá, os PMs promoviam sessões
de fuzilamentos simulados ou encostavam os fuzis na nuca dos presos, enquanto
um sargento ou oficial da PM contava até três e dava ordem de
"Fogo!". "As torturas psicológicas foram muitas", conta Cipriano
Galvão, acrescentando ainda que o sargento PM Aristides Cabral era o mais cruel
torturador, apoiado pelo Dr. Ivo Trindade.
Batista
Galvão passou 18 meses na cadeia, principalmente na Casa de Detenção (hoje
Centro de Turismo de Natal). Nesse período, em consequência dos espancamentos,
perdeu um rim. "Ele apanhou tanto que um companheiro de cela, um homicida
comum, conhecido por Chico Caetano, certa vez não permitiu que ninguém batesse
nele e ainda ameaçou os policiais, dizendo: "esse rapaz já apanhou demais
e hoje não vou deixar ninguém bater nele. Quem entrar aqui, morre. Eu não tenho
nada a perder". E os policiais não entraram. Depois achando que ele ia
morrer, pois estava muito doente, mandaram-no para uma casa da praça André de
Albuquerque, transformada em Presídio Político, onde hoje funciona o Sindicato
dos Contabilistas. Como disseram que ele ia morrer, a família o conduziu numa
cama, pelas ruas da cidade; desde o presídio até a casa de minha avó, na Av.
Rio Branco. Mas, na casa de minha avó ele melhorou e novamente retornou para o
Presídio e Casa de Detenção. O médico José Ivo Cavalcanti, ao vê-lo em péssimo
estado de saúde, decidiu tratá-lo gratuitamente, no Hospital Miguel Couto,
(hoje Hospital Universitário
"Onofre Lopes", tendo a família se cotizado para mantê-lo em um
quarto de segunda classe. Em 1937,
chegou uma ordem do Ministro da Justiça, Macedo Soares, para liberar os presos
que não tinham roubado dinheiro na revolução.
Meu pai e diversas figuras de proa da revolução foram soltas. No mesmo dia, houve uma recepção na casa do
professor Joaquim de Fontes Galvão, irmão do meu pai, que foi fotografado por
João Alves. Nessa recepção, a família
decidiu que teria que ser providenciada a fuga dele, pois todos pressentiram
que a ordem de soltura seria revogada. E
de fato aconteceu a revogação, mas João Galvão já tinha fugido", disse
Cipriano Santa Rosa Galvão.
QUEM RESPEITAVA DIREITOS HUMANOS?
Os que
foram soltos pela "Macedada" e permaneceram em Natal, retornaram à
Casa de Detenção. Galvão não retornou
porque sua família alugou um táxi por 100 mil réis e conduziram-no para Jardim
do Seridó, juntamente com a esposa, Maria Amália (viva) e as filhas Dalila e
Mariana, homiziando-se na fazenda do Cel. Zuza Gorgônio Nóbrega, e providenciou
a remoção imediata para São Mamede, Paraíba, onde ficaram na fazenda "São
José", de Janúncio Abdon da Nóbrega, que hospedou e deu guarida a família
fugitiva durante vários meses. Mas
Cipriano quer falar sobre uma pessoa que teve destacada participação no Governo
de Rafael Fernandes, após o fracasso da revolução comunista.
"Durante
a revolução, o Governador Rafael Fernandes e alguns dos seus auxiliares ficaram
homiziados na casa de Xavier Miranda, primo de João Batista Galvão, que não
mandou prendê-los porque não se pretendia a prisão deles. O objetivo era deixar a revolução ser
vitoriosa; não era matar o Governador e
seus auxiliares.
Quando
se aproximava a hora do embarque dos presos de Natal para o Rio de Janeiro, no
navio Butiá, minha avó foi falar com o governador Rafael Fernandes, na segunda
tentativa, pois na primeira ele não quis recebê-la. Na Vila Cinccinato, na praça Pedro Velho,
minha avó pediu que o meu pai não fosse embarcado para o Rio de Janeiro, em virtude
do seu grave estado de saúde. Rafael
Fernandes perguntou: "Então, o seu
filho é um anjo?". A minha avó respondeu: "Sim, é um anjo, pois se não fosse
ele, o senhor não estaria vivo. João Batista sabia que o senhor estava na
casa de Xavier e não mandou prendê-lo".
No mesmo instante, Rafael Fernandes disse para dona Cândida Miranda
Fontes Galvão que ele não iria embarcar.
Por isso, meu pai continuou preso em Natal e jamais conheceu a cidade do
Rio de Janeiro.
Trinta
minutos antes do Butiá zarpar do porto de Natal, o chefe de polícia, Dr. João
Medeiros Filho, autorizou que João Batista Galvão ficasse em Natal. João Medeiros, como Chefe de Polícia era o
maior responsável pela situação dos presos políticos e nada fez para impedir as
sevícias e espancamentos sofridos pelo meu pai, apesar de na época, ele ser
casado com uma prima da minha mãe. Como
ele se diz um democrata, eu desejo declarar que Direitos Humanos só existem
para os amigos, pois nós sabemos que ele não respeitou os Direitos Humanos dos
presos de 1935", afirmou Cipriano Santa Rosa Galvão.
ABANDONOU O COMUNISMO
Cipriano
informa que o seu pai tinha conhecimentos do marxismo, pois chegou a ler obras
de autores marxistas, apesar de ter negado ser comunista durante os
interrogatórios prestados na polícia de Natal.
"Réu-confesso não tem defesa".
Cipriano lembra que o seu pai ficou muito magoado com a covardia de
inúmeros comunistas de Natal, que tiveram medo de participar da revolução de
35. Também lembrou que João Batista
Galvão recebeu a visita de um membro do Partido Comunista do Brasil, com
sotaque e aparência de estrangeiro, quando estava internado no Hospital Miguel
Couto. O enviado do "Socorro
Vermelho" ofertou 200 mil réis para ajudá-los na compra de remédios, etc. O estrangeiro perguntou-lhe se não desejaria
morar na União Soviética, após ser solto.
Batista respondeu, categórico, que nunca sairia do Brasil.
"Após
a redemocratização do Brasil, com a queda da ditadura de Getúlio Vargas, o PC
de Natal não prestigiou os comunistas da "Velha Guarda", entregando a
direção ao Dr. Manoel Vilaça, Jacob Volfson, Osvaldo Lamartine e muitos outros,
conforme afirma Cipriano.
"Em
1946, ele me perguntou o que queria ser na vida. Eu disse que queria ser Oficial do
Exército. "O que o partido fez por
mim e por vocês? Nada.
Abandonou os velhos comunistas.
Vou fazer uma carta à direção renunciando a condição de membro do
partido, pois não quero mais saber de comunismo. Eu não consegui ser Oficial do Exército. Você quer ser e vá sê-lo". Isso foi o que o meu pai me disse, na
oportunidade em que externei a vontade de ingressar na Escola de Cadetes, o que
ocorreu em 1947. Em 1953, já era
aspirante da Academia Militar das Agulhas Negras - AMAN. Se no Exército sabiam ou não que eu era filho
de um comunista, eu não sei, pois nunca houve a menor má vontade e perseguição
comigo. O Exército ainda é a organização
mais democrática do Brasil e do mundo, apesar da imagem deixada pelos fatos
ocorridos após 1964", afirmou Cipriano, que prepara um trabalho biográfico
sobre João Batista Galvão.
GALVÃO VIROU CONTRABANDISTA
João
Batista Galvão, que foi o "Primeiro Ministro" do "Governo
Popular Revolucionário" de Natal, na sua fuga da perseguição policial,
após ser liberado em 1937, passou vários meses na Fazenda São José, município
de São Mamede, Paraíba, de propriedade de Janúncio Abdon da Nóbrega. "Jamais andou sozinho", afirma o
seu filho Cipriano Olintho Santa Rosa Galvão, major da reserva do Exército.
Depois
homiziou-se nas fazendas de Pedro Ferreira e Manoel de Souza Lima, em Barra da
Santa Rosa - PB, além de outras propriedades da família Queiroga, em Campina
Grande e Pombal. "A nossa família
mudava sempre de local por causa da perseguição. Por isso, papai teve várias carteiras de
identidade na Paraíba, graças as amizades que os familiares tinham no governo
de Argemiro Figueiredo, mesmo sabendo que o meu pai era comunista. Os meus tios mandavam dinheiro para nós, mas
papai gostava de dar aulas para os empregados das fazendas e de dar uma de
médico. Ele fazia isso para não ficar
parado e compensar a ajuda dada pelos fazendeiros. Todos esses fazendeiros sabiam que meu pai
era comunista, mas ajudavam, pois testemunhei isso. Passei três meses com ele, na Paraíba. Em 1941, ele resolveu ir embora. Foi para o Ceará e Piauí. Tornou-se vendedor de leite em Floriano, PI,
com 31 anos e vendia o produto na "Leiteria Rex". Subiu para o Pará e lá tornou-se soldado da
borracha para chegar a Manaus, Amazonas e Boa Vista, território de Roraima,
onde chegou a vender contrabando.
Anistiado, em 19 de abril
retornou ao RN no dia 26 de dezembro de 1945 e, em 1951, separou-se de
minha mãe, Maria Amália, que hoje tem 80 anos, residente em Acari, disse
Cipriano Santa Rosa, lembrando a vida do seu pai, João Batista Galvão, o
"Primeiro Ministro" da revolução comunista de 35 em Natal.(3)
A
REVANCHE DE ACARI
A
segunda parte da entrevista de Cipriano Santa Rosa Galvão, será publicada em
outra reportagem. (3) De próprio punho,
ele prestou o seguinte depoimento sobre a prisão de familiares, na cidade de
Acari, por adversários políticos, em virtude da participação de João Batista
Galvão no "Governo Popular Revolucionário" de Natal.
Na
íntegra, a declaração de Cipriano:
"Os Valentes" de Acari, à frente o prefeito Gil de Brito,
prenderam através do tenente Severino Bezerra, delegado local, o Coronel
Cipriano Bezerra Galvão Santa Rosa, seu filho Januncio Nóbrega Santa Rosa e os
amigos Severino Barroso, Antônio Gouveia, e o motorista Egídio e amigos de
Cruzeta. Um ato de covardia
personificada. Prenderam-nos em cadeia
comum, sem direito a um leito e alimentação, esquecendo-se de que o Cel. Santa
Rosa tinha sido Prefeito de Acari cinco vezes, deputado provincial e oficial
superior da Guarda Nacional, título lhe conferido pelo Imperador Pedro II,
cujos direitos e honras a República não os revogara. Tal ato se traduzia na esperança de que o
movimento, se vitorioso, atingisse Acari, eles serviriam de reféns, uma vez que
o Cel. Santa Rosa e Janúncio eram sogro e cunhado de João Batista,
respectivamente."
NOTAS:
1-
Cipriano Santa Rosa Galvão, da
reserva remunerada do Exército, não foi localizado após 10.11.85, data da
publicação desta entrevista em "O POTI" (Natal-RN).
Diz-se que mudou-se para um cidade da
região Norte e que aparece em Natal, esporádicamente.
2-
Em "Natal do Meu
tempo", Ivanaldo Lopes (Cia. Editora do RN - CERN - Natal -RN - 1985), dá
a sua versão sobre a precipitação da insurreição de Natal: "... Fora um erro de data, consequência
de má interpretação de uma mensagem codificada.
Esta dizia assim 2 + 3= 12. Entenderam
eles tratar-se de 23 de Novembro, pois, pelas convenções, havia sempre o recuo
de um mês, daí a falta de unidade no levante que seria geral, isto é, no Brasil
inteiro" (p. 67). Ivanaldo Lopes, já falecido, era filho do capitão da
Polícia Militar do RN, Genésio Lopes, Delegado de Ordem Social, em 1935 (ob.
Cit., p. 73), falecido em 1986 com a patente de Coronel. Ivanaldo Lopes não cita a fonte que originou
a versão da tal "mensagem codificada".
3- Em virtude do tratamento superficial
do repórter na XIII reportagem desta série, “Agente da polícia antecipou a
revolta”, referente à palestra do professor Homero Costa na mesa redonda sobre
o Movimento de 35, promovida pelo mestrado de Ciências Sociais da UFRN, em
setembro de 1985, no auditório da Reitoria , é nosso dever adicionar, neste
livro, o pensamento do palestrante sobre a "Intentona". Eis a carta :
São Paulo, dezembro de 1985
Amigo Cortez:
Infelizmente não tive condições de acompanhar pelo "O Poti", o
conjunto de suas reportagens sobre "O Comunismo e as lutas policiais no
Rio Grande do Norte na década de 30".
Há pouco, enviado por um amigo comum, é que pude fazê-lo. Na última, a XX da série, há, entre outras
matérias, um resumo de uma exposição que eu fiz, por ocasião de um Seminário
promovido pelo Mestrado de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Como, a meu juízo, em
face do conteúdo do que foi resumido (fiz uma exposição de pouco mais de 1 hora
e foi transcrito 2 parágrafos ), além de não dar uma idéia precisa do que
expus, em especial, o último parágrafo, está muito confuso, com frases
entrecortadas, o que poderia dar uma idéia de confusão que, espero, não ter
feito na exposição... Em função disso e da importância que atribuo a essas
matérias cuja tentativa de resgate da história política do Estado e em especial
de um acontecimento que, por sua importância, transcende seus limites, gostaria
de, em primeiro lugar, fazer alguns reparos, para em seguida, fazer um resumo
de minha exposição.
1º) Eu não disse em nenhum momento que a
ANL era "uma frente do PCB".
Seria uma extrema simplificação. O que
eu fiz, dentro dos limites de minha exposição, foi, entre outras coisas,
historiar a ANL, de sua formação - final
de março de 1935 até o 11 de julho do mesmo ano, quando Vargas a coloca na
ilegalidade. A partir de então, as
células operativas da ANL, passaram a ser, basicamente células do PCB atuando
em nome da ANL...
2º) Eu não afirmei que Miranda era
policial. Disse apenas que havia versões
nesse sentido -–o que é diferente. A meu
ver, ele não era um elemento policial infiltrado no Partido (se não, não fazia
sentido seu longo tempo na prisão após o levante...). E, se passou a colaborar com a polícia, deve
ter sido após a morte de sua companheira, Elza, a mando da direção do Partido.
3º) Há uma foto na matéria, com uma
legenda que “Professor afirma que Revolução foi Marxista”. Na verdade, não cometi tal heresia... Em
nenhum momento, durante toda a exposição, me referi a um ou outro termo. Nem considero que foi revolução ( e de resto
quem estudou minimamente o tema...) nem muito menos usei, como complemento, o
termo marxista...
São esses os reparos principais que eu teria para fazer. No que diz respeito a minha participação no
debate sobre o levante de 1935 (que infelizmente não pôde contar com a
participação de Prestes e do Giocondo, como estava previsto), faço um
brevíssimo resumo:
De início salientei a importância de um estudo aprofundado sobre a
insurreição militar de novembro de 1935, que, a despeito das recentes
publicações sobre o tema, permanece ainda como um enigma. Daí eu crer que, a nível mais geral, ainda
está por ser feita uma rigorosa pesquisa histórica, que torne menos obscuro o
levante. Nesse sentido, considero seu
trabalho da maior importância.
Após algumas considerações preliminares, tentei mostrar que a história
dos acontecimentos que vão culminar em novembro de 1935 tem de necessariamente
incorporar uma série de componentes que vão, desde a composição do movimento
tenentista até as inflexões da Internacional Comunista. No que diz respeito a IC fiz um breve relato
dos seus Congressos e a questão dos “países semi-coloniais”. E, claro, sobre o PCB, cujo nome não sem
razão está associado ao movimento. Ele
vai representar igualmente um momento de inflexão: significa a ruptura com o PCB anterior (em
especial, as direções que assumem pós 1930).
Creio que as modificações ocorridas na composição social do partido
nesse período é um fator importante na opção pela via insurrecional (com a
adesão de alguns militares ao partido):
Ao mesmo tempo, claro, que tem a ver com a IC: o levante só pode ser entendido como evento
da etapa de transição tática do chamado “III Período” para as “Frentes
Populares”. E em relação ao método
insurrecional creio que correspondia a tendências de outros períodos no âmbito
da IC (citei alguns casos) e nesse sentido, era importante debater a questão da
insurreição como via de revolução. Isso
tem a ver também com uma determinada leitura, presente dos documentos da IC,
que tende a estabelecer uma articulação mecânica entre o imperialismo e as
facções políticas internas. No caso do
Brasil, há uma certa leitura “militarista”, herança da coluna Prestes.
Finalmente, me referi ao caso específico de Natal, que, a meu juízo,
tinha muito mais a ver com a situação política do Estado naquele momento.
É isso aí, caro amigo. Continue
firme no seu trabalho. Há muito ainda
que ser dito. Talvez não para as classes
dominantes – e as forças armadas em particular – que tem repetido à saciedade
os mesmos argumentos anticomunistas nos últimos 50 anos – mas para a esquerda
que, de um lado, pelo que pude perceber, há uma certa visão apologética e no
caso específico no PCB, um silêncio de certa forma constrangido, com uma enorme
dificuldade de enfrentar esse problema no curso de sua história. Não desejo alongar muito esta carta. Escrevo na expectativa de que, caso você
venha publicar novas matérias sobre o tema, torne público também esses meus
“reparos” e considerações.
Um
grande abraço,
do
amigo
Homero
Mr. BRAUNER QUASE ERA FUZILADO
Hoje os
leitores lerão textos referentes ao gerente da empresa Bond and Share, mister
Brauner, que explorava o transporte coletivo de Natal, na época da revolução de
novembro de 1935; as peripécias do
cidadão Luiz Paulo, residente na rua Ari Parreiras, Vila São Paulo, 206,
Alecrim, que viu muita gente correndo com medo de comunistas e as retificações
de João Wanderley (vide entrevista publicada em outra reportagem desta série) a
respeito do 21º Batalhão de Caçadores.
Ele explica porque o quartel do Exército em Natal tinha muita gente de
fora e a atuação de Giocondo Dias em episódio da Revolução Constitucionalista
de São Paulo em 1932. O relato sobre o
diálogo de João Galvão, Ministro da Viação no governo revolucionário de 35, com
o cidadão Joseph Williams, o Mister Brauner foi me revelado por um filho de
participante do tiroteio da Serra do Doutor, José Bezerra de Araújo, Haroldo
Bezerra, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. A versão desse fato, segundo o informante,
foi lhe revelado pelo próprio João Galvão, “que ria pra burro quando contava
essa história”. Já as quatro últimas
linhas das retificações de João Wanderley referem-se ao fato dele ter dito que
tinha visto “três navios branquinhos no estuário do rio Potengi”..
GENRO DE
LAMARTINE AMEAÇADO
Entre
as muitas histórias que circulam sobre os acontecimentos de novembro de 1935 em
Natal, existe uma que me foi contada por um Secretário de Estado, amigo do
atual governador que por seu valor histórico, apesar de meio humorístico, não
pode deixar de ser revelado. (1)
Conforme
me foi contado, no primeiro dia do Governo Popular Revolucionário (noite de
24.11.35), os bondes foram retirados de circulação por ordem do gerente da
empresa “Bond and Share”, Joseph Williams, conhecido como Mister Brauner,
inglês que era casado com a Sra. Paulina Lamartine, filha do ex-governador
Juvenal Lamartine. Mister Brauner já
faleceu. Dona Paulina reside em São
Paulo. Em virtude da paralisação do
sistema de transporte coletivo, o Ministro da Viação, João Batista Galvão, no
seu gabinete instalado na Villa Ciccinato, sede do Governo Revolucionário,
convocou Mister Brauner para convencê-lo a botar os bondes na linha.
Diante
das explicações de Galvão de que o governo e a população da cidade do Natal
necessitavam, urgentemente da normalização dos serviços de transportes urbanos,
o gerente da empresa britânica disse para João Galvão que o clima
revolucionário da cidade impedia que colocasse os bondes em circulação. Galvão tornou a explicar que quem mandava na
cidade era o Governo Revolucionário. Mas
o britânico, na sua calma peculiar, misturando português e inglês, disse para
Galvão: “Doutor Galvão, o senhor é um
dos Chefes do Governo da Revolução, mas a situação não inspira confiança. Os bondes são propriedades de sua
Majestade Britânica e eu não quero
causar prejuízos a ela.”
Tendo
observado que Mister Brauner estava teimoso e com medo de colocar os bondes na
linha, o Ministro João Galvão chamou o seu ajudante de ordem, conhecido por Tarol
e lhe ordenou:
“-
Tarol, prepare o pelotão de fuzilamento para agora mesmo”.
Como
observou que a ordem era pra valer, Mister Brauner de imediato, disse: “Não precisa chamar o pelotão de
fuzilamento. Vou mandar botar os bondes
na linha agora mesmo”. Brauner saiu da
Vila Ciccinato direto para o escritório da “Companhia de Força e Luz”, que
ficava vizinho a Estrada de Ferro Central do RN, outra empresa que sofria forte
influência cafeística e comunista. No
dia seguinte os bondes voltaram a trafegar com a tarifa 100% mais barata.
PERIPÉCIAS
“Em
1935, eu tinha 17 anos, e cursava a 2ª série no Ateneu da Junqueira Aires. Naquele maravilhoso Ateneu lecionavam grandes
Mestres – Pe. Monte, Dr. Luiz Antônio, Luiz Torres, Valdemar de Almeida, Câmara
Cascudo, Véscio Barreto e tantos outros...
Pouco
ou quase nada me lembro do que se falava no Ateneu e nas ruas, sobre a política
da época. Porém a estudantada do velho
Ateneu era brava, estudiosa imitando a centenária Coimbra em Natal. Estudavam já na última série do Ateneu, em
1935, valores como Geraldo Fernandes, Paulo Pereira Luz, Raimundo Nonato, e
outros que ilustram a vida norte-rio-grandense.
Ouvi
falar que na novembrada que durou só três dias em Natal; queimaram parte do
arquivo do Ateneu e me parece que houve um Decreto promovendo todo mundo em
vista da falta dos mapas escolares.
João
Galvão, que foi membro da Junta Governativa instalada na Vila Ciccinato, na
Praça Pedro Velho, em 1935, se não me engano era da Secretaria do Ateneu; e
forte, alto, alvo, bravo, poeta e sonhador, era filho de nobre família
natalense. Este foi preso e depois
conseguiu meios e ficou guardado muito tempo não sabemos onde.
Mais
tarde, João Galvão reaparece e sempre bravo e inteligente demais forma-se
advogado e passou a dar “quinau” em muito figurão.
Certa
vez ouvi João Galvão contar que passava em uma rua do Grande Ponto, quando
ouviu os tiros no velho quartel do Exército e logo lhe apareceu um amigo que
lhe disse: “- Olha, já começou o tiroteio.
Você vai ou não vai?...” E nisso
ele cheio de coragem e mocidade respondeu:
“ora vamos até lá...”
Conheci
também Rosemiro Henrique de Freitas, isto na Penha ou Canguaretama em
1943. Rosemiro era natalense e perdera o
irmão Indaleto de Freitas, de 12 anos, no tiroteio havido contra a caravana de
Batista Luzardo, no Hotel Internacional que ficava na Tavares de Lira, em
1930. Aconteceu que Indaleto de Freitas,
muito curioso subiu e ficou agarrado num poste apreciando os discursos, quando
o tiroteio fechou contra os caravaneiros que pregavam os ideais da Revolução de
1930, veio uma bala doida e matou o menino.
Sei que
houve uma rua com o nome de Indaleto, porém algum falso profeta conseguiu
apagar depois... (É parecido com o caso do Palácio Djalma Maranhão, amaldiçoado
por falsos profetas, e depois reabençoado por eles mesmos forçados pelo
remorso, talvez...).
Rosemiro
de Freitas era baixo, vibrante, autodidata famoso, e foi condenado como um dos
intelectuais da Novembrada, a cinco anos de cadeia: tirou uns três anos na Ilha no Rio e o restante
tirou na cadeia de Canguaretama. Certo
dia quando Rosemiro fez as contas do tempo de cadeia verificou que já tinha
tirado mais 6 meses do que devia e logo reclamou o seu alvará de liberdade. Ele me contou que já na Ilha trabalhavam, mas
os guardas da Ilha não permitiram nem chupar uma laranja que caísse no
chão. Ele guardava com muito carinho um
número do jornal “A LIBERDADE” que ele ajudou a redigir no dia da revolta de
1935.
Eu não
era de nada, tinha 17 anos, cursava a 2ª série do lendário Ateneu, ali eu
entrara assombrado e quiseram me dá um purgante, como minhas pernas eram muito
finas se condoeram e me bateram pouquinho.
Em novembro de 1935, numa Quinta-feira 21, eu de férias fui para o sitio
Porto, em Nísia Floresta e no sábado pela manhã mandei um bilhete para a
professora Germana Silva, (hoje com 74 anos e muito lúcida), e no bilhete eu
dizia para ela que era Integralista ou Camisa Verde. No final do bilhete, não sei hoje nada da
razão, porque escrevi: Anauê! Anauê! prepara as pernas para correr!; e não
é que às 7 horas da noite já corria em Natal muita gente, e dos Anauês e
Integralistas, sei que ficou muito pouco...
(Porém
na verdade confesso de nada eu não sabia;
e de política nada eu entendia.
Até uma vez eu ouvia um brilhante intelectual do integralismo
discursando na sede do Partido que ficava embaixo do Edifício Leite, Alecrim, e
no entusiasmo do discurso, ele exclamou.
“Estes Camisas vermelhas ou comunistas”, e eu que estava com uma camisa vermelha
fugi... pois entendi que o orador estava me achando com cara de comunista).
A
carreira e a surra de muriçocas começa aqui:
os meus bons parentes, amigos valiosos, Lermes Silva e Clodoaldo Cruz,
ambos moços e gerentes de duas lojas no Alecrim, eram entusiastas Camisas
Verdes. Eram de confiança e de bravura,
eram mesmo da linha de frente.
Quando
começou o tiroteio no quartel da cidade, a população do Alecrim ficou curiosa
para saber de que se tratava e não tardou a notícia da revolta no quartel e
mais tarde Revolução Comunista. Estes dois
amigos com outros passaram a investigar pelas ruas, com muita cautela tudo e
acreditavam em alguma reação mais positiva.
No domingo já às 16 horas, tudo estavam em poder dos vermelhos, e o
Lermes e o Clodoaldo, temendo serem apanhados e jogados na cadeia ou coisa
pior, pegaram um revólver 38, cano longo do patrão, José Leopoldino, dono da
loja de calçados, e rumaram numa fuga para Nísia Floresta, pois sabiam que lá
eu estava num sítio, romperam muito mato, e na segunda-feira, 25, era dez
horas, vi eles apontarem no terreiro famintos e rasgados nas roupas. Logo tomei providências de comidas e exigi
assombrado que eles fossem ficar no mato próximo e lá eu daria as notícias e
lhes levaria o comer. Diante do meu
assombro eles me atenderam, acho que mais com pena de mim do que por medo, lá
ficaram até 8 horas da noite, quando as muriçocas que eram demais lhes deram em
cima e não suportando, eles vieram para a casa onde me achava. Logo na chegada deles em casa, ouvimos uma
saraivada de balas, e eu tremendo, os empurrei para o mato e fui com eles mas
lá ninguém suportou e viemos para casa outra vez. Depois eu soube que as balas já eram
fugitivos da Revolução que passaram ali às tontas. Logo em seguida os meus dois hóspedes foram à
sede do município e se incorporaram aos legalistas que armados já prendiam os
revoltosos em debandada. Dou fé. Luiz Paulo”.
WANDERLEY CONTA MAIS SOBRE O 21º
BC
O 29º
BC saiu em fins de 1932 de Natal para SP e retornou em fins do mesmo ano,
depois de participar da Revolução Constitucionalista.
O 21º
BC também saiu do Recife, em 1932, para combater a Revolução Constitucionalista
no interior do Mato Grosso e São Paulo.
No nordeste de Mato Grosso, o 21º BC tentou se rebelar e ficar ao lado
dos “Constitucionalistas” de São Paulo.
Por isso, como castigo, o 21º BC foi removido para o Amazonas, na
fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia, que estavam em guerra. O 21º BC não retornou a Recife e somente
chegou a Natal no dia 13 de agosto de 1933, ocupando o quartel do 29º BC na rua
Junqueira Aires.
“No
meio do efetivo do 21º BC estavam soldados, cabos e sargentos de Pernambuco,
Bahia e Pará. Eu ingressei no Exército
em Recife”. Entre eles diversos
soldados, cabos e sargentos que participaram da quartelada contra o interventor
de Pernambuco, Carlos Lima Cavalcanti, usineiro e bicha assumido. Giocondo Dias, que esteve no Mato Grosso, São
Paulo e Amazonas, veio no meio desse povo e sempre foi impetuoso e líder
durante os três meses de Revolução Constitucionalista 9 de julho. Certa vez o capitão Caronbet Pereira da Costa
precisou de seis voluntários para uma missão de reconhecimento da posição dos
paulistas, nas margens do rio Sucuriú, em Três Lagoas, pois eles estavam com 2
canhões Krupp e nós com dois canhões Scheineder, martelando o nosso
efetivo. Então, Giocondo foi o primeiro
a dar um passo à frente e, em seguida, cinco homens fizeram o mesmo. Caronbet levou os 6 homens, fez o
reconhecimento e o croqui. Depois
ordenou 3 disparos de canhão que destruíram os 2 canhões Krupp”.
“Os navios
mexicanos ficaram no meio do rio Potengi, na altura do caís do porto. Talvez dois ou três navios estivessem
emparelhados. Só vi três navios, mas
talvez fossem cinco. Os avisos franceses de Latoécere ficavam ancorados no
depósito flutuante, em frente a atual
Base Naval”, disse João Wanderley.
NOTA:
1-
O informante foi Haroldo de Sá
Bezerra, Secretário da Fazenda do Estado do RN no governo José Agripino Maia,
filho de José Bezerra de Araújo, fazendeiro e político em Currais Novos, já
falecido.
2 – Segundo informou o escritor Hypérides Lamartine de Faria, Clóvis,
seu pai, estava em Natal durante o governo revolucionário de 1935 e manteve
contacto telefônico com Quintino Clementino de Barros, seu conterrâneo, em
virtude dos rumores de que a sua família estava ameaçada de prisão. Pery tinha
10 anos e estava em Serra Negra do Norte. Clóvis indagou de Quintino sobre a
natureza do movimento. “É um movimento de natureza comunista e viemos para
ganhar, mas vocês não se preocupem, não, que não vamos mexer com vocês. Pode
avisar a família”, teria dito Quintino a Clóvis. O filho de Juvenal desejou boa
sorte a Quintino. Dias depois, revolução
derrotada, Juvenal Lamartine e família desembarcou do navio que os trazia da
Europa. A família Faria e o político Dinarte Mariz retribuíram o gesto de
Quintino em 1945, após a anistia, dando-lhe meios para sair da prisão, na ilha
de Fernando de Noronha
MENELEU, DE TIPÓGRAFO A INDUSTRIAL, CONTA COMO IMPRIMIU O JORNAL DA
REVOLUÇÃO, A LIBERDADE
Para
desfazer muitas mentiras divulgadas sobre a revolução de novembro de 1935,
principalmente as referentes à sua pessoa, um simples tipógrafo sem
envolvimento direto com a insurreição militar, o industrial Francisco Meneleu
dos Santos, residente em Fortaleza-CE, concedeu esta entrevista ao Diário de
Natal.
Meneleu
tinha 18 anos quando foi preso pela primeira vez, na noite de 27 de novembro de
1935, no quartel do Batalhão da Polícia Militar, na “Salgadeira” (hoje rua das
Laranjeiras - Cidade Alta), onde centenas de presos políticos estavam
trancafiados. Naquela noite, no meio de
dezenas de presos (“gente fina”), vestidos de paletó e gravata, ele passou pelo
“corredor polonês”, formado por policiais armados com “rabo de galo” (uma espécie
de facão que era usado pelos PMs para dar no povo), mas não sofreu nenhuma
bordoada por causa do seu corpo franzino.
Natural
de Areia Branca/RN, Francisco Meneleu chegou ainda menino na cidade de
Mossoró. Onde aprendeu a trabalhar como
tipógrafo. Trabalhou em Macau, na
tipografia de seu Antunes, quando foi convidado por João Café Filho para
trabalhar no “O Jornal”, que funcionava na rua Tavares de Lira, em frente a
loja “4.400”, no bairro da Ribeira-Natal.
COMO VIROU “REVOLUCIONÁRIO”
Meneleu (ao centro) visitou a gráfica de A República no final do século passado. Ao lado, sua esposa, dona Lourdinha, ambos falecidos em Fortaleza, em 2010 e 2011, respectivamente. Na ocasião, ele visitava a gráfica onde imprimiu o jornal A Liberdade.
Depois
de trabalhar vários meses no jornal de Café Filho, Meneleu ingressou na
tipografia “A Comercial”, do major José Pinto, onde trabalhava de dia. De noite, fazia “serão” no jornal católico “A
Ordem”, na rua Dr. Barata. Lá, ele tinha
um companheiro e amigo, Abner.
Foi num
desses “serões” (extra) na Ordem, noite de 23.11.35, que interrompeu o seu
trabalho por alguns minutos para ouvir o tiroteio na cidade, pois não sabia do
que se tratava.
“Passamos
a noite dentro da Ordem, sem dormir direito.
Na manhã do dia 24, chegaram vários soldados do Exército, fardados e
armados, que mandaram que todos os tipógrafos saíssem do jornal e se dirigissem
para A República. Saímos na marra,
escoltados e avisados que iríamos fazer um jornal da revolução, A Liberdade. Apesar de termos passado a noite sem dormir,
fomos obrigados a aceitar a convocação.
E quem não iria? Não estávamos numa revolução? Então, fomos eu, Loiola Barata, Abner, Israel Alves Pedroza, Ubirajara
Pedroza, Pedro de tal e outros cujos nomes não me recordo. Era um grupo de 8 a 10 tipógrafos. Passamos dois dias trabalhando na confecção
do jornal A Liberdade, cujos nomes dos seus redatores não me lembro porque não
tinha contato com eles (1). Eu era
considerado como um dos melhores tipógrafos e fiquei com a responsabilidade de
fechar o jornal. Quando tinha acabado as
matérias, ficou um espaço em branco na última página. Então, procurei alguma coisa para encher o
espaço e não encontrei nenhuma matéria.
A solução foi colocar um clichê de “Sal de Fruta Eno”, que estava jogado
no chão de A República. Não sei se o
revendedor de Natal gostou daquilo. Só
sei que a solução foi aquela, sem nenhum objetivo de prejudicar ninguém. Também não sei se houve consequências
negativas para o vendedor de Sal de Fructa Eno (risos).
NO MEIO DE GENTE FINA
“Na
noite do dia 27, um dedo-duro apontou o meu nome para a polícia que foi me
prender na “república” em que morava, na rua Frei Miguelinho, na Ribeira. Nos fundos da república, eu tinha uma pequena
tipografia, para os meus biscates. Os
policiais entraram na casa, depois de arrombarem a porta e levaram a minha mala
e 30 mil réis, as minhas economias.
Levaram até as minhas calças. Fui
conduzido para o quartel do 21º Batalhão de Caçadores, onde o Capitão Aluízio
Alves de Moura, um moreno, forte e carrancudo, perguntou o que eu estava
fazendo ali. Eu contei o que tinha feito
e ele perguntou: “Só fez isso? Então, vá para a sua casa. Não matou ninguém, então vá embora”. Fui para a casa do “major” José Pinto que,
por sua vez, mandou que eu fosse para a minha “república”. Foi aí que fui preso novamente pela
polícia. Desta vez, fui conduzido para o
quartel do Batalhão da PM. Às 22 horas
do dia 27 de novembro, depois de escapar ileso do “corredor polonês”, os
“tintureiros” (carros da polícia) levaram a gente para a Casa de Detenção, em
Petrópolis, onde passamos 6 dias separados dos presos comuns. Em seguida, fomos para a Escola de Artífices,
na avenida Rio Branco, Cidade Alta.
Passei mais de um mês na Escola de Artífices, tendo sido o melhor
período de prisão que passei na minha vida, pois vinha comida de hotel, com
sobremesa, para os presos. A maioria era
médicos, jornalistas, dentistas, advogados, engenheiros, tudo gente fina. Me lembro bem do Dr. Nizário Gurgel,
dentista, João Maria Furtado, Amaro Magalhães e os filhos dele, Ramiro
Magalhães e outros. Meu pai, que morava
em Mossoró, apesar de muito pobre, foi a Natal quando soube que eu estava
preso. Falou com o major Solon, um homem
que gozava de muito prestígio no governo de Rafael Fernandes. Só sei que o major Solon conseguiu a minha
soltura e fui embora para Mossoró em janeiro de 1936. Como se nada tivesse acontecido, me alistei
no Tiro de Guerra de Mossoró, onde permaneci até 1938, trabalhando e vivendo a
minha vida, tranquilamente. Certo dia,
alguém trouxe um jornal de Natal para mim, com uma notícia que trazia o meu
nome como condenado a 6 anos e 6 meses, à revelia. Eu quase caía para trás, porque fiquei
sabendo que a minha condenação era resultado das acusações feitas pelos meus
companheiros tipógrafos. Eles disseram
que eu tinha pegado um fuzil e ameaçado todo mundo para fazer o jornal A
Liberdade, inclusive montando guarda na República. Tudo mentira, pois nós, tipógrafos, fizemos a
mesma coisa na confecção do jornal da revolução. É claro que eles se aproveitaram do fato de
eu estar em Mossoró e jogaram toda a culpa para cima de mim. Todos eles foram absolvidos. O delegado de Mossoró, Capitão Severino
Elias, uma ótima pessoa, sabia que eu não era comunista e não mandava me
prender, mesmo sabendo que eu era um condenado.
Eu era benquisto em Mossoró e ele dizia “enquanto eu não receber ordem
de prisão, eu não lhe prendo”. Certo
dia, capitão Elias recebeu a ordem e mandou avisar Raul Caldas, engenheiro
químico de Mossoró. Uma pessoa boníssima
e inteligente. Raul Caldas, meu amigo,
me procurou e ofereceu dinheiro e um automóvel para eu ir embora para onde
quisesse. Mas resolvemos que eu devia me
apresentar, pois eu não tinha feito nada demais, apenas cumprido ordens dos
revolucionários para fazer o jornal deles.
Mesmo assim, passei um mês em Mossoró, trabalhando na firma de Raul
Caldas, onde já estava há vários meses.
Por causa de uma denúncia, a polícia teve que me colocar na detenção de
Mossoró, ficando lá até meados de 1941, quando veio uma ordem de Aldo
Fernandes, Secretário Geral do Governo do Estado. Fui escoltado para Natal e trancafiado na
Casa de Detenção de Petrópolis. Minha
esposa tinha 14 anos e ficou gravemente doente em Mossoró, mas não conseguimos
autorização de Aldo Fernandes para que eu fosse visitá-la. Aldo Fernandes negou a ordem sob a alegação
de que eu estava preso por determinação do Ministro da Justiça. Isso era uma grande mentira, pois eu não era
um preso de importância. Apesar da negativa de Aldo Fernandes, o capitão José
Medeiros, diretor da Detenção, me deu dinheiro e passagem para eu viajar para
Mossoró. Fui, visitei a minha mulher e retornei para Natal. Em 1943, retornei a
Mossoró para cumprir o resto da pena. Após a minha liberdade, fui empregado no
dia seguinte por Vicente Carlos Sabóia Filho, Saboínha, na secção de engenharia
da Estrada de Ferro de Mossoró, trabalhando ao lado do Dr. Ciarline. Saboínha
era um homem bom e dele jamais esqueci”, conta Francisco Meneleu dos Santos.
GOSTANDO DO COMUNISMO
Francisco
Meneleu dos Santos, residente no bairro da Varjota, em Fortaleza-CE, onde o
repórter foi entrevistá-lo, é proprietário de uma fábrica de carimbos e
etiquetas no centro da capital alencarina. Ele não tem nenhum ressentimento do
então chefe de polícia do RN, João Medeiros Filho, autor do livro “82 Horas de
Subversão”, no qual Meneleu é descrito como um dos responsáveis pela confecção
do jornal A Liberdade e de ter vigiado, armado de fuzil, os tipógrafos de A
Ordem e A República.
Esse
relato sobre mim foi todo baseado nos processos elaborados pela polícia. A
verdade é que os meus colegas tipógrafos se acovardaram e jogaram toda a culpa
para cima de mim. É natural que o pessoal, preso em Natal, sofrendo humilhações
na prisão, me denunciasse como o culpado. Só que as acusações não eram
verdadeiras. João Medeiros não inventou nada contra mim, apenas transcreveu os
processos. No ano passado, fui apresentado a ele na porta de um hotel. Já Mário Cabral, que foi tenente da Polícia
Militar do RN, seguidor de Mário Câmara, eu fiz questão de visitá-lo em sua
residência, em Natal. Mário Cabral sempre foi um homem resoluto e de fibra.
Para ganhar uns trocados na Casa de Detenção de Natal, ele aprendeu a ser
barbeiro. Em 1935, eu não sabia patavina de comunismo. Mas como sofri muito com
a repressão policial, que prejudicou muitos inocentes, principalmente simples
adversários políticos de Rafael Fernandes e do Partido Popular, muitos anos
depois resolvi ler alguma coisa sobre comunismo. Li muito e hoje gosto do
marxismo, mas nunca de filiei a nenhum partido comunista.”
NOTA:
1- Otoniel
Menezes de Melo nasceu em Natal, a 10 de
março de 1895, e faleceu no Rio de Janeiro, a 19 de abril
de 1969. Era considerado o “Príncipe dos Poetas do Rio Grande do Norte”. Foi
promotor Público Interino, em Macau-RN. Participou, em 1926, como sargento do
29o BC, “na expedição de combate à Coluna Prestes”. Jornalista,
colaborou em todos os jornais e revistas de Natal. Em 1955, publica o seu livro
mais importante, A Canção da Montanha. Em 1958, ingressou na Academia Norte –
Rio-grandense de Letras, ocupando a vaga de Bezerra Júnior, para a cadeira que
tem como patrono Antônio Glicério. Foi o principal redator do jornal “ A
Liberdade”, do efêmero governo comunista de novembro de 1935. ( Fonte: Revista
da Academia norte-rio-grandense de Letras, Ano XIV, número 8, maio de 1970 –
Natal - RN, página 198 ).
HAVIA ATÉ DENTISTA ENTRE OS PRESOS
Loja de artigos religiosos de Carlos Gondin, integralista, situada na Ribeira,
foi depredada pelos revoltosos.
O
jornal oficial “A República”, controlado pelo governo de Rafael Fernandes, no
dia 30 de novembro de 1935, três dias depois do fracasso da insurreição
vermelha, também não noticiou nada sobre o soldado Luiz Gonzaga de Souza,
considerado como herói-mártir da Polícia Militar do Rio Grande do Norte. É de se estranhar a omissão de um jornal
governamental sobre esse propalado “herói”
de uma corporação estatal que defendeu a ordem estabelecida durante 19 horas de
tiroteio. O relatório do delegado de “Ordem Social”, Enock Garcia, sobre a
insurreição de 35 em Natal, conforme está inserto no livro de João Medeiros
Filho, “Meu depoimento”, 1ª edição (1937), Imprensa Oficial do RN, páginas 107
a 112. Medeiros defende intransigentemente a versão do herói da Polícia Militar
no seu livro “82 horas de Subversão” (edição
do autor). O relatório do
delegado Enoch Garcia, autor do inquérito policial sobre a revolução comunista
em Natal, não traz uma linha a respeito da morte de um soldado da PM chamado
Luiz Gonzaga de Souza. Segundo denúncia do Procurador da República Carlos Gomes
de Freitas, o dentista era Nizário Gurgel, pai de Romildo Gurgel e parente
próximo do governador Rafael Fernandes Gurjão. (1)
Trnascrição:
A REPÚBLICA – NATAL, SÁBADO, 30 DE NOVEMBRO DE 1935.
N.º 1467 – 1ª Página.
A MALOGRADA REBELIÃO EXTREMISTA NO ESTADO.
A
CHEGADA DAS FORÇAS DA POLÍCIA MILITAR DA PARAÍBA E DO 20º BC E A POLÍCIA DE
ALAGOAS A ESTA CAPITAL – O 23º B. C. E A POLÍCIA DO CEARÁ EM MOSSORÓ – PRISÃO
DE MEMBROS JUNTA EXTREMISTA – A ENÉRGICA RESISTÊNCIA DO SERIDÓ – LANCES DA
BRAVURA SERTANEJA – A ATITUDE DA DIGNA OFICIALIDADE DO 21º B. C. E DO SEU BRAVO
COMANDANTE – MORTOS E FERIDOS – SAQUES E DEPREDAÇÕES NO INTERIOR DO ESTADO – O
ASSALTO DO ATHENEU – PRISIONEIROS CIVIS E MILITARES.
Cada hora que passa nesses dias de recomposição da ordem malbaratada
pela intentona extremista que abateu o nosso estado, nos traz, por entre
alegrias insopitáveis da vitória, as notícias do fatos tristes, do trem dos
sucessos que se desencadearam nos momentos de desespero e horror sofridos pelo
Rio Grande do Norte. Históriar esses
acontecimentos, descrevê-los em toda a nudez crua da verdade, transmite-os ao
papel através da pena revoltada e comovida eis a tarefa a que nos obriga neste
instante a função de informadores conscienciosos do povo.
Com
estas notícias, nos chegam também os batalhões legais que se movimentaram
urgentemente para o teatro da luta e que aqui aportam quando, felizmente, ao
rumor de sua vinda, os criminosos salteadores já haviam fugido, em louca
debandada, o 23º BC e a policia do Ceará em Mossoró.
Desde o
dia 25 que, em marchas forçadas forte batalhão da policia cearense chegara a
Mossoró, tendo neste sentido o governador Menezes Pimentel telegrafado ao
governador Rafael Fernandes.
Anteontem,
à noite, segundo telegrama do prefeito Duarte Filho, o 23º BC , de Fortaleza,
chegou aquela cidade sob o comando do major Rodirico Dantas Barreto. Sob entusiasmos vivas da população
mossoroense, os 600 homens e 26 oficiais da unidade do Ceará entraram naquele
importante império rio-grandense.
As
forças Paraibanas e o 20º BC de Alagoas.
Ontem à
tarde desembarcou nesta capital, na gare da Great Western, a gloriosa policia
da Paraíba, que tão grande atuação exerceu, nas fronteiras do Estado, na luta
de repressão às hordas dispersas dos extremistas. Com a policia paraibana, veio
também o heróico 20º BC, de Alagoas.
São as
seguintes as tropos chegadas ontem a esta capital: Um destacamento sob o comando do major José
de Andrade Farias, composto do BC, uma companhia, da policia paraibana e uma
secção da Bateria de Artilharia de Dorso de João Pessoa.
A
oficialidade do 20º BC se compõe dos Srs. capitão Romeu Azevedo, comandante do
20º BC, capitão Jansen Milher, subcomandante;
2º tenente João Tibuvitino Porto, comandante da 1ª companhia; tenente Geroncio Quinteiro, comandante da 2ª
Cia. de Metralhadores; 1º tenente Mário Lima, ajudante do Batalhão; 2º tenente
Macario G. Melo; 1º tenente Dr. Aristides Meireles; 2º tenentes Amaro
Apoluceno, Luiz Casado de Lima, Adolfo José A
Filho, Arthur Sales, Manoel Rocha de Lima, José Augusto dos Santos e José
Mário Carneiro.
O 20º
BC conta um efetivo de 300 homens, inclusive oficiais, sargentos e praças.
A
policia paraibana se compõe de 350 homens, entre oficiais e praças.
A
secção da Bateria de Dorso, também incorporada ao Desviamento, consta de 60
praças, sob o comando do 2º tenente Portela.
PRISÃO DE MEMBROS DE COMITÊ REVOLUCIONÁRIO EXTREMISTA
Os
inspetores de policia Francisco Pontes, João Severino Batista, Heronides
Gonçalves e o soldado João Inácio, prenderam em Canguaretama, três membros do
comitê popular revolucionário que fugiam da perseguição das tropas legais. Chamam-se José Macedo, que ocupava o cargo de
tesoureiro dos Correios e se fizera Secretário da Finanças do comitê; Lauro Cortez Lago, ex-diretor da Casa de
Detenção, demitido como elemento perigoso à ordem , por ato de 22 deste do governador Rafael
Fernandes e que se constituíra ministro do Interior; e João Batista Galvão, ex-Secretário do
Atheneu também exonerado pelo governo, e que ocupava no comitê o lugar do
Ministro da Viação: José Macedo e Lauro
Lago conduziam dinheiro num total de 210:632$6000, sendo que último escondera
entre as pernas e as meias várias notas de contos de réis.
Na
Repartição dos Correios verificou-se que o tesoureiro José Macedo dera um
desfalque de quarenta e seis contos nos cofres a seu cargo. Esses três elementos foram há muito
denunciados pelo deputado José Augusto, no Rio, como declaradamente comunistas,
ligados à interventoria passada. Os seus nomes, durante os dias de terror que
chefiaram, assinaram inúmeras requisições violentas ao nosso comércio.
Mais
dois cabeças da rebelião extremista foram presos pelas nossas forças entre
outros implicados; - são o soldado Quintino, músico do 21o , e
Eliziel Diniz Henriques, inferior dessa unidade, sendo o primeiro Ministro da
Defesa do comitê daqui e o segundo, prócer extremista dos mais famigerados, que
foi detido com 8 contos de réis no bolso.
O
sapateiro José Praxedes, que se atribuíra o lugar de Secretário do
Abastecimento e que lançou boletins de ameaças ao comércio natalense, ainda não
foi encontrado, mas em sua residência foram apreendidos mais de vinte contos de
réis
.
A RESISTÊNCIA IMPAVIDA DO SERIDÓ
– LANCES DA BRAVURA SERTANEJA.
FOI
ADMIRÁVEL DE ENERGIA E HEROÍSMO A RESISTÊNCIA DOS SERTANEJOS SERIDOENSES CONTRA
A AVALANCHE EXTREMISTA QUE PROCURAVA DOMINAR A RICA E HERDEIRA ZONA DO SUDOESTE
DO ESTADO. O CEL. DINARTE MARIZ, ENTRANDO EM LIGAÇÃO COM O DR. ENOCH GARCIA, QUE PARTIRA DE MACAÍBA PARA O SERIDÓ
PREVENINDO TODOS OS SETORES EM QUE TRANSITAVA, CHEFIOU A RESISTÊNCIA,
MOVIMENTANDO-SE COM INCRÍVEL ENERGIA POR TODAS AS LOCALIDADES SERIDOENSES,
COMUNICANDO-SE COM OS PREFEITOS E AUTORIDADES DA REGIÃO E VIAJANDO A CAMPINA
GRANDE, PARAÍBA, ONDE RECEBEU DO GOVERNADOR ARGEMIRO DE FIGUEREDO TODO AUXÍLIO
BÉLICO NECESSÁRIO À DEFESA.
Forças
paraibanas sob o comando do major Elias Fernandes e oficiais cap. Benicio e
ten. Marques, penetraram em nosso estado imediatamente ajudados brilhantemente
pelos Drs. Mariano Coelho, Humberto Gama, Oscar Siqueira, João Agripino Filho,
Ivo Trindade, Srs. Florêncio Luciano, Vivaldo Pereira e João Medeiros, Dinarte
Mariz e Dr. Enoch Garcia se desdobraram na organização da resistência,
concentrando as nossas forças em pontos estratégicos e se reunindo em Santa
Cruz. Ao seu lado, combateram os bravos oficiais de nossa polícia capitão
Severino Elias, os heróicos tenentes Pedro Ceciliano e Antônio de Castro. O Sr.
José Epaminondas, brava figura de seridoense, foi um dos baluartes da
resistência, defendeu corajosamente a sua terra com um reduzido número de
combatentes.
Sob
todos os aspectos foi homérica a coragem da gente sertaneja, que guiada por
Dinarte Mariz, reuniu-se em poucas horas em números de 800 homens, para
dominar, com munição reduzidíssima e inferioridade absoluta de armas, os troços
insurretos. As nossas forças, sob o comando dos dignos oficiais capitão
Severino Elias e tenentes Pedro Ceciliano a Antônio de Castro, contribuíram
decisivamente para a derrota definitiva dos rebeldes, desbaratados na Serra do
Doutor fugindo desordenadamente deixando mortos, feridos e prisioneiros.(2)
Entre
os prisioneiros que tomaram parte no movimento subversivo e que estão
envolvidos nas diferentes prisões desta capital, com plenas garantias e o
relativo conforto dados pelo governo acham-se o Dr. João Maria Furtado, Antônio
Alves de Oliveira, Mário Paiva, Severino Ribeiro, Austriclinio Vilarim, Odilon
Rufino, João Alves da Rocha, Garibaldi Sobrinho, Rosemiro Freitas, Camilo
Avelino e muitos outros.
A ATITUDE DA DIGNA OFICIALIDADE DO 21O BC DO SEU BRAVO
COMANDANTE.
Diante
da súbita erupção da rebeldia, tomado de surpresa, o cel. Pinto Soares, não
podendo penetrar no quartel do seu comando, seguiu para o Batalhão da Polícia
Militar, onde ao lado do major Luiz Júlio, dirigiu a defesa heróica da unidade
estadual.
Ao
mesmo tempo, os oficiais do 21o procuravam, sob o nutrido tiroteio
aos sediciosos, aproximar-se do quartel. Os que lá penetraram foram logo
detidos pelos extremistas e obrigados a rendição. Entre outros, os tenentes Ivo
Borges, Moreira, Hélio e Vicente Euclides, estiveram prisioneiros dos seus
comandos rebeldes, mas sempre fiéis à honra e à dignidade da farda que vestem
para o defender as instituições e o regime.
MORTOS E FERIDOS.
Ainda
não nos é possível fornecer um lista pormenorizada e completa dos mortos e
feridos nos diversos pontos do Estado onde, em defesa das instituições, vidas
preciosas se sacrificaram. Contra os rebeldes de repente se mobilizou, em luta
implacável ao extremismo. Por isso, temos a registrar diversos mortos e
feridos, principalmente da parte das sediciosos, que na Serra do Doutor
sofreram tremenda derrota. Entre as forças legais, podemos desde já
tranqüilizar a família conterrânea, poucas foram as vítimas, havendo apenas
alguns dos nossos combatentes recebido ferimentos sem grandes gravidades.
PRISIONEIROS CIVIS E MILITARES
Os quartéis do 21 BC e Batalhão da Polícia, Casa de Detenção e Postos
Policiais acham-se com suas prisões cheias de rebeldes e implicados no
movimento extremista.
Entretanto, até a hora em que redigíamos estas notas não tinham sido
ainda encontrados vários processos dos vermelhos, de atuação decidida no
movimento, como o sapateiro Praxedes, dr. Nizário Gurgel (dentista), Raimundo
Reginaldo, Benilde Dantas e João Francisco
Gregório, presidente do Sindicato dos Estivadores, que tomou parte ativa
na rebelião, armado a fuzil e dinamites, embora tivesse feito na véspera, ao
Governo do Estado, as mais calorosas juras de horror e de ódio ao comunismo”.
NOTAS:
1-
“O Doutor 129 Nicacio Gurgel foi,
durante o movimento, elemento extremista de destaque.
No quartel do 21º BC foi visto em
atitude de chefe, dando ordens a rebeldes (fls. 38 v.) tendo sua atividade
observada por várias testemunhas a fls. 114, 51, 112,117 v., 120 v., 124, 127
v., 282 e 288 verso. Destacou-se,
principalmente, com descabidas exigências em nome do governo revolucionário, à
esquadrilha mexicana, então fundeada nas águas do Potengy, impondo de modo
descortês e ameaçador a entrega de alguns brasileiros que ahi tinham procurado
e encontrado asilo carinhoso contra a violência dos rebeldes. E fel-o, acompanhado de dois soldados
rebeldes, e lamentavelmente de seu filho, uma irresponsável criança de 10 anos
de idade, como tudo consta de fls. 47 v. e 48 e 49 e verso, 50 v., 52 e 65 v”. Denúncia do Procurador da República Carlos
Gomes de Freitas, in “ 82 Horas de Subversão”, de João Medeiros Filho, p. 138.
Segundo João Maria Furtado (Vertentes),
o escrivão trocou o nome do dentista Nizário Gurgel para Nicacio Gurgel. A criança de 10 anos trata-se de Romildo
Fernandes Gurgel, mais tarde jornalista e Presidente do Tribunal de Contas do
Estado do Rio Grande do Norte. Nizário
Gurgel passou 36 meses preso na antiga Escola de Artífices de Natal, na avenida
Rio Branco, onde funcionou a Escola Industrial de Natal e abrigou os estúdios
da Televisão Universitária da UFRN.
2- Dinarte Mariz não esteve na Serra do Doutor, assim como Enock Garcia e outros.
O herói da PM/RN deveria ser o tenenteAlberto Gomes, na minha opinião.
2- Dinarte Mariz não esteve na Serra do Doutor, assim como Enock Garcia e outros.
O herói da PM/RN deveria ser o tenenteAlberto Gomes, na minha opinião.





