segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Revolta Comunista de 35 em Natal (II)


Nesta 2ª parte, você lerá matérias sobre o tiroteio na Serra do Doutor, a chacina dos revoltosos presos na Delegacia de Currais Novos, a omissão da Igreja Católica, a destituição do prefeito de Santo Antonio, no agreste do RN e outros tópicos da revolta comunista de 1935.

Retrato falado do suposto soldado Luiz Gonzaga, vulgo Doidinho, feito em 1992, com base nas informações do sr. André Batista, natural de Sacramento, hoje município Ipanguassu/RN, que o conheceu pessoalmente e disse que ele deficiente mental. Outra fonte foi o desembargador João Maria Furtado, autor de Vertentes, que escreveu  sobre vários episódios da revolta de 35 no Rio Grande do Norte.


DIAS: IGREJA NÃO COMBATEU O LEVANTE


Nesta reportagem sobre o comunismo no RN, publicamos a segunda parte das transcrições dos documentos dos chefes do PCB, apreendidas pela Polícia do então Distrito Federal (RJ) sobre a revolução de novembro de 1935 (Documentos G-C, p. 70 excertos da publicação “Arquivos da Delegacia Especial de Segurança Política e Social. Volume III - Polícia Civil do Distrito Federal - Rio” - 1938 - Cópias xerografadas do Arquivo Particular de João Alfredo Lima. O comunista Santa, conta mais detalhes sobre os últimos dias da rebelião de novembro de 35, em Natal, inclusive sobre a prisão dos auxiliares do governador Rafael Fernandes num navio mexicano.  Na segunda parte da entrevista de Giocondo Dias, ele revelou os nomes de quase todos os membros da Junta Governativa de 35, mas afirmou não se lembrar do nome do sapateiro José Praxedes. Será que Praxedes, nos 49 anos de clandestinidade permaneceu ligado ao pessoal do PC do B? Teria sido esse o motivo do “esquecimento” de Giocondo? Não sabemos.


A VERSÃO DO CHEFE DO PCB SOBRE AS CAUSAS DA REVOLUÇÃO DE NOVEMBRO DE 35, EM NATAL (II)


Na entrevista que concedeu em 1981, aos três jornalistas de São Paulo, o secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro, Giocondo Gerbasi Alves Dias, um dos líderes da revolução de novembro de 1935, em Natal, disse que servia em Manaus quando recebeu o primeiro convite para participar de uma conspiração que visava a instalação de uma ditadura militar - “para acabar com a corrupção” -, que seria estabelecida por descontentes com a Revolução de 30.
Na verdade, a gente não tinha a mínima noção do que significaria uma ditadura militar. Quando surge a ANL, fomos convocados para uma reunião na casa de um companheiro chamado Euclides, que era primeiro-sargento. Naquela ocasião, o capitão Otacílio de Lima fez uma exposição sobre a Aliança Nacional Libertadora. Quando ficaram sabendo das ligações com os comunistas, todos pularam fora, menos eu. Eu disse na hora que era comunista e que estava de acordo com a coisa.

- E de onde é que você tirou isso?

Giocondo - Quando eu trabalhava, conheci um cidadão que vinha do Rio de Janeiro, que tinha ido à Bahia para tratar-se de uma tuberculose: Aluízio Campos. Esse homem era do partido e foi candidato a deputado federal, na Bahia, pelo Bloco Operário e Camponês. Foi dele que recebi as primeiras noções - bem vagas, aliás - sobre o comunismo. Ele defendia a criação das Repúblicas Socialistas da América do Sul, com a capital em La Paz. Se havia a URSS, com a capital em Moscou, no nosso caso a capital deveria ser em La Paz, o centro da América, o coração do continente - era a loucura total. Este camarada conversava muito comigo. Por outro lado, nessa época, o partido imprimia um jornal diário. A Nação.

- Um jornal do Rio, do Leonidas Rezende.

Giocondo - Sim. Este jornal vinha pelos navios Ita e pelo Lóide, chegava com um ou dois dias de atraso. O Aluízio Campos, que o recebia, me dava o jornal - trabalhávamos no mesmo escritório - para vender - o que eu ganhasse, ficava para mim. Só que ninguém queria comprar o jornal, aliás não o queriam nem de graça, de puro medo... De qualquer modo, a coisa foi ficando na minha cabeça. Aluízio conversava comigo, eu ia aos comícios dele. Eram comícios pequenos, no máximo quinze pessoas ouvindo a sua vozinha fraca. Foi com ele que fui ao primeiro sindicato da minha vida, o dos padeiros. Não tinha nem móveis... Os sindicatos desta época não recolhiam o imposto sindical. Eu já me julgava comunista e, naturalmente, fui um dos entusiastas da revolução da Aliança Liberal. Quando surgiu depois, um cidadão dizendo que a ANL era contra o imperialismo, contra o pagamento da dívida externa, pela distribuição das terras...

- Você embarcou logo...

Giocondo - Eu achei formidável. Aí começamos o trabalho de recrutamento do pessoal, dos cabos e sargentos para o movimento da ANL. Nesta época, entrei formalmente no partido: deram-me uma ficha, eu assinei. Para vocês verem como era a coisa, nós recrutamos todos os cabos do batalhão, menos dois, um porque era ex-integralista e o outro porque era o cabo do racho...

- O que significava ser o cabo do rancho?

Giocondo - O cabo responsável pela alimentação, que sempre é odiado por todo mundo, pois a alimentação era a pior possível. E toda a nossa agitação concentrava-se na denúncia das péssimas condições de alimentação...

- Partir das necessidades sentidas pelas massas...

Giocondo - Exatamente. Além disso, eu era admirado porque era branco, louro de olhos azuis e não tinha luxo. Eu fazia tudo o que os outros faziam. Para aqueles homens, em sua maioria vindos do campo, humilde, aquilo era algo extraordinário. Por outro lado, eu sabia ler e escrever.

- Isto não era comum entre os cabos?

Giocondo - O analfabetismo não era comum entre os cabos, mas grassava nos praças. Vocês podem imaginar o que era o analfabetismo no Brasil, naquela época.

- E então?

Giocondo - Naquele período foi organizado o partido no batalhão. Quem dirigia o trabalho era o Quintino Clementino de Barros, músico de primeira classe do Exército. Tinha 42 anos e era um intelectual, contador e velho conspirador. Era o único que tinha contato com a direção do partido. O trabalho político - como já disse - foi concentrado nos quartéis e não podia dar outra coisa do que deu, na medida em que fazer trabalho político, agitar um quartel é bem diferente do que fazer o mesmo em uma fábrica.

- Os seus companheiros de Natal não estavam investindo no trabalho de massa?

Giocondo - Estavam, mas isso é muito relativo. Vocês têm de levar em conta que a indústria de Natal era constituída de uma fábrica de cigarros e uma de sabão. Logo, todas as esperanças dos civis voltavam-se para o quartel. A agitação ligada às reivindicações mais sentidas dos praças...

- Quais eram elas?

Giocondo - Melhor bóia, acesso dos cabos e sargentos ao oficialato, direito de voto para os praças, direito de permanecer, de reengajar...

- O que significava esta reivindicação?

Giocondo - O cabo, depois de cinco anos no exército, era obrigado a dar baixa, a massa voltava-se contra isso, principalmente porque o desemprego na época era grande. Então, a conspiração, a movimentação cresceu em tono destas  e de outras reivindicações.

- E na oficialidade, vocês não conseguiram adeptos?

Giocondo - Nós não tínhamos trabalho entre a oficialidade. Era orientação, e acredito que correta do ponto de vista conspirativo, esta linha de separar os praças da oficialidade. Só que, na hora do levante, nós prendemos todos os oficiais, inclusive os que eram da ANL.

- Vocês não sabiam quais eram?

Giocondo - Pelo menos a grande massa não sabia. Eu, por exemplo, sabia - havia um oficial da ANL que estava preso, mas de combinação com ele, preferimos que ficasse preso, para não dar na vista.

- Mudando de assunto, qual a sua opinião sobre a idéia de que o próprio Governo tenha colaborado para a precipitação do levante a 23 de novembro?

Giocondo -  Não creio. Acredito, como já disse, que a explosividade da situação era grande. Houve, então, uma tentativa de desmobilização, de desarmamento do batalhão, e daí...

- ... O batalhão levantou-se...

Giocondo - Nós reunimos com a direção da ANL e eles achavam que deveríamos levantar o batalhão às duas horas da tarde. Nós discordamos disto. Tinha de ser às sete horas. E, efetivamente, não foi necessário sequer um tiro para tomarmos o batalhão. Nós éramos de tal forma organizados que a coisa não levou mais de 20 minutos.
- Mas esta orientação da ANL era só em função do clima local ou tinha ligação com uma conspiração a nível nacional? Isto é importante para a análise do fenômeno. Veja bem: Natal levantou-se, depois foram Recife e Rio de Janeiro, entre os dias 23 e 27. Por que é que Natal sai na frente dos outros, sem uma coordenação nacional?

Giocondo - O Gregório Bezerra, no livro dele, aborda direito esta questão. Havia uma apreciação exagerada em relação às possibilidades do movimento. A concepção era a da fagulha que incendeia, que gera a chama, até hoje utilizada pelos agrupamentos de ultra-esquerda. Isto é: levantando-se um setor ou batalhão, todos os outros se levantariam. E também nos diziam que havia outros batalhões em situação bem melhor que o nosso, no que se referia ao levante. E não era verdade. Nós éramos, efetivamente, um dos poucos batalhões onde havia trabalho. O 22º Batalhão de Caçadores da Paraíba, por exemplo, foi imediatamente mobilizado contra nós e acabou por nos abafar.

- E as mortes, Giocondo?

Giocondo - Antes de tudo, o seguinte: no batalhão não houve resistência, nós o tomamos sem um tiro. Tínhamos organizado a coisa de modo a que as autoridades fossem presas no teatro da cidade. Estavam todos lá, em uma comemoração: o governador, comandante do batalhão, da polícia, todos. Depois que nós tomássemos o batalhão, sairia um agrupamento para tomar o quartel da polícia, onde nós já tínhamos apoio no cabo da guarda. Aí também não seria necessário dar um tiro sequer. Em seguida, este agrupamento iria para o teatro, liberando os presentes, com exceção das autoridades. Ocorre que houve vacilação no grupo que deveria realizar a tomada do teatro. Ai me disseram: por que é que você não vai tomar o teatro? E eu fui. No caminho houve um tiroteio, um dos recrutas que ia conosco atirou num soldado da polícia, na Delegacia da rua São Tomé. No tiroteio fui ferido, levei três tiros e tive que ir ao hospital. O restante dos camaradas foram alertados e fugiram do teatro.

- Está bem, mas o Quartel da Polícia?

Giocondo - Esperam aí... os oficiais que estavam no teatro foram ao quartel da Polícia e do Exército. O sargento Amaro, comandante do grupo que ia tomar o quartel, começou a atirar antes de chegar lá, o que não fazia parte das instruções. Pelo contrário, ele devia ter ido calmamente e ocupado, pois teria o apoio do cabo da guarda. Com o ocorrido, houve tempo para os oficiais no teatro - em número de 19 - fossem para o quartel da polícia e para que o Governador se refugiasse no Consulado Chileno, indo após para um navio de guerra mexicano que estava no porto. Estes dezenove oficiais, o comandante da Polícia e muitos oficiais do exército comandaram a resistência no Quartel da Polícia, durante dezenove horas. Isto não estava previsto nos nossos planos. E eu no hospital...

- E como você conseguiu sair de lá?

Giocondo - De manhã cedo, quando os médicos me examinaram e verificaram que os ferimentos não tinham gravidade que se pensava, cai fora do hospital. Vi que podia andar e fui para o quartel.

- Você se lembra o nome de alguns dos oficiais que resistiram, e que depois tinham prosseguido na carreira militar?

Giocondo - Depois eu falo sobre este assunto. Voltando à resistência no quartel, nós nos defrontemos com alguns problemas. Não tínhamos munição para os morteiros e muito pouca para as metralhadoras. Começamos a assediar o Quartel da Polícia. Mas ele estava numa espécie de “ângulo morto”: as balas das metralhadoras não atingiam o alvo.  Foi ai que eu discuti com o cabo Valverde - um dos homens mais valentes que eu conheci na minha vida, dois anos mais novo que eu -, e resolvemos cercar o quartel pelos fundos, pois tínhamos certeza que pela frente eles não poderiam fugir. A única possibilidade deles fugirem era pelos fundos, pelo esgoto que dava para o mar, para o mangue. Quando eles foram saindo, fomos prendendo. Daí esperamos: oficial de um lado, praça de outro. Estes últimos aderiram em massa ao movimento.

- E o que vocês fizeram com a oficialidade?

Giocondo - Levamos para o nosso quartel e prendemos no cassino dos oficiais. Nenhum dos que nós prendemos foi morto; aliás, nenhum oficial foi morto durante o movimento. Só soldados, alguns, dos dois lados, em combate. Este negócio de dizer que alguém morreu dormindo, isto é mentira. Por outra parte, nós éramos tão ingênuos que abordávamos a coisa apenas pelo lado humano. Os presos estavam apavorados e eu fui ao cassino falar com eles. O Chefe da Polícia, que estava preso, João Medeiros, veio a mim e disse: - “Estão ameaçando nossas vidas”. Respondi que todos eles estavam com a vida garantida, que seriam julgados por um Tribunal Popular, e quem não tivesse culpa no cartório não precisava se preocupar.

- Quando tempo durou essa “República Popular” que você ajudou a montar?

Giocondo - Três dias, de sábado à noite até terça-feira. A Junta Governativa era composta pelo Lauro Cortez Lago, diretor da Casa de Detenção, João Batista Galvão, advogado, José Macedo, tesoureiro dos Correios e por um sapateiro que não me recordo o nome, além do Quintino, que representava as Forças Armadas na Junta. Quintino era do partido.

- Que  medidas a Junta tomou durante os três dias?

Giocondo - Decretou a Reforma Agrária. Foi editado um jornal “A Liberdade”,  além de uma série de medidas que constavam no programa da ANL. Em relação à população, é preciso dizer o seguinte: não foi violado um único lar, não houve uma só prisão de civis. Houve o máximo respeito às liberdades democráticas.

- E a vida da cidade, como é que ficou?
Giocondo - Continuou normal. Na primeira noite, a massa foi para a praça pública, houve comícios. Depois a vida continuou normal, sendo que nós passamos a organizar o envio de colunas, por exemplo, no sentido do Ceará, para pegar os operários de Mossoró, Areia Branca, que era o maior núcleo operário do Rio Grande do Norte, os salineiros. Organizamos também uma outra, no sentido do interior do Rio Grande do Norte, além de uma terceira, para ajudar o pessoal de Pernambuco.

- Houve reação civil ao levante?

Giocondo - Não, não houve. Os representantes mais notórios da oligarquia sumiram do mapa.

- Mas vocês cercaram a cidade, fizeram barreiras para impedir a fuga dos usineiros?

Giocondo - Não, não houve nada disso... Nossa preocupação era avançar, pois sabíamos que Natal, sozinha, não resolveria o problema. Vejam bem a situação, queríamos mandar tropas para Pernambuco e não pudemos, pois o maquinista do trem sumira. Isto é exemplo da fraqueza de nossa organização.

- Conte algo sobre as reações dos vários setores da cidade...

Giocondo - Aconteceram coisas folclóricas. Um dia, por exemplo, estou lá no batalhão e me aparece um cidadão, grãn - finíssimo - chamavam-no de Visconde - que eu não conhecia.  Dispôs-se a ajudar na manutenção dos carros que havíamos requisitado na cidade. Ele disse que os veículos estavam mal cuidados, sem lubrificação, que dentro em pouco quebrariam. Logo descobri: os dois carros dele estavam lá... Aceitamos a ajuda do sujeito. Em outra ocasião apareceram fornecedores, de pão e outras coisas, dispostos a regularizar o fornecimento.  Como vocês vêem, a coisa estava legitimada.

- E em relação ao poder de decisão no quartel, como é que ficou?

Giocondo - Nós assumimos o controle. A maioria do batalhão era de recrutas, e da pior espécie: recrutas sorteados. O camarada vem do interior, a contragosto. A preocupação central dele é voltar, o mais cedo possível. Às vezes não sabe distinguir o pé direito do esquerdo. No momento em que fui ferido e abriu-se uma brecha, desertaram oitenta, logo na primeira noite. Minha mulher, já falecida, quando veio para a cidade, encontrou dois ou três soldados e perguntou o que é tinha havido; responderam que o batalhão tinha se levantado e eles estavam caindo fora. Ela perguntou por mim: “Ah, esse daí levou uns tiros”, ela passou-lhes uma descompostura...

- Ela estava sabendo do levante?

Giocondo - Que nada. Ainda teve o azar de perder a irmã na história.  Quando a coitada foi avisá-la da coisa, passou em frente ao quartel e levou um tiro na cabeça. Minha cunhada foi uma das vítimas de 35; uma menina de 16 anos de idade.

- E as violações de lares, expropriações?

Giocondo - Não houve, nem uma coisa nem outra. No caso do banco - todo governo tem poder sobre o tesouro - a Junta pediu ao gerente do Banco do Brasil a chave do cofre. Apesar dele não ter dado, eles abriram-no e retiraram uma quantia que, para a época, era grande. O Gregório Bezerra conta isto nas memórias dele: um dos erros principais foi ter distribuído este dinheiro para parte dos participantes. No momento em que o sujeito sentiu-se dono de uma parcela de dinheiro, já foi começando a pensar na vida. Foi realmente um grande equívoco.

- E as tentativas de difamação do movimento?

Giocondo - Difundiram que tínhamos deflorado as filhas dos fazendeiros, que estudavam na Escola Doméstica. Os próprios pais das moças trataram de desmentir, e rápido. A verdade é que ninguém tinha passado nem perto do local. Outra coisa: o único carro que nós não requisitamos foi o do bispo, dom Marcolino Dantas. Por sinal, ele não se prestou a servir na luta contra nós, apesar da reação ter insistido. O único que prendemos foi o chefe da polícia.

- E a Igreja?  Ela não tentou mobilizar-se contra o processo?

Giocondo - Não, que eu saiba não, apesar do bispo não ter nenhuma simpatia por nós. Depois da derrota ele deu, por outro lado, declarações anticomunistas: Sabem como é que é, na hora da baixa todo mundo põe a boca no trombone...

- Veja bem: Em jornais da época, lemos que, depois da retomada do poder na cidade, a Irmandade Do Sacramento já estaria coordenando uma marcha de agradecimento a Deus “pela derrota fragorosa do comunismo”. Reuniu-se o equivalente a um quilômetro de fiéis, com seus terços à mão, orando e praguejando contra o bolchevismo, sob o comando de Dom Marcolino Dantas. Ouviam-se tudo contado pela imprensa da época - “pesadas maldições contra os vermelhos”, com senhoras pedindo a forca para Luiz Carlos Prestes, implorando a Cristo que a “Rússia Soviética se transformasse em um montão de cinzas”. Exaltou-se, na passagem, “A coragem cívica do Governador do Papa, do clero em geral”. O que você diz sobre isto?(1)

Giocondo - Isto é natural que tenha acontecido, a partir da derrota  do movimento. Agora, o que eu tenho certeza é que não conseguiram arrancar do Bispo nenhuma declaração de que nós teríamos cometido arbitrariedades ou tentado coagi-lo. Diferente de outras pessoas, com as quais nem sequer havíamos tido contato, e que passaram a posar de vítimas, a alardear sofrimentos inexistentes...”(Final da 2ª. Parte).



NOTA:


1-     O professor Otto Guerra disse que não correram “maldições contra os vermelhos” ou “força para Luís Carlos Prestes”, na procissão realizada do bairro do Alecrim ao centro de Natal, após o fracasso da insurreição de Novembro de 1935. “Tudo mentira, pois participei da procissão e não vi nada disso”. (Otto Guerra, entrevista, Natal, 13.02.87).
Giocondo omitiu a reação dos seridoenses na Serra do Doutor, no município de Currais Novos, hoje encravado em Campo Redondo.



“SANTA” DENUNCIA QUINTINO

Trechos do Documento 6-C:
“Tivemos dois aviões à nossa disposição um deles fez vôo de reconhecimento aos inimigos e distribuição de manifestos, eles fizeram o vôo com 3 operários armados. Resolvemos um caso de uma tripulação marítima, intimamos o comandante de um navio dar reivindicações que a tripulação pedia. Fomos atendidos mas não me lembro bem o nome do navio. Mas me parece que é o navio Santos. Os galinhas verdes quebramos todas as sedes deles e todos os locais, etc.
Meu parecer é justo e acho que não se devia ficar de braços cruzados na situação que estava o 21, mas não vacilo em afirmar que Quintino e mais alguns de seu comando fizeram esse movimento comprados para impedir a boa marcha do movimento libertador com Prestes à frente. Este é o meu ponto de vista. Enquanto Mamede e Dante, o último dia que os vi foi no dia 28 (?) às oito horas do dia em Baixa Verde. Perguntei o que devíamos fazer e a resposta foi: cada um tome seu destino. Eu perguntei e os grupos guerrilheiros, não vamos fazer? Me disseram depois já não, e retiram-se. Minha reação rompendo mais e mais de 40 léguas; Eu e a companheira e um jovem e o encarregado do trabalho sindical; este último não resistiu a viagem, ficou vinte léguas distantes de Natal e assim ficamos 3 só, e assim viajamos 12 dias e chegamos ao Estado de Pernambuco. Fomos presos, estivemos todos numa cadeia, e lá encontramos preso um estivador camarada bom, um herói, a meia noite do dia 7 de dezembro fomos retirados desta prisão com ameaça de morte, nós quatro estávamos firmes, dispostos para tudo. Afinal não tiveram apetite. Nesta mesma noite fomos para Recife, para o Brasil Novo. Lá, depois de ouvidos, minha companheira foi posta em liberdade. Lá no Brasil Novo encontrei mais camaradas. No dia 8 foi solto dois dos que achei no Brasil Novo. E na noite de 9 às 2 horas da madrugada fui com mais companheiros para a Detenção; Lá estivemos com os companheiros até o dia 13-1-1936 às 5 e meia hora da tarde quando fomos postos em liberdade. Na Detenção encontrei Roupa Velha que foi preso no dia 28 de 12 de 35 em Garanhuns. Ele ainda não foi solto porque deu dois nomes e me parece que ele está um pouco enrascado. Nós saímos porque tivemos tática. Não de comprometer a linha.
O que vi em toda parte é muita satisfação do povo sobre esta arrancada da ANL; nas cadeias todos animados e satisfeitos. Vi grande quantidade de jovens na cadeia alegres, dando vivas a ANL a Prestes e ao P.C; jovens de 16 anos lutaram e confessou que lutaram as autoridades da Detenção. Fizemos greve de protesto.
A todo momento circulou a Folha do Povo e o Preso Proletário, lá, na Detenção. A massa e os soldados confiam na linha do CC e esperam em pouco tempo outra arrancada e os camponeses lutando com armas na mão e o lenço vermelho no pescoço e fita vermelha no chapéu; as casas dos camponeses enfeitadas de bandeirinhas vermelhas de papel nas portas.
Caros camaradas, aguardo a solução vossa sobre a minha situação, como já expliquei ao camarada Abelardo. Eu penso que aqui no Norte não posso mais trabalhar, não conheço medo para cumprir com as tarefas que entregam, assim eu aguardo as resoluções dessa carta e mais breve possível.
De mim e da minha companheira, camaradas, saudações” (ass. SANTA. 16.1.936) (2).



NOTAS:


1-     Praxedes é identificado como Mamede,  “nome de guerra que utilizou durante a Insurreição”, por Moacyr de O Filho. Na página 7 do Documento 6-C, de 16.1.36, “Santa” diz que “Mamede e Dante, o último dia que os vi foi no dia 28 (?) às oito horas do dia em Baixa Verde. Perguntei o que devíamos fazer e a resposta foi: cada um tome seu destino. Eu perguntei, e os grupos guerrilheiros, não vamos fazer? Me disseram depois, já, não, e retiram-se”. Documento 6-C, página 7 dos “Excertos da publicação: “Arquivos da Delegacia Especial de Segurança Política e Social - Volume - III - Polícia Civil do Distrito Federal e Social - Volume III - Polícia Civil do Distrito Federal-Rio”- 1938. Movimento Comunista de 1935 (Trechos de documentos apreendidos pela Polícia do Distrito Federal, Imprensa Oficial – Natal - 1938. Arquivos de João Alfredo Lima e Roberto Monte, Natal-RN).     Ainda  na  página 92 de ‘Praxedes: Um Operário no Poder”, o seu autor diz que José Praxedes ficou afastado da atividade partidária durante o Estado Novo, mas sabe-se que ele foi afastado do PCB por ter praticado irregularidade nas finanças do partido. Praxedes usou o nome de guerra de “Blücher” na insurreição de 35 em Natal, segundo me informou, por telefone, Giocondo Dias, meses antes de falecer, após marcarmos uma entrevista que não aconteceu.  O início da transcrição do “Documento 6 – C” está na reportagem “Muita confusão e traição na intentona”.

2-     “Santa” era o codinome do mestre-de-obras João Lopes de Souza, conforme relato de José Praxedes de Andrade ao jornalista Moacyr de Oliveira Filho, no livro “Praxedes: Um operário no Poder”, Editora Alfa-Ômega, São Paulo, 1985, página 50. Ver, ainda, “Velhos Militantes”, de Angela Castro Gomes, Dora Rocha Flaksman e Eduardo Stotz, p. 95, Jorge Zahar Editor, 1988 – Rio de Janeiro/RJ.

DIAS:  ERREI AO MANDAR FUZILAR TRÊS

Algumas colocações do Secretário-Geral do Partido Comunista Brasileiro-PCB, Giocondo Dias,  publicadas na   reportagem da edição de O Poti de 30.06.85, foram contestadas por algumas testemunhas dos acontecimentos da “novembrada de 35” em Natal. Indagados pelo repórter, os escritores e historiadores Manuel Rodrigues de Melo, Otacílio Cardoso e Clóvis Travassos Sarinho (este último foi o médico que tratou dos ferimentos superficiais de Giocondo,  na noite em que rebentou o levante militar), negaram euforia popular nas ruas de Natal. Manuel Rodrigues afirmou que andou, a pé, pelas ruas sem ser incomodado pelos revoltosos.
O veterano comunista Poty Aurélio Ferreira, que não ingressa no PCB porque é prestista, disse que “houve ajuntamentos no quartel do 21º BC” e que desconhece qualquer notícia de realização de comícios em Natal durante a Revolução de 35.
“Se o ambiente era de revolução, como é que se poderia promover comícios?, indagou Poty Aurélio. Ele é uma das pessoas que asseguram que muitas coisas ainda não foram reveladas sobre a revolução de 1935, inclusive sobre fatos que antecederam ao movimento. Por exemplo: as pessoas que financiavam o Partido Comunista. Alguns financiadores das atividades do PCB se passavam por conservadores...
Giocondo mentiu?
O médico-cirurgião Clóvis Travassos Sarinho desmente que Giocondo Dias tenha passado a noite do dia 23 de novembro de 1935 no Hospital Juvino Barreto (ex-Miguel Couto, ex-Miguel Couto, ex da Clínicas e hoje Hospital Universitário Onofre Lopes). Giocondo disse que no tiroteio da rua São Tomé foi ferido com três tiros e que, na manhã do dia 24 de novembro de 35, “quando os médicos me examinaram e verificaram que os ferimentos não tinham gravidade que se pensava, cai fora do hospital. Vi que podia andar e fui para o quartel”.
Segundo o Dr. Sarinho, esse relato de Giocondo não tem fundamento.  Apesar do Dr. Sarinho não querer tocar no assunto, soubemos que Giocondo Dias foi ferido gravemente na fazenda “Primavera”, município de Lages, de propriedade de um amigo.
O acontecimento da “Fazenda Primavera”, no qual Giocondo foi salvo por um sargento da Polícia Militar do RN, Genésio Cabral, não foi abordado na entrevista que o chefe do PCB deu a três jornalistas do jornal “Voz da Unidade”, órgão do extinto Partidão,  em dezembro de 1981, em São Paulo: José Paulo Netto, Luiz Arturo Obojes e Regis Frati.
Sarinho, por ouvir dizer, pois não participou do movimento revolucionário – era integralista -, disse que Otacílio Werneck não provocou o seu matador,  Epifânio Guilhermino, motorista de Guglielmo Letieri.
Eis as versões do Dr. Sarinho sobre algumas afirmações de Giocondo Dias, publicadas nesta série de reportagens:

1-     Não houve comícios durante o domínio dos comunistas em Natal, por ocasião da Revolução de 1935. A população da cidade permaneceu em casa com receio de sair à rua, e não se faz comício sem povo.

2-     Cabo Giocondo Dias apresentava dois pequenos ferimentos em um antebraço. Foi feito o atendimento entre 20 e 21 horas, e logo após o paciente retirou-se, voltando no dia seguinte (domingo, 24), pela manhã, para novos curativos. Os outros médicos do Hospital eram os Drs. Otávio Varela, Ernesto  Fonseca, Aderbal de Figueiredo, Raul Fernandes e  Antônio  Martins Fernandes. Eu chefiava a clínica cirúrgica dos indigentes desde o mês de agosto. Os médicos não se encontravam no Hospital na noite do sábado quando lá cheguei, porque nenhum deles tinha obrigação a cumprir àquela hora.
3-     Alguns dias depois que os revolucionários abandonaram Natal e fugiram para o interior, o Dr. Onofre Lopes tratou de ferimentos em  Giocondo Dias. Não foi hospitalizado.

4-   Cheguei no sábado à noite, às 20 horas, e só me retirei do Hospital na terça-feira à tarde. O Tte Zuza Paulino chegou ao Hospital pouco depois das 15 horas do domingo, apresentando um ferimento grave, depois de terminado o ataque ao Quartel da Polícia, onde se houve com muita bravura em defesa da legalidade. Sofreu amputação do braço em seção plana, praticada pelo cirurgião Dr. José Tavares. Soube por informações de um amigo que o oficial foi morto há alguns anos em Mato Grosso.

5-     Não houve provocação no caso de Otacílio Werneck. Ele foi morto no domingo pela manhã no portão de sua casa. É de causar estranheza que o Sr. Giocondo  Dias tenha esquecido o sapateiro José Praxedes (2), que, na formação do governo revolucionário, ocupou o Ministério do Abastecimento, juntamente com Lauro Lago, Ministro do Interior, João Batista Galvão, Ministro da Viação, José Macedo, Ministro das Finanças e o sargento músico  Quintino, Ministro da  Defesa. Esta notícia foi dada pelo jornal “A LIBERDADE”, órgão do governo revolucionário, informando ainda que os ministros foram aclamados pelo povo em praça pública. Acontece que o governo da revolução foi organizado em Vila Cincinato, e o povo não tomou conhecimento do fato.

Natal. 04.07.85

Clóvis Travassos  Sarinho

FUZILAMENTOS


Terceira e última parte da transcrição do capítulo “1935, novembro: O Levante de Natal (Giocondo Dias: Os objetivos dos comunistas, Editora Novos Rumos, São Paulo, 1983). As transcrições foram publicadas nas edições de O Poti, de 23.06, 30.06 e 07.07.85.
Embora as comunicações na época devessem ser bem difíceis, Natal já estava derrotada quando o Rio de Janeiro sublevou-se, não é verdade?
Giocondo – Acredito que sim. Nós sabíamos – reafirmo – que Natal sozinha não resistiria. Por isso, procuramos espraiar nossa ajuda para outros Estados. Nós tínhamos consciência de que o que decidia era Recife, coisa que a reação também sabia. Antes de nos atacar, ela fez convergirem forças para Recife.
Quando solicitado a contar coisas interessantes sobre o levante em Natal, Giocondo disse que “algo muito divulgado foi a difamação de que teríamos executado fuzilamentos. O que aconteceu foi o seguinte: quando eu resolvi sair do hospital e cheguei ao quartel, o Cabo Carneiro, que era uma das pessoas mais ativas, um homenzarrão forte e violento, chegou para mim e disse: - O quartel de Polícia está resistindo, eu vou desertar...
Avisou que ia desertar!
Giocondo – É, avisou que ia cair fora, com fulano e sicrano. Eu disse:  - não faça uma coisa dessas.  Logo após, fui ao Quintino, que era um homem muito bonachão, e falei: - olhe, o Carneiro disse que vai desertar, com fulano e sicrano, etc... É  melhor você prender ele logo. O Quintino foi ao Carneiro: - Vê se larga desta idéia de deserção porque o homem (era eu) levou um tiro na cabeça e manda lhe fuzilar. Foi ai que ele desertou mesmo. Ele foi até bom, podia ter me matado, eu estava desarmado... Ele desertou com os outros. Minha atividade foi a de passar um telegrama para um sargento que estava em Panelas, município perto de Natal, dizendo: Prenda fulano, sicrano e beltrano e fuzilem-nos. E assinei. Ora, este telegrama serviu de pretexto para dizerem que eu tinha ordenado fuzilamentos em geral...”
Mais detalhes sobre “Um depoimento Político – 1935, novembro: o levante de Natal”, está no livro “Os objetivos dos comunistas”. (Endereço da  Editora Novos  Rumos Ltda: Praça Dom José Gaspar, 30, 21º andar,  SP, CEP. 0147 – telefone (011)231-2538.


EM 35, OS CORONÉIS FUGIRAM DA LUTA


Em depoimento inédito nos anais da historiografia do Rio Grande do Norte, o ex-prefeito de Santana do Seridó, Seráfico Batista, conta os lances dramáticos do tiroteio na ‘Serra do Doutor” , então distrito de Santa Cruz, hoje no município de Campo Redondo-RN, a “Batalha de Itararé” cabocla, ocorrida no final da tarde do dia 25 de novembro de 1935, entre sertanejos aliciados pelos integralistas e chefes políticos, de um lado, e os revolucionários aliancistas, comunistas e militares, de outro.
Na luta da “Serra do Doutor”, morreram três soldados do Exército, enquanto mais de 100 insurretos, que procediam de Natal , fugiram em caminhões e a pé. Alguns deles foram presos depois; outros, trancafiados na delegacia de Polícia de Currais Novos, cujo delegado mandou matá-los numas grotas das cercanias da cidade        ( localidade Serra da Dorna).
“Na hora do pega-pra-capá muita gente corria com medo. Os fazendeiros e os chefes políticos faziam os preparativos, mas na hora do fogo, todos eles tinha viajado pra longe. Isso aconteceu nos tiroteios ocorridos em Panelas (hoje Bom Jesus) e na Serra do Doutor, perto de Campo Redondo. Por exemplo; em Panelas, o contigente de homens que saiu de Parelhas para dar combate aos revoltosos que saíram de Natal, foi comandado pelo “coronel” Florêncio Luciano, 2º Tenente Pedro Siciliano Lustoza, da Polícia Militar, comerciante Kalil Habib, Sérgio Ricarte, Raimundo Luz, médico Graciliano Lordão e por mim.
A cidade de Panelas foi cercada por tropas do Exército. Ai o fogo foi tão grande que fomos obrigados a recuar às carreiras, sendo que muitos dos nossos abandonaram as armas, veículos e equipamentos por lá”.
A declaração é do ex-prefeito de Santana do Seridó, Seráfico Batista, 74 anos, motorista aposentado, residente à rua Caetanópolis, 4806, Conjunto Pirangi, Natal, testemunha dos dois importantes episódios da insurreição liderada pelos membros do Comitê Regional do Partido Comunista do Brasil-PCB, agremiação mais ativa da Aliança Nacional Libertadora que combatia o fascimo e Getúlio Vargas.

“CORRI DE QUATRO PÉS”

Em 1935,  Seráfico Batista tinha 24 anos, era motorista e dono de um caminhão, além de fazer parte do tiro de guerra de Parelhas, cidade seridoense próxima à Jardim do Seridó, terra do ‘Coronel” João Medeiros. “Naquele tempo, o tiro de guerra de Parelhas tinha 70 homens, que foram alistados para a resistência contra os comunistas, comandado pelo sargento José Nunes, da Polícia  Estadual. Esse povo todo foi para Panelas, onde tivemos que recuar e voltar para Currais Novos. O Sr. Miguel dos Santos deu a idéia de voltarmos para a serra, onde botamos cercas de pedras, com 2 metros de largura, enquanto o tenente Pedro Siciliano mandou que fizéssemos as trincheiras para proteger-nos durante o tiroteio. Por isso, passamos a segunda-feira carregando pedras e cavando as trincheiras. Mataram um boi e descarregaram 30 cargas de rapadura, que vieram em lombos de jumentos. Essa comida seria consumida no jantar, do qual iriam participar o doutor Lordão e Florêncio Luciano, que passaram o dia num barracão que existia na Serra do Doutor. Muitas latas d’água foram transportadas para o pessoal, mas nada deu certo porque, às 17h30, foram buscar o jantar e chegou a notícia de que os rebeldes estavam se aproximando. Nessa hora, os chefes do contingente disseram que nós devíamos permanecer ali, esperando “a tropa federal que vai chegar da Paraíba”. “Esperem por eles e não atirem”, disseram. Mas, às 18h30, apareceram uns 10 caminhões e automóveis cheios de soldados com lenços vermelhos no pescoço. Explodiram a cerca de pedras. Os comunistas tiraram uma metralhadora pesada de um caminhão e começaram a atirar. Era bala pra danado, e teve gente que não conseguiu disparar um tiro, porque não tinha condições de botar a cabeça para fora do buraco (trincheira). O tiroteio terminou às 07h30 da noite. Ai o medo tomou conta de nós e resolvemos correr, pois eles estavam atirando contra nós, a uns 30 metros de distância. Além disso, os comunistas estavam em baixo, e nós em cima. Somente o sargento José Nunes atirava e gritava muito. Eu quase ficava soterrado com areia que caiu em cima de mim. A areia era jogada pelas balas dos comunistas que batiam no chão, em cima das trincheiras, e o poeirão cobria no mundo. Eu fiz carreira quando o tiroteio serenou. Entrei no meio do mato e andei um quilômetro de quatro pés. Antes de fugir, eu disse para os companheiros: “Pode aparecer comunistas em banda de lata, mas eu não vou mais lutar”. Eu pensava que aquela expedição para a Serra do Doutor seria um passeio, uma brincadeira.  Além disso, todo mundo tinha medo de comunista. Quando notei que estava sendo enganado, pois os fazendeiros ricos não tiveram coragem de ir aos locais dos tiroteios, a solução foi fugir para os cafundós. Corri da Serra do Doutor até  Currais Novos, onde vi muita gente jogar as armas no chão dos hotéis, das casas e correr mundo afora”, conta Seráfico Batista.

POUCAS MORTES


Ele revelou que 150 ou 200 homens participaram do tiroteio na Serra do Doutor, onde os revoltosos foram impedidos de prosseguir a suposta viagem de fuga. Seráfico informou que morreram 3 soldados do Exército, do 21º Batalhão de Caçadores de Natal, local em que explodiu a insurreição militar de novembro de 35.
Três veículos foram destruídos na explosão da cerca de pedras, cujos explosivos foram colocados pelos integralistas de  Carnaúba dos Dantas. Ele recorda que um dos caminhões pertencia à firma natalense “Severino Alves Bila”.
“Depois do tiroteio, os comunas deram ré nos seus carros e caminhões e tomaram destino ignorado, segundo eu soube no dia seguinte ao tiroteio na Serra do Doutor. Acho que foi na terça ou quarta-feira, que muita gente saiu de Currais Novos, inclusive eu, para ver os escombros na Serra. Nesse retorno ao local da “batalha”, muita gente começou a contar histórias fantasiosas, que tinha sido o valente e coisas e tal. Na minha opinião, fomos derrotados na Serra do Doutor porque os soldados eram pessoas treinadas no Exército, enquanto nós não tínhamos conhecimento de tática de guerra. O Pedro Siciliano, que era delegado de Parelhas, não era homem treinado para a guerra, mas para ser policial", acrescenta Seráfico Batista, prefeito de Santana do Seridó de 1964 a 1968.
Seráfico confirma que o então industrial e fazendeiro de Caicó, Dinarte de Medeiros Mariz, foi uma das pessoas que aliciaram os sertanejos para a luta na Serra do Doutor e Panelas, além de Kalil Habib (sírio), Florêncio Luciano, Graciliano Lordão, padre Walfredo Gurgel  e outros proprietários rurais do Seridó, já falecidos.
As forças aliciadas pelos fazendeiros e políticos seridoenses viajaram para Natal depois do dia 28 de novembro de 35, entrando na capital potiguar sem encontrar nenhuma resistência.  Seráfico Batista não se lembra dos nomes dos integralistas que participaram das refregas, em virtude de Parelhas não ter núcleo de seguidores de Plínio Salgado. Parelhas era feudo de Florêncio Luciano e os coronéis conservadores não admitiam camisas verde nos seus pastos.
“Quando fugíamos de Panelas para Currais Novos, paramos em Santa Cruz, que estava cheia de homens com camisas verdes. Comunicamos que tínhamos fugido de Panelas por causa da resistência dos comunistas. Então, meu filho, foi gente pra danado correndo no meio do mundo. As mulheres, com criança nos braços, corriam pra cima dos caminhões. Foi um corre-corre grande”, afirma, sorrindo, Seráfico Batista.

CARTA

O advogado e escritor Bianor Medeiros, que está acompanhando a série de reportagens sobre o movimento comunista no RN, enviou carta sobre trecho de matéria publicada na edição de 09.06.85, deste jornal.  Eis a carta na íntegra:

Natal(RN), 14 de Junho de 1985.
Caro Luiz Gonzaga Cortez.

Tendo lido com a atenção devida, suas reportagens sobre o Movimento Integralista Brasileiro, nos idos de 1935.
No último Poti de 09/06 você diz:
“ Mas a primeira pessoa, nos cinquenta anos que falou a verdade sobre o episódio de novembro de 1935, na Serra do Doutor, foi Dona Otávia Bezerra Dantas, natural de Acari, integralista que em entrevista publicada em O Poti de 26.08.84, disse que o padre Walfredo Gurgel estava em Santa Luzia/PB e o fazendeiro e “coronel” Dinarte de Medeiros Mariz, tinha viajado para Campina Grande em busca de armas e munições.  Conforme declarações de Seráfico Batista e Otávia Bezerra Dantas, dentre inúmeras pessoas que estavam em local da refrega, não houve nenhum general da Serra do Doutor.
Mantenho o que disse no meu trabalho “ Monsenhor Walfredo Gurgel um Símbolo”;  contesto as declarações de Dona Otávia ( mando-lhe, até, uma fotografia do seu casamento celebrado pelo vigário do Acari, Pe. Walfredo Gurgel) e de Seráfico, parelhense que também conheço.
Ambos devem ser mais velhos do que eu:  justificam-se, portanto, ditas revelações.
Sei que Walfredo estava na Serra do Doutor e, até comandou os serviços preparatórios do contra-ataque.
Sei, também, que o Senador Dinarte Mariz não estava presente à Serra porque teve a missão de viajar à Paraíba para recrutar reforços, o que foi feito, embora tardiamente em virtude da debelação do movimento em contra-ataque efetuado por seridoenses de várias cidades, principalmente Carnaúba dos Dantas.
Indico-lhe uma pessoa que viajou com o Pe. Walfredo Gurgel em sua Sedan verde, e nova, comprada quando chegou a Acari, como vigário, até a Serra do Doutor e que poderá tudo historiar.  Não é testemunho de “ ouvi dizer” é testemunha “ de vista”.
Seu nome:  JOSÉ  PACHECO (Hotel Tirol).  Bom seria que o amigo o ouvisse para que fosse a verdade colocada em seu devido lugar.
Um abraço.

BIANOR MEDEIROS

 


NA SERRA DO DOUTOR NÃO HOUVE VITÓRIA




Segundo o hoteleiro José Pacheco, 68 anos, o então padre Walfredo Gurgel foi o primeiro a descer do carro que carregava “gente importante” para o combate na Serra do Doutor, em novembro de 1935, quando os insurretos pretendiam fugir sem destino, em virtude do fracasso da revolução comunista. Giocondo Dias, em entrevista publicada nesta série de reportagens, afirmou que a coluna de revolucionários que esteve na Serra do Doutor, do dia 25.11.35, era uma tentativa de manutenção do governo ‘Popular Revolucionário’, no interior do RN.
Monsenhor Walfredo, que era padre nesse tempo, foi o primeiro homem a carregar pedras para a barreira que colocaram na subida da Serra do Doutor. Depois que ele carregou seis pedras, chegou um caminhão com o pessoal que o Monsenhor Walfredo tinha aliciado em Acari para lutar contra os comunistas. Esse pessoal deu um “duro” danado. Em seguida, chegou um caminhão carregado de rapaduras, carne de charque e muita comida. Apareceram uns oficiais da Polícia Militar e como não tínhamos tomado nenhuma decisão, pois a tarde estava terminando, resolveram organizar a defesa na serra. Vi muita gente, umas 300 a 400 pessoas. Lembro-me bem de Olivier, Orestes e Walter Cortez no meio desse povo. Apareceu o sargento da PM, conhecido por “Severinho da Cazuzinha” (ele era filho de Severino Bezerra) e o tenente Pedro Siciliano. “Todo recruta fica aqui em baixo. Quem já serviu o Exército, os que sabem atirar, ficarão lá em cima. Por volta das 17h e 30h a poeira começou a aparecer no horizonte. Era a poeira dos carros dos revolucionários. Pedro Siciliano mandou que devíamos atirar quando os revolucionários estivessem cercados na subida, perto da barreira de pedras. Um sargento da Polícia, de Caicó, estavam com umas bombas. “transvalianas”, cheias de pregos. Quando os comunistas apareceram, esse sargento jogou essas bombas, iniciando um tiroteio danado, obrigando-me a me esconder com medo das bombas. Eu não dei um tiro na  Serra do Doutor. Não sei o tempo que durou o fogo cercado, mas lembro-me que os comunistas tinham uma metralhadora pesada atirando contra nós. Depois do tiroteio, vi muita gente fugindo nos caminhões, inclusive Walfredo Gurgel. Dinarte Mariz tinha ido para à Paraíba. Alguém disse na fuga para o padre Walfredo: “não temos medicamentos e gasolina, mas vamos buscar em Currais Novos”. Era só motivo para a fuga, mas o padre Walfredo mandou José dos Santos vender gasolina e avisou Tristão de Barros, que tinha uma farmácia em Currais Novos, que preparasse medicamentos para qualquer eventualidade. Eu soube que, quando Tristão de Barros (pai de ex-Reitor Genibaldo Barros) estava embalando os medicamentos, apareceu gente gritando “tá todo mundo fugindo da Serra”. Eu voltei para a Serra do Doutor, a fim de levar as quatro caixas de gasolina, num Chevrolet pavão. Na Ladeira do Boi Chôco encontrei o meu grupo e ainda assisti uns 20 minutos de tiroteio. Do lado dos comunistas, morreram quatro pessoas, inclusive um soldado do Exército, um rapazinho louro. Soube que morreram dois homens que foram feridos na Serra, mas não sei quem matou-os. Lembro-me que Ivo Trindade matou um soldado que estava em cima de um caminhão. Em resumo, acho que o tiroteio da Serra do Doutor não teve vencedores nem vencidos. Enquanto uns corriam para um lado, outros corriam para outro lado. Foi uma batalha de frouxos, pois todo mundo corria, inclusive eu. Olivier caiu no escuro, cortou o rosto e foi medicado em Campo Redondo, por exemplo. A única pessoa que ficou na cidade de Currais Novos foi o médico Mariano Coelho, que se improvisou como telegrafista e ficou mandando mensagens para Natal sobre a situação. Dinarte Mariz não esteve na Serra do Doutor, mas foi o grande aliciador de sertanejos. Sem ele não teria havido resistência no Seridó. Dinarte foi uma espécie de general, de um chefe, apesar de não ter  ido para o combate na Serra do Doutor”, disse José Pacheco.
Depois do tiroteio na serra, vários sertanejos rumaram para a cidade paraibana de Santa Luzia do Sabugi, onde existia uma ordem de Dinarte Mariz para entregar os presos à Polícia da Paraíba. “E assim foi feito”, diz Pacheco, acrescentando ainda que o major Antônio de Castro, da Paraíba, foi o comandante de 300 pessoas aquarteladas em Santa  Luzia do Sabugi. Dois dias depois, recebemos a notícia de que a revolução tinha acabado e todo mundo retornou para o Seridó do RN. “A ida do nosso grupo para Santa Luzia fazia parte de um plano para enfrentar possíveis revolucionários naquela região da Paraíba”, adiantou Pacheco. Ele considerou o episódio como uma aventura que lhe rendeu um emprego na Prefeitura de Natal, por determinação do governador Rafael Fernandes, pois o prefeito Gentil Ferreira de Souza resistiu muito a assinar a sua nomeação.
Funcionário aposentado da Prefeitura do Natal, Pacheco diz que tem boas recordações de Djalma Maranhão. “Em 1964, o capitão Lacerda, do Exército, me interrogou e queria que eu dissesse que Djalma Maranhão era comunista. Eu não aceitei a ameaça e disse que Djalma não era comunista, mas já tinha sido comunista na juventude. Djalma me dizia que o comunismo não medra no Brasil”, completou José Pacheco.(N. do A: o sr. José Pacheco faleceu a 11 de julho de 1996, em Natal).



MÉDICO FOI O COMANDANTE DA REVOLUÇÃO NO AGRESTE

O ex-prefeito de Santo Antônio do Salto da Onça, a 90 quilômetros de Natal, Lindolfo Gomes Vidal, que fugiu da cidade poucos minutos antes da chegada das tropas revolucionárias de novembro de 1935, disse que os rebeldes não administraram o município porque a população tinha fugido. “Faltou povo para eles governarem”, disse.
Já o tabelião aposentado Lourival Cavalcante da Silva, que era cafeísta, mas amigo de Lindolfo Vidal, do Partido Popular, disse que o governo revolucionário dominou Nova Cruz, Pedro Velho e Santo Antônio, sem encontrar fortes resistências. “Os rebeldes andavam com lenços encarnados nos pescoços”, afirmou Lourival, que chorou ao relatar os episódios ocorridos entre 25 e 27 de novembro de 1935, na sua cidade natal.
Durou quase três dias o “governo revolucionário popular” na região Agreste do Rio Grande do Norte, em novembro de 1935. O domínio começou na manhã do dia 25 e terminou na madrugada do dia 27, quando tropas da Polícia Militar da Paraíba invadiram a cidade de Santo Antônio do Salto da Onça, sede do ‘Comitê Revolucionário”, comandado pelo médico Orlando Azevedo, formado na Alemanha. Os revoltosos eram cafeístas “sequiosos de vingança” pela vitória eleitoral de Rafael Fernandes, o donatário da época, além de meia dúzia de comunistas e integrantes da Aliança Nacional Libertadora.
Os insurretos ocuparam as cidades Santo Antônio, Pedro Velho e Nova Cruz, sem nenhum derramamento de sangue, apesar de vários tiroteios ocorridos entre as forças policiais e os pelotões de soldados e civis liderados por Orlando Azevedo. Na época (ainda hoje continua assim), a região era dominada econômica e politicamente pelas tradicionais famílias conservadoras - os Simonetti, os Barbalho, os Azevedo, os Vidal, os Carvalho, etc.  Os Azevedo eram adversários dos Barbalho. E a revolução de novembro foi uma oportunidade para um acerto de contas entre os grupos familiares-oligárquicos.
Nomeado no dia 2 de novembro de 1935 para o cargo de interventor municipal de Santo Antônio do Salto da Onça, Lindolfo Gomes Vidal, 93 anos, ainda com boa disposição física, estava na sua cidade quando rebentou o movimento revolucionário em Natal. Ao lado da mulher, Manuela Ferreira Vidal, Lindolfo Vidal, que se diz homem de muita coragem, conta o que foi o regime comunista de 35, na região de sua influência política:
“No domingo, Lulu Fagundes trouxe a notícia de que havia um movimento na capital, mas não sabia do que se tratava. Ele me pediu que eu saísse da cidade, mas eu não queria sair porque tinha a Polícia do Estado comigo pra “receber” quem chegasse. Terminei saindo de Santo Antônio para a fazenda do Jucá, do meu pai, e no meio do caminho ouvi os primeiros disparos de armas de fogo. Eram os revolucionários que estavam atacando Santo Antônio. No outro dia, 26, dormi na cada de José Domingos, na “Fazenda Malhadinha”, de onde mandei um rapaz chamado Cícero ir a Santo Antônio ver como estavam as coisas. Cícero foi e voltou com as notícias: Santo Antônio estava ocupada pelos homens de Orlando Azevedo, mas toda a população tinha fugido para as fazendas e sítios. A minha residência foi invadida e saqueada pelos soldados, que me roubaram um rifle novinho. Na casa de Gentil Garcia, vendedor de gasolina, os revoltosos levaram o combustível para os caminhões que transportavam suas tropas. Não tenho notícias de que houve mortes, mas eles deram uns tiros dentro de minha casa, que ficou imprestável. O prédio da Prefeitura ficou intacto. Eles dominaram a cidade, mas não deixaram nenhum documento de ato administrativo do “governo revolucionário”.  Eu voltei no dia 30 de novembro, sábado, depois que tudo tinha voltado ao normal”, conta Lindolfo Gomes Vidal.
O chamado “governo revolucionário” de novembro de 35 na região Agreste não está registrado nas obras de Hélio Silva, João Maria Furtado, João Medeiros Filho e de qualquer outro historiador brasileiro ou estrangeiro. Não se sabe o porquê.

CONDENADO

Lindolfo Vidal, que era do Partido Popular, de José Augusto Bezerra de Medeiros, disse que os elementos cafeístas participaram da revolução para “acertar as contas” com ele. “Se eu não tivesse fugido, eles tinham me matado”. Segundo Lindolfo Vidal, que exerceu uma interventoria e quatro mandatos de prefeito de Santo Antônio, o único documento que possuía sobre os episódios de 35 foi roubado por um grupo de oficiais da Marinha, por volta de 1969, que estiveram em Santo Antônio, fazendo investigações sobre possíveis irregularidades administrativas na prefeitura local. “Ao invés de combaterem a corrupção, esse grupo de militares praticou extorsão e roubo”, disse Lindolfo. O bando era integrado pelos tenentes Jaime, Rubens e outro, cujo nome não se lembra. Mas o tal tenente Rubens se interessou por papéis de 1935 que estavam comigo e pediu-os emprestado para tirar cópias. Até hoje não me devolveu”, disse Lindolfo.

A PRISÃO E FUGA DO CHEFE

Lourival Cavalcante da Silva, 72 anos, residente em Brejinho/RN, à Rua Antônio Alves Pessoa, 822, é escrivão aposentado de uma memória extraordinária. Ele assistiu os principais acontecimentos de novembro de 35, na região Agreste do RN.
- A revolução de 35 chegou aqui como uma coisa proveniente da Aliança Social (denominação dos grupos políticos liderados por Mário Câmara, interventor, e João Café Filho, líder operário, eleito deputado federal em 1934). Muito tempo depois disseram que era uma revolução comunista. Eu não sei, só sei que quem era contra o Partido Popular, cafeísta ou não -eu era cafeísta - entrou no movimento. Os revoltosos chegaram de Natal, compraram toda gasolina de Gentil Garcip e não pagaram, seguindo para Nova Cruz, depois de darem uns tiros no quartel dos soldados da Polícia, em Santo Antônio. Era uma segunda-feira, quando o doutor Orlando Azevedo seguiu para Nova Cruz, onde as tropas sob seu comando, atacaram e dominaram o quartel da polícia.  Todos os soldados foram desarmados e levados presos para Natal. Ele deu uns tiros na feira e botou o povo pra correr, acabando com a feira da cidade. A loja A Paulista foi invadida. Deixou alguns seguidores “governando” Nova Cruz e retornou para Santo Antônio, com um lenço vermelho no pescoço. Eu estava lá e vi tudo. Para voltar para Santo Antônio, peguei uma carona no pára-choque do carro do velho Rodopiano, pai do Dr. Orlando. Quando chegamos no “Riacho da Piranga”, João Saburana entregou um bilhete de Aníbal Barbalho, com o seguinte teor: “Orlando não entre na cidade que Lindolfo está impiquetado com a polícia. Não sacrifique a família”. Isso aconteceu no primeiro dia do domínio deles aqui, mais ou menos. Orlando desceu do carro e tomou outro rumo. Eu voltei para Santo Antônio, a pé, e assisti o quebra-quebra na casa de Lindolfo Vidal, que não se encontrava na cidade. Além de Orlando Azevedo, um rapaz chamado Nelson Dimas chefiava o movimento revolucionário que não governou de verdade porque não tinha gente na cidade. Era um deserto. Uma coisa que achei inédita: certo dia, às 13h, os galos cantavam nos terreiros. O quartel dos revoltosos era na casa de Manuel Fernandes, - que também tinha fugido com medo - onde hoje funciona o Primeiro Cartório de Santo Antônio. Quando souberam que a revolução tinha fracassado, os revoltosos fugiram. Na tarde de quinta-feira, chegaram 14 caminhões cheios de soldados da Polícia da Paraíba. Os soldados entraram na cidade tocando cornetas e cantando. Por conta da política local, muita gente se envolveu. Orlando Azevedo foi preso na localidade “Mão Curta”. Luiz Ciríaco e Domiciano, meu irmão, também foram presos. Orlando, que era adversário de Lindolfo Vidal, foi levado para o quartel da Polícia em Natal, de onde, dias depois, facilitaram a sua fuga para ele pegar o trem que passava atrás do quartel. Dias depois ele voltou a ser preso em Pedro Velho por ordem do juiz Osvaldo Grilo. Respondeu a inquérito, foi condenado a vários anos de prisão e cumpriu parte da pena na Paraíba. Em 1942 ou 43, Orlando foi solto. Era um homem caridoso, mas se envolveu na política local e terminou assassinado em 1954, por Benedito de tal, que morreu em seguida, vingado por Zé Binga, morador do doutor Orlando.  Edgar Azevedo não participou da Revolução de 35, pois estava estudando medicina no Rio de Janeiro”, afirmou Lourival Cavalcante da Silva.(N. do A: o sr. Lindolfo Gomes Vidal faleceu com 104 anos de idade, em  18 de julho de 1996. Ver O Poti de 18.07.1999, p.4, Cad. Esportes).


A MATANÇA DE CURRAIS NOVOS


Continua repercutindo a entrevista do ex-prefeito de Santana do Seridó, Seráfico Batista, publicada na última edição de O POTI, com o título “Em 35, os coronéis fugiram da luta”.  Alguns leitores telefonaram para a redação para confirmar as informações prestadas por Seráfico Batista. O parelhense Jaime de Oliveira disse que “até hoje tem gente correndo com medo do tiroteio da Serra do Doutor”, e que não existiu nenhum “general” no meio dos sertanejos que ofereceram resistência aos revoltosos. Segundo Jaime de Oliveira, alguns soldados da PM foram promovidos por “atos de bravura”, sem terem disparado um tiro na Serra do Doutor.
Mas a primeira pessoa, nos últimos 50 anos, que falou a verdade sobre o episódio(1) de novembro de 35, na Serra do Doutor, foi dona Otávia Bezerra Dantas, natural de Acari, integralista, que em entrevista publicada em O POTI de 26.03.84, disse que o padre Walfredo Gurgel estava em Santa Luzia-PB e o fazendeiro e “coronel” Dinarte de Medeiros Mariz tinha viajado para Campina Grande em busca de armas e munições. Conforme declarações de Seráfico Batista e Otávia Bezerra não houve nenhum “General da Serra do Doutor”.
Na historiografia sobre os acontecimentos de novembro de 1935 no RN, apenas João Maria Furtado, na página 139 do seu livro “Vertentes”, registra a matança de revoltosos na cidade de Currais Novos. ... Narrou-me o Dr. José Bezerra de Araújo, político udenista que chegou a exercer a senatória pelo Estado e que pegou em armas contra o movimento de novembro de 1935, que, após sua derrocada, elementos do Partido Popular tiraram da cadeia de Currais Novos presos de justiça que lá se achavam e os que eram adversários políticos foram sumariamente fuzilados, depois de conduzidos a lugar ermo, fora da cidade”, escreveu João Maria Furtado, desembargador aposentado e vítima da violenta repressão policial ordenado por Rafael Fernandes. Furtado era cafeísta.
O ex-deputado estadual Segundo Saldanha, 85 anos natural de rejo do Cruz-PB, agrônomo aposentado do Ministério da Agricultura, residente em Natal, disse ao repórter que no tiroteio de Panelas (Bom Jesus) fugiu muita gente depois dos primeiros disparos. “Só ficou Adonias Galvão, que era muito gordo e não pode correr, e findou sendo preso pelos comunistas. O pessoal voltou para a Serra do Doutor, onde Dinarte fugiu para a Paraíba. Em Currais Novos, muita gente dormiu debaixo das camas, depois do tiroteio da Serra do Doutor, onde houve uma partilha de dinheiro que os comunistas deixaram por lá. Quem ficou rico foi Zé Epaminondas”, relembra Segundo Saldanha, que foi deputado estadual durante quase 20 anos.
Sobre a matança de presos da delegacia de Currais Novos, ele afirma: “O sargento José Bastos, o delegado, foi quem algemou e matou os presos”. Em 35, Segundo Saldanha, residia no Povoado Bulhões, município de Acari. Não gostava de Café Filho, mas simpatizava com Mário Câmara. Tinha horror a integralista, pois considerava o integralismo de Plínio Salgado como “um movimento verde por fora e vermelho por dentro”. A mesma opinião tinha os coronéis e os senhores de terras do Seridó do Rio Grande do Norte.



NOTA:


1-   Otávia Bezerra Dantas, João Maria Furtado, Segundo Saldanha, José Pacheco, Lindolfo Gomes Vidal, Poty Aurélio Ferreira, João Medeiros Filho e Enéas Araújo são falecidos. Em outubro de 1998, o sr. João Wanderley encontrava-se paralítico e desmemoriado.Hoje, 19 de novembro de 2012, todos estão falecidos.