Titulo: A Segunda Geracao de Biocombustivos
Carlos Paz de Araújo - cientista potiguar e professor na Universidade do Colorado/Estados Unidos.
Dizem que o século vinte foi o século da Microeletrônica e que o século vinte e um será o século da biotecnologia. No contexto atual, Biotecnologia esté se estratificando em várias subáreas como bioinformática, Engenharia Genética, Engenharia de Metabolismo e Biologia Sintética. Na realidade, podem-se chamar tudo isto de Engenharia de Sistemas Biológicos e Biologia Sintética. O campo é tão novo que há somente quatro anos atrás, a primeira conferência em Biologia Sintética ocorreu no MIT. Neste ano, a mesma conferência ocorreu em Hong Kong. A primeira revista científica - Synthetic Biology - ainda nem teve o seu primeiro numero, apesar de que outras revistas já estejam no campo há algum tempo, por exemplo, Systems and Synthetic Biology.
Uma maneira de se entender isto é se pensar na revolução da biologia em três ou quatro fases: a primeira entre os anos sessenta e setenta, quando se iniciou a manipulação genética. A segunda fase constituiu-se da aplicação de manipulação para o estudo de genomas de várias plantas e animais, e sua aplicação em farmacologia e medicina (anos oitenta e noventa); e agora, estamos na terceira fase, a de criação ou sinterização de microorganismos completamente desenhados pelo homem.
Se isto parece ficção científica, fique sabendo que não é. Na verdade, isto é o começo de uma revolução industrial de larga escala principalmente na criação de parques bioenergéticos no mundo inteiro com o potencial de inverter toda a produção de Hidrocarbono (petróleo) que são classificados como Combustíveis fossilizados (de origem milenar e de uso irreversível), para uma indústria de combustíveis sustentáveis, com um perimetro de carbono (carbon footprint) neutro ou até negativo (isto é, o carbono não é mais poluidor, pois provém da biomassa natura que já está no meio ambiente).
Para o Brasil e os jovens brasileiros que procuram novas oportunidades de carreira, isto tudo pode ser uma grande oportunidade, ou praticamente o fim da vantagem que o Brasil tem na produção de bio-combustíveis.
Com uma grande capacidade de produzir biomassa, especialmente seletivas em grande quantidade de açúcar e óleos vegetais, o Brasil tornou-se o campeão do Etanol - apesar de que na realidade, o Brasil não e o maior produtor de etanol. Mas, como utilizador de Etanol em transportes, o Brasil é o exemplo internacional da indústria sustentável de Biocombustíveis. Recentemente, com a introdução de várias avenidas para a produção de biodiesel (80% etanol+20% óleos vegetais ou animais), muito se fala de um grande avanço paralelo ao petróleo de conversão de biomassa para combustíveis numa escala nacional com intuito de se exportar seus derivados.
Os dois maiores importadores de Petróleo, a China e os Estados Unidos somados com a Europa e o Japão seriam então os responsáveis por esta grande produção de biocombustíveis à medida que o petróleo (minado) vai desaparecendo do planeta. Daí, mais uma esperança para o Brasil, que, além de ser independente energético, também seria uma nova “Arábia Saudita dos bicombustíveis”.
Mas a coisa não é tão simples assim. Com o advento da Biologia sintética é possível se fazer petróleo num tubo de ensaio, ou em escala, num bioreator. E isto já começou nos Estados Unidos por companhias como LS9 e Amyris, ambas na Califórnia ao redor do Vale do Silício - San José, Santa Clara, Paolo Alto e ate São Francisco, o Corredor da famosa Avenida Camiño Real, onde todos os grandes projetos de inovação nasceram.
Hoje o Vale do Silício é o centro de novas idéias para a solução energética dos EUA. Milhões de dólares estão sendo investido em energia solar (células-fotovoltaicas) e agora produção com base genética de biocombustíveis.
No site da LS9, pode-se ver a foto de um cientista com um vidro de petróleo feito de um reator onde o açúcar da biomassa é digerido pela a bactéria mais famosa do estômago humano: a E. Coli. Esta é um bactéria muito conhecida pelos amantes da cerveja. Ela digere os carboidratos e açúares da cerveja e produz ácidos gordurosos que vão aumentando aquela "verdade inconveniente" chamada “barriguinha”.
Professor Liao, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, sintetizou a E.Coli geneticamente e fez com que ela "come-se" açúcar e defecasse Butanol - um combustível com conteúdo energético altíssimo e já saindo do bioreator destilado. Isto na realidade e na realidade ate melhor do que o petróleo, pois o mesmo contem muito conteúdo de baixo contento energético e daí precisa-se de caras destiladoras para se separar a gasolina.
O grande valor desta patente (o que vale no primeiro mundo e receber uma patente que da um monopólio de vinte anos na área) pertence a Universidade, e o laboratório do professor Lia e a vida dos seus estudantes de pós-graduação esta garantida.
Mas, na realidade, com a síntese do Petróleo de uma maneira sustentável, simplesmente se diminui o valor da produção de bicombustíveis porque o país é rico em biomassa. Com estes resultados da Biologia Sintética, qualquer biomassa - madeira, lixo biológico, etc. - pode ser a fonte energética. Simplificando-se exageradamente, e só por água, grama e micróbios, como a E. Coli, têm-se biocombustível!!
É claro que isto não diminui por total a euforia dos biocombustíveis convencionais, como temos no Brasil. Mas, preocupa. A Votorantim, super empresa Brasileira na área de plantação de cana-de-açúcar, tem um diretor no Conselho da Amyris e investiu pesado para isto. A Amyris trabalha numa escala abrangente no se que chama de "Combustíveis Desenhados" (designer fuels). Esta empresa já levantou 200 milhões de dólares e está pronta para ser uma grande empresa nesta área. A Votorantim está não só exportando a cana, mas talvez escutando a história e começando a pensar a fazer este processo no Brasil.
No meu caso, como pesquisador e homem de negócio, eu optei por uma matriz um pouco diferente. Inicialmente eu procurei e achei plantas que nascem no deserto com alto teor de sacarose. Eu encontrei uma planta que não precisa de muita água e nasce no solo árido. Depois, eu entrei na pesquisa de utilizar não somente a E. Coli mas também uma série de organismos conhecidos como “fermentos” (yeasts). Os fermentos, cuja a diversidade é de mais de 1500 tipos, também podem ser "desenhados" para produzir álcool de qualquer biomassa. Com isto eu pensei em resolver o problema de não se utilizar terras consideradas boas para alimento e sim terras ditas como ruins para a produção do combustível.
Quando eu vi que uma dessas plantas nasce perenialmente em 80 % dos EUA, percebi que com isto e a biologia sintética, os EUA vão ter uma enorme vantagem energética e virar a mesa na equação do Petróleo. Com a capacidade de se investir sem parar, o grande poder do know-how nas Universidades e Indústrias e o desejo de se libertar do Petróleo, que, além de poluir, os EUA só têm 3% das reservas e usam 25% da produção do mundo, a história vai mudar e muito.
Mas o Brasil, e mais precisamente o nosso Rio Grande do Norte? - Bom, chegou a hora de se estudar seriamente como utilizar as terras perdidas. O semi-árido como terras ricas em plantas como a que achei nos EUA possam produzir o "Petróleo da seca". Isto seria um sonho robusto de se ter. Melhor ainda se criarmos toda a indústria de Biologia sintética e fazer o combustível. Daí, lanço o desafio para os nossos governantes: vamos transformar o RN no centro Nacional de Biotecnologia de Combustíveis Desenhados? A hora de se planejar é agora. Não vamos mais uma vez passar batido por falta de informação e competência em se organizar e construir o futuro.

