sábado, 1 de dezembro de 2012

A Revolta Comunista de 35 em Natal (IV).


VETERANO COMUNISTA DIZ QUE 35 FOI UMA PRECIPITAÇÃO.

SIZENANDO: EU MATEI LUIZ GONZAGA.

ADULTERARAM O RELATÓRIO DA INSURREIÇÃO.

CHEFE DE POLÍCIA CAIU EM CILADA.

JORNAL DO GOVERNO NÃO REGISTROU "HERÓI".


O secretário Geral do Partido Comunista do Brasil, João Amazonas, no dia 14 de agosto de 1985, após o encerramento da solenidade de instalação das comissões Regional e Municipal do PC do B, na Assembléia Legislativa do RN, respondeu a uma pergunta deste repórter sobre a natureza do movimento armado de novembro de 1935, ocorrido em Natal, Recife e Rio de Janeiro.  Como se tratava de uma solenidade e conferência sobre as atividades do seu partido na Nova República, aquele não era o momento para uma digressão aprofundada sobre 35.  Mesmo assim, Amazonas disse o seguinte sobre a insurreição militar de novembro de 35:
“- A questão é muito mais ampla, é um assunto que precisava ser examinado sob diferentes ângulos.
Eu entrei no Partido Comunista do Brasil, em abril de 1935 – há 50 anos eu era recém-membro do PC do B quando se deu o movimento da ANL e a insurreição de 35.  Mas naturalmente não é por isso que eu desconheço os fatos, porque estudamos todas as questões que se relacionam com o partido, que é o nosso dever.  Tenho impressão que:
Primeiro:  O movimento de 1935 foi patrocinado pela Aliança Nacional Libertadora, num movimento de frente única, anti-imperialista e antifascista que surgiu no Brasil com uma grande potencialidade.
Segundo:  Me parece que esse movimento e a resistência que se procurou fazer à marcha do fascismo no Brasil, não pode deixar de merecer aplausos de todos os patriotas.  Todos nós sabemos que o fascismo constituiu uma grande ameaça não somente internacional como também no nosso país.  Ameaça fascista aberta e o dever de todos nós, patriotas, democratas, era opormos decididamente contra as tentativas do fascismo.  Penso também que de qualquer maneira a ação armada que se desenvolveu em Natal, Recife e no 3º Regimento do Rio, apresentou aspectos heróicos e gloriosos.  No entanto do ponto de vista histórico, tenho a opinião de que avaliou-se mal  o momento político que se vivia.  O Governo de Vargas fechou a Aliança em agosto de 35.  E fechou porque a Aliança ganhava força em todo o país.  Pressionado pelos militares, Getúlio decidiu pôr em ilegalidade a Aliança Nacional Libertadora.
Se fosse hoje, teríamos raciocinado de maneira diferente, embora que nessa ocasião não dependeu de mim nem de companheiros que formam hoje a direção do Partido Comunista.  Outros eram os elementos.  Mas raciocinaram de maneira diferente.  O Governo fechou dentro de uma provocação.  Eu acho que se respondeu a provocação do governo tal como ele desejava.  Eu penso que foram precipitados os acontecimentos armados de novembro de 35.  É preciso dizer isso abertamente, francamente, o que não foi.  Eu creio que ao invés de depois do fechamento da ANL, pelo Governo, ao invés dos aliancistas, comunistas terem procurado reforçar a organização popular sobretudo no campo e demais movimentos das vastas áreas camponesas do Brasil, e encontrar mil e uma formas de prosseguir na luta pelos ideais que a Aliança levantava, não, precipitou-se e caiu-se na questão de resolver o problema pelas armas.  E eu acho que esse problema foi resolvido à margem da participação da grande massa do povo brasileiro.  E esse foi um dos fatores que levou à derrota esse movimento.  Se fosse hoje, no que dependesse de mim, eu não responderia dessa forma.  Eu acho que a vida nos ensinou agora, recentemente, nesses vinte e um anos, que sempre se encontrará mil e uma maneiras, desde as mais radicais às menos decisivas, menos confrontantes, formas de levar adiante o movimento e de criar as condições populares para depois acionar todo um processo que se consiga tornar vitoriosa a idéia que se defendeu.  Essa é a opinião que eu tenho a cerca do movimento de 35, falando em síntese.
“ Provocação do inimigo não se responde precipitando acontecimentos, pois a gente acaba fazendo jogo que ele desejava que se fizesse.  Quer dizer que quando o 3o Regimento de Infantaria, de Praia Vermelha, se levantou, estava totalmente cercado. Os revolucionários sequer conseguiram sair do quartel.  Ora, nessas condições, tomar iniciativa é um pouco um gesto que não encontrava apoio num raciocínio lógico.  Então, essa questão assim, que é muito mais complexa, restou um pensamento um tanto sintético, sei a maneira como reajo em relação a 35.  Nem por isso deixo de destacar 35 como marco glorioso na história das lutas do nosso povo oprimido, sacrificado e humilhado que tem o direito de, em certas circunstâncias, ter de renascer as soluções extremas, heróicas para fazer valer os seus direitos.


LINHA DO PC do B

Sobre a linha do Partido Comunista do Brasil, João Amazonas disse que o PC do B não tem “nada de linha chinesa, albanesa, soviética.  “A linha do PC do B, é elaborada no Brasil por brasileiros, de acordo com a nossa compreensão dos problemas sociais, políticos, históricos e culturais do nosso povo.  Portanto não pode ser linha de nenhum outro partido.  Somos amigos da Albânia que luta pela transformação de sua sociedade e solidários com a luta do povo albanês, do ponto de vista do internacionalismo proletário.
Mas não somos albaneses, não ligamos a questões e problemas deles.
Dou opinião sobre os nossos problemas e nunca procurei me imiscuir em assuntos de outros partidos e estados estrangeiros, mesmo sendo um estado socialista.  Sobre perseguição religiosa na Albânia, eu não falo, mas quanto ao Brasil digo que a Constituição de 46, assegurou a liberdade religiosa, pois até 46 havia perseguição religiosa feroz contra religião de homens simples e do povo pobre, ao candomblé e até seitas protestantes.  Se existe na constituição de 46 um dispositivo que assegurou a liberdade religiosa no Brasil foi de iniciativa da bancada do PC do Brasil.  O primeiro signatário foi o Deputado Jorge Amado, seguido de todos os membros da nossa bancada.  A nossa posição é de assegurar a liberdade religiosa, que é um direito que o povo tem e não podemos mudar as crenças do povo e a concepção das pessoas por decreto e com medidas de hostilidades...”

SIZENANDO: "Eu  matei Luiz Gonzaga''






Sizenando Filgueira.


“ Eu matei o falso soldado Luiz Gonzaga durante a revolução de 35 “, disse o aposentado Sizenando Filgueira da Silva, 75 anos, residente no bairro de Lagoa Seca, na manhã de quinta-feira passada.  Ele não quis ser fotografado em virtude de ter sido operado recentemente.  Sem titubear, Sizenando forneceu detalhes sobre o rapaz conhecido por Luiz Gonzaga que, por motivos desconhecidos, envolveu-se nos acontecimentos militares de novembro de 1935.
Sargento da Polícia Militar do Estado, Sizenando disse que participou dos combates da insurreição, principalmente no ataque ao quartel do “ Batalhão de Segurança” ( hoje Casa do Estudante do RN, na rua da Misericórdia ) que durou 19 horas.  Ele disse que foi o comandante do grupo de insurretos que prendeu os oficiais ( um da PM e outro do 21ºBC ), praças e sargentos da PM que tentavam fugir pelos fundos do Batalhão, na tarde do dia 24 de novembro de 1935.  Antes da rebelião, ele era encarregado da agitação no quartel e homem de confiança do interventor Mário Câmara, pois também comandava um grupo de 15 homens do serviço secreto do Chefe do Executivo.
“Ele não era herói nem militar na época.  Ele apenas era um débil mental, menor de idade, e deram-lhe um fuzil para acompanhar os que fugiam do quartel em procura da Base Naval.  Depois que fiz a prisão do major Luiz Júlio ( comandante do Batalhão da PM ), e de um coronel do Exército, eu olhava para a direita e vi quando ele estava procurando fazer pontaria para atirar.  Antes que ele atirasse, eu atirei;  só dei um tiro e ele caiu.  Ele estava por trás de uma moita, no mangue, fazendo pontaria, vi que era para mim, a uns 80 metros de distância.  O tiro foi no peito, deu um pulo e caiu para um lado e para o outro.  Aí mandei buscá-lo e botei o corpo dele ao lado dos prisioneiros, do major Luiz Júlio e do coronel Pinto Soares, comandante do 21º BC.  Eram 27 prisioneiros, inclusive o tenente Zuza ( José Paulino de Medeiros), que foi baleado no braço por um soldado da polícia.  Eu prendi o soldado da polícia e mandei Zuza para o hospital, onde foi operado pelo Dr. José Tavares e depois mandei-o ficar na casa de José Anselmo.  O tenente Zuza perdeu o braço”, disse Sizenando Filgueira, membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1932, na época em que chamava-se Partido Comunista do Brasil.  Ele disse que entrou no PCB durante a Revolução Constitucionalista de São Paulo, que participou como soldado do 29º BC de Natal.  Nos intervalos dos combates, leu dois livros marxistas emprestados pelo tenente Bicudo, do Exército.
Uma das pessoas que participaram ativamente da revolução de novembro de Natal foi o tenente Mário Cabral, da Polícia Militar, um dos manobradores da metralhadora pesada do 21º BC que ficou estacionada na casa da esquina da rua João da Mata, em frente a praça André de Albuquerque, despejando balas na frente do quartel do Batalhão de Segurança.  Mário Cabral, vestia farda do Exército durante os combates, segundo informou João Wanderley, que foi cabo telegrafista do 21º BC.
- Mário Cabral era tenente da Polícia.  Quando tomei o quartel da Polícia, na entrada tinha um presídio, com uma porta da cela do tenente Rangel.  Quebrei o cadeado e soltei Rangel.  Aí soube que Mário Cabral estava na sala da Ordem, armado.  Ele estava com o fuzil a tiracolo e abrindo as gavetas ( isso eu já disse, certa vez, ao coronel Bento, muitos anos depois ).  Mário Cabral era o único oficial que estava lá e mais três ou quatro doentes na enfermaria.  Aí eu disse a ele que se retirasse do quartel.  Ele respondeu-me que ia se apresentar e “ estou também com vocês “.  Então, vá, que eu preciso do quartel desocupado para entregar, disse para ele.  Eu quero deixar claro também que, quando foi mandado por Quintino ( sargento músico do 21ºBC, chefe militar da insurreição, natural de Serra Negra do Norte, cujo nome completo era Quintino Clementino de Barros ) para tomar o quartel só estava o cabo Walfredo, lá em cima do quartel.  Então, eu botei três muros abaixo, na rua das Laranjeiras e cheguei na casa de um bodegueiro, pai do coronel Armindo Aguiar, da Polícia Militar.  Seo Júlio, pai de Armindo, cedeu a casa dele para a gente atirar.  Mandei Odilon deixar seu Júlio na rua Padre Pinto, pois ele queria ficar lá.  Depois ficamos entrincheirados na mercearia e atirando contra o quartel da Polícia, até o fim.  Depois fui para o antigo matadouro, atrás do quartel, onde tinha uma rampa para a Estrada de Ferro, juntamente com mais quatro soldados.  Aí avistei o pessoal descendo para o mangue, mandei os soldados cercarem esse pessoal e dei voz de prisão a todos eles.  Eu disse, gritando, que se rendessem ou morreriam, pois estavam cercados.  Eles se renderam e assim prendi 27 de uma vez.  Depois que eu prendi os 27, vi uma moita se mexendo e gritei “ quem está aí? “.  “Sou eu, Sizenando não atire”, respondeu a pessoa.  Veio e me abraçou, dizendo:  “vocês não fizeram ligação comigo.  Se tivessem feito, eu tinha abafado essa merda lá dentro”.  A pessoa era o tenente Zuza.  A gente estava conversando quando apareceu o tiro no braço esquerdo dele.  O soldado que atirou quis fugir, mas eu botei o fuzil para cima e disse “tá ferrado, soldado”, e ele não pôde fugir.  Eu não sei porque o soldado atirou nele, se foi enganado ou se vinha observando os passos do tenente Zuza.  Isso aconteceu na manhã de domingo (24.11.35).  Nessa época, eu não vestia farda.  Aliás, eu nunca vesti farda porque Mário Câmara disse que eu era homem de confiança dele e mandou que fosse tomar conta da investigação e repressão política e ainda prometeu que promoveria a oficial, se ele fosse eleito governador”, afirmou Sizenando Filgueira.
Por causa da sua participação no movimento de 35, ele passou dez meses na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, além de outros longos meses na Casa de Detenção de Natal.  O tempo integral que passou na cadeia Sizenando não sabe, “porque fui solto e preso tantas vezes que perdi a conta”.  Ele estranha o fato de ninguém ter sabido que foi o autor do disparo que matou Luiz Gonzaga, vulgo Doidinho, conhecido como o mártir da Polícia Militar do Rio Grande do Norte.
- Anos depois contei a história para o desembargador João Maria Furtado, autor do livro “Vertentes”, tendo ele me dito que não daria em nada, pois tudo aconteceu no meio de uma revolução e atirei nele em legítima defesa.  Se eu não tivesse atirado, talvez eu estivesse morto hoje.  Quando o livro saiu, coronel Bento Medeiros mandou me chamar para conversar sobre isso.  Mas eu confirmei tudo e disse “ foi eu quem matei”.  Ele perguntou se eu não estava enganado e eu disse que não.  Matei não foi por matar, não. Fiz para me defender.  Ele estava com pontaria para mim e eu atirei primeiro.  Coronel Bento disse que aquilo foi coisa de uma revolução mesmo, se fosse crime matar em revolução, eu pegaria prisão perpétua.  “Você em São Paulo era conhecido como doido”, disse Bento, se referindo a minha participação impetuosa na revolução de 32, em São Paulo, onde o major Zenóbio gostava muito de mim.  E Zenóbio chegou a ser Ministro da Guerra, contou Sizenando Filgueira, aposentado que vive de uma pensão de salário mínimo.
Finalizando, Sizenando diz que “o culpado de tudo, dessa estória do herói Luiz Gonzaga, é o Dr. João Medeiros Filho.  Todos os anos fazem essas comemorações para refrescar a memória contra o comunismo.  Fazem discursos para os comunistas serem odiados pela população.  Nada é verdade sobre essa história do herói Luiz Gonzaga, que nunca foi herói de nada, tudo foi criado”. (A respeito do assunto ver “Herói de 35 nunca foi soldado da PM”, de Luiz Gonzaga Cortez, in Tribuna do Norte, Natal/Rn, 12/02/1995, p.1, Caderno Domingo, entrevista com André Batista, contemporâneo de “Doidinho”, em Sacramento, hoje Ipanguassú/Rn)

JORNAL OFICIAL NÃO REGISTROU “HERÓI”


A partir de hoje, iniciamos a publicação das reportagens do jornal do governo do Estado do Rio Grande do Norte, sobre a insurreição de 23 de novembro de 35 em Natal, inclusive fac-símile da edição de “A República” de 29.11.35.  Em nenhuma edição do jornal governamental aparece o nome do suposto soldado Luiz Gonzaga como uma das vítimas dos combates entre as forças legais e os insurretos. Nota: Em mensagem enviada à Assembléia Legislativa, no segundo semestre de 1936, o governador Rafael Fernandes Gurjão, se refere aos acontecimentos de novembro de 1935, mas não faz nenhuma referência a soldado morto na defesa do quartel da Polícia Militar).
Cabe aos leitores observarem que os relatos são oficiais e abundantemente adjetivados e facciosos.  E qualquer menino pode notar isso.  A nossa intenção é fornecer o máximo de informações sobre os acontecimentos da novembrada de 35, cujo responsáveis foram anistiados em 1945 pelo então ditador Getúlio Vargas.
Eis a primeira reportagem do jornal do Governo do Estado do Rio Grande do Norte sobre 35:

A REPÚBLICA – NATAL – QUINTA-FEIRA, 28 DE NOVEMBRO DE 1935.  N.º 1465, 1ª PÁGINA.

A MALOGRADA REBELIÃO EXTREMISTA NO ESTADO.  DIAS E HORAS DE CALAMIDADES – OS TIROTEIOS TRESLOUCADOS, AS CORRERIAS, OS SAQUES E DEPREDAÇÕES – A LUTA NAS RUAS – A HERÓICA RESISTÊNCIA DO QUARTEL DA POLÍCIA MILITAR – A ORGIA DOS AUTOMÓVEIS.

Natal, em toda a sua existência de cidade pacata, não fora ainda constrangida a assistir espetáculos tão triste e de tão sangrenta dramaticidade como os das noites e dias 23, 24, 25 e 26 do corrente, dias e noites de desespero e horror.  Sob o domínio cruel da estupidez desenfreada dos elementos extremistas.
Pelas 19:30 horas de sábado, quando o Governador do Estado, alguns dos seus secretários e grande parte da sociedade natalense, com os alunos das escolas, assistiam no “Carlos Gomes” à festa de diplomação dos Contabilistas do Colégio Marista, foram surpreendidos pela interrupção de um levante que logo aos primeiros momentos caracterizou nitidamente extremista.
Os tiroteios esparsos pelos bairros da cidade e correrias nas ruas, apavoraram as famílias, lançando o desassossego em todos os espíritos.  Logo mais, soube-se que elementos do 21º BC, ligados a indivíduos de idéias sabidamente avançadas, se achavam apossados de vários pontos da capital, paralisando o tráfego de bondes e automóveis e tiroteando desvairadamente os pedestres que se arriscavam a percorrer as ruas, de regresso aos lares.
Toda a noite de sábado foi assim, de incalculável terror.  Os rebeldes, no intuito de aterrorizar a população, lançavam rajadas de  metralhadoras por toda parte.  O Batalhão de Polícia Militar, sob o comando do major Luiz Júlio, que ali se achava em companhia do coronel Pinto Soares, comandante do 21º BC, vários oficiais e alguns civis, trinta e poucos homens, ao todo, foi logo assediado pelo sediciosos, que se entrincheiraram nos prédios e ruas adjacentes.  O Batalhão resistiu com uma coragem extraordinária, durante 19 horas à superioridade numérica e bélica dos assaltantes.
Depois do assédio do Batalhão, que com seu edifício quase desmoronando, as paredes crivadas de balas, caiu às 15 horas do domingo, a cidade inteira se tornou campo de ambição, do ódio e dos instintos dos masoqueiros.  A caça aos automóveis públicos e particulares, “Limousines” e caminhões “Ford” e “Chevrolet”, que se encontravam nos depósitos de suas agências, foi um dos primeiros atos da situação desgovernada, acéfala, confusa e titubeante.  Então,  aos tiros e clamores bárbaros de rua em rua, em doida disparada, os sublevados puseram em pé de guerra a cidade, varejando casas, praticando arrombamentos de toda espécie, saqueando armazéns, carregando mercadorias em caminhões, abrindo à turba sanguinária casas comerciais.
Durante os dias de horror, foram assaltadas e roubadas, entre outras as seguintes firmas:
a)    “A Chilentes”;
b)   “M. Martins e Cia.” (Agência Ford, com prejuízo de cerca de 200 contos );
c)    “Severino Alves Billa” (Agência Chevrolet, com cerca de 170 contos de perda);
d)   “M. Machado” (armazéns de gêneros alimentícios);
e)    “Cia. Sul América”;
f)    “Viana e Cia.” (ferragens);
g)    “Cia. Souza Cruz”;
h)   “M. Alves Afonso” (joalheiria);
i)     “A Paulista” (filial do Alecrim);
j)     “A Casa das Fazendas Baratas” (molhados);
k)   “Armazéns Copacabana”.

O mercado público e os quiosques circunjacentes também foram assaltados e depredados, sem nenhuma consideração pelos seus pobres ocupantes que ali ganhavam a vida no pequeno comércio.
Quase todas as repartições públicas, federais e estaduais sofreram as consequências da baixaria reinante.  Os cofres do Banco do Brasil, Banco do Rio Grande do Norte, Delegacia Fiscal, Recebedoria de Rendas foram criminosamente arrombadas, à maçarico, ficando os documentos, papéis públicos, selos, espalhados pelo chão, de mistura com cinzas e detritos de destruição.








Policiais de Natal contam o dinheiro apreendido com os chefes da rebelião presos em Canguaretama.

Enquanto isso, de rua em rua, procediam os rebeldes a caça às autoridades constituídas.  O Governador Rafael Fernandes, em companhia do seu secretário e inúmeros amigos, saiu do Teatro “Carlos Gomes” sob o tiroteio dos rebeldes, em direção a residência do Sr. Xavier Miranda, transferindo-se depois para o Consulado da Itália acompanhado do Dr. Aldo Fernandes, Secretário Geral do Estado.  O Cônsul Sr. Guilherme Lettiére, cercou do maior conforto o governo constituído.   Entretanto em ligação com as forças legais, o governador do Estado pôs a par do que ia sucedendo, orientando providências e se comunicando com diversos pontos.
O Monsenhor João da Mata, presidente da Assembléia Constituinte, e os Drs. Gentil Ferreira, Prefeito da capital, Paulo  Viveiros, Chefe do Gabinete do Governo e Edgar Barbosa, diretor da imprensa oficial abrigaram-se durante os dias de luta no Consulado do Chile recebendo da família dos Srs. Carlos e Amador Lamas Elihimas as maiores demonstrações de conforto e fidalguia.
A população da capital atravessou momentos terríveis, que as palavras mal podem descrever.  As dificuldades insuperáveis para se conseguir gêneros alimentícios, com as ameaças constantemente feitas pelos rebeldes, puseram pânico em Natal inteira.  Enquanto isso os boatos alarmantes andavam de ouvidos sendo os sublevados os primeiros a lançar as notícias terroristas.
As famílias que veraneavam na praia da Redinha, e que hospedaram inúmeras pessoas foragidas desta capital, tiveram também terríveis sobressaltos.
Os seus chefes foram intimados a se apresentar a uma Junta Governativa constituída de elementos cuja vida progressa não autorizava ninguém a acreditar em garantia de qualquer espécie.
Nessa praia a busca de armas foi vexatória, tendo o pelotão que ali praticou arruaças trazido presos vários cidadãos, entre eles o Sr. Arnaldo Lira, que aqui na casa em que se instalara a Junta Revolucionária, foi gravemente ferido a sabre.
Temos a lamentar diversas mortes e ferimentos em pessoas reconhecimente pacatas, contra as quais se atirava a esmo, numa caçada selvagem.  Oportunamente, publicaremos minuciosa reportagem dessas tristes ocorrências.
O Governador Rafael Fernandes, prestigiado pelo povo e pelas autoridades da República, tomou desde ontem as medidas mais severas de vigilância e repressão contra esses elementos que deram ao Brasil no Rio Grande do Norte e em Pernambuco, o mais sangrento e triste exemplo de suas verdadeiras intenções políticas.

AO COMÉRCIO

Restabelecida a ordem pública e assegurada todas as atividades profissionais, o comércio desta capital, que foi obrigado a cerrar as suas portas durante os dias de terrorismo, abrirá hoje reiniciando os seus negócios.  Assim, podem os senhores comerciantes recomeçar o seu trabalho, pois as repartições públicas, escolas e demais estabelecimentos também funcionaram em seus expedientes regulares retomando o ritmo normal.

TELEGRAMAS DO DR. RAFAEL FERNANDES ÀS ALTAS AUTORIDADES DO PAÍS.
O DR. RAFAEL FERNANDES DIRIGIU ONTEM AOS EXMO. Srs. PRESIDENTE DA REPÚBLICA, MINISTRO DE ESTADO E GOVERNADORES O SEGUINTE TELEGRAMA:


“Tenho pesar comunicar vossência que sábado, 19 horas, momento me achava no Teatro Carlos Gomes assistindo festa escolar grandemente concorrida famílias rebentou levante caráter extremista quartel 21º BC. Dentro alguns minutos vários pontos da capital foram ocupados soldados rebeldes que iniciaram forte fuzilaria metralhando aliados elementos extremistas.  Batalhão Polícia Militar atacado rebeldes resistiu tremendo sítio que durou 19 horas seguidas, dada rendição Btl. Policial 15 horas Domingo, presos seu bravo comandante dignos oficiais que souberam tão alto defender ordem constitucional v.g. rebeldes ficaram senhores toda cidade pt. foram espalhados boletins explicando movimento partido Aliança Libertadora sendo organizada junta de operários soldados que se instalou residência particular governador estado pt. Comércio, casas bancárias foram pilhados pt. cofres Banco do Brasil, Banco do Rio Grande do Norte,  Banco Rural, Recebedoria do Estado, Delegacia Fiscal foram rebeldes arrombados calculando-se tenham rebeldes apoderado quantia superior a 5.00:000$000 pt. Há grande número de mortos pt. Interior Estado foi organizada resistência contra incursão rebeldes que não puderam além Santa Cruz onde estalada bases operações legalista pt. Momento telégrafo Capital está recompondo atividade estando oficiais exércitos polícia respectivos quartéis ultimando providência pt. tenho apresentar vivas congratulações vossa excelência pela vitória ordem legal restabelecimento império lei para honra da Nação pt. respeitosas saudações.

Rafael Fernandes

Governador do Estado.”

O GOVERNADOR CONSTITUCIONAL DO ESTADO AO POVO DO RIO GRANDE DO NORTE.

NOTA OFICIAL

O Governador Constitucional do Rio Grande do Norte, prestigiado pelo povo unanime que não esqueceu um momento os seus sentimentos de cristandade, nos dias e nas horas dolorosas por que passou a nossa querida terra, amparando pelas forças legais e pela solidariedade absoluta do Governo Federal, com os poderes do Estado legitimamente firmados em funções, recomenda aos nossos conterrâneos a maior calma perante a situação.
Quando o Rio Grande do Norte marchava para um período de reconstrução e trabalho, dentro da ordem e do sossego que tranquilizava os espíritos, uma rebelião de saqueadores tentou implantar o maior negregado regime de espoliações, assaltos e assassínios, dominado pela violência e pela satisfação dos desenfreados instintos de selvageria cujos resultados sinistros todos assistimos nos três dias e nas quatro noites terríveis que atravessamos. A heróica Polícia Militar Norte-rio-grandense durante um assédio de 19 horas, tudo fez para resistir à avalanche dos bárbaros, mantendo-se impávida, até os derradeiros minutos, com os seus oficiais e soldados que se cobriram de glória.
Na defesa do regime democrático e das instituições que estão formando e dirigindo a Nacionalidade, o Governador Rafael Fernandes conta com o grande povo conterrâneo para colaborar na tarefa urgente de reconstrução da ordem e composição dos elementos primordiais do Governo. O Presidente Getúlio Vargas, autorizado pela maioria quase absoluta da Comarca e do Senado, decretou o Estado de Sítio para o país inteiro, com suspensão das garantias constitucionais. Entretanto, o Governo do Rio Grande do Norte garantirá a todos, em seu lar e em sua propriedade, nas suas profissões e no seu trânsito, sendo porém implacável na manutenção da ordem, agindo severamente contra os que ainda quiserem lançar a confusão e promover desordens.
No cumprimento do programa comum ao Brasil, na defesa do regime, na imposição do respeito às famílias e aos bens, na vigilância indormida contra os masorqueiros e propagandistas do famigerado credo político que nos acaba de dar tão sangrento e terrível exemplo, o Governo será intransigente, agindo com a máxima autoridade.
Assim, fique tranquila a população natalense, que soube sofrer com heróica firmeza as horas tristes dos assaltos, dos tiroteios loucos, das correrias selvagem dos extremistas. Fiquem tranquilos todos os nossos conterrâneos, que o regime da paz e da ordem, da lei e justiça, se acha assegurado em toda sua plenitude. Às 12 horas de hoje Natal viu o seu céu, que tremera sob o fragor da metralha dos bárbaros, iluminado pelas asas serenas dos aviões do Exército e da Marinha Nacional. O invencível 22º Batalhão de Caçadores, que se cobriu de louros nas trincheiras do Recife, derrotando os rebeldes de Socorro, chegará ainda hoje a esta capital, afim de mais perfeitamente tranquilizar o povo com a sua presença confortadora.
Os últimos comunistas sem coração e sem alma fugiram a esta notícia, debandaram em desordem, perseguidos sempre pela nossa gloriosa polícia e por centenas de voluntários civis que pegaram em armas para defender os sentimentos de cristandade que nos embalam desde o berço e que nunca poderemos substituir pelas idéias sanguinárias indesejáveis e loucas dos adeptos de uma doutrina que procura assaltar o mundo com a sua onda de sangue e de desonra.
(NOTA OFÍCIAL DISTRIBUÍDA ONTEM E HOJE NESTA CAPITAL E NO INTERIOR DO ESTADO ).



O CHEFE DA POLÍCIA CAIU NUMA CILADA




Sargento Amaro, do 21º BC, foi quem prendeu o chefe de polícia, na noite de 23 de novembro de 1935.


Conforme prometemos na edição passada, continuamos a publicação do noticiário do jornal oficial do Governo do Estado do Rio Grande do Norte sobre a insurreição de novembro de 1935 em Natal, conhecida com novembrada, revolta vermelha, intentona comunista, quartelada de 35, etc. O noticiário do jornal "A República" de 29 de novembro de 1935, que transcrevemos hoje, também não registra que o combate ocorrido entre revoltosos e defensores do quartel do Batalhão da Polícia Militar, na rua das Laranjeiras, revelou um herói supostamente chamado Luiz Gonzaga de Souza. Segundo o desembargador João Maria Furtado, autor do livro "Vertentes", juiz de direito na época da insurreição, Luiz Gonzaga era conhecido por "Doidinho", um agregado do quartel da Polícia Militar e não soldado. Sizenando Filgueira disse que matou "Doidinho" e que prendeu os oficiais da PM no mangue do Passo da Pátria, no rio Potengi.
Mas os arquivos da PM registram que Luiz Gonzaga foi alistado como conscrito, dias antes de rebentar a revolta. Já o coronel da reserva da PM, Sebastião de Souza Revoredo, que era sargento e lutou durante o tiroteio de quase 20 horas, afirmou que Luiz Gonzaga, Doidinho, era o rapaz que ficava segurando os "pentes" de balas da metralhadora do quartel. Por isso, ficou conhecido como "municiador".  O coronel Revoredo, por motivos ignorados , apesar da insistência do repórter, no restaurante da Assembléia Legislativa, que frequentava cotidianamente, jamais quis falar profundamente sobre o assunto.Já Sizenando Filgueira da Silva, que disse ter sido o autor do disparo que vitimou L. Gonzaga, relembra que a vítima trajava calção cáqui, molhado, "nu da cintura para cima", no momento que foi abatido. "O tiroteio já tinha acabado, quando prendi toda a oficialidade do quartel. Nesse instante, vi o mato se mexendo, perto do mangue que existia atrás do quartel. Notei que era um homem fazendo pontaria para mim e resolvi meter bala. O tiro fez a vítima cair para trás, como estivesse dando um pulo. Ao olhar o cadáver, notei que o calção estava molhado, como se estivesse saído do Rio Potengi naquele instante", conta Sizenando.
O noticiário da oitava página de A República registra detalhes da prisão do Chefe da Polícia, João Medeiros Filho, pelos revoltosos de novembro de 35. Eis a transcrição:

A REPÚBLICA - NATAL - SEXTA-FEIRA, 29 DE NOVEMBRO DE 1935. N.º 1466.

A MALOGRADA REBELIÃO NO ESTADO

Em nossa tarefa de  informar ao público os lutuosos fatos que foi campo o Rio Grande do Norte e particularmente esta capital, durante os dias do terror extremista, continuamos hoje a publicação do intenso noticiário dos acontecimentos ocorridos aqui e em outros pontos do estado.
A CHEFIA DE POLÍCIA ANTE A SURPRESA DOS PRIMEIROS TIROS – A DETENÇÃO DO DR. JOÃO MEDEIROS.


Em companhia do governador Rafael Fernandes, também se achava no “Carlos Gomes” o Dr. João Medeiros Filho, Chefe da Polícia do Estado, que imediatamente se transportando ao quartel do B.P.M. e outros pontos da cidade, tomou as providências que, surpresa do momento, se faziam necessárias à repressão de um movimento cujo caráter logo se manifestou.  Usando de todos os meios ao seu alcance, o Dr. João Medeiros procurou entrar em ligação com o coronel comandante do 21º BC e os oficiais, sendo porém detido, às 22 horas do sábado, por uma cilada, dos rebeldes, que conduziram S.S. ao quartel sedicioso.
Ali, já se encontravam presos diversos oficiais do Exército sendo o Chefe de Polícia fechado numa prisão infecta e sem conforto, sob as ameaças e injurias dos que para lá o haviam atraído.
Por duas vezes, o Dr. João Medeiros foi retirado da prisão pelos elementos mais extremados, para ser conduzido por paizanos para lugares ignorados, aonde certamente iriam ultimar as sucessivas ameaças feitas à sua pessoa, uma das mais visadas pela sede de sangue dos rebeldes.

A ENÉRGICA REAÇÃO SERTANEJA

“Logo que chegou ao Seridó a notícia do levante extremista, rebentado na noite de sábado, o bravo coronel Dinarte Mariz à frente de uma coluna de decididos sertanejos, partiu de Caicó em defesa do poder legalmente constituído, tendo travado, o primeiro encontro com os rebeldes, domingo, em Serra Caiada, conseguindo destroça-los dali seguiu em direção a Panelas, onde após cinco horas de combate, obteve nova vitória sobre as forças sediciosas, que debandaram, com grandes perdas, além de vários prisioneiros.
Naquela zona a ordem foi logo restabelecida, e para sua manutenção não mediram sacrifícios os heróicos sertanejos comandados pelo Cel. Dinarte Mariz, vivo exemplo de bravura e lealdade.

CHEGADA DE TROPAS A ESTA CAPITAL

A bordo do “POCONÉ” deverá chegar, hoje à noite ou amanhã, o 20º Batalhão de Caçadores, de Alagoas, que conjuntamente com as forças da Paraíba, esperada hoje pela manhã, no trem da Great Western, asseguração, cada vez mais, a tranquilidade do povo mantida desde anteontem pelas forças do Governo.


RESTABELECIDO O TRÁFEGO DA GREAT WESTERN E DOS AVIÕES

Já restabelecido o tráfego dos trens da Great Western, suspenso em virtude da intentona extremista.
Ontem mesmo, à hora habitual partiu o interestadual para Recife, tendo corrido, sem nenhuma alteração no horário, conforme haviam noticiado na edição passada, os trens da estrada de ferro central.
O tráfego dos aviões acha-se normalizado.  Ontem, passou para o sul o avião carreira “PANAIR”.  Ás 15 horas chegou, de retorno da Bahia, a aeronave do sindicato Condor que havia deixado Natal na manhã de anteontem.
Algumas vitimas.
Durante os sucessivos tiroteios verificados nos diversos bairros desta capital e no interior foram feridas, entre outras, as seguintes pessoas:  Francisco Lopes, Horacio Antônio, Francisco Vital da Silva e Raimundo Alves Pereira, soldados do 21º BC;  Joaquim Barbosa, Antônio Gervásio, Severino Mendes e João Barbosa da Silva, praças do Batalhão Policial Militar, Geraldo Palma da Rocha; Manoel Ribeiro de Souza, ferido em Ponta Negra; Ideval Barros, soldado do 21º BC, ferido em Panelas;  Arnaldo Lira, ferido na Vila Cincinato; Tenente José Paulino de Medeiros, ferido no quartel do B.P.M.
Entre outras mortes podemos registrar as seguintes pessoas:  -Otacilio Werneck, morto em sua residência, à rua General Glicerio, no bairro da Ribeira; José Pedro Celestino, morto na Detenção:  Maria Carmen Tavares;  morta no Tirol;  Arthur Mangabeira e Gervasio Mangabeira, morto numa povoação do município de São Thomé (1).

OS SAQUES NO INTERIOR DO ESTADO

Diversas cidades, vilas e povoados do interior sofreram terrivelmente durante os dias de ganância dos extremistas provação que lhes infringiram os bandos armados.  Macaíba, Ceará-Mirim, São José do Mipibú, Vila Nova, Lagoa de Montanhas, Nova Cruz e outras localidades tiveram vários dos seus estabelecimentos comerciais e residências particulares arrombados ou saqueados.



VÁRIAS NOTAS:


“O Sr. José Alves dos Santos, chefe da firma M. Martins & Cia, desta praça, foi preso pelo extremista Epifanio Guilherme que à frente de um troço de homens armados, exigiu daquele comerciante sob pena de não o fazendo ser fuzilado.  Abertas as portas da agência Ford dali retiraram os extremistas todos os automóveis e caminhões existentes, levando mais dois contos de réis em dinheiro.
O saque feito na Dispensa Natalense da Viuva M. Machado, sucessora, foi vultoso, calculando-se em cerca de 200 contos os prejuízos dessa firma.
Da agência Internacional, da S. A . Wharton Pedrosa foi retirado um caminhão “Internacional”, de capacidade de 2.850 Kilos, motor n.º 35.811 e diversos acessórios para automóveis tudo no valor de 90.000$000.
A agência da Texaco & Cia, em Macaíba, foi assaltada pelos revoltosos, que levaram setenta e quatro caixas de gasolina sem que fornecessem ao respectivo agente, Sr. José Magalhães, qualquer documento.”

NOTAS:


NATAL – SEXTA-FEIRA, 29 DE NOVEMBRO DE 1935, N.º 1466.  1ª Página.

MANUTENÇÃO DA ORDEM.

O EXMO. SR. DR. RAFAEL FERNANDES, GOVERNADOR DO ESTADO, RECEBEU ONTEM OS SEGUINTES TELEGRAMAS:

CURRAIS NOVOS – 28, Todo o Seridó completamente calmo, havendo apenas grupos rebeldes já destroçados que estão sendo perseguidos por nossas forças.  Vou telegrafar a três colunas paraibanas rumavam esta zona agradecendo serviços vinham prestar nosso Estado ao mesmo tempo fazendo ver desnecessidade continuação marcha.  Acaba chegar tenente Carvalho tendo feito na serra 28 prisioneiros com grande quantidade material bélico.  Exulto brilhante vitória congratulando-me prezado amigo.  Cordiais Saudações.
Dinarte Mariz.


CANGUARETAMA – 28, Força sob meu comando acaba ocupar esta cidade e Nova Cruz, encontrando tudo em paz.  Este comando felicita V.Excia. por ter vitoriado causa lei e não ter sido sacrificado.  Aqui aguardo ordem que as cumprirei Saudações.
Major Elias Fernandes, comandante Batalhão Forças de João Pessoa.

NOTAS
1 – Muito sintomático o fato do jornal oficial não registrar o suposto herói da PM, mas registrou (erradamente) dois homicídios no interior, em São Tomé, como decorrência da rebelião militar.Ora, se tivesse morrido um herói de verdade, teria havido o registro no jornal do governo do populista Rafael Fernandes Gurjão.
Quanto às afirmações de Sebastião Revoredo, feitas no restaurante da Assembléia Legislativa, onde trabalhava, o repórter tentou diversas vezes uma entrevista aprofundada, mas ele recusou, por motivos ignorados. “Eu não quero mais falar sobre isso, não. Não gosto de falar sobre esse assunto”, disse-me o coronel Revoredo, já falecido.


ADULTERARAM O RELATÓRIO DA INSURREIÇÃO


Relatório do delegado Enock Garcia foi republicado no livro MEU DEPOIMENTO na página 111, edição de 1937. Detalhe: não registra a morte de um tal de Luiz Gonzaga de Souza. O inquérito foi encerrado em abril de 1936, portanto mais de cinco depois da chamada "intentona comunista".


Enquanto o aposentado Sizenando Filgueira, residente em Lagoa Seca e que não foi ressuscitado, pois concedeu entrevista em setembro passado ( a gravação está conosco), afirma que Luiz Gonzaga era um débil mental que ele matou nas margens do mangue do rio Potengi, no dia 24 de dezembro de 1935, o ofício do major Luiz Júlio, comandante do Batalhão Policial, endereçado ao Governador Rafael Fernandes, no dia 24 de dezembro de 1935, confirma que se tratava de um soldado da PM e que foi morto após o tiroteio que durou 19 horas.
O citado ofício confirma que Sizenando Filgueira não é um mentiroso, mas que foi ele e Odilon Rufino, que comandavam um grupo de rebeldes, que prenderam o tenente-coronel Pinto Soares e o major Luiz Júlio, a uns 200 metros do quartel do Batalhão.  “O tenente José Paulino de Medeiros, encontrando-se com uma patrulha rebelde, recebeu uma rajada de arma automática que o atingiu no tronco e no antebraço esquerdo que teve de ser amputado.  O signatário seguia em companhia do Tenente Coronel Pinto Soares rumo à Escola de Aprendizes Marinheiros, quando um troço de insurrectos chefiado pelos indivíduos Odilon Rufino e Sizenando Filgueira, fardados de Sargento do Exercito, os aprisionaram a uns duzentos metros do Quartel tiroteiado, sendo ambos recolhidos presos ao Quartel dos rebeldes”, afirmou o major Luiz Júlio no ofício ao governador.
No final do ofício, o major Luiz Júlio diz que “ após a retirada deste Quartel foi atingido e morto por certeiros tiros do inimigo, o soldado Luiz Gonzaga, que na metralhadora pesada se salientara como um bravo.”
Por que falsificaram?
Não foi o repórter que disse que Luiz Gonzaga não era soldado da PM e um falso herói-mártir da Polícia Militar do RN.  Sizenando Filgueira, que pode ser facilmente localizado, foi quem disse que ele matou “Doidinho”, nu da cintura para cima, vestindo um calção cáqui molhado, nos fundos do quartel da PM, no dia 24 de novembro de 35.  “Essa história do herói Luiz Gonzaga foi invenção do Dr. João Medeiros Filho para motivar comemorações anuais e alimentar o anticomunismo”.  Essa declaração é de Sizenando Filgueira, o “S. F.”.
No seu livro “Vertentes”, o desembargador João Maria Furtado, vitima da repressão pós 35, também sustenta a versão dita por Sizenando Filgueira.  “J.M.F.” acha que o herói Luiz Gonzaga tornou-se soldado com efeito retroativo.  Basta ler “Vertentes”.
Sem querer servir de “refrão a inimigos do Estado Democrático” nem desafinar a harmonia da pesquisa jornalística sobre o comunismo no RN na década de 30, onde não cabe levantar opiniões jurídicas ou anti-jurídicas, devemos comunicar aos leitores, a bem da verdade, que constatamos adulterações no “Relatório do Delegado da Ordem Social (sobre a insurreição) – Departamento de Segurança Pública – Delegacia de Ordem Social e Investigações”, datado de 18 de abril de 1936.
O relatório foi encaminhado ao Chefe de Polícia quase cinco meses depois da revolução comunista de 35 e não registra morte do tal soldado Luiz Gonzaga.  O relatório, assinado por Enoch Garcia, “Del. Auxiliar responsável pela Delegacia de Ordem Social”, foi inserido no livro “Meu Depoimento” , de autoria de João Medeiros Filho, publicado em 1937.  O relatório está transcrito entre as páginas 107 e 112 de “Meu Depoimento”, editado dois anos depois da insurreição.  E nenhum fala no soldado Luiz Gonzaga.  Por quê?
Mas no livro “ 82 Horas de Subversão”, impresso no Centro Gráfico do Senado Federal, em 1980, de autoria de João Medeiros Filho, chefe de polícia do RN em 1935, o relatório do Delegado de Ordem Social, Enoch Garcia foi novamente enxertado nas páginas 97 a 101.  Mas o enxerto sofreu uma adulteração.  É no trecho “As Victimas” (página 111 da 1ª edição de “Meu Depoimento”), na página 100 do livro “82 Horas de Subversão”.  A adulteração enxertada no relatório está na segunda linha do intertítulo “As Víctimas”:  “Soldado Luiz Gonzaga, do Batalhão Policial”.  Observem que a segunda linha do citado trecho começa com “Entre os mortos contam-se as seguintes:  Octacilio Werneck assassinado barbaramente à porta de sua residência a tiros de fuzil pelo comunista Epiphanio Guilhermino de Oliveira”...
Por quê a adulteração?

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sexta-feira, 30 de novembro de 2012


Disponibilizada a nova edição da Revista Cronos

AssessoRN - Jornalista Bosco AraújoemAssessoRN.com - 15 horas atrás
 *Foto: capa revista/divulgação* O Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), da UFRN, disponibiliza a mais nova edição da Revista Cronos. Os interessados podem acessar o site: *http://www.periodicos.ufrn.br/index.php/cronos* tendo acesso assim aos artigos, entrevistas e resenhas, produzidos por professores de diversas universidades do Brasil. Neste número a temática é Trans-formações em Gênero, abordado sob diversos aspectos por professores como Edmar Henrique Dairell Davi e Maria Alves de Toledo Bruns, ambos da Universidade de São Paulo (USP), Claudiene Santos ... mais »

quarta-feira, 28 de novembro de 2012


Pense num decassílabo gostoso de ler!
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Peleja virtual de Ismael Gaião (IG) e Júnior Vieira (JV)

IG-  Eu sou um furo de espinho
Que entra como uma cunha
Entre o couro e a unha
Pelo seu dedo mindinho.
Sou um prego no caminho
Entrando no seu pé nu,
Sou almoço de urubu,
Sou o chulé no sapato…
Eu sou o mijo do rato,
Mas sou melhor do que tu.                           
 
JV- Sou um carrasco sem pena,
Eu sou o cocô do gato,
Sou um prego no sapato,
Sou sobejo de hiena.
Eu sou a gota serena,
Pior que cobra urutu,
Sou a bufa do timbu,
A mijada da ticaca,
Veneno de jararaca,
Mas sou melhor do que tu!                           

IG- Sou membro do mensalão
E a pregação de um crente.
Eu sou uma dor de dente
E a mágoa da traição.
Sou um petista ladrão.
Sou um corte com bambu.
Sou filho de belzebu,
Marido de uma “gaieira”
Sou sócio de Cachoeira,
Mas sou melhor do que tu!                           

JV- Eu sou a pior megera,
Doença que cai a língua.
Sou a mula que dá íngua,
Faço medo a besta fera.
Sou a doença que impera
No couro do cururu,
Serro te de caititu,
Que arranca os dedos da mão.
Sou o câncer de pulmão,
Mas sou melhor do que tu!

IG- Sou anão do orçamento
Que roubou nossa nação,
Picada de escorpião
E o coice de um jumento.
Sou pé frio d’um azarento,
Chifrada de boi zebu,
Mordida de pit bull,
Veneno de uma coral.
Sou o fim do carnaval,
Mas sou melhor do que tu!                          

JV- Sou o pior traficante,
Sou um rato de esgoto.
Eu sou o fim do arroto,
Sou patada de elefante.
Sou lepra contagiante,
Doença do gabiru,
Chefe do Carandiru,
Sou ladrão, sou desordeiro,
Estuprador, maconheiro,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
IG- Eu boto fogo em mendigo
Que dorme pelas calçadas.
Em veado dou lapadas.
Qualquer criança eu castigo.
Sou a lagarta no trigo,
Na ferida, o tapuru…
Pra mulher sou brucutu,
Pro velho, dor de barriga.
Vivo procur ando briga,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
JV- Quando meu pai mata um
Sou eu que assino embaixo.
Eu toco fogo em despacho
E sem remorso nenhum,
Eu provoco zum, zum, zum,
Faço o pior sangangu;
Meu pai cria buruçu…
É genética, a gente herda,
E boto fedor em merda,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
IG- Sou um “bebo” pegajoso
Que cospe na tua cara.
Sou ferida que não sara,
Sou covarde e mentiroso.
Sou vagabundo e seboso
E aguado como chuchu.
Sou cobra surucucu
Engolindo um roedor.
Sou freguês mal pagador,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
JV- Adoro falar mentira
E desconheço o perdão.
Eu inventei traição,
Tédio, ódio, raiva, ira…
Somente o mal me inspira,
Arranco carnegão cru,
Eu sou pivô de rebu,
Só compro tudo fiado,
Dou em cego e aleijado,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
IG- Sou um grande puxa-saco
Sou traidor, inseguro…
Eu vivo em cima do muro,
Sou cafajeste e velhaco.
Jogo um irmão num buraco
Pra ganhar qualquer tutu.
Eu desafio o vodu
Para me dar bem na vida…
Sou justiceiro homicida,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
JV- Puxo faca pra irmão,
Com minha mãe eu discuto,
Confesso que fico puto
Se não vejo confusão.
Viro frango, sapatão,
Passo quinau, dou pitu,
Abalei Caruaru,
Lá eu causei terremoto…
Só gente ruim eu adoto,
Mas sou melhor do que tu!               
 
IG- Sou chefe de um arrastão,
Sou decisão que malogra,
Sou a visita da sogra
Quando tem feriadão.
Sou Domingão do Faustão,
Sou sal grosso em cururu.
Sou tarado andando nu
Atrás de uma sodomia,
Sou um padre em pedofilia,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
JV- Eu me viro na mazela,
Atrapalho a tua rima,
Sou bomba de Hiroshima,
Eu sou a febre amarela.
Pior que erisipela,
Sou espírito belzebu,
Me viro no cafuçu,
Rezo o credo atravessado,
Deixo o capeta amarrado,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
IG- A migo Júnior Vieira
Tô adorando a peleja
Só tá faltando a bandeja
Pra gente fazer a feira…
Nessa nossa brincadeira
Eu me lembrei de Xudu.
Não sou um Zezé Lulu,
Porém não canto tão ruim…
Tu não ganhaste pra mim,
Também não ganhei pra tu!                           
 
JV- Ismael, pra encerrar
Desfaça que eu desfaço.
Me abrace que eu lhe abraço,
Pra quê a gente brigar?
E eu não quero botar
Veneno no teu angu…
Vamos pescar um pacu,
Pois aqui ninguém perdeu…
Nem tu és melhor que eu
Nem sou melhor do que tu!

Colaboração de César Virgilio do Nascimento.











O século 21 do Instituto Histórico

Tribuna do Norte - 28.11.2012.


Yuno Silva - Repórter

Há quase 111 anos, o número 622 da rua da Conceição, na Cidade Alta, serve como endereço para o maior acervo cultural do Rio Grande do Norte. Casa da Memória, como bem disse Câmara Cascudo, a nau do Instituto Histórico e Geográfico está prestes a mudar de comando: no dia 29 de março do próximo ano, data de aniversário do IHGRN, o escritor e articulista Valério Mesquita toma posse como novo presidente da mais antiga instituição cultural do Estado. Ele substitui o procurador aposentado Jurandir Navarro, que por sua vez assumiu o posto após o falecimento de Enélio Petrovich (1934-2012) em janeiro passado.
Adriano AbreuValério Mesquita, futuro presidente, à esquerda: Queremos recuperar, climatizar, digitalizar o acervo para colocar o Instituto nessa nova era
Valério Mesquita, futuro presidente, à esquerda: Queremos recuperar, climatizar, digitalizar o acervo para colocar o Instituto nessa nova era

O desafio da nova diretoria, cuja intenção é imprimir um perfil mais horizontal e participativo à gestão da entidade, resume-se em três palavras: modernização, visibilidade e acesso. O caminho é longo e a missão árdua: "Faremos um levantamento geral do acervo e da segurança desse acervo, da situação financeira e da estrutura física do Instituto", adiantou Mesquita, que recebeu a reportagem da TRIBUNA DO NORTE na manhã de ontem, durante reunião com outros diretores. "Queremos motivar a visita de estudantes e retomar o interesse da população", planeja o novo presidente.

Mesquita adianta que a meta é digitalizar o acervo, informatizar as pesquisas, climatizar as principais salas e facilitar a consulta, inclusive via internet. "É hora de entrar nessa nova era da comunicação", acredita o presidente eleito. Porém, a falta de recursos configura-se como principal limitador para se atingir qualquer dos objetivos. Para tentar driblar a dificuldade financeira, a nova diretoria - antes mesmo de tomar posse - já articula na Assembleia Legislativa a apresentação de emendas ao orçamento do Governo; e busca formalizar parcerias com instituições públicas e privadas. A elaboração e inscrição de projetos em editais específicos para entidades museológicas também está em pauta. 

Vale registrar que, por enquanto, ainda não há um orçamento definido para efetuar a modernização e as mudanças pretendidas - os valores serão levantados de acordo com o andamento dos trabalhos da nova diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do RN. "O Governo precisa considerar a cultura como uma das prioridades do Estado. Claro que há outras carências, mas não podemos deixar que ela seja esquecida", disse.  Valério Mesquita adianta que Iphan, Crea e Corpo de Bombeiros serão as primeiras instituições procuradas: "Nossa estratégia operacional começa por garantir a segurança do acervo".

Atualmente a única fonte de renda do IHGRN é a mensalidade dos cerca de 200 sócios, uma contribuição de apenas R$ 10 por mês, mas atualmente menos de 50 pessoas estão em dia. A falta de sustentabilidade é tão complicada, que a folha de pagamento só estão fechando com a venda de livros doados e outros que estavam em grande quantidade no acervo - o já as contas de água e luz estão sendo pagas pelo atual presidente Jurandir Navarro. A instituição possui sete funcionários, sendo quatro cedidos pela Fundação José Augusto. "Temos pressa e precisamos agilizar a reestruturação do Instituto para o período da Copa", verificou o advogado Carlos Gomes, que assumirá o cargo de secretário-geral. Gomes foi responsável pela atualização do estatuto original, de 1927, que passou a atender as novas diretrizes do Código Civil. Carlos Gomes lembrou que o IHGRN possui mais de 30 mil livros, coleções de jornais e centenas de milhares de documentos.

Porão será usado como novo cômodo para o acervo

A nova diretoria também pretende promover encontros periódicos para realizar debates ser "personalização dos temas", avisa Ormuz Simonetti, escritor, genealogista e vice-presidente na próxima gestão. "É um desafio grande reerguer o IHGRN, e temos que contar com apoio de toda a sociedade", acredita, informando que a marca do grupo que assumirá o Instituto em março de 2013 é o companheirismo. "Tudo será decidido em colegiado".

Ormuz reconhece que boa parte do acervo está em condições precárias, e que muitas estantes estão há mais de 40 anos sem um tratamento adequado. "Os livros precisam de limpeza e possíveis focos de cupim precisam ser exterminados". Outro detalhe que ele chama atenção é o porão, que nunca foi aberto. "Precisamos de espaço e é bem possível que o porão sirva de abrigo para os cupins", arrisca.

Francisco Fernandes Marinho, sócio e voluntário do Instituto, responsável pela organização do catálogo da entidade, ressalta que documentos seculares estão em risco sem a manutenção do espaço. "O zelador, seu Manoel, tenta controlar os cupins", disse Marinho, que quer ver o IHGRN recuperado e saber o que existe. "Tem muita coisa que desconhecemos aqui ainda".

Frágeis histórias de papel

Sob uma janela aberta nos fundos da biblioteca principal do Instituto, em meio a livros, revistas e jornais antigos, muita poeira e mofo, o historiador Augusto Medeiros, 27, folheava publicações em busca de informações para sua dissertação de mestrado. Augusto está pesquisando sobre o Café São Luiz, na Cidade Alta, e a movimentação do Grande Ponto entre os anos de 1953 e 1980 - recorte histórico de seu estudo. "Aqui encontro um acervo riquíssimo, fundamental para se conhecer detalhes da história do RN", disse o historiador, que considera o estado de conservação satisfatório. "Os jornais mais antigos é que estão mais frágeis".

Augusto Medeiros tem estado no IHGRN com maior frequencia desde 2011: "Estarei por aqui até o último dia do mestrado, em março do próximo ano".

A NOVA DIRETORIA DO IHGRN

Valério Mesquita - presidente

Ormuz Simonetti - vice-presidente

Carlos Gomes - secretário geral

Odúlio Medeiros - secretário adjunto

George Veras - diretor financeiro

Eduardo Gosson - diretor adjunto

José Targino Araújo - orador

Edgar Dantas - diretor da biblioteca, arquivo e museu

Conselho fiscal

Eider Furtado

Paulo Pereira dos Santos

Tomislav Femenick

Lúcia Helena Pereira

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Revolta Comunista de 35 em Natal. (III)








André Batista( ao centro, com camiseta vermelha, natural de Ipanguassu/RN, conheceu "Doidinho", filho de "Luiz de Né", no distrito Sacramento, hoje município do Vale do Assú, como um homem incapaz de entender um Ó com uma quenga. A foto de sr. André é de 2006.




AGENTE DA POLÍCIA ANTECIPOU A REVOLTA



“A quartelada de 1935 foi um dos grandes erros cometidos por Luiz Carlos Prestes, pois as condições eram adversas (1). A quartelada foi decidida em Moscou, pela III Internacional Comunista. Naquele tempo os comunistas tinham a sua Internacional, assim como hoje os sociais-democratas tem a sua Internacional Socialista. 35 foi arquitetada em Moscou com base em relatórios falsos, triunfalistas, elaborados por Miranda, um professor, que era o Secretário-geral do PCB. Miranda mandava para Prestes e o Comintern relatórios e subsídios que não correspondiam à realidade. Em 1934, Prestes saiu da União Soviética para liderar a revolução no Brasil, onde chegou com passaporte português, com nome de Antônio Vilar. Prestes tinha o renome de “Cavaleiro da Esperança” e pensava que isso iria contribuir para êxito da revolução. Os tenentes, os que participaram da Coluna Prestes-Miguel Costa, não tinham o cunho ideológico que Aliança Nacional Libertadora tinha. A ANL queria o fim do latifúndio, nacionalização das empresas estrangeiras, a moratória, a reforma agrária, etc. Isso era um avanço para a época. Antes de 35, Prestes, a personalidade mais importante da época, foi convidado para chefiar o comando militar da Revolução de 30, mas ele não aceitou. Foi outro erro. Apesar de ser um movimento intra-oligárquico  e burguês, Prestes teria dado uma guinada à esquerda no tenentismo. Então, o movimento de 35, foi mal pensado e mal encaminhado. Eu digo que não nos envergonhamos de 35, pois fazemos autocrítica”, disse o escritor pernambucano Paulo Cavalcante, durante uma conferência sobre o “Levante Armado de 35”, proferida no auditório da reitoria da UFRN, na manhã de 26 de setembro de 1985.
Ele veio a Natal a convite da Universidade e dos cursos de Mestrado em Educação e História da UFRN, promotores do Seminário “Sociedade e História do RN nas décadas de 20 e 30”, para falar sobre comunismo e lançar o seu último livro de memórias, “A Luta Clandestina”, no qual relembra fatos que presenciou como militantes do Partido Comunista Brasileiro-PCB, no Estado de Pernambuco.





JUDEU TRAIU A REVOLUÇÃO

Cavalcante reconhece que a revolução comunista de 1935 (ele afirma que não foi uma quartelada comunista mas da Aliança Nacional Libertadora) marcou com graves seqüelas o Partido Comunista do Brasil-PCB que, apesar das dolorosas lições aprendidas não corrigiu seus erros e tentou reeditar 35 em 1950, através do célebre “Manifesto de Agosto”, que pregava a extinção do Exército Brasileiro e a sua substituição por um “Exercito Popular Revolucionário”.
“O esquerdismo e o sectarismo da década de 30 retornaram em 1950. Somente depois de 1957 o PCB levou em conta as experiências de 35”, segundo Paulo Cavalcante. “Com a campanha nacional de “O Petróleo é Nosso” foi retomada uma política sensata e nos curamos do sectarismo com a última campanha pela anistia. No partido havia homens bem intencionados mas que não se conduziam de acordo com a realidade. Lênin dizia que “ai do partido que ocultar do povo os seus erros”. Nós nos curamos dos erros do passado. A linha do PCB hoje é saudável, de frente ampla, de manter as conquistas democráticas de Tancredo e Sarney e aprofundá-las”.
Depois de falar sobre a tática e a estratégica do Partidão, a linha política do PC do B, religião e as oligarquias nordestinas, Paulo Cavalcante foi indagado sobre a opinião de Prestes a respeito da intentona de 1935.
“Prestes acha que 35 foi um movimento válido. Ele rompeu amizade comigo. Prestes se recusa a fazer autocrítica a respeito de 35. Só aceita autocrítica depois de 45. “35 evitou que Plínio Salgado fosse Ministro da Educação de Getúlio Vargas”, dizia Prestes. Mas o Estado Novo, a ditadura de Getúlio, foi o fascismo, o integralismo sem Plínio Salgado”.
E sobre os propalados assassinatos de oficiais legalistas, no Rio de Janeiro, durante a insurreição nas guarnições militares? É verdade que mataram oficiais legalistas quando estavam dormindo?
“Olha, o escritor Hélio Silva, um conservador, portanto uma pessoa que nunca esteve simpatias pelo comunismo, autor do célebre livro “A Revolta Vermelha”, manuseou laudos médicos, inquéritos e relatórios policiais, processos, boletins... Em nenhum documento oficial ele encontrou qualquer referência de que tenham morrido oficiais legalistas dormindo. Nos relatórios dos delegados auxiliares de Recife e do Rio de Janeiro, Etelvino Lins de Albuquerque e Hugo Belens Porto, respectivamente, e os documentos estudados por Hélio Silva, não há uma referência, nem de leve, as mortes de oficiais dormindo. Essa história é uma deslavada mentira. Os quartéis estavam de prontidão. Dos dois lados quem morreu estava com farda de combate! Dizer que morreram ou fuzilaram oficiais dormindo é uma ofensa que se repete todos os anos, é uma balela que atinge a dignidade dos oficiais mortos dos dois lados, pois eles estavam de prontidão e não poderiam dormir. Essa versão foi criado no Estado Novo e repetida como um realejo para atingir a dignidade dos oficiais e enganar a opinião pública, como recentemente fez o general Euclides Figueiredo”.
Por que o movimento começou em Natal?
Bom. Muniz de Faria, militar reformado da Polícia Militar de Pernambuco, foi enviado do Rio de Janeiro pela ANL, para contactar com Recife e Natal. Ele não chegou a vir a Natal, pois viajou de navio do Rio para Recife, onde mantivera contacto com o Comitê Central do PCB. Faria chegou de madrugada e disse a Alceu Coutinho que o movimento tinha sido detectado pela inteligência inglesa e pelo Governo e que tinha que ser sustado, pois havia interesse do governo na sua eclosão em dias diferentes. Coronel Muniz de Faria não fez nada porque a revolução já estava nas ruas do Recife. Isto é, não deu tempo para chegar a contra-ordem. Infiltrado no PCB havia um judeu brasileiro, conhecido por Maurício, que trabalhava para a polícia. Dias antes da insurreição, no Recife, ele ficou perguntando pelas armas que “vieram da União Soviética”, “Não existem essas armas, vamos fazer a revolução com as nossas próprias armas”, responderam os revoltosos do Recife. De lá, esse tal Maurício veio para Natal e aqui manteve contatos com a tarefa de precipitar o movimento. Hoje não se sabe que fim levou esse tal Maurício”, respondeu o escritor Paulo Cavalcante.
Segundo ele a ditadura getulista, o Estado Novo, viria de qualquer maneira e que a insurreição de 1935 foi somente um pretexto e não a causa de sua implantação pelo grupo militar que mantinha Getúlio Vargas no poder, Hitler e Mussolini estavam no poder na Alemanha e Itália e a ascensão mundial do fascismo foram os motivos principais que levaram o Brasil ao “Estado Novo”, principalmente depois da divulgação do “Plano Cohen”, documento falso elaborado pelo capitão Mourão Filho, do Estado Maior do Exército e Chefe do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira.
“Não vim aqui para repudiar o movimento de 35, mas para fazer uma autocrítica. Por causa do espírito tenentista, golpista e pequeno burguês, que predominava no Exército, 35 foi um movimento precipitado, não tenho dúvidas”, completou Paulo Cavalcante, autor de quatro volumes de memórias (“O Caso eu conto como o caso foi”).
No final de sua conferência, Cavalcante homenageou três comunistas do Rio Grande do Norte, mortos; Luiz Maranhão Filho, Vivaldo Ramos de Vasconcelos e Hiram Pereira de Lima. Vivaldo Vasconcelos, em Natal, foi elemento de ligação entre os que faziam os preparativos para a insurreição militar de 23 novembro de 1935, que ontem completou 50 anos.

NADA DE ALIANÇA.  FOI COMUNISTA MESMO

O professor Homero Costa, da UFRN, que faz mestrado na Universidade de Campinas-SP, estudioso dos movimentos comunistas no Brasil, disse durante o seminário que a revolução de 1935, ocorrida em Natal, Recife e Rio de Janeiro, foi um movimento estritamente comunista, planejado e executado pelo Comitê Central do Partido Comunista do Brasil-PCB.
O professor Homero disse que a Internacional Comunista, sediada em Moscou, mandou para o Brasil, clandestinamente, Luiz Carlos Prestes e a sua mulher Olga Benário, Artur Ewert (Harry Berger) um ex-deputado comunista alemão, Rodolfo Ghioldi, secretário Geral do Partido Comunista Argentino, todos “figuras importantes da Internacional Comunista”.
“A insurreição de 35 foi uma decisão do Partido e não da Aliança Nacional Libertadora. Paulo Gruber era elemento infiltrado pela polícia. A ANL foi uma frente do PCB para a insurreição militar. Em Natal, toda a junta governativa era do Partido Comunista. Era uma junta comunista e não uma junta aliancista. Houve planejamento bem elaborado para a insurreição e o CC do PCB foi quem autorizou o levante”, garantiu Homero Costa, que está preparando uma tese de mestrado sobre a Revolução de 35.( Ler “carta do professor Homero Costa em notas da reportagem “Na praia do meio se tramou a revolta”.


A DEPUTADA MARIA DO CÉU DISCURSOU NA ASSEMBLÉIA SAUDANDO O FRACASSO DA REVOLTA COMUNISTA


Na décima página, a edição de “A República”, de 1º de dezembro de 1935 (n.º 1.468), publicou um pequeno artigo de autoria da deputada estadual Maria do Céu Pereira Fernandes, do Partido Popular, a agremiação dos políticos conservadores e carcomidos do Rio Grande do Norte. Cinco dias depois do fracasso da revolução comunista de 1935, o órgão noticioso oficial não publicava uma linha sobre a existência de qualquer herói, civil ou militar.
A transcrição do artigo foi feita pela nossa auxiliar Maria Igacir Ribeiro da Silva. A sua publicação nesta série de reportagens sobre o comunismo no RN deve-se ao fato de não existir nenhuma referência aos debates ocorridos na Assembléia Constituinte Estadual, depois da intentona, nos livros e trabalhos publicados após 1937. “O Hosanna da Victoria”, de Maria do Céu, é transcrito aqui com a ortografia da época, (Maria do Céu foi a primeira mulher deputada no Brasil. É mãe do ex-deputado Paulo de Tarso Fernandes, ex-presidente do Diretório Estadual do PMDB-RN).

“O HOSSANNA DA VICTORIA“

Não seria por certo, lícito a quem nada tem com que pagar a ousadia de pedir. E eu que nada possuo para ressarcir a generosidade com que sempre me acolhe a gente boa e magnânima da minha grande terra, ouso ainda pedir que consinta em que, vez por outra, desdobre as páginas do nosso órgão oficial.
Louvável e merecedora dos nossos melhores aplausos é a iniciativa do muito digno diretor de “A República” dando-lhe domingueiras roupagens no dia consagrado ao Senhor. À página literária feita semanalmente hão de todos a correr porque nossa gente é sedenta do que é bom e são, é ávida do que é bello. Hoje que, louvado seja Deus, já sentimos brilhar sobre nossas cabeças a luz de uma abóbada sem nuvens, onde rutilam o direito e a justiça, sob cuja iluminura de debuxa o vulto da paz, é justo, é imprescindível que “A República” se dê cores diversas, tintas outras que não só as que de que se revestem os decretos e actos officiaes.
Tudo o que hoje nos punge relembrar já passou. O mal sempre flue para o seu ponto de partida. A procella, os ciclones, as trombas que devastam, que danificam, que destroem, não tem durações de eternidades. O oceano é que não passou, o bem é o que não morre, a verdade é que jamais sucumbe aos embates dos vendavais furibundos da anarchia e do crime. Passada a tormenta ella assoma, inalterável como sempre viveu, com serenidade de bonança para gáudio da virtude, e para vergonha do vício.
“O Rio Grande do Norte que teve em cinco anos o seu longo calvário, a sua dolorosa peregrinação por ínvios caminhos com o cruento holocauto de uns pela liberdade collectiva, ouve agora, cantada por todos os corações, a epopeia inenarrável”, do seu civismo, vê agora enaltecido pela gente deste grande Brasil o seu heroísmo que não tem confronto, assiste agora glorificada a sua ressurreição no Thabor de Luz que seus filhos lhe prepararam, e que há de iluminar imensidade a dentro e os tempos para orgulho das gentes que hão de vir.
Tudo hoje se alegra, tudo rejuvenesce, tudo entoa o Hosanna Magnífico da grande victoria. Maria do Céu. Essa foi saudação de Maria do Céu Pereira Fernandes à vitória sobre o comunismo”.



NOTA:


1-     Carta de Miguel Costa, de 05/08/35,(general da Coluna Prestes de 1926) ao Cavaleiro da Esperança, publicada no volume 1930/1935, da coletânea “Nosso Século”, edição da Abril, pág. 119:

“Estou hoje convencido de que realmente não há possibilidade de um meio termo no acerto de contas entre explorados e exploradores. Mas, se na luta em favor dos explorados os fins justificam os meios, parece-me que tem havido erros na luta, escolha e na aplicação desses meios. A ANL foi lançada no momento preciso. O seu programa anti-imperialista, pela libertação nacional do Brasil, antifascista e pela divisão dos latifúndios, realmente empolgou, não apenas as massas trabalhadoras, mas até a pequena-burguesia e mais fundamente os meios intelectuais honestos. Defendendo-se da ilegalidade em que seria fatalmente posta pela Lei de Segurança Nacional, a ANL propôs-se a resolver aquelas questões dentro da ordem. Fez a sua profissão de fé nacionalista e por último negou qualquer ligação mais estreita com o Partido Comunista. Nessa sua primeira fase, a ANL estancou desde logo o surto integralista no país. Veio o 5 de Julho. Você naturalmente pouco ou mal informado, supondo que o movimento da ANL tivesse tanto de profundidade como de extensão, lançou o seu manifesto dando a sua palavra de ordem de “Todo Poder à Aliança Nacional Libertadora”, brado profundamente revolucionário, subversivo, aconselhável aos momentos que devem preceder a ação.  Grito que deveria, para estar certo, ser respondido pela insurreição. No entanto, aí estão os fatos: veio o seu manifesto, veio o decreto de fechamento da ANL e este movimento popular, que parecia à primeira vista ter tomado todo o país, não reagiu nem com duas greves organizadas. O golpe reacionário do Governo, amparando-se nos termos de seu manifesto, pode ser desferido antes da hora que nos convinha. Não foi possível revidá-lo. Mas, se você tivesse, em vez de pregar o assalto ao poder, recomendado a mais viva consagração em torno da Aliança, não se teriam precipitado os acontecimentos”.


O FIM DA REVOLUÇÃO PARECEU CARNAVAL


Por sugestão do advogado Bianor Medeiros, o hoteleiro José Pacheco, 68 anos, proprietário do Hotel Tirol, testemunha dos acontecimentos de novembro de 1935, na região Seridó do Estado, prestou depoimento a “O POTI” sobre a participação do então padre Walfredo Gurgel, que mais tarde viria a ser governador do Rio Grande do Norte, com o apoio decisivo de Aluízio Alves, na chamada Batalha de Itararé, o famoso tiroteio da Serra do Doutor, no município de Campo Redondo-RN.
Pacheco também participou do tiroteio ocorrido na cidade de Panelas, hoje Bom Jesus, a 60 quilômetros de Natal, um dia antes da refrega na Serra do Doutor. Ele confirma o que Seráfico Batista, ex-prefeito de Santana do Seridó, disse a O POTI sobre a fuga em massa dos combatentes sertanejos, após o tiroteio com os revolucionários de 35, em Panelas.
Dinarte Mariz e Enoque Garcia, cada um com uma metralhadora de mão, chegaram em Santa Cruz e passaram a fazer discursos, conclamando o povo a pegar em armas para defender a sociedade contra o comunismo. Enoque era quem falava mais, pois Dinarte ainda não era político, mas foi grande aliciador de sertanejos para os combates de Panelas e Serra do Doutor. Os caminhões deles, do Dr. Flávio Mafra e Theodorico Bezerra foram usados para transportar os sertanejos. Descemos para Panelas e, no meio do trajeto encontramos uma Limousine, que os revoltosos tomaram do doutor Osvaldo Medeiros, com uma bandeira do Brasil cobrindo o capuz e dirigida pelo Sargento Wanderley, do Exército.  “Vim me entregar”, disse Wanderley, que entregou as suas armas e as que eram conduzidas por dois soldados, que lhes faziam companhia. Eu peguei um mosquetão e um bornal cheio de balas, me enchendo de entusiasmo para a luta. Quando começou o tiroteio em Panelas, eu estava detrás da igreja da cidade, sem disparar um tiro sequer, quando eu vi o carro fugindo. Ai resolvi fugir também, mas um comando de Dinarte Mariz parou a Limousine e mandou que a gente fugisse num caminhão, que estava cheio de carne de charque, rapadura, queijo e carne de sol, os alimentos das nossas tropas. Essa comida farta foi providenciada por Dinarte, que não participou dos tiroteios, mas foi peça importante porque atuou como um verdadeiro general. Descarregamos o caminhão, a cinco quilômetros de Panelas, e fugimos para Santa Cruz,, onde fomos dormir. Lá, estavam dizendo “tá todo mundo fugindo de Panelas”, disse José Pacheco, acrescentando, ainda, que cerca de 30 camisas-verdes, liderados por Walfredo Gurgel, participaram dos preparativos e da luta na Serra do Doutor, cujo número de mortes não soube precisar.
Bianor Medeiros, que foi integralista, afirma “qual a criança que ouvindo falar em Deus, Pátria e Família não se entusiasmava? A criança não via política (não sabia sequer o que seria) e sim via as figuras de envergadura e altura de Seabra Fagundes, Otto Guerra, Felipe Neri, Ewerton Cortez, Câmara Cascudo, Walfredo Gurgel, Mário Negócio, José Augusto Rodrigues, Manuel Genésio, Carlos Gondim,  Luiz Veiga, os Lúcio e Bilé, do Acari, todos sem exceção, eram bons oradores e comunicadores de massa”. (Retificação: em 1935, Clóvis T. Sarinho não era integralista. Sua entrada na Ação Integralista Brasileira/RN ocorreu em 1937).





“É COMUNISMO, MENINO!”


O escritor Otacílio Cardoso prestou depoimento sobre a revolução de 35 em Natal. Na íntegra, eis o seu relato que propiciou a manchete desta reportagem sobre o comunismo no RN.
“Quando da chamada intentona comunista de novembro de 1935 andava aqui o degas nos seus fagueiros 16 anos. Dezesseis anos daquele tempo, no que tange conhecimentos e esperteza, correspondem a uns 12 de hoje - e olhe lá!
Residia eu então na casa pastoral da Igreja Presbiteriana - uma pequena construção imprensada entre a Igreja e a prefeitura. Morava em companhia de duas irmãs mais velhas, das quais uma sobrevive. E foi esta justamente, que se encontrava em casa, naquela memorável noite. A outra logo depois da ceia, se deslocara até a casa de minha tia Ana, na Praça André de Albuquerque, 578 (onde é hoje uma lanchonete) a fim de saber como ia passando o nosso tio Gedeão, acometido por um derrame alguns dias antes.
Naquele tempo eu tinha uma paixão avassaladora pelo romance policial, devorava um atrás do outro, volumes de Conan Coyle, Agata Christie, Edgar Wallace, S.S. Van Dine... Justamente naquele dia (não havia ainda aqui a semana inglesa), eu adquirira no sebo do João Nicodemos, uma novela de Edgar Wallace, e tão logo terminei o café, “agarrei” a ler. Ao acender um “Yolanda” verifiquei, com desagrado, que apenas dois outros me restavam no maço. Iria um pouco mais renovar o estoque no Bar Teutônia, um café que existia então defronte da Prefeitura, bem pertinho, portanto. Mas a leitura era de tal modo absorvente, que eu ia passando de um capítulo a outro, e deixando o cigarro pra depois.
Seriam aproximadamente 7h - talvez um pouco mais - quando minha irmã chamou-me a atenção para um alarido qualquer ao lado do quartel do 21 BC, que era ali onde é hoje o Colégio Churchill. Só então emergi do “fog” londrino. Tão absorvido estava na trama do romance que não ouvira absolutamente nada...
Vou dar uma olhada - disse minha irmã dirigindo-se para o oitão da Igreja. Havia, nos fundos, uma saída para a Praça João Tibúrcio.
Aí começou o tiroteio. Minha irmã tornou às pressas e por pouco não corta a garganta num arame de estender roupa. Primeira vítima da rebordosa apenas um arranhão que a tintura de iodo logo sarou.
O tiroteio era cerrado, as balas por vezes ricocheteavam nos postes, sibilavam... Que diabo disto seria aquilo? Eu não sabia nem imaginava  o que pudesse ser. Depois da posse do Dr. Rafael Fernandes, menos de um mês antes, tudo parecia tão calmo...
Fechada a casa, ficamos, minha irmã e eu, a ouvir os disparos. Um tanto apreensivos, evidentemente. E ouvimo-los pela noite a dentro, pois a verdade é que, não só ruído dos disparos como a tensão nervosa não permitiam que nos entregássemos ao sono. Dei logo conta dos dois cigarros - e me arrependi pra burro. Sabe lá o que seria para um fumante passar uma noite sem pescar uma simples traíra, a escutar tiros e mais tiros, sem ter um cigarro para abrandar a tensão?
Ao amanhecer do domingo o tiroteio já não tinha a mesma intensidade, era, ao contrário, esparsos, pelo menos aqueles disparados nas proximidades. Mas lá pros lados da Praça André, a coisa continuava.
Ansioso por saber o que se passava, enchi-me de coragem, abri a porta e fui até o portão. Nessa ocasião vi, subindo a pé a rua Junqueira Aires, uma pessoa minha conhecida: era o dentista João Abdon, cujo gabinete dentário ficava no mesmo prédio da “A Razão”, jornal do qual fora eu tipógrafo até recentemente.
Que é que está havendo doutor?
Sem querer preguei-lhe um susto, decerto ignorava que eu morasse ali.
É comunismo, menino. E o melhor que você faz é ir para dentro!
Transmiti a irmã a informação. E passamos a cogitar sobre o que deveríamos fazer, pois, na época, “comíamos de marmita”, como se diz, e a casa, além de uns poucos pães e de algumas frutas não dispunha de mais nada no que tange a alimentos. A solução era irmos para a casa do tio Gedeão. Mas... e as balas? Não havia, contudo, outra saída, tínhamos que ir para a casa dos tios.
Ao tentarmos fazê-lo, porém deparamos com um obstáculo. Dois jovens soldados (ou pelo menos com a farda do exército), cada qual com um fuzil, estavam postados - um na esquina da Prefeitura, outro na do Atheneu (O Atheneu era onde ficam atualmente os fundos da Secretaria de Finanças do Município). Achavam os rapazes que não era aconselhável sairmos, e muito menos naquela direção.
Ali é que o fumo tá forte... disse um deles.
Minha irmã argumentou, expondo-lhes a nossa situação. Mostraram-se compreensivos. Procuraram até orientar-nos no trajeto.
Vão indo aí por essa rua da farmácia, “se cosendo” na parede...
A ‘Farmácia Maia’ antiga “Torres” era na esquina onde existe hoje a “Paraguassu Festas”.
Aproveitei para perguntar:
O que é que estar havendo mesmo?
Sei  não... Estamos apenas cumprindo ordens.
Saímos, seguindo os conselhos do jovem. É sempre bom seguir os conselhos dados por quem tem um pau-de-fogo na mão.
A fuzilaria continuava. Às vezes abrandava um pouco, para recrudescer em seguida. Pelo menos, de munição, parecia haver bom estoque.
Felizmente fomos encontrar tudo em ordem na casa dos tios. Meus três primos, rapazes, estavam em casa quando começara a inana, e lá permaneceram, está visto. Conheci nesta ocasião um rapaz que se tornaria posteriormente meu amigo - Lídio Madureira -, que fora surpreendido pelo tiroteio quando, vindo do Baldo, se dirigia para casa na Gonçalves Dias. Mostrava-se excessivamente nervoso, preocupado com a mãe, dona Nhazinha. Aliás, todos se mostravam naturalmente preocupados e perplexos, e também apreensivos com o que corria lá fora, que ninguém - nós, pelos menos - sabia ao certo o que diabo fosse. (O Dr. Abdon falara em comunismo, mas o número de comunista em Natal daria para fazer uma revolução? Mesmo com a nossa inexperiência achávamos impossível isso).  O meu tio, numa preguiçosa, olhava para um e para outro sem conseguir articular uma palavra, coitado. Uma preocupação, pelo menos fora afastada: havia em casa o bastante para as refeições do dia. “Aquilo” não ia durar muito, não era possível. Logo mais cessaria e tudo entraria nos eixos. Era o que pensávamos.
Umas 3 casas depois da 578 ficava a de seu Chico Teófilo, que alguns chamavam a “casa dos 3 anões” (tinha ele 3 filhos anões: Ester, Oscar e Lulu). A casa ficava na esquina da rua João da Mata, onde é hoje uma farmácia. Na calçada, um tanto elevado na extremidade fora postada uma metralhadora.  (Ouvi dizer que se tratava duma “metralhadora pesada”, não sei; graças a Deus nunca tive necessidade de entender dessas coisas). A tal metralhadora, apontada para o quartel da Polícia funcionava com eficiência, de quando em quando ouvíamo-lhe o ta-ra-ta-ta duma rajada. (Contam que, a certa altura a um recrudescimento do tiroteio, o Oscar aconselhara ao irmão: - Mano, te abaixa! Ao que Lulu, do alto dos seus setenta e pouco centímetros, retrucara: - Besteira, Oscar. Eu já sou baixo por natureza...!
O certo é que as horas iam se escoando – horas de apreensões para quem não tinha a menor idéia do que significava aquele entrevero.  Chegou a  hora do almoço, e por  pouca  que tivesse sido a comida,  teria dado de sobra.  Quem,  naquela situação, teria disposição para encher o bandulho?  Nós,  homens,  vingavamo-nos no cigarro.  (Meus primos costumavam comprar cigarros em pacotes – cigarros “ Lulu  n.º 2”, produção local da Fábrica Vigilante).
Aí por volta das duas horas da tarde, talvez um pouco antes, o fogo cessou.  E cessou mesmo por completo.  Um dos primos, chegando à janela, soube por um soldado que viera pedir um pouco d´água, que a Polícia acabava de render-se.
Uma meia hora depois assisti à passagem, pela nossa porta, provavelmente em direção ao quartel do 21, dos integrantes da PM, que haviam resistido até há pouco.  Nunca esqueci o espetáculo.  Impressionante.  Parecia cena de um filme.  Um reduzido grupo de homens cabisbaixo, suados, abatidos dentro das fardas sujas, os rostos macilentos mostrando  sinais evidentes  de cansaço ( Identifiquei, entre eles, alguns componentes da banda de música, que eu conhecera dois anos atrás, quando residira nas proximidades do quartel ).  Deveriam estar mesmo exaustos, pois haviam passado a noite inteira e toda a manhã manobrando os seus fuzis, sustentando fogo ininterrupto.  E agora ali iam, escoltados, naturalmente cheios de apreensão quanto ao que lhes poderia estar reservado.  E deveriam estar, além do mais, famintos.  No intimo fiz votos para que nada de mal lhes acontecesse.  E creio que não passaram por maiores vexames, apenas ficaram detidos por 2 ou 3 dias.
Cessado o fogo, as ruas foram voltando devagarinho a ter a presença  de pessoas,  não tantas como de costume, está visto.  Bom,  tem gente que é exagerada em tudo, até no medo.
Em companhia de dois dos primos, saí para uma voltinha e naturalmente a procura de notícias.  Pouca gente nas ruas, evidentemente, mas o bastante para que o jornal “Bocório” fosse dando suas edições extras...  Que o movimento estava triunfante, apenas em Santa Catarina e Paraná os inimigos do povo ainda estrebuchavam... Que o Cavaleiro da Esperança assumira o poder... (As   “manchetes” eram desse tipo ).  A certa altura escutamos um alarido, era um grupo de rapazes a pular, gritando que haviam tomado Panelas... (alguns deles, por gaiatice, traziam na extremidade de uma vara, uma panela de barro...) parecia mais uma troça carnavalesca.  No dia em que o brasileiro levar alguma coisa a sério o mundo se acaba.
Na segunda-feira, pela manhã, fui a imprensa oficial, onde a poucos dias começara a trabalhar.  Ali encontrei a maior parte dos colegas, mas nenhum sabia mais do que o outro.  Ninguém queria se comprometer dando com a língua nos dentes.
Dizem que tiraram um jornal...  – disse, já não me lembro quem. (Tirar queria dizer fazer, imprimir).
Pouco depois recebemos ordem para ir embora, até que a situação se normalizasse.  Claro que ninguém esperou que a ordem fosse repetida.
A propósito do jornal, “A Liberdade”,  foi o mesmo composto e impresso nas oficinas de “A República”, e não na “A Ordem”, como já chegou a ser dito.
(Meses depois, descobri em cima de um armário, na Seção de Avulsos onde trabalhava, uns trezentos ou mais exemplares da “Liberdade”.  Procurei obter um, mas o chefe negou.  Um dia, aproveitando a ausência do chefe, surrupiei um exemplar.  Depois me arrependi.  Mas me arrependi foi de não ter surrupiado uns dez...).
Agora já não tenho certeza se foi nesse dia ou no imediato, terça, que fomos ao Hospital Juvino Barreto visitar um conhecido nosso – Joaquim Barbosa – soldado da Polícia, que fora ferido no assédio ao quartel.  O ferimento, felizmente, não era grave, o Joaquim ficou apenas com um braço ligeiramente defeituoso e foi reformado  como cabo.  Mais tarde foi trabalhar na B. Naval, de onde já deve ter-se aposentado.
Quando deixávamos o Hospital, vinham trazendo numa padiola um rapaz, vítima de peixeirada lá pras bandas da Redinha.  Conhecia-o de vista era filho do alfaiate Joca Lira.  Integralista ardoroso, imprudentemente entrara a discutir com um adepto da revolução, que o ferira mortalmente.  Outro que morreu entre o sábado e o domingo, atingido propositadamente por arma de fogo, foi o agente da Costeira, Otacílio Werneck.  Morava numa casa nas proximidades da igreja do Bom Jesus.  Chegara ao portão, para saber o que estava ocorrendo, quando o alvejaram.  Conheci esse meu xará – como ao outro – apenas de vista.  De civis mortos, só me recordo destes.
Parece-me que foi também na segunda-feira que os bondes da Força e Luz passaram a cobrar pela metade o preço das passagens, ou seja, um tostão (100 réis).  É que houve, na calçada do quartel do 21, distribuição de gêneros ( feijão, charque e farinha ) aos pobres.
Quanto aos exemplares de “Liberdade” de que já falei, não sei que destino lhes deram, creio que foram destruídos.
...E eis aí, meu caro Cortez, o meu modesto depoimento.  Espremendo não dá quase nada – mas eu lhe avisei que tinha muito pouco para contar.
Uns sete anos depois, em Aracaju fui apresentado a um cidadão.
- Ah, o senhor é da terra do comunismo, hein?
Tentei esclarecer que Natal não era propriamente terra do comunismo, que houvera uma revolução de caráter comunista, é certo, mas engrossada pelos adversários do governo recém-empossado – e coisa e tal.
Não venha me dizer que aquilo ali não é um ninho de comunistas.  Se chegaram até a fazer passeata de freiras nuas... foi ou não foi?
Desmenti a balela.  O homem insistia:
Mas se eu li nos jornais!
Resolvi sair pela tangente da ironia misturada com a galhofa:
Bem parece que cogitaram disso, mas o número de freiras lá era muito reduzido, e como não fosse possível mandar buscar as de Aracaju, desistiram da idéia.
O olhar que o sujeito botou pra mim era como se dissesse:
Vá ver que você é um “deles”...
A revolução praticamente terminou na quarta-feira, à semelhança do carnaval.  Foi quando apareceu, sobrevoando a cidade, um avião se não me engano da Marinha.  ( O M. da Aeronáutica seria criado 5 anos mais tarde).  Aí houve a debandada, o salve-se quem puder.
Depois, foi a repressão.  E aí surgiram as delações, as denúncias abjetas, asquerosas.  Alguns, moralmente, se engrandeceram.  Outros, ao contrário, se apequenaram no afã deletério e torpe de destruir desafetos ou simples adversários políticos.  Mas isso já são outros quinhentos.
N. A.: Otacílio Cardoso faleceu em dezembro de 1999.


quarta-feira, 21 de novembro de 2012


1935: PRESOS FUZILADOS EM CURRAIS NOVOS/RN

A CHACINA DE CURRAIS NOVOS

Em 1935, comunistas e presos
De justiça foram fuzilados.

Luiz Gonzaga Cortez Gomes.

No dia 23 de novembro de 2006, a revolta comunista de 1935 fará 71 anos. (1). Dos que pegaram em armas ou não, mas que participaram da insureição, só resta vivo o ex-gráfico Francisco Meneleu dos Santos, natural de Areia Branca/RN e residente em Fortaleza/CE. Nos últimos 5 anos, Meneleu veio a Natal várias vezes e aqui recebeu homenagens dos membros do PC do B. Mas deixemos isso de lado e vamos relembrar a misteriosa, esquecida e famigerada Chacina de Currais Novos. Você, caro leitor, já ouviu falar nesse massacre? Pois saiba que tem gente viva que viu a chacina na Serra da Dorna, perto de Barra Verde e do Saco do Veado, município de Currais Novos, segundo informa Volney Liberato, pesquisador daquela cidade seridoense, onde os integralistas, agricultores e fazendeiros, comandados por sargentos da Polícia Militar, destacados em Parelhas, Carnaúba dos Dantos, Acary e outras cidades, enfrentaram e derrotaram os revoltosos de novembro de 1935, na Serra do Doutor, município de Santa Cruz. Os elementos civis que se destacaram no combate, conhecido por “Fogo da Serra do Doutor” foram os integralistas de Carnaúba dos Dantas, os irmãos Lúcio, Felinto (este ficou famoso, décadas depois, como compositor de hinos sacros e dobrados), Manoel Lúcio e Joel) e os fogueteiros que fabricaram as bombas caseiras lançadas nos veículos do Exército que transportavam os militares que se destinavam a cidade de Caicó com o fito de implantar o poder revolucionário do Partido Comunista e da Aliança Nacional Libertadora. Dinarte Mariz, que não pisou na serra, foi para Campina Grande buscar armas e munições. Depois da emboscada feita pelos policiais militares e os integralistas, Dinarte apareceu por lá, em direção à Natal.
Quem primeiro abordou esse assunto foi o falecido escritor João Maria Furtado (Vertentes, p. 139, Livraria Olímpica Editora Ltda, Rio, 1976), ao transcrever parte de depoimento prestado por José Bezerra de Araújo, político UDN, ligado a Dinarte Mariz, sobre os acontecimentos na Serra do Doutor e Currais Novos. Dr. José Bezerra de Araújo disse a João Maria Furtado que após a derrota dos comunistas, “elementos do Partido Popular tiraram da cadeia de Currais Novos presos de justiça que lá se achavam e e os que eram adversários políticos foram sumariamente fuzilados, depois de conduzidos a lugar ermo, fora da cidade”. O Partido Popular era liderado por José Augusto Bezerra de Medeiros e Rafael Fernandes Gurjão, este o governador destituído pelos comunistas em 23 de novembro de 1935.
Mas agora, mais de 20 anos depois que publiquei reportagens sobre “O Comunismo e as lutas políticas do RN na década de 30”, em O POTI, um pesquisador de Currais Novos, Volney Liberato, após ler uma matéria minha sobre o ex-marinheiro Jaime de Souza Bastos, 88 anos, que mora em Igapó, Natal, disse que as informações publicadas conferem com algumas informações que ele tem. “Os mais antigos comentam, sem ódio e sem paixões, que quando retiraram os presos da antiga cadeia da rua do Rosário (hoje Vivaldo Pereira), pelos integrantes do Partido Popular, quem era adversário, mesmo sem ser comunista, foram dali retirados e executados sumariamente em local ermo do município, sendo depois seus corpos jogados na Serra da Dorna. Existe também outra versão que foi dada pelo soldado reformado João Rodrigues, hoje com 92 anos de idade, de que, logo após os acontecimentos da Serra do Doutor, poderosos da cidade se dirigiram até a cadeia, onde lá mandaram soltar todos os presos, ordenando que fossem embora, que fugissem. Muitos deles ganharam o caminho de Frei Martinho/PB, mas antes de chegarem Rio da Boa Vista, foram emboscados por cabras contratados por esses poderosos, e sumariamente executados. Dois deles ainda chegaram com vida à cidade, mas um deles finou-se na calçada do cemitério de Santana, sob as esporas de um desses poderosos, enquanto o outro era jogado por cima da parede, da calçada para o interior do cemitério, pelos cabras contratados, vindo a falecer da queda.
O pai de um desses que assim foi executado terminou por ir embora de Currais Novos, pois começou a sofrer discriminação e reserva por parte do “coronelato” local. O pai do outro, se não me engano, enlouqueceu, terminando seus dias em Natal/RN. Como os fatos históricos, principalmente os que se referem aos acontecimentos de 1935, principalmente aqui em Currais Novos, ainda não são muito velados, pois os nomes dessas duas vítimas do sistema repressor do PP, não nos foi fornecido, nem os nomes dos seus pais, pois os mais velhos ainda temem em declinar nomes, como se ainda estivéssemos em plena ditadura do estado novo ou na redentora de 64”, assegurou o pesquisador Volney Liberato.

Luiz Gonzaga Cortez Gomes é jornalista e pesquisador.
Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
Notas: este artigo foi escrito em 2006. O sr. Meneleu é falecido.

Metralhadora dos revoltosos de 1935 em Natal.

 Esta foi a metralhadora usada pelos militares do único quartel do Exército em Natal, o 21º Batalhão de Caçadores, que ocupava toda a área compreendida, hoje, entre as ruas Junqueira Ayres e Rio Branco, na Cidade Alta, onde estão a àrea da adminsitração do SESC e o Colégio Estadual WC.
A foto registra treinamento no local chamado hoje de Capim Macio (àrea verde de preservação ambiental).
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