domingo, 18 de novembro de 2012

A revolta comunista de 1935 em Natal.


Nesses tempos de novembro, que marcaram a história política do RN, o jornalista Luiz Gonzaga Cortez aproveita a data para postar em sua página na internet, trechos da publicação de seu livro “A Revolta Comunista de 35 em Natal”. Foi nesse livro que o autor reuniu 20 reportagens publicadas no jornal O Poti, edição dominical do Diário de Natal, em 1985, e que traziam o título “O Comunismo e as lutas políticas do RN na década de 30”. Com as matérias, o jornalista conquistou o primeiro lugar no concurso “Elias Souto”, da Fundação José Augusto em 1985.
Além das reportagens premiadas, o livro reúne outras matérias sobre a insurreição comunista em Natal e o tiroteio na Serra do Doutor, região Seridó, local do enfrentamento de rebeldes e civis armados por fazendeiros e políticos conservadores, inclusive integralistas. Clique aquipara ler a primeirapostagem na página.
Luiz Gonzaga Cortez é jornalista profissional diplomado, um dos fundadores da Cooperativa dos Jornalistas de Natal (Coojornat) e atuou profissionalmente nos jornais natalenses, Diário de Natal, Tribuna do Norte e semanário “Dois Pontos”, precursor do atual vespertino Jornal de Hoje. Além da premiação do concurso Elias Souto em 85, Cortez ainda venceu as edições de 1984 e 87, respectivamente, com as reportagens “A Pequena História do Integralismo do RN” e “Luiz Maranhão, mártir do povo” (revista Flagrantes-Out/87).
Outras páginas de Cortez
O jornalista e pesquisador atualiza outras páginas na internet, de variado conteúdo jornalístico e informativo, confira esta, “Os estudantes e o regime militar no RN”, que resgata a história do movimento estudantil e a resistência a ditadura militar no Rio Grande do Norte.


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Postado por AssessoRN - Jornalista Bosco Araújo no AssessoRN.com em 11/18/2012 09:54:00 AM

Resposta rápida

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Está de pior a pior, igual a cantiga da perua.


Por Paulo Tarcísio Cavalcanti*
Jornalista ▶ tarcisiocavalcanti@bol.com.br ▶http://ptarcisio.blogspot.com
 
Antigamente, em recantos interioranos por onde andei, quando algo não dava certo; ou quando em vez de melhorar, piorava, um velho amigo que já viu muitas coisas na vida e não se acostumava com o que via de errado, sempre sentenciava quando provocado:
 
- Tá igual à cantiga da perua. É de pior a pior.
 
Confesso que desconheço o verdadeiro significado dessa expressão. Mas, dá pra compará-la, sem nenhuma dúvida, com a realidade que estamos enfrentando no dia-a-dia brasileiro.
 
Tá tudo de pior a pior, que me perdoe a coitada da perua e sua triste e aterrorizante cantiga.
 
A situação da saúde pública?
 
Tá de pior a pior. E faz muito tempo que não dá sinal de que vai melhorar.
 
O atendimento do cidadão nos órgãos públicos?
 
Tá de pior a pior.
 
A fila pra tirar uma Carteira Profissional?
 
Tá de pior a pior.
 
Conseguir uma ficha pra dar entrada no seguro-desemprego?
 
Tá de pior a pior.
 
A onda de violência que assola o país?
 
Tá de pior a pior.
 
A arrogância dos moralistas que só enxergam a imoralidade dos outros?
 
Tá de pior a pior.
 
A empáfia dos marajás que não se cansam de consolidar seus privilégios em detrimento do direito dos pobres mortais?
 
Tá de pior a pior.
 
A embromação, a empulhação, a manipulação, as meias-verdades?
 
Tudo de pior a pior.
 
E não é só aqui em Natal, nem no Rio Grande do Norte. É no Brasil todo.
 
A única coisa que o Rio Grande do Norte, hoje em dia, é diferente do resto do Brasil, é quando os institutos de pesquisas divulgam resultados de pesquisas sobre a avaliação dos governantes.
 
Os nossos – aí estão os casos que nem preciso citar nominalmente – estão de pior a pior.
 
Mas, no resto do Brasil, não. É como se os demais governantes, do país e dos outros Estados e municípios, nada tivessem a ver com o caos que se espalha por toda parte – o caos do desemprego, o caos da saúde pública, o caos do atendimento ao cidadão, o caos da insegurança, o caos da roubalheira desenfreada, o caos do falso moralismo, o caos da hipocrisia, o caos do desperdício do dinheiro público, o caos das obras paradas – lembram da transposição?
 
Das duas uma: Como tudo isso não ocorre só aqui, ou a população perdeu a capacidade de julgar seus governantes; ou os institutos de pesquisa insistem em apostar em nossa imbecilidade generalizada.
 
*Texto publicado na coluna do jornalista no NOVO JORNAL


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Postado por AssessoRN - Jornalista Bosco Araújo no AssessoRN.com em 11/14/2012 07:18:00 PM

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A Revolta Comunista de 35 em Natal. (I)


APRESENTAÇÃO



Luiz Gonzaga Cortez é jornalista profissional, um dos fundadores da Cooperativa dos Jornalistas de Natal Ltda. – Coojornat e integrante do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Norte.  É formado em Comunicação Social (bacharelado em jornalismo)  pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foi  repórter político, de polícia e de cidades dos jornais “Diário de Natal” e “Tribuna do Norte” (editor de polícia) e editor geral do extinto semanário “Dois Pontos”, de Natal-RN.
Foi o ganhador do Concurso de Reportagens “Elias Souto”, da Fundação José Augusto, por três vezes consecutivas (1984, 1985 e 1987), com as reportagens “A Pequena História do Integralismo do RN”,  “O Comunismo e as Lutas Políticas do RN na Década de 30” e “Luiz Maranhão, mártir do povo” (revista Flagrantes-Out/87).
Livros do autor:
Pequena História do Integralismo no RN – Co-edição da Fundação José Augusto—Clima – Natal – 1986
Cientistas e Pesquisadores Norte-rio-grandenses – Co-edição da Editora da  UFRN – Federação das Indústrias do RN-Diário de Natal – IEL – CLIMA – Natal – 1983
Câmara Cascudo, jornalista integralista.  Em parceria com o Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes – CCHLA, da UFRN.  Natal – 1995.
Em preparo:  Campanha de Alfabetização de Adultos de Angicos (Método Paulo Freire). Reportagens.Prêmio Ubirajara Macedo de Jornalismo – Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RN (1993).
Histórias da resistência ao regime militar. Reportagens publicadas na “Tribuna do Norte” – Natal/Rn (1992).







ESCLARECIMENTOS




Este livro reúne 20 reportagens publicadas no semanário natalense “O POTI”, entre 26.05.85 a 24.11.85, intituladas “O Comunismo e as lutas políticas do RN na década de 30”. A série de reportagens concorreu ao prêmio-concurso ‘Elias Souto”, da Fundação José Augusto, em 1985, obtendo o 1º lugar.
Além das vinte reportagens, o autor adicionou outras matérias sobre a insurreição comunista em Natal e o tiroteio na Serra do Doutor, local do enfrentamento de rebeldes e civis armados por fazendeiros e políticos conservadores, inclusive integralistas.
Para efeito de comparação com depoimentos prestados por participantes e testemunhas dos acontecimentos de novembro de 35 no RN, o autor transcreveu trechos do depoimento de Giocondo Dias, ex-cabo do 21º BC,  publicado no livro “Objetivos dos Comunistas”, p. 141, “1935, Novembro: O Levante de Natal”. (Editora Novos Rumos Ltda., São Paulo, 1983).

O autor
SUMÁRIO



I.                   Gastão queria derrubar governo em 35............................24

II.           Ex-cabo do 21º BC quase mata vinte ..............................33
III.        Mário Câmara não topou a revolução..............................45
IV.        Giocondo quase morre com 17 facadas............................56
V.                A versão do dirigente do PCB sobre as causas que provocaram a insurreição de novembro de 35.................76
VI.        Dias:  Igreja não combateu o levante...............................87
VII.     Dias.  Errei ao mandar fuzilar três..................................111
VIII.  Em 35, os coronéis fugiram da luta................................119
IX.        Na Serra do Doutor não houve vitória............................127
X.                  Médico foi o comandante da revolução no agreste........133
XI.               Bancário entregou muita gente em 35...............................................145
XII.     Muita confusão e traição na intentona...........................161
XIII.  Agente da polícia antecipou a revolta............................170
XIV.  O fim da revolução pareceu carnaval.............................183
XV.          Veterano comunista diz que 35 foi uma precipitação....198
XVI.  Jornal oficial não registrou “herói”................................211
XVII.    O chefe da polícia caiu numa cilada...............................223

XVIII. Adulteraram o relatório da insurreição...........................235

XIX.       Na Praia do Meio se tramou a revolta............................240

XX.          Havia até dentista entre os presos...................................285
Anexos............................................................................298
I.                   Complementos de apontamentos sobre a novembrada...300

II.                O “herói”do caso    ........................................................304                 

III.             Herói da pantomima.......................................................306

IV.             Serra do Doutor: as versões sobre a “Batalha de Itararé”............................................................................317
V.           Um episódio sempre distorcido......................................332
VI.             Otto Guerra: Igreja não foi conivente com a insurreição ........................................................................................342
VII. Padre registrou insurreição no dia da  .  ...........padroeira..................... ................................................... 357
 VIII    Medeiros se defende (carta)...........................................367
 IX       Ex-companheiro fala sobre Djalma Maranhão..............374
       

 

 

Prefácio


Por Eduardo Maffei

A Ideologia Alemã fora escrita, como viria a ser o Manifesto Comunista por Marx e Engels. Onze anos depois da publicação desta, ainda os manuscritos de colaboração não se haviam transformado em livro. Marx, então, em 1859, diria que “circunstâncias diversas” haviam impedido sua publicação, pelo que ambos abandonaram o projeto editorial, entregando os manuscritos “à crítica roedora dos ratos”, como disse Marx. Felizmente isso não aconteceu porque, em 1932, 73 anos depois, foi publicado em alemão, violando o ineditismo, pelo Instituto de Marxismo Leninismo de Moscou.  Se não fora essa circunstância feliz, não poderíamos vir a saber da única caracterização científica do que representa a História. Destacando o papel da mesma escreveram: “Conhecemos apenas uma ciência, a ciência da História. A História pode ser examinada sob dois aspectos: história da natureza e história dos homens. Os dois aspectos, contudo, não são separáveis: enquanto existirem homens, a história da natureza e a história dos homens se condicionarão reciprocamente.
Desde, entretanto, que a sociedade se dividiu em classes, remontando ao princípio dos acontecimentos, criaram-se, de acordo com os interesses dessa divisão, dois tipos de história. Uma, a oficial, ao sabor das classes dominantes que ignora o povo que a faz, deixando-o à sombra dos figurões, da crônica de fatos, eivada de datas e nomes como acontece com a Bíblia e dos faraós. Essa crônica foi que a conferiu a Herodoto o cognome de Pai da História. Aconteceu, entretanto, só com Tulcídedes,        história passou a ser tratada como ciência e não como crônica. Em sua História esse sábio grego, cuidando das guerras do Peloponeso, de tão precisa e tal forma abordou a Peste de Atenas, doença avassalante já extinta, que é ao seu livro que os médicos e epidemilogistas recorrem para estudá-la, ignorando Hipócrates que a assistiu e, mesmo considerado o Pai da Medicina, nada de válido deixou sobre ela, não percebendo o que representava. Os cronistas herodoticos, e Hipócrates entre eles, preocuparam-se em assinalar a morte de uma vítima ilustre dessa peste, Péricles, mas não a estudaram.
Há portanto, desde há muito, duas histórias. Uma, a oficial e outra, ciência, que, infelizmente, em virtude do mascaramento oficialista, só pode ser feita, na maioria dos casos, sob prospecção. Reza a sabedoria hindu que a verdade é, como a luz, branca. Que uma vez decomposta pelo prisma adquire as sete cores do arco-íris. E a cada mais tempo que o mundo acontece, a oficial vai mascarando os acontecimentos à sua imagem e semelhança. E há então tantas verdades que não dizem respeito à verdade. No que se refere à intentona, esse mascaramento sedimentou muita mentira. Ainda recentemente, defendendo na UNICAMP, uma tese sobre o PCB e a Internacional Comunista, o historiador herodotico Paulo Sérgio Pinheiro, tomando partido, investiu contra a lógica dos fatos, estabelecendo a sua verdade mascarada oficial, fazendo por ignorar que, em História, é do nosso dever, considerar a verdade, liberta de preconceitos, como uma imposição de honestidade indispensável para a elaboração de uma consciência crítica e positiva. A simples triagem da documentação existente, com opiniões contraditórias, sobre a intentona, demonstra que o levantamento da verdade tulcídidica materialista, impessoal, está por ser feita. Daí a importância deste livro de Luiz Gonzaga Cortez que, por procurar a verdade, vai desgostar muita gente desmascarada que procurou edificar a história com fanfarronice, seja o que de conservadorismo Dinarte Mariz ou de que “companheirismo” Giocondo Dias procurou perpetuar.
No Brasil, onde as classes dominantes têm o mesmo desprezo pelo povo que faz a História que suas congêneres d’além mar, isso se torna mais evidente porque tem o seu núcleo central no que houver de pior em nossa formação, os degredados. O que, por uma subconsciência histórica, explica a extrema ferocidade do “paizinho” Getúlio e seus “filhinhos” contra os vencidos de novembro de 1935. É celebre o fato contado por João Ribeiro em sua História do Brasil, daquele bispo português de Leiria que assim se despedia da escória extraditada para a colônia: “Vá degredado para o Brasil, donde voltará rico e honrado”. Enfim  é a história oficial de gente de bem porque possui bens!... Mas essa escória preferiu permanecer, dedicando-se ao roubo de terras aos índios e à sua escravização. Tendo por pano de fundo o desastroso episódio das capitanias hereditárias que deu origem à essa praga nacional, o latifúndio, mas escravista que feudalista.
Toda a história do Brasil é caracterizada por episódio de descompasso e subseqüente acomodação. A Independência foi uma acomodação entre as classes dominantes lusas e nossas, tendo por denominador comum a permanência do latifúndio. E assim, como acontece com a crosta terrestre que, quando se descompassa em sua estrutura, origina terremotos, no Brasil os terremotos sociais foram substituídos por mansos fenômenos de acomodação. Orgulhamo-nos de uma história sem sangue, ignorando que ele não se fez por acomodação. O povo de que as páginas da história oficial não tomava conhecimento, limitando-se à mansidão do “Independência ou Morte”, continuou a luta pelos seus direitos que se opunham ao escravismo e ao latifúndio, eixos dos interesses do poder dominante. As lutas populares que se seguiram à Independência, entre as quais a Balaiada  no Maranhão e especialmente a Cabanagem na  Amazônia, são provas disso. A Cabanagem, foi, realmente, a mais importante, através da qual, pela primeira vez, no Brasil, o povo atingiu o poder, embora carente de ideologia da qual pudesse se ter aproveitado da relação de forças existente.  A tomada do poder pelo povo repetir-se-ia no Brasil, precisamente um século depois em Natal, em 1935. A Cabanagem, entretanto, cumpriu sua função histórica de proporcionar a independência da Amazônia que vinha sendo mascarada por brasileiros de parceria com os também dominantes “caramurua”, portugueses que enchiam seus bolsos aqui, mas tinham o coração e a cabeça naquilo que, para eles , continuava sendo o Reino, Portugal.  Com todas as características de uma aventura, a Intentona, entretanto, não cumpriu a missão a que se destinava e que, foi utilizada, pelas classes dominantes para, através de uma campanha de calúnias, impor a ferocidade do terror, daqueles desgraçado últimos anos 30 e primeiros 40. Os cabanos foram, também, uma vez derrotados, massacrados pela gente luso-brasileira com extrema ferocidade, porque lutavam por uma independência real que trouxesse uma modificação em benefício das extensas camadas populares, índios e escravos, inclusive.
Caio Prado Jr. Em Formação do Brasil Contemporâneo, 1943, pgs. 5 e 6, explicando aquele tempo de começo do século XIX, escreveu: “Tínhamos, naquele momento, chegado a um ponto morto. A obra colonizadora dos portugueses, na base em que se assentava e que, em conjunto, formava aquele sistema, esgotara suas possibilidades. Perecer ou modificar, tal era o dilema que se apresentava ao Brasil. “Com o sete de setembro o Brasil não perecera mas também pouco se modificara. Oficialmente se acomodara. E o artífice dessa acomodação, quem coordenou as forças reacionárias que não desejavam uma independência total, foi Feijó que, com sua tirania de liberdade limitada, não pode compreender o quanto de ruim representava essa acomodação para que tivéssemos um Brasil unido, como de acordo com os interesses acomodatícios, moldou, mas com seu povo independente. Padecemos dessas acomodações até hoje. Disso que se diz jeitinho brasileiro...
Duvido que não só a Internacional Comunista como o PCB, quando se enveredaram pelo caminho da, até então renegada e condenada, Frente Única das forças progressistas, conhecessem qualquer coisa sobre as lutas populares brasileiras, especialmente a Cabanagem. Não se estudava Canudos e conselheiro, mas aceitava-se o cangaço, forma degenerada de luta, e Lampião! O que importava era a Revolução de Outubro e os sovietes, considerados antimarxisticamente como modelos e não como simples referência como convinha. O arquivo da Cabanagem acha-se em Belém, praticamente virgem, sem que, até agora alguém se interessasse pelo tesouro representando por esses documentos para o melhor conhecimento do Brasil.  E, para escrever um ensaio sobre essa ilíada paraense, tive que lançar não de processo dedutivos e de prospecção sócio-histórica porque a melhor, e praticamente única, obra, redigida e publicada paulatinamente em cinco volumes entre 1865 e 1890, por Domingos Antônio Raiol, que pela  Cabanagem se interessou, porque procurava pelo seu pai que fora vereador em Vigia, morto quando os cabanos tomaram a cidade. A obra – reeditada pela Universidade do Pará em três volumes em 1970 – do ponto de vista da classe dominante é séria mas tremendamente contra os cabanos, embora mantendo um mínimo respeito pelos acontecimentos. Raiol pertencera à elite burocrática do Império, havendo atingido o baronato. Paralelizando os dois acontecimentos populares, o livro sob prefácio, de Luiz Gonzaga Cortez transformar-se-á num documento obrigatório para a historiografia tulcídidica brasileira. Entrevistando muitos sobreviventes prestou inestimável serviço à história das nossas lutas populares.
Tudo demonstra que os marxistas (!?) do PCB e da  IC (Internacional Comunista) que influíram decididamente no movimento que eclodiu em novembro de 1935, não tivessem dado conta do valor da história como ciência segundo Marx e Engels, como da importância de estudá-la e conhecê-la para lhe dar o rumo certo. Marx estudou profundamente o episódio da Comuna de Paris para que fosse aproveitado como experiência. Lenine fez do levante de 1905 tese e estudo experimental, rompendo com Plekanov que fora seu mestre mas não compreendera aquele espontaneismo dos trabalhadores russos. E Trotsky escreveria sobre esse novembro um livro monumental: 1905. Eles transformaram a derrota em tese para estudo. Pergunta-se: os responsáveis pelo nosso novembro de 1935 fizeram qualquer coisa parecida? Como se propunha a modificar a estrutura do sistema econômico russo, Lenine estudou-o a fundo, escrevendo a obra O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. Caio Prado Jr. e Nelson Werneck Sodré, que melhor estudaram as condições do nosso desenvolvimento, são quase que ignorados pela militância. Depois da derrota de 1905 a intelectualidade russa, frustrada no campo político, tal como aconteceu e acontece entre nós, começou a se enveredar pelos atalhos do idealismo e misticismo. Então Lenine estudou profundamente filosofia. Transformou-se num rato de bibliotecas. Conta-se até que, muitos anos depois, já dirigente da URSS pós outubro de 17, um funcionário  de certa biblioteca inglesa perguntava: “Porquê aquele russo, baixinho e calvo nunca mais apareceu? Morreu?” Escreveu então sua mais extraordinária obra sobre os princípios filosóficos do marxismo, Materialismo e  Empírio-Criticismo. Pergunta-se: onde estava e onde está a nossa frente de luta ideológica? E quando a questão de poder se lhe apresentou, homisiado na Finlândia, escreveu algo extraordinário: O Estado e a Revolução. Nossos marxistas, até hoje não tem uma visão marxista do Estado brasileiro. Contentam-se com essa miscelânea dos sociólogos que andam, por aí, nas universidades, impondo suas opiniões, quase sempre idealistas. E quando, dias depois, retornou à Rússia, pela primeira das duas vezes em 1917, como líder revolucionário inconteste, ao desembarcar na estação Finlândia em Petrogrado - hoje Leningrado -, lançou as célebres Teses de Abril. E assim, os bolchevistas, na antevéspera de se tornarem o dínamo do povo russo a caminho do poder já sabiam o que queriam e o que podiam. No Brasil os comunistas não sabiam, em 1935, o que queriam e nem o que podiam.
O movimento de novembro de 1935 não contava com um estudo preliminar sobre as questões de nossa sociedade que foi esteriotipada como feudal-burguesia, um híbrido só possível a primários. E, até hoje, acham-se perdidos. Uns porque sendo o latifúndio a dominante, o confundem com feudalismo, ignorando que ele, que perdera Roma - Plínio, citado por Engels, dissera: “latinfundia perdidere Itálian”- não era feudal; era escravista. Da mesma forma que existe um processo peculiar de produção asiático, o latifúndio moldou um processo peculiar brasileiro. Há quem afirma e quem infirme a existência do feudalismo como etapa do nosso desenvolvimento. Mas caberia - o que não foi feito - aos militantes intelectuais estudar profundamente a influência do latifúndio no emperramento da nossa evolução e conscientizar  as massas.
Quando o alemão tão brasileiro como o italiano Garibaldi, Harry Berger, ligou-se ao movimento comunista brasileiro nos anos 30 para emprestar sua colaboração, transmitindo seus conhecimentos teóricos e sua experiência revolucionária internacional, procurou se contactar com o movimento camponês, partindo da premissa que o latifúndio era o peso morto fundamental de que padecia, desde suas origens, o Brasil. Manteve uns tantos contatos com uns poucos camponeses que a irresponsabilidade, não só de Miranda, como de todo PCB que não se opusera às suas fanfarronices, multiplicara por milhares e milhares. Berger era experiente. Verificou que não havia movimento camponês suficiente, condenando qualquer movimento precipitado. Como ele outros, porque verificaram que não havia condições revolucionárias, também se opuseram e foram marginalizados, embora experiente, tais como Christiano Cordeiro, Heitor Ferreira Lima, Eduardo Xavier, o Abóbora e mais que eles porque deixou sua opinião documentada, João Barreto Leite Filho. Mas pela total inexistência de democracia interna não foram ouvidos. Quando o levante foi irresponsavelmente precipitado em cadeia em Natal, Recife e Rio de Janeiro os renitentes aceitaram a, já não mais precipitação, provocação. O mesmo não aconteceu com Roberto Morena, elemento altamente capacitado, que era dirigente em Porto Alegre. Carregou, apesar de haver depois lutado contra o fascismo nas Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola, a pecha de covarde porque não se aventurara ao levante. O livro atual de Cortez é de muita importância porque demonstra que não houve, durante os dias de domínio revolucionário no Rio Grande do Norte, nenhuma participação camponesa favorável. Pelo contrário,  a que houve foi de oposição. E também, diferentemente do que Giocondo Dias viria a contar, a não ser meia dúzia de cidades do Agreste, em virtude da militância de cafeistas que supunham lutar, ao lado da oligarquia dos Câmaras, e não da ANL as tropas revolucionárias não ocuparam dois terços do estado!
Nelson Werneck Sodré, em seu recente livro, A Intentona Comunista de 1935, editado por Mercado Aberto, estudando, com a fina argúcia que lhe é própria, as condições de então, concluiu: “O fato é que no tormentoso quadro entre 1930 e 1935, não havia, no Brasil, uma situação revolucionária” (pg. 15).  O levante de 1935 teve todas as características golpistas e tenentistas. Seus responsáveis acreditavam muito nos quartéis, ignorando o povo. Nem os militantes do PCB tiveram conhecimento antecipado de sua eclosão. Foram surpreendidos. O que, entretanto, não aconteceu com o governo que não só  o esperava como auxiliou sua precipitação.  Faltava, essa é que é a realidade, capacitação política e conhecimento da realidade brasileira da parte dos dirigentes comunistas. No livro de Cortez vamos encontrar documentos que justificam estas palavras, especialmente no de Santa que alertou que não era “hora de se cometer qualquer loucura”.
No citado livro, à pag 47, Nelson Werneck Sodré escreveu: “E a decisão deveria caber, portanto, às forças que aqui lutavam. As informações que levariam à decisão eram fornecidas pelo PCB, como era norma da IC. À direção do PCB, pois, coube a decisão de partir para a luta armada”. Em fins de 34 e começo de 35 a IC, em virtude dos informes apoteóticos que lhe vinham sendo transmitidos pelo PCB, realizou muitas reuniões para ampla discussão das possibilidades apresentadas pela situação brasileira de, através da frente única, chegar-se à insurreição. O grupo liderado pelos capacitados e experientes Dimitrov e Togliatti que conheciam o fascismo na pele, opôs-se à aventura, mas foi vencido pelo encabeçado por Miranda, moleque internacional e dirigente máximo do PCB e que atingira esse posto por manobras de audácia e aventura políticas, Prestes que desconhecia as tropas que comandaria e pelo temperamental - ele exigiu a aceitação de Prestes pelo PCB, que reagia (e como estavam certos os membros do PCB!) à sua possível influência tenentista pequeno burguesa, dando murro na mesa - Manuilski. Foi uma decisão tomada à base de informações fantásticas.
A Aliança Nacional Libertadora lançada em 30 de março de 1935, agitou profundamente o país, tomando o caráter de conscientização das massas, no mais empolgante movimento que a nação conhecera. Mas fora mais criação de tenentistas inconformados com ainda grande prestígio junto ao povo, sobretudo porque sentiam-se traídos por Getúlio, que do PCB. É verdade que desde os primeiros instantes foram os militantes deste partido os melhores da ANL, jogando todas suas forças no processo de agitação. E à medida que esta se radicalizava pelas palavras de ordem avançadas demais do PCB e, especialmente, de Prestes, a frente única estreitou-se e, depois de sua ilegalização, restrita ao PCB que não analisou essa primeira derrota, insistindo na tese da luta armada. O povo não mexera uma pena de protesto contra o fechamento da ANL mas, ignorando o objetivo, o PCB passou a agir no subjetivo, confundindo aquilo que havia sido extensa agitação com profunda organização, preparando aquilo que, segundo frisei na conferência feita em 05-03-87, no campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a convite de sua associação de docentes, a ADURN, como episódio encerrou o ciclo do tenentismo. A intentona foi o último ato do tenentismo. À página 91 do citado livro de Nelson Werneck Sodré, lançado posteriormente, minhas iguais palavras aos potiguares, ecoaram como letras: “Em tudo e por tudo”, escreveu esse historiador, “foi a derradeira manifestação do Tenentismo inconformado com a sua marginalização e superação”.
O que é importante sobre o histórico novembro de 35 é seu estudo cada vez mais profundo como lição. E daí a importância deste livro de Cortez que buliu num formigueiro aparentemente extinto, cutucando o diabo com vara curta. A Comuna de Paris teve a análise de Marx, o 1905 russo teve a análise de Lenine. O nosso novembro ficou órfão de análises. E então aconteceu o que ainda está acontecendo, por falta de análises. Um jogo de empurra da derrota por quem não deveria ignorar que uma derrota bem estudada já é meio caminho andado para a vitória. O PCB em novembro de 1935 não se achava preparado nem para a vitória; o governo contra o qual lutava, sim. Ainda fumegavam as armas quando se desencadeou a campanha de calúnias adrede preparada. Que moças haviam sido violentadas, que os comunistas cometeram excesso contra inocentes. As reportagens de Cortez demonstram como o getulismo se cevou de calúnias. E, enquanto isso, assassinava presos indefesos, amplamente derrotados, nas grotas de Currais Novos. Malvino Reis, no Recife, também fuzilou inermes prisioneiros sem qualquer julgamento. Mas em Natal, Cortez demonstra que ninguém foi morto, enquanto dormia, por camaradas de armas. Como de resto, embora essa calúnia seja assoalhada, à cada terroristica comemoração pelas forças vitoriosas, todos os 27 de novembro, ninguém disse até hoje o nome da vítima, do algoz e onde isso aconteceu. Agildo Barata conta, em seu livro Vida de um Revolucionário, como encostou na parede Adauto Lúcio Cardoso e Carlos de Lacerda nos seus tempos de vereança no Distrito Federal do Rio de Janeiro. Está em ata da Câmara de Vereadores a retratação de Cardoso e Lacerda. Mas, tão pronto livres de quem os desafiasse, esses dois anti-getulistas voltaram a propagar as calúnias.. getulistas! E foram muito bons assoalhadores. Nunca Getúlio teve aliados no campo da calúnia tão eficazes como esses dois! E em Natal, conforme documenta Cortez, até a gente “bem” que assistia uma solenidade junto com  o governador, foi escoltada, com segurança e respeito, para suas residências nos bairros chiques.
Conta Renan, se não me engano, nos Os Evangelhos, um dos seus livros sobre as origens do cristianismo, estranhando a uniformidade, quase que decalcada, das diferentes narrativas, que era de se colocar em dúvida que os Evangelhos tivessem sido escritos por quatro pessoas diferentes. E se perguntássemos a diferentes veteranos das campanhas napoleônicas pela seqüência das batalhas empenhadas, haveria um baralhamento de datas. Luiz Gonzaga Cortez, através de suas entrevistas enfeixadas neste livro, com os participantes do movimento em Natal, prestou inestimável serviço para elucidação de fatos importantes. O “valente” Dinarte Mariz covarde e simplesmente fugiu; Giocondo Dias quando viria a afirmar que eles, os revolucionários, haviam tomado conta de dois terços do estado, dava vazão à mitomania. Gastão Costa Nunes que se confessa, até hoje, 81 anos, medularmente anticomunista, “fanático seguidor de Café Filho, queria lutar para derrubar o governo”. Foi, depois de preso, parar na Ilha Grande onde diz ter feito amizade com Luiz Carlos Prestes etc. Prestes nunca esteve preso na Ilha Grande! Mas, embora esses lapsos de depoentes, dos quais se originam as lendas, em mãos de um estudioso do episódio, este livro é de muito valor. Quem viver verá.
Desde o primeiro dia, como se já tivessem a palavra no arsenal de guerra psicológica, o movimento foi qualificado de intentona. E desde então os revolucionários puseram-se na defensiva também com respeito a essa qualificação. Pois bem, os dicionaristas, denominam de intentona qualquer intento louco e o intento de novembro de 1935 foi realmente louco. Marx não renegou os comunardos quando apelidou a Comuna de Paris como “assalto ao céu por bravos loucos”. Para os revolucionários brasileiros a expressão intentona - e é preciso que se dê legitimidade a esse termo - deve ser entendida como os patriotas brasileiros entenderam Tiradentes - que, aliás, foi vilipendiado por Getúlio Vargas quando transformou o 21 de abril em Dia da Polícia - e a Inconfidência. E, inconfidência, significa deslealdade ou infidelidade. O que dá nobreza às palavras são os fatos que com elas tentam menosprezar ou menoscabar. E, então, a menos que se aceite o menoscabo, ou se considere desprezível, porque não intento louco, intentona?


Eduardo Maffei


OBS: Este texto foi escrito em  1987.

Eduardo Maffei foi médico, polígrafo e historiador, autor da tetratologia Maria da Greve e o Etopeu (A Greve, Maria da Greve, Vidas sem Norte, A Morte do Sapateiro) além do depoimento-histórico A Batalha da Praça da Sé.  Integrou o Conselho Consultivo da Revista dos Profissionais de História do Rio Grande do Sul, História - ensino e pesquisa.


GASTÃO QUERIA DERRUBAR GOVERNO EM 35


Sobre a insurreição militar e civil de 23 de novembro de 1935, em Natal, planejada e chefiada por inferiores do Exército e integrantes civis do Comitê Regional do Partido Comunista do Brasil-PCB, que liderava as ações da Aliança Nacional Libertadora no RN, ainda não se escreveu sobre a participação de Gastão e Costa Nunes, hoje com 81 anos de idade (1).
Muitos livros, teses e conferências foram produzidas sobre a fracassada revolução de 35, que contou com a participação de elementos do PCB, socialistas, sociais-democratas, da burguesia, da classe média, seguidores do ex-interventor Mário Câmara, de João Café Filho e alguns componentes do Partido Popular, de José Augusto Bezerra de Medeiros, estes pensando que o movimento era para derrubar Getúlio Vargas que, em 1930, tinha provocado a marginalização dos políticos oligarcas do Seridó potiguar. (O envolvimento dos maristas e populistas na intentona será enfocado em outra reportagem).
Assim como os chamados “grandes historiadores” patrícios da política brasileira nunca se preocuparam no aprofundamento do estudo científico dos movimentos de massa de direita, no Brasil e no RN, os pesquisadores norte-rio-grandenses não tiveram a iniciativa de pesquisar a participação da “arraia-miúda” no Movimento Comunista de 35, no território potiguar. (Os comunistas da Nova República odeiam a denominação Movimento Comunista de 35, mas não se pode ir contra as afirmações comprovadas com fatos e documentos). Como a pesquisa histórica e política do Rio Grande do Norte sempre foi elitista e acomodada, a figura de Gastão Costa Nunes, gazeteiro em 1935, não aparece em nenhum estudo acadêmico ou matéria jornalística, de autor conterrâneo, sobre a insurreição que constituiu o primeiro e único governo marxista na América do Sul.
Doente de erisipela e de glaucoma, sobrevivendo com uma pequena pensão do INPS, Gastão Nunes reside hoje numa modesta casinha da rua São Francisco, 48, no bairro do Alecrim, juntamente com duas das quatro filhas. Apesar de doente e cansado, está lúcido e afirma gostar de falar sobre a sua participação na revolta de 1935.

XXI.      


XXII.   REVOLUCIONÁRIO


“Naquele tempo, eu trabalhava com Luiz Romão, na Agência Pernambucana, na Ribeira, loja que vendia jornais, revistas e livros de todo o mundo. Eu lia o que podia ler, nas folgas, pois o meu trabalho era vender jornais pela cidade. Bom, nasci revolucionário, pois comecei a me revoltar em casa, e assim continuei. Em 1926, era enfermeiro e viajei para Pau dos Ferros-RN, a fim de entregar munição aos fazendeiros que iriam dar combate aos tenentes da Coluna Prestes, que estava para passar por São Miguel-RN. Então, quando estourou a revolução de 35 em Natal, eu aderi logo, como muita gente fez, sem saber nada de comunismo, que o negócio era de comunistas etc. Eu era seguidor fanático de Café Filho e quando os cafeístas entraram no movimento, apesar de Café não ter mandado ninguém participar ou pegar em armas, eu me apresentei logo. Entrei no meio do povo que queria lutar para derrubar o governo. Todo mundo pensava que o governo ia cair, pois o quartel da Política Militar, onde hoje é a Casa do Estudante, na rua da Misericórdia, já estava praticamente dominado na tarde de domingo (dia 24.11.35).
“Mesmo sendo anticomunista, como ainda sou, fui para o quartel do Exército, o 21º Batalhão de Caçadores (o 21º BC foi demolido e no seu lugar foi construído o Colégio Estadual Winston Churchill, na avenida Rio Branco, Cidade Alta), onde vi um bocado de gente que não gostava de mim.  Miguel Moreira, Mário Cabral e Lauro Lago não gostavam de mim. Não sei quem deu a ordem, mas eu terminei recebendo um mosquetão, farta munição e mais 9 homens armados, fardados e municiados, com a missão de fazer uma vistoria no Hotel Internacional, na rua Chile, de Theodorico Bezerra (hoteleiro que tinha contribuído para o fracasso do comício da Aliança Liberal, em 1930, que trazia Batista Luzardo para falar ao povo de Natal, na Ribeira).
“Peguei o pessoal e fui fazer a vistoria na madrugada do dia 25, segunda-feira, tudo transcorreu direitinho e depois mandei o Sr. Santana botar dez cafés para meu pelotão. E assim foi feito, tranqüilamente. Depois que tomamos o café no hotel, uma pessoa disse para mim: “rapaz, a revolução pode fracassar e vão denunciar que você tomou café de graça aqui”. Pensei um pouco e resolvi pagar a conta. Acho que foi por isso que o “seo” Santana não depôs contra mim, no inquérito. O engraçado é que, anos depois,  já solto, eu botei um ponto de verduras e frutas no mercado da Cidade e me tornei vendedor de frutas no hotel de Theodorico, pois ‘seo” Santana era o gerente e não ficou com raiva de min. Na verdade, a minha entrada na Revolução de 35 era para me vingar de um deputado (Gastão não forneceu o nome) que tinha me ameaçado de fazer engolir um exemplar do jornal de Café Filho, “O Jornal”, que era impresso nas proximidades da igreja de Bom Jesus, na Ribeira. O deputado disse que eu ia engolir o jornal com cerveja. Mas a revolução foi tão curta que não deu tempo para me vingar, pois o homem sumiu e foi até bom eu não ter-me vingado. Se tivesse feito a vingança, eu tinha “puxado” uma cadeia mais longa”, contou Gastão Nunes.

XXIII. PRISÃO PERPÉTUA


Ele informou que, após o fracasso da insurreição, vários líderes comunistas reuniram-se numa casa da Praia do Meio, a fim de tentar reunir os revolucionários para uma segunda investida contra as forças governamentais.
Na reunião, ficou decidido que seria infrutífera qualquer ação militar, tendo em vista que as tropas federais, vindas da Paraíba, já estavam nas proximidades da capital e as principais lideranças da revolução tinham debandado. Dois dias depois foi preso pela polícia e trancafiado no quartel do 21º BC, onde chegou a ser visitado pelo então industrial e fazendeiro Dinarte Mariz. “Dinarte me viu e disse que eu ia pegar prisão perpétua”, diz, sorrindo, Gastão Nunes, que passou meses recolhido na prisão da Ilha Grande, no Rio de Janeiro.
PESCARIA

Gastão disse que em 1936 foi embarcado num paquete para Recife, onde dezenas de presos, civis e militares, do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba, foram transferidos para outro navio. Ele não se lembra do nome da embarcação (“parece que era o Baependi”), mas se recorda que um sargento do Exército, do 21º BC, de Natal, o professor João Bastista Galvão (que integrou a junta revolucionária que governou Natal durante quatro dias),. um tabelião da cidade de Baixa Verde, hoje João Câmara e o escritor Graciliano Ramos viajaram com ele para o Rio de Janeiro. Na Ilha Grande, fez amizades com Hercolino Cascardo, Luiz Carlos Prestes, capitão Agildo Barata (chefe da rebelião numa guarnição do Exército do Rio de Janeiro) e o capitão Sisson, entre outros. (2)
“Na viagem de navio, a fome era muito grande, além dos maus tratos. Reclamei comida ao comandante do navio. Ele disse que não tinha comida, o que me revoltou. Então, pedi iscas e anzóis para pescar. O comandante demorou para me atender e eu fiquei gritando que ali tinha muita gente inocente, que não era comunista, que era revolucionário cafeísta e topava qualquer parada. O professor Galvão e Graciliano Ramos ouviram eu dizer isso. Pesquei vários peixes no meio da viagem, em alto mar e matei a fome de muita gente. Na Ilha Grande, os presos sofriam muito. Comigo não fizeram maus tratos porque eu tinha feito amizades com vários homens da Polícia Especial do Rio de Janeiro, onde trabalhei em 1928, como o delegado Dr. Brandão, do 2º Distrito. Na Ilha Grande, passei alguns meses e depois me mandaram para Natal, onde fiquei preso até 1941. Botei uma fábrica de tamancos na prisão e consegui sobreviver”, relatou Gastão.
UM EXEMPLAR DO DN

“Agora eu quero deixar registrado o seguinte: tive o grande prazer de conhecer gente como Luiz Carlos Prestes, capitão Agildo Barata, capitão Sisson, Hercolino Cascardo e outros, cujos nomes não me lembro. Eu não era comunista, mas me dei bem com esse pessoal. Eles eram muito solidários. O capitão Agildo era macho, muito brabo e inteligente.
“Hoje durmo tranqüilo e sou um homem calmo, pois não fiz mal a ninguém e não levei dinheiro de ninguém. Sou um homem pobre.
Quando estou doente, corro para o meu primo legítimo, Dr. Helen Costa. Olhe, depois que publicar essa reportagem, traga um jornal para mim, porque eu não posso comprar, concluiu Gastão Nunes, citado no livro “Memórias do Cárcere”, 1º volume, do escritor Graciliano Ramos.


NOTAS:


1-      Esta entrevista foi publicada na edição de “O Poti”, jornal de Natal, edição de 26 de maio de 1985.

2-                Luiz Carlos Prestes e João Batista Galvão não foram companheiros de viagem de Gastão Nunes.  Prestes e Galvão não cumpriram pena na Ilha Grande. A propósito ver entrevista de Cipriano Galvão (O Poti, 10.11.1985, p. 24), na matéria intitulada “Na Praia do Meio se tramou a revolta”.

EX-CABO DO 21º BC QUASE MATA VINTE


“Hablo de coisas que existem. Dios me libre de inventar cosas cuando estoy cantando” Pablo Neruda.
“O jornalismo investigativo nunca se deu bem com a história oficial. Freqüentemente gosta de sacudi-la com revelações, incômodas, graças à fascinação por detalhes obscuros que os historiadores acadêmicos costumam desprezar”. Jorge Escosteguy (In “Isto é”, n.º 460, p. 84, de 16.10.85).


Entre os fatos desconhecidos dos historiadores que pesquisaram sobre a revolução de 35, no Rio Grande do Norte, está o episódio ocorrido no local hoje denominado Praça Dom Vital, Cidade Alta, em Natal, especificamente no trecho compreendido entre o prédio do Tribunal Regional Eleitoral e a casa de 1º. andar, onde funcionou a assessoria de imprensa do Palácio Potengi.
Naquele local, por volta de 22 horas do dia 23 de novembro de 1935, quando estava no auge o tiroteio entre os insurretos e os defensores  do quartel do Batalhão da Polícia Militar, na rua “Salgadeira (hoje rua da Misericórdia), aconteceu o episódio que quase se transformava numa tragédia. Quem evitou a liquidação de um grupo de 20 homens da Polícia Militar (soldados, cabos e sargentos) foi o então cabo radiotelegrafista do 21º Batalhão de Caçadores do Exército, João Wanderley.
A GRANDE RAJADA

Em entrevista concedida no dia 24, quinta-feira, em sua residência na rua Pinto Martins, Petrópolis, o industrial aposentado João Wanderley, 68 anos, contou mais detalhes sobre a sua participação na revolta militar de 35.
“Durante a vigência do governo revolucionário de novembro de 35, eu tive uma participação discreta, pois era radio-telegrafista do quartel do 21º BC. Muito novo, com 18 anos, o ataque contra o Quartel da Polícia Militar se efetuava pelo lado direito. Na esquina da rua João da Mata com a Praça André de Albuquerque, uma metralhadora nossa despejava balas em cima do quartel do PM. Naquela hora ninguém atacava pelo outro lado, onde está hoje a Praça João Tibúrcio. Sai do quartel do 21º BC, a pé, com uma metralhadora leve, marca Hotkiss, fabricada em Herstal, Bélgica, juntamente com um companheiro chamado Lauro, sobrinho de João Pegado Cortez, (Conde de Miramonte) . Quando cheguei perto da praça Dom Vital, que era um descampado, já tinham feito um buraco para colocar nossos homens, protegidos por sacos de areia. Mas só havia o buraco. Então notei que o beco que dá acesso à rua Presidente Passos (essa rua se une com a “Salgadeira”, que passava em frente ao antigo Quartel da PM, hoje Casa do Estudante do RN), estava completamente livre. Por ali poderia passar um efetivo da PM com o objetivo de atacar o 21º BC.  De imediato, procurei instalar a metralhadora no buraco e ficar de sobreaviso e atento. Foi só o que deu: em poucos minutos apareceu um grupo de uns 20 homens da Polícia, andando tranqüilamente armados e fardados, demonstrando que iam em missão de combate. Puxei o gatilho da metralhadora e esperei que o grupo se aproximasse mais, porque estava meio escuro. O meu companheiro, Lauro, disse para mim: “Cabo velho, bem na caixa dos peitos”. Como eu não era doido, pensei no que ia fazer e calculei a rajada para 40 centímetros acima da cabeça do pessoal. Mirei, puxei o gatilho e segurei a metralhadora quando ela começou a disparar.  Olhe, foi um Deus nos acuda! Não ficou ninguém no beco.  Todos correram para a rua Presidente Passos, deixando no beco bonés, botinas, mochilas e fuzis.  A debandada terminou no quartel da PM, sem o registro de nenhuma baixa”, conta, sorrindo, João Wanderley.
”SÓ MORREU UMA GALINHA”

Depois da rajada de metralhadora, na praça Dom Vital, o cabo Wanderley rumou, rastejando por alguns buracos, para a outra extremidade da praça André de Albuquerque. Numa casa situada nas proximidades da “Praça João Tibúrcio”, ele tomou nova posição de combate.
O tiroteio estava muito grande. Deixei outro pessoal no buraco da praça Dom Vital e consegui entrar numa casa vizinha à residência de Felinto Manso. A família estava muito nervosa, mas permitiu que entrássemos, pois se tratava de uma revolução e estávamos fardados. Quando cheguei no quintal da casa, onde existia um galinheiro, fiquei observando os atiradores do quartel da Polícia Militar, na minha frente, a uns 150 metros. Em cada janela do quartel havia um atirador. O meu objetivo era silenciar esses atiradores. Atravessei o galinheiro e alcancei uma balaustrada, que ainda hoje existe no mesmo local. Lá, instalei a metralhadora e fiquei dando rajadas nas janelas do quartel, cujos atiradores pararam de atirar. Sei que eles deram uns tiros em minha direção porque, quando deixei de atirar, vi uma galinha morta no galinheiro e fiquei com um calombo na testa provocado por um pedaço de concreto. Foram as duas missões de combate que tive durante a Revolução de 35”, adiantou João Wanderley, militar da reserva não remunerada do Exército.


TESTEMUNHA DA MORTE DO SOLDADO

O major da reserva da Polícia Militar do RN,. Enéas de Araújo, 83 anos, residente na rua Joaquim Fagundes, 670, Tirol, juntamente com o seu sobrinho, José Eurípedes de Vasconcelos, concedeu entrevista ao repórter sobre alguns fatos da revolução de 35. Bastante lúcido, Enéas de Araújo disse que somente agora tomou conhecimento de que Sizenando Filgueira foi o autor do disparo que matou o soldado da PM, Luiz Gonzaga de Souza.
Enéas Araújo, respondeu algumas indagações do repórter.

-Quando terminou o tiroteio na rua da Salgadeira?

Enéas - “Alguns autores dizem que terminou na tarde do dia 24 de novembro, mas às 6 horas da manhã daquele domingo, eu estive nas proximidades do quartel e não havia tiroteio.  Pode ter sido um descanso, mas não havia tiroteio.  Depois do meio-dia os homens que estavam no quartel começaram a fugir. Em torno de 80 homens estavam no quartel(1).   Entre os que se feriram na fuga estava o meu irmão, Leopoldo José de Vasconcelos, pai de Euripedes, mas Joaquim Gomes de Melo, José Ananias Pereira e Antônio Ananias Pereira quebraram as pernas. Anísio Vasconcelos levou um tiro na perna quando estava pulando o muro do quartel. Leonel de Souza Cabral, o músico José Tito de Medeiros, Luiz Gonzaga César de Paiva, Euclides Moreira e Silva, o mestre da banda, estavam no quartel durante todo o tiroteio”.

- O senhor viu o soldado Luiz Gonzaga lutando?

Enéas - “Eu não era da Polícia.  A nossa família morava perto do quartel e eu desejava ingressar na polícia. Bom, mas quando terminou o tiroteio, procurei os meus familiares e não os encontrei em casa. Rumei para a rua João da Mata e encontrei-me com Mário Cabral junto a um caminhão, cheio de soldados do Exército. Fui na casa do tenente José Pedro, no Alecrim e, de lá, saí a cavalo a procurar do meu irmão, Leopoldo, que naquele instante estava na rua do Arame, todo ferido”.

- Eu quero saber se o senhor viu o soldado Luiz Gonzaga?

Enéas - “Antes de chegar na rua do Arame, passei na rua da Salgadeira, perto do quartel e encontrei um grupo de rapazes. Em seguida, apareceu o tenente Pm Moisés da Costa Pereira, tendo os rapazes dito pra ele: “Tenente, tem um soldado morto na lama do Passo”. “E tem? Então vamos fazer uma caridade de ir buscar”, respondeu o tenente. Aí, ele saiu com os rapazes para retirar o cadáver de Luiz Gonzaga, que era recruta do quartel e ainda não tinha vestido farda”.

- O senhor também ajudou?

Enéas - “ Eu não, pois estava receoso de me meter naquilo, por causa das revoluções de 30 e 32.  Em 30, eu tinha visto a revolução em Recife. Não fui buscar, mas fiquei observando todo o trabalho. O tenente Moisés foi quem trouxe o cadáver de Luiz Gonzaga para cima da calçada do lado direito do quartel.  De soldado ele só tinha as botinas, trajando calça e camisa.  Não estava nu da cintura para cima, como disse Sizenando Filgueira.  Eu só vim saber que foi Sizenando que matou Luiz Gonzaga porque ele declarou isso, pois nesses últimos 50 anos ninguém sabia nada a respeito. O 2º sargento Pedro Vicente, que morreu como coronel, foi o homem que manejou a metralhadora do quartel da Polícia, sendo auxiliado por Luiz Gonzaga.  O 1º Sargento Luiz Gonzaga César de Paiva, mestre da banda, me contou que ele e Euclides Moreira da Silva, fugiram para o mangue, com o recruta Luiz Gonzaga, em direção à Base Naval, quando ouviu o tiro que jogou Luiz Gonzaga dentro da lama. Sizenando disse que Luiz Gonzaga estava armado e fazendo pontaria para ele, antes de matá-lo.  Mas Luiz Gonzaga César de Paiva me disse que ele não morreu em combate e caiu sem fuzil. Depois consideraram Luiz Gonzaga como herói porque ele ajudou a municiar a metralhadora. Homens como o tenente Zuza Paulino, Bilac Faria, Pedro Vicente, Joaquim de Moura e outros foram verdadeiros heróis na luta. Na verdade, Luiz Gonzaga de Souza era recruta e foi alistado uns 30 dias antes da revolução. Outra coisa que eu queria dizer: Quintino, um dos chefes da revolução, não era sargento, mas músico de 1ª classe do Exército”. (João Wanderley, confirma e adianta que havia equivalência ao posto de 1º. sargento).
Quando Enéas de Araújo concedia a entrevista, apareceu o motorista aposentado pelo INPS, José Batista da Silva, 76 anos, residente na rua Romualdo Galvão, 32, Tirol. Batista disse que em novembro de 1935 era motorista da esposa do governador Rafael Fernandes, Leonila Fernandes de Queiroz. Ele contou que passou os três dias do governo revolucionário no bairro do Alecrim e que não viu muita coisa.
“Quando estourou a rebelião, me mandaram buscar um carro de dona Leonila. Consegui pegar o carro e escondê-lo no quintal da casa de dona Anunciada Vilar, debaixo de umas mangueiras. O carro ficou lá durante o governo comunista.

- Ouviu falar sobre o soldado Luiz Gonzaga?

Batista - “Eu sei que começaram a comemorar a sua morte por volta de 1943”.

- Onde estava quando estourou a revolução?

Batista - “Na Vila Ciccinato, a casa do governador. Vi quando mandaram um sargento baixinho, vexadinho, avisar às autoridades que estavam no Teatro Carlos Gomes, que a revolução tinha começado”.

- Ouviu falar que o Governador Rafael Fernandes ou a alguns dos seus auxiliares foram asilados nos navios mexicanos, no rio Potengi?

Batista - “Eu soube que esse pessoal ficou no rebocador “Heitor Perdigão”, da Marinha Brasileira, que estava na boca da barra a uns três quilômetros do rio Potengi”.

- Conhecia Sizenando Filgueira?

Batista - “Conheci. Era um homem bem relacionado com as autoridades. Era da Guarda Civil, no governo de Mário Câmara. Sizenando foi o meu chefe, no tempo da guerra, em Parnamirim, quando trabalhávamos na Esso Standard Oil. O chefe dele era Mister Calabria, com quem Sizenando brigava muito no serviço. Não tenho nada contra Sizenando. Só posso dizer que ele deve continuar como um homem de bem, pois foi um bom colega”.

- Enéas Araújo, interrompe e diz:

“ Bote aí os nomes do tenente José Rosa, capitão José Nicácio e Abílio Campos, pois eles foram presos como comunistas. Não eram comunistas, mas maristas e cafeístas”. Ao lado, Eurípedes Vasconcelos assiste a conversa e confirma as declarações do seu tio, Enéas de Araújo.
NOTA:


1-      Enéas Araújo errou; no quartel da Polícia Militar estavam 49 militares.







MÁRIO CÂMARA NÃO TOPOU  A REVOLUÇÃO


O ex-interventor (governador) do Estado do RN, Mário Câmara que, em 14 de outubro de 1934, perdeu a eleição para a Assembléia Constituinte Estadual de 35 (ele integrava a Aliança Social, uma coligação do Partido Social Democrático e o Partido Social Nacionalista, de Café Filho), foi acusado de covarde ao recusar participar de um amplo movimento armado para impedir a posse de Rafael Fernandes, considerada pelos comunistas como o representante do reacionarismo potiguar.
Rafael Fernandes era do Partido Popular que elegeu 14 deputados e a Aliança Social 11, sendo três do PSD (marista), Ciccinato Chaves (que foi o proprietário da casa que viria a ser a sede do governo revolucionário popular de novembro de 1935), Djalma Marinho e Felipe Guerra e oito do PSN, cafeísta:  Abelardo Calafange e Benedito Saldanha,, coronel  do Alto Oeste do RN e de Alto Santo, Ceará), Gil Soares, José Lopes Varela, Amâncio Leite (amigo de Benedito Saldanha). Raimundo Macedo, Sandoval Wanderley e Maltez Fernandes. Os populistas elegeram 14 deputados para a Constituinte Estadual, obtendo maioria para eleger, via indireta, o governador Rafael Fernandes, que tomaria posse em 1935. Devido as fortes ligações com os comunistas e os integrantes da Aliança Nacional Libertadora (ANL), os maristas e cafeístas teriam sido convidados para um golpe armado contra a oligarquia do algodão do Seridó e seus aliados da região salineira, cuja maior expressão foi Rafael Fernandes.
É o que se depreende com a leitura de alguns documentos apreendidos na casa de Luiz Carlos Prestes, no Rio de Janeiro, em 1936, que constam dos “Excertos da publicação:  Arquivos da Delegacia Especial de Segurança Política e Social - Volume III - Polícia Civil do Distrito Federal - Rio”. 1938. Segundo cópias em poder de João Alfredo, empresário gráfico de Natal, os documentos foram apreendidos pela Polícia do Distrito federal, a famigerada polícia do nazista Felinto Müller, após a intentona de novembro de 1935,” nos arquivos dos chefes comunistas”.
O documento 36.C, datado de 31 de outubro de 1935, Rio de Janeiro, trata-se de uma correspondência de um dirigente do Partido Comunista do Brasil-PCB, aos seus companheiros do Rio Grande do Norte. É neste documento que Mário Câmara é acusado de covardia pelos comunistas, a vanguarda da ANL na ilegalidade.
Na íntegra, o documento diz o seguinte. “ Companheiros do Rio grande do Norte. Confirmo o recebimento da carta de 23.10.35 e nossa resposta imediata de 28 do corrente. O essencial no momento é desenvolver lutar independentes, ampliar a nossa frente, aumentando nossas forças com todos os desiludidos com a covardia de Câmara e seus sequazes. São os magníficos primeiros passos dados com a formação da Frente Democrática pelas Liberdades Populares, convocação e realização de comícios em Natal etc. Compreendemos o quanto é séria e perigosa a atual situação estadual e estamos de inteiro acordo com vocês, quando afirmam que não podermos deixar de ocupar as posições de vanguarda nas lutas populares que se avizinham. Ninguém pode ser contrário ao começo de grandes lutas armadas justamente no Rio Grande do Norte e seria oportunismo de pior espécie refrear as lutas populares sob o pretexto que não é ainda possível começar no resto do país. Precisamos estar à frente do Povo e dirigi-los nas suas lutas. Nada de passividade nem de oportunismo. O que nós sempre combatemos foi o golpismo, a tendência de seguir os elementos golpistas de um ou de outro partido revolucionário.
Pela carta de vocês, compreendemos que o que se passa atualmente no Estado, é coisa já diferente. Os elementos combativos de Mário Câmara e Café  Filho, estão desiludidos com os seus chefes e ameaçados pela reação e pela fome, querendo tomar armas contra o novo governo. Ao mesmo tempo toda a polícia está ameaçada de ser desarmada ou ter seus quadros dirigentes substituídos por pessoas de confiança dos novos governistas. As informações enviadas não são suficientes para que possamos ter um quadro mais exato da situação, mas pelo que conhecemos compreendemos quanto é séria a situação. Para a ANL, ainda não é conveniente tentar um grande movimento nacional nem mesmo precipitar os outros Estados do Nordeste. Sem uma ação simultânea nos outros Estados não acreditamos que seja viável nem oportuno lançar no Rio Grande do Norte a palavra de ordem da tomada imediata do poder. Há muitos elementos militares, especialmente oficiais do Exército, aliancistas, sinceros revolucionários que só acompanharão um movimento de caráter nacional ou pelo menos de grande envergadura abarcando um certo número de outros Estados. Ora, atualmente encontra-se em Natal uma forte concentração de forças do Exército e lá também se acha o próprio comandante da Região, Gal Rabelo.
Nessas condições não nos seria favorável lutar, logo de início contra os soldados do Exército. Mas mesmo sem lançar como palavra de ordem imediata tomada do poder pela ANL no Estado devemos, sem nenhum receio, dirigir e estar à frente de todos os que quiserem lutar contra a reação, pelas liberdades populares, civis e militares. Caso na Polícia Estadual e na Guarda Civil haja um ambiente contrário ao novo governo assim como ameaça de expulsões, devemos corajosamente lançar a palavra de ordem de não entregar as armas, palavra de ordem de revolta imediata contra os novos dominadores. Se as forças militares de que dispomos forem suficientes para dominar na capital, o que não supomos, será então o caso de organizar o nosso governo. Mas se as nossas forças forem relativamente pequenas e não contarem com o apoio do Exército, devem tomar as armas e munição e marchar para o interior do Estado. Neste último caso a luta deve ser justificada pela necessidade de impedir a expulsão dos oficiais e soldados aliancistas das fileiras da Polícia, assim como em defesa dos direitos populares. Em muitos pontos de interior será então possível tomar o poder e organizar o governo popular. Tais governos devem ser ocupados pelas pessoas de maior prestígio popular em cada localidade e em nenhuma hipótese devem ser denominados de governos soviéticos. Devem ser governos genuinamente populares que executem imediatamente uma série de medidas em benefício do povo, contra a imperialismo e os grandes proprietários mais reacionários. E será indispensável evitar todo e qualquer esquerdismo numa ação de tais governos locais, porque, como primeiros que organizamos no país, devem bem refletir o programa popular amplo da ANL, desmascarando os que dizem ser a ANL uma simples máscara do Partido Comunista. Enfim, o que queremos dizer é que a tentativa do novo governo de nos desarmar deve e pode ser respondida com grandes lutas. É indispensável que os companheiros compreendam a possibilidade de lutas armadas e mesmo de revoltas militares, independentemente da questão de poder em todo o Estado. Tais lutas terão uma grande importância principalmente se as soubermos ligar com as lutas dos sertanejos e sua repercussão em todo o país precipitará o lançamento da palavra de ordem da insurreição no resto do país.
Qualquer que seja a situação devemos utilizá-la ao mais possível para ganhar para a ANL, a grande maioria dos partidários de Câmara e Café Filho, devemos reforçar o nosso trabalho no interior, organizar os sertanejos de dirigir suas lutas sem medo que eles se transformem em lutas armadas, defender as liberdades populares, os direitos dos funcionários ameaçados pelo novo governo, assim como fazer o possível para que os nossos elementos na Polícia Militar não entreguem suas armas, preferindo a revolta armada à expulsão.
Nas condições atuais do Brasil não é aventura ter a coragem de iniciar lutas armadas independentemente do resto do País.
Marchamos aceleradamente para o momento da insurreição no conjunto nacional e não temos o direito de, a espera de tal momento, sacrificar as posições que já possuímos num ou outro ponto. São muitas as formas de lutas anteriores à insurreição e a todas elas nos devemos lançar corajosamente. Faremos o possível para enviar o quanto antes até ai um companheiro da Diretoria Nacional com as últimas instruções. Vocês precisam nos manter a par de tudo que se for por aí passando”.

CHEFES DA ANL NÃO QUERIAM UM GOLPE MILITAR EM 35


O documento n.º 85-C sobre a Aliança Nacional Libertadora e a situação política no Rio Grande do Norte é uma correspondência endereçada por um dirigente do Partido Comunista do Brasil - PCB, residente no Rio de Janeiro, a um aliancista de Natal. O documento é do segundo semestre de 1935 e tem o timbre confidencial, segundo se deduz de uma cópia da transcrição dos ‘Excertos da publicação do Departamento de Polícia Especial do Distrito Federal, de 1938, republicado pela Imprensa Oficial do RN em 1938. Os documentos da ANL e do PCB foram apreendidos em 1936 nas residências dos chefes das duas organizações que lutavam contra Getúlio Vargas, que veio se tornar mais autoritário e desumano após o golpe de novembro de 1937, com o famoso golpe militar que implantou o “Estado Novo” no Brasil, modelo tupiniquim do fascismo europeu, elaborado por Francisco Campos e outros fascistas caboclos.
O documento relata as negociações mantidas pelos comunistas e aliancistas com os políticos da Aliança Social, agrupamento que reunia os seguidores de Mário Câmara e Café Filho, no Rio Grande do Norte.( Este trecho foi publicado em O Poti de 22/09/1985, p.24, na 14a reportagem da série “O comunismo e as lutas políticas do RN na década de 30”).
Eis a transcrição do Documento 85-C

DOCUMENTO 85-C

“A ANL e a situação política no Estado do Rio Grande do Norte. (Confidencial).
3) Frente a vitória eleitoral reconhecida pelo Tribunal Superior Eleitoral ao Partido Populista, alguns chefes do bloco Câmara-Café Filho ameaçam desencadear lutas armadas e não permitir a posse de um governo populista. Tudo indica além disso que o próprio Câmara e os elementos mais racionários de seu partido já se dispõem a entregar pacificamente o poder. É necessário utilizar este momento para ganhar para a ANL, os melhores elementos que ainda confiam em Câmara ou nos seus elementos, que dizem que vão lutar contra a implantação de um governo ainda mais reacionário do que o atual no Rio Grande do Norte. Deve chamar as massas populares inclusive as que ainda seguem os dois partidos em luta para demonstrarem na rua a sua vontade de luta contra a reação e pelos direitos democráticos mais elementares, direito de reunião, de palavra falada ou escrita.  Pela legalidade da ANL, pelo desarmamento dos bandos integralistas. Chamar, em apelos e manifestos, os elementos de esquerda dos dois partidos a declararem sua adesão a tais manifestações. A ANL precisa declarar que apoiará, nas condições atuais qualquer governo que se disponha a garantir os direitos democráticos populares, a desarmar os bandos integralistas e de capangas dos grandes proprietários, a garantir a legalidade para a ANL e para todas as organizações operárias, camponeses e populares. Na base de uma tal declaração, desmascarar a Câmara e os demais chefes reacionários de seu partido que, com medo do povo, entregam pacificamente o poder ao governo reacionário. Com os  elementos do partido de Câmara-Café Filho que se dispunham a lutar com a ANL em frente única na base do programa, organizar imediatamente grandes manifestações em todo o Estado, aproveitando as circunstâncias favoráveis para que a ANL apareça em público, ganhe a rua e propague o seu programa (o do manifesto de Prestes a 5 de julho), o único que realmente acabará com a situação de miséria e de reação e que só poderá ser executado pelo governo popular nacional revolucionário com Prestes à frente.
4) Muitos chefes do partido camarista só querem saber porém se a ANL os acompanhará em qualquer golpe militar contra a implantação de um governo populista no Estado. Devemos mostrar aos homens honestos como será contraproducente uma luta militar restrita ao Estado do Rio Grande do Norte e mesmo aos estados do Norte, mas que se eles não querem acompanhar a ANL no trabalho de propagação de massas para uma luta em todo Brasil podem, no entanto, estar certos de que a ANL não ficará noutra frente a um golpe armado no Estado, tomando naturalmente posição ao lado do povo contra qualquer governo reacionário, por um governo que se declare e dê as necessárias garantias de que será, antifascista, que dará legalidade a ANL, etc. Mas se tais elementos querem realmente lutar devem começar por armar o povo, fazer declarações públicas no sentido de que permitirão a atividade legal da ANL e dos sindicatos - que exigirão o desarmamento dos bandos integralistas. Os aliancistas devem conhecer todas as tentativas de luta armada no Estado e sem se deixarem arrastar nos golpes militares, precisam realmente mobilizar as massas para uma atividade independente, preparando greves, demonstrações, etc, através das quais conseguirão no momento de uma luta armada exigir a execução de promessas, defender as reivindicações das massas, exigir o desarmamento dos bandos integralistas, a legalidade para a ANL, etc .................................................................................

GIOCONDO QUASE MORRE COM  17 FACADAS


A insurreição de novembro de 1935, em Natal, desenrolou-se de forma totalmente desorganizada, apesar dos poucos e pequenos saques aos estabelecimentos comerciais. Não havia coordenação logística e estratégica. Não havia comando unificado. Não havia planejamento. Não se sabia em que iria dar a revolução.
Estas informações foram prestadas pelo ex-1º cabo telegrafista do Exército, do 21º Batalhão de Caçadores, João Wanderley, industrial na área metalúrgica, aposentado, que participou do movimento militar de 35, em Natal, ao lado de Giocondo Dias e do sargento músico Quintino Clementino de Barros, natural de Serra Negra do Norte (região Seridó do RN, conterrâneo do falecido senador Dinarte Mariz, político ultraconservador. Quintino, enfermeiro, habilidade que adquiriu no presídio de Fernando de Noronha, de onde foi solto com ajuda de Dinarte Mariz e Juvenal Lamartine de Faria, faleceu em Anápolis, Goiás, pobre e isolado dos familiares).
Quase cinqüenta anos depois da revolução vermelha, mais conhecida por Novembrada ou Intentona Comunista de 35, João Wanderley, residente nas proximidades da Praia do Meio, aos 69 anos de idade, concedeu rápida entrevista ao O Poti, a fim de relembrar os fatos e deixar um depoimento para a história política do Rio Grande do Norte.
“Durante toda a revolução houve muita falta de controle.  Muitos soldados ficavam atirando a esmo pelas ruas da cidade e os grupos desgarrados, sem comandos, eram muitos. Não existiam comando e disciplina revolucionária. Apesar dos grupos soltos e desagarrados, até hoje, fico admirado não ter acontecido nenhuma ofensa à honra pessoal. É verdade que ocorreram alguns pequenos saques, mas o caso da Casa da Viúva Machado, na Ribeira, não foi um saque, um roubo. Não, a loja da Viúva Machado foi o centro abastecedor de gêneros alimentícios da Revolução. Mesmo assim, eu asseguro que bastava um grupo de 20 homens, organizados, armados e de direita para abortar a revolução, tal era a desorganização. A revolução não acabou logo porque a direita não reagiu por causa da surpresa e da apatia. Se fosse hoje, claro, a coisa teria sido diferente. A direita hoje é organizada, armada, faz propaganda, se reúne, etc. Por exemplo: alguns revolucionários resolveram queimar um cartório que existia na frente do “Magestic”, no cruzamento das ruas Ulisses Caldas e Vigário Bartolomeu, na Cidade Alta.  Então, o pessoal foi lá e queimou o cartório. Não sei quem mandou queimar, apesar de eu ter assistido tudo. Talvez alguém interessado em dar fim a algum ou alguns processos. Bom, o pessoal foi lá e queimou tudo. Não sobrou nada e ninguém fez nada para controlar ou apagar o incêndio. Era assim, uma desorganização total. Se estivesse aparecido uns 20 homens decididos e treinados, a coisa tinha acabado no nascedouro. O sargento Quintino, gente muito boa, caladão e culto, vivia aperreado. Baixinho, Quintino andava pra cima e pra baixo com um revólver pequenininho na cintura e um cinto sobre a túnica. Eu digo que Quintino (Ministro da Defesa da Junta Revolucionária Popular de 35 em Natal) vivia aperreado porque o pessoal vivia em cima dele, pressionando para fazer isso e aquilo e ele ficava indeciso. Na realidade, ninguém sabia o que fazer na área militar”, disse o aposentado João Wanderley.

PARTICIPAÇÃO DOS PRESOS

Wanderley entrou no Exercito com 15 anos de idade. Isso foi possível porque ele aumentou a idade para 17 anos. Entrou no Quartel do 29º BC em 1932 e foi mandado para Mato Grosso, a fim de combater a revolução constitucionalista de São Paulo. Em Mato Grosso, o efetivo do 29º BC quis se revoltar e se posicionar em favor dos paulistas. Como castigo, segundo conta Wanderley, o contingente do 29º BC foi transferido para o Amazonas, na fronteira, em virtude da guerra entre Bolívia e Paraguai, a Guerra do Chaco. Depois, o batalhão veio para Natal e no início de 1933, foi transferido para Recife, sendo substituído pelo 21º Batalhão de Caçadores, do Recife, no final de 33.
Apesar de não concordar com as afirmações de Giocondo Dias sobre a organização militar e civil durante a insurreição de 23 a 27 de novembro de 35, em Natal, João Wanderley assegura que o ambiente político naqueles anos era de “conspiração permanente”.
Mas a revolução de 35 não foi feita em nome do comunismo ou do socialismo. A Aliança Nacional Libertadora, que tinha um hino, assim como os integralistas tinham o seu hino, foi a bandeira de luta da revolução. Em Natal, todo o efetivo militar do 21º  BC estava ligado a ANL, aliado aos cafeístas, que estavam debaixo politicamente. A demissão de 300 guardas-civis pelo governador Rafael Fernandes foi o estopim da revolução. É claro que o pessoal militar queria fazer a revolução, à exceção dos oficiais. Por isso, eu sempre digo que a revolução de 35 foi uma revolução de cabos.
Todos os cabos do Exército participaram da revolução inclusive eu, que era rádio-telegrafista.  Sobre a soltura dos presos comuns da Casa de Detenção, onde hoje está o Centro de Turismo, já escreveram muita coisa, mas eu asseguro para você que esses presos participaram da revolução com toda garra. Os presos tiveram uma atuação decisiva. Centenas de presos foram soltos e, ao invés de irem para suas casas, para juntos de seus familiares ou “caírem do mundo”, eles foram lutar contra o pessoal da Polícia Militar,  no quartel, na rua da Salgadeira (hoje rua da Misericórdia, Cidade Alta, onde fica a Casa do Estudante do RN). Os presos lutaram corajosamente e ficaram aqui até o fim da Revolução, isto é, ao final da tarde de terça-feira, dia 26, quando começou  a debandada geral. No dia 27, não tinha mais ninguém. Como não tinha mais nenhum dirigente revolucionário em Natal, os presos resolveram “cair no mundo”, afirmou João Wanderley.

A PRISÃO VIROU ACADEMIA

Ele disse que a sua prisão, em virtude de sua participação na revolução como rádio-telegrafista, ocorreu quando estava completando 17 anos de idade (no papel, sua idade era 19 anos), “O 21º BC era comandando por um oficial gaúcho, grandalhão e bonachão.  Um dia depois da revolução, eu fui preso no quartel. O oficial chegou para mim e perguntou: “Mas, rapaz, você foi um dos tais?”. Eu respondi na hora: “Fui revolucionário”.  Me prenderam na hora e jogaram numa alvarenga que estava no porto, o Butiá, onde passamos o dia sob o sol quente. Depois fomos para Recife onde ficamos trancafiados numa prisão imunda, a Casa de Detenção. Lá, vi, dezenas de vezes, o sargento Quintino deitado numa rede, se balançando e calado. Passava dias sem dizer uma palavra. A prisão em Recife foi uma verdadeira escola, pois quem não era e queria, virou comunista. Quem era comunista e não queria mais saber de comunismo, abandonou tudo e virou anticomunista. A Casa de Detenção do Recife foi transformada uma verdadeira academia de marxismo.  Por incrível que pareça, nas celas se ministravam verdadeiros cursos de marxismo. Tinha professor e tudo o que uma academia tem. Mas isso aconteceu depois que a repressão diminuiu. Lá, a gente ficava sabendo de tudo o que se passava no mundo.  Mas nunca soubemos quem foi o agente do Partido Comunista que veio do Rio de Janeiro para dar a ordem de deflagração da revolução em Natal. O PCB chegou a fazer um verdadeiro inquérito na Casa de Detenção do Recife para descobrir quem foi esse homem que chegou em Natal, dando ordens para todo mundo, que precipitou os acontecimentos. Naquele tempo, o partido era tão frágil, o pessoal era tão verde, imaturo, que todo mundo não desconfiou desse homem que chegou dando ordens à torto e a direito. No final do inquérito, nada foi elucidado. Dizem que foi a polícia quem mandou esse homem, mas ainda é um mistério no Partido Comunista, do qual nunca fui membro. Tudo isso soube na prisão do Recife, porque eu ficava ouvindo e participando das conversas dos comunistas presos. Em tempo:  Luiz Cleodon Medeiros, natural de Currais Novos/RN, revolucionário em 1935,  em entrevista dada em 29 de agosto de 1987, disse que conheceu dois presos na cadeia de Recife, de nacionalidade russa, conhecidos por Aarão Glorenquem e Jacó Clingó. Para ele, os principais chefes do movimento foram Quintino, Giocondo, cabos Valverde, Mourão, Guerra e Ponte, além do sargento Wanderley.
Cleodon disse que o disparo que atingiu Giocondo foi acidental e o seu autor foi um recruta, imediatamente substituído por Quintino. O tiroteio na serra do Doutor, segundo Cleodon, foi na quarta-feira, dia 27. Soldado do 21 BC, participou do ataque ao Esquadrão de Cavalaria, juntamente com a soldadesca "desnorteada, sem liderança, dando tiros na rua" Disse ainda que um grupo de soldados, numa estrada de Jundiaí, município de Macaíba, esperou os sertanejos que vinham de Panelas, mas que eles não apareceram.
Sobre o tenente Rangel: por onde ia passando, levava o dinheiro das prefeituras. Tenente Roberto, do 21 BC: foi contra a revolta e ganhou a simpatia dos soldados. Luiz Albino Moreira, Abel, João Cícero, Tenente Bezerra, foram os primeiros presos no quartel do 21 BC quando estourou a rebelião. "Eles iam chegando e a gente prendendo",disse.
Foram muito atuantes na revolta, segundo Cleodon: os sargentos José, Waldemar e Eliziel Diniz Henriques, do 21 BC. O sargento Barradas era do movimento e fugiu. Preso, foi orientado a denunciar os companheiros. O interrogador principal foi o coronel Portela. "Ninguém sabia nada de comunismo, o que vim conhecer nas aulas dadas pelo Partido, na cadeia de Recife. Diziam que a revolução era nacional, trocaram a senha e deu no que deu, pois era para estourar no dia 27. O cabo Walfredo, interrogado, disse que era coisa de comunista. Idem o cabo Farias. A causa principal da revolta foi a desincorporação dos cabos e soldados na véspera. Os chefes dos  cinquenta rebeldes que foram para o Seridó, com o objetivo de dominar a região, foram os sargentos Aquino e Santos, mas o baluarte da revolução foi o segundo cabo Antonio Andrade (falecido em meados de 1998), conhecido por Totinha. Ele foi preso, sofreu muito, mas foi anistiado e retornou ao Exército como sargento. Totinha foi preso comigo no Recife. Eu tinha 3 meses de caserna, era um matuto", afirmou Cleodon. "Os civis fizeram a revolta, os militares deram a sustentação".
Ao autor, Antonio Andrade, que não quis se aprofundar no assunto, disse que se os comunistas tivessem sido os vitoriosos, o seu herói seria o soldado Cândido Mariano das Neves, que morreu no assédio ao quartel da Polícia Militar. "Foi uma luta de compadres, pois a grande maioria dos recrutas do BPM, tinha saído do 21 BC há quatro meses. Luiz Gonzaga, que era doente mental, foi morto por Sizenando, um policial civil, sem necessidade, nos mangues", disse Antonio Andrade. Em fevereiro de 1997, ele recusou-se a dar entrevista ao autor e a uma equipe da televisão GNT para uma reportagem organizada por Fernando Morais, apesar de ter prometido, alegando que  tinha sofrido muito no passsado, que era um homem idoso e não desejava novas complicações políticas.
Antonio Andrade revelou que o sargento Abel foi quem manejou a metralhadora na subida da Serra do Doutor e, após 10 rajadas, botou os civis seridoenses para correr. O sargento Cantídio também atirou com metralhadora no mesmo local e ficou perturbado depois do fracasso da revolta comunista. Em Natal, tempos depois, matou a sogra e a esposa.


NAVIOS MEXICANOS (1)

João Wanderley afirmou, ainda, que o cabo Giocondo Dias, seu companheiro e amigo de caserna, era um homem destemido e líder da revolução  de 35. “Chequei a ficar pálido e lívido quando vi Giocondo com a cabeça enfaixada. Causou muita preocupação o ferimento em Giocondo, pois ele era um dos cabeças do movimento”, relembra Wanderley.
Sobre os navios mexicanos surtos no Rio Potengi, perto do porto de Natal durante a Revolução de 35, nos quais alguns auxiliares do Governador Rafael Fernandes se refugiaram, além de vários oficiais do Exército, João Wanderley disse que se lembra dos oficiais da Marinha Mexicana que procuraram comida na Vila Cicinato, sede da Junta Revolucionária Popular. (2)
Os oficiais  desceram dos seus navios e vieram comprar comida. O governo da revolução mandou que eles tirassem alimentos na Casa Machado. Eles tiraram os alimentos que precisavam e depois perguntaram: “quanto paga? quanto paga?”.  Quintino respondeu:  “não paga nada. Querem mais? Se quiserem, podem levar mais”. Eles ficaram alegres e foram embora para os seus três navios, pequenos e branquinhos.  Não eram cinco navios, eram três, afirma João Wanderley, sargento da reserva não remunerada do Exército.


AS FACADAS EM GIOCONDO

Na casa de Detenção do Recife chegou a informação de que uma mulher tentou transar com ele. Giocondo recusou porque estava sendo obsequiado pelo dono da fazenda. Ela, então, acusou Giocondo de tentar seduzi-la. Mas Giocondo sempre negou essa versão. Eu acredito na versão de Giocondo porque ele sempre foi um rapaz sincero, honesto e corajoso. Acho que ele não seria capaz de trair um amigo. Tudo isso eu soube na prisão através de membros do Partido Comunista. Pessoalmente, não conversei com Giocondo sobre esse fato, pois a última vez que vi Giocondo foi durante a revolução de 35, disse João Wanderley.
Ele confirma que Giocondo recebeu 17 cutiladas de faca e punhal em diversas parte do corpo, desferidas por Paulo Teixeira, um fazendeiro residente no município de Lages-RN (hoje Jardim de Angicos), na localidade em que está encravada a Fazenda Primavera, que pertenceu a Alzira Soriano, a primeira prefeita da América do Sul. (3).
Ao contrário do que noticiamos em outra reportagem o cabo Giocondo Dias não foi salvo pelo sargento Genésio Cabral (existia um Genésio Cabral de Lima, na Polícia Militar), mas por Genésio Cabral de Macedo.
O ‘salvador” de Giocondo não era da PM. Era comerciante. Segundo informações prestadas por Fátima Cabral, filha de Genésio Cabral de Macedo, o seu pai nasceu no dia 28 de agosto de 1905 e faleceu a 26 de janeiro de 1976. Passou a infância em Touros e Santana do Matos, onde negociou com algodão. Viajava muito pelos municípios de Currais Novos, Santana do Matos, Lages e Angicos, como gerente-sócio da firma “João Câmara Indústria e Comércio S.A.”.
Genésio Cabral de Macedo foi juiz Municipal e vice-prefeito do distrito de São Romão (F. Pedroza). Foi presidente do Banco do Estado do RN, no governo José Varela. Deputado Estadual em duas legislaturas, dirigentes do PSD e 1º Secretário da Assembléia Legislativa. Secretário da  Fazenda no governo Dinarte Mariz, aposentando-se como Superintendente de Fiscalização (Aluízio Alves colocou-o em disponibilidade). Aposentado, ainda foi prefeito de São Rafael e Santana do Matos.
Segundo a filha de Genésio C. de Macedo, é verdade que Giocondo Dias, homiziado na Fazenda Primavera, pelo seu amigo Paulo Teixeira, recebeu 18 cutiladas. (4) O fato foi presenciado por Nezinho Procópio, Capitão João Pedro, delegado de Polícia de Lages e autor da prisão de Giocondo Dias. “Giocondo não foi morto porque meu pai chegou na hora h. Giocondo estava amarrado numa árvore e sendo esfaqueado pelo amigo furioso”, contou Fátima. Ela disse ao repórter que essas informações foram transmitidas pelos seus pais. O desembargador aposentado João Maria Furtado, no seu livro “Vertentes” registra superficialmente esse evento. O médico Onofre Lopes da Silva foi quem tratou dos ferimentos de Giocondo. O agressor, Paulo Teixeira, autor das facadas,  andou armado, em Macaíba, ao lado de Giocondo Dias, Cabo do Exército, durante a insurreição, segundo J. M. Furtado (“Vertentes, página 142). (5)


NOTAS:


1-     Os navios mexicanos, “avisos”, eram similares, em tamanho às atuais corvetas. Tinham reduzidas tripulações.

2-        A casa da Vila Cinccinato, antiga residência oficial do Governador do Estado, localizava-se na rua Trairi, defronte ao Palácio dos Esportes “Djalma Maranhão”. Na década de 70 funcionou como sede da Secretaria da Educação e Cultura do Estado e, mais tarde, Centro de Ensino Supletivo e Centro de Educação Especial (superdotados).

3-     A jornalista Heloísa Galvão, que integrou o Diário de Natal, pesquisou sobre Alzira Soriano, segundo notícia  publicada na edição de 05.08.1987 e publicou livro em Natal sobre  a primeira mulher eleita prefeita no Brasil.

4-     Paulo Teixeira, irmão de Luíza Alzira Teixeira de Vasconcelos Soriano, em entrevista ao jornalista Carlos Lyra (Memória Viva, Nossa Editora, Natal, 1987, p. 196 e seguintes) conta que Giocondo Dias e o cabo Adalberto efetuaram a transferência dos auxiliares do governador Rafael Fernandes para o navio mexicano G-24, Alzira Soriano convenceu Paulo a abrigar Giocondo na Fazenda Primavera, município de Lages, hoje Jardim de Angicos.  Paulo Teixeira desmente que tenha amarrado e dado 17 facadas em Giocondo. Segundo informações prestadas por familiares de P. Teixeira, Giocondo era amigo dele, inclusive bebiam juntos nos bares de Natal, enquanto Guiomar Matos, irmã do então deputado Pedro Matos, vivia na Fazenda Primavera.
Eis trecho da entrevista de Paulo Teixeira a Carlos Lyra:
“PAULO TEIXEIRA - Não, não o conhecia. Houve esse entendimento da família de Luís Júlio com Alzira, e levaram Giocondo para a minha fazenda. Bem, depois de algum tempo, alguns dias, quando chegou em casa (eu tinha uma turma de muita confiança, na fazenda), começaram a me contar umas tantas coisas. Então, pedi:
- Bem, eu sou um homem de negócio, vivo fora de casa, vocês dêem cobertura a isso.
Até quem um dia, um dos moradores me disse:

- “Seu” Paulo, tá havendo isso, isso... (entendimentos dele com minha mulher).

E então perguntei a ela, que já sabia das minhas atitudes, que eram bastante duras, e Guiomar me respondeu:

- Não! Ele procura me conquistar...

Mas, eu que sou um homem que não acredita nessas coisas, sempre tenho desconfiança de mulher, fui a ele, que já estava preso, atrás de fugir.

- Você não foge! Agora, você vai me contar essa história direito.

E ele, então começou a tentar me levar na conversa:
- Giocondo, eu não sou menino! Você sabe como eu sou, minhas atitudes como são.

Isso durou horas, essa conversa com ele. Ai, tomei a atitude:

- Você me perdoe, mas, agora, você vai confessar o que houve! Então, dei um golpe de punhal. Não para matar.

Queria,  apenas a confissão dele.

Carlos Lyra - Quantos golpes?

P. Teixeira - Uns quatro golpes?

Carlos Lyra - Onde?

P. Teixeira - Um no rosto (maçã do rosto), um debaixo do braço (axila), esse foi o mais grave, e outros pela barriga. Tudo isso, beliscão, como se diz: beliscão para exigir confissão. Mas, como ele não queria de maneira nenhuma... apliquei.. esse foi o mais grave! - o último na barriga. Ele, então:

- Não me mate, que eu confesso!  Aí, chamei uns três cabras de testemunha, e ele contou toda a história. Era o que eu queria: disse que estava sendo conquistado. Nisso, gritam e me chamam: alarme na fazenda, que mamãe estava morrendo, essas coisas... Corro até onde estava minha mãe, dei uma injeção nela, e saí dizendo:

- Agora, vou tomar minha atitude. Num momento desse, eu estava louco, mas, minha mulher já tinha fugido para a casa de um morador. Eu sabia que ela estava lá. Procurei, mas ela, nesse meio tempo (parece que o morador facilitou a ida), pegou um caminhão na estrada e fugiu. E, finalmente, ficou nisso. No outro dia, minha mãe nervosa, eu disse: - Passe um telegrama ao tenente João Pedro, que é autoridade, para vir buscar esse homem.
Ausentei-me de casa. Então, chegou um carro com João Pedro, Nezinho Procópio, Olinto Procópio, Genésio Cabral de Macedo e levaram o homem. O negócio foi este.

João Medeiros - E essa história de você ter amarrado o homem?
P. Teixeira - Mentira! É uma mentira. Eu não amarrei o homem, e nem ninguém salvou ele. A questão é que tomei a atitude, porque queria a confissão dele. Logo que houve a confissão, eu precisava que ele vivesse. Minha honra estava em jogo e eu precisava de uma defesa. Depois, fui acusado, respondi júri, e fui absolvido. Meu advogado foi Manoel Varela, que foi, também, que me convenceu, lá, para fazer um desquite amigável, porque no processo eu estava com toda a razão”.

5-     No seu livro “Vertentes” Gráfica Olímpica Editora Ltda, 1976, Rio de Janeiro, página 141-142) o desembargador aposentado João Maria Furtado, conta o seguinte: “Em Macaíba, por exemplo, Paulo Teixeira, populista de prestígio em Lages, onde era proprietário, entrou à frente dos revoltosos que estabeleceram num salão térreo de um sobrado seu quartel general. E em cima permaneceu João Severiano da Câmara, amigo de Paulo Teixeira, que saíra de Baixa-Verde. Ficou resguardado perfeitamente. E como, quando dos depoimentos tomados ali, apareceu o nome de Paulo Teixeira, o escrivão Cornélio Leite, propositadamente (já tinha uma péssima letra) a fez tão ilegível que não pode depois serem decifrados muitos trechos do que fora escrito.
Tantos envolvimentos teve esse populista Paulo Teixeira na revolta (nada sofreu e nem seu nome sequer apareceu em processo) que levou um dos principais elementos militares revoltosos para uma de suas fazendas em Lages, o cabo Giocondo, depois militante ativo do Partido Comunista Brasileiro. Lá ficou ele ao abrigo de prisão durante mais de um ano. Posteriormente, porém, se desavindo com o proprietário, depois de uma tentativa de morte em que o protegido foi ferido a punhal, foi entregue à Polícia”.
Na página 160, João Maria Furtado, registra mais o seguinte: “Tenho, desde 1935, com dados da época e não pelo registro de memória, uma lista desses “populistas”- adeptos do Partido Popular - que elegeu o governador Rafael Fernandes, com pormenorização de fatos e circunstâncias elucidativas da participação de cada um na revolta vermelha naquele ano. Com relação, por exemplo, a  Paulo Teixeira, além do que foi narrado anteriormente, ele andou de metralhadora em punho, juntamente com o cabo Giocondo, do 21º BC, em Macaíba, ambos se havendo hospedado na residência de Mesquita Filho, chefe político populista ali”.


A VERSÃO DO DIRIGENTE DO PCB SOBRE AS CAUSAS QUE PROVOCARAM A INSURREIÇÃO DE NOVEMBRO DE 35 (I).


Para o secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro, o baiano Giocondo Gerbasi Alves Dias, ex-cabo do Exército, do 21º Batalhão de Caçadores de Natal, que perdeu uma cunhada na entrada do quartel da Polícia Militar, na insurreição de novembro de 1935 , a revolta foi precipitada.
Em 1981, Giocondo concedeu entrevista a três jornalistas de São Paulo (José Paulo Netto, Luiz Arturo Obojes e Regis Fratti, da “Voz da Unidade”, cujo extrato foi publicado no livro “Giocondo Dias. Os Objetivos dos Comunistas”. Na entrevista, Giocondo diz que a Aliança Nacional Libertadora não foi instrumento do PCB para realizar a revolução de novembro de 35.
Depois de explicar a situação política e social do Brasil nos anos 30, Giocondo afirma que a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder conseguiu mudar o país, apesar da estrutura da sociedade não ter sido tocada.
“Criou-se uma situação onde os setores que preponderavam no aparelho do Estado foram afastados, outros subiram. E estes processos nunca se dão de forma pacífica, sempre ocorre algum tipo de quebra da hierarquia, sempre os de “baixo” encontram alguma fenda para a sua ação. Vejam bem: a Revolução de 30 trouxe consigo uma situação de tumulto, de caos, não só no aparelho do Estado mas, principalmente nas Forças Armadas. Se não prestarmos atenção a estes aparentes detalhes, vamos pensar que o movimento de 35 foi fruto da vontade e da ação de uns poucos indivíduos, ou da ANL, ou mesmo do Partido. Para ilustrar melhor, vou dar exemplos lá no Rio Grande do Norte, cujo processo acompanhei de perto.

- Quantos anos de PCB  você  tinha,  na  época?

Giocondo - Eu tinha cerca de um ano e meio de partido - ainda não era marxista, não tinha lido nenhum livro marxista. Bem, a Revolução de 30 trouxe para as Forças Armadas uma situação caótica. No processo de conspiração, cabos, sargentos, e tenentes passaram a exercer funções nos quadros das Forças Armadas, muito acima de sua graduação real. Houve cabos promovidos, comissionados a sargentos, segundo-tenente e outros postos. Sargentos foram guindados ao posto de capitão e houve casos até de capitães promovidos a general de brigada, como, por exemplo, o Juarez Távora, que praticamente passou a ser “vice-rei” do Nordeste. Ele decidia sobre os destinos dos coronéis, dos generais - tudo, lá no Nordeste, era ele que decidia...

- Isto alterou completamente a estrutura de comando das Forças Armadas...

Giocondo - É. Por outro lado, a Revolução de 30 era a esperança de grandes parcelas da população...

- Você está dizendo que houve grande participação popular?

Giocondo - Exatamente. Ela teve no seu desenvolvimento um forte componente popular, que depois não se refletiu em seus efeitos. Isso trouxe uma grande decepção para a massa e desencanto aos que participaram diretamente do processo. Isto tem a ver com o que eu coloquei antes, a respeito da hierarquia. No processo de estabilização do poder oriundo de 30, houve a tentativa de voltar à situação anterior, em particular no Exército. Imaginem: o indivíduo participa, atinge o grau de capitão e depois da vitória o máximo que consegue - e com grande esforço - é tornar-se tenente comissionado.

- As pessoas foram rebaixadas?

Giocondo - Foram. Exatamente essa parte da história não é contada. Afinal é mais fácil propagar o anticomunismo do que explicar a base real do descontentamento na corporação... Vou fazer um pequeno relato, embora superficial, do que eu via, como cabo. Após a revolução de 30, progressivamente, a elite dirigente foi recuperando, retomando o poder, mesmo que não pudesse fazer as coisas retrocederem à situação de antes de 30. Uma de suas principais “frentes de restauração”, eram as Forçar Armadas. Esta situação de mudança/restauração foi criando uma instabilidade, uma quebra de hierarquia, já citada por mim anteriormente.  Por outro lado, os homens que haviam se destacado em 30 passaram, em muitos casos, a serem pessoas de prestígio em seus Estados. Juarez Távora, que passou a mandar no Nordeste; Sergipe foi entregue a Mainard Gomes, tenente, que foi um dos chefes do movimento Pernambuco, vejam vocês, ficou sob a influência de Carlos de Lima Cavalcanti, que era usineiro, um dos corifeus de 30. Mas, por outro lado, o que é que aconteceu? Aqueles cabos e sargentos que participaram como oficiais, quando se tentou restabelecer a hierarquia, chegaram ao máximo, à situação de segundos-tenentes comissionados no batalhão. Resultado: imediatamente desentenderam-se com o Carlos de Lima e surgiu o movimento do 21º Batalhão de Caçadores, de 1931.

- Foram derrotados?

Giocondo - De fato. No Recife, em 1931, o 21º Batalhão de Caçadores, comandados por tenentes comissionados, pelos tenentes Passos e Hélio Coutinho,  além de vários outros -, levantou-se contra o Carlos de Lima Cavalcanti. Foram derrotados e deportados para Fernando de Noronha. No Piauí, os cabos se levantaram, tomaram conta do batalhão e do Governo do Estado. Isso entre 31 e 32, não sei precisar bem a data. Mas eu sei os nomes dos cabos que comandaram o movimento e governaram o Piauí durante alguns dias: Cabo Aluísio e Cabo Amador. O batalhão de Manaus levantou-se nesse mesmo período. Todos esses dados são escamoteados, faz-se questão de apagá-los da História do Brasil. Não se fala da situação do Exército de 30 e 35, das figuras e da agitação no aparelho militar. Se esses dados são ocultados, fica mais fácil tentar descaracterizar o Novembro de 35...

- Mas essa agitação era fruto apenas da quebra da hierarquia?

Giocondo- Não.  O pano de fundo  era insatisfação econômico-social, a decepção profunda com os rumos globais tomados pelo movimento de 30. Por exemplo, Agildo Barata foi um dos comandantes de 30. Ele - com outros combatentes - acabou vindo para a ANL; antes disso, havia participado do movimento constitucionalista de 1932. Este é um caso, mas há outros. A decepção com os rumos que a coisa havia tomado levou estes homens a quê? A procurar uma saída, uma saída que, efetivamente, enfrentasse os problemas que o processo de 30 não tinha resolvido; a dependência ao imperialismo, a questão agrária, etc. Estes homens não eram comunistas.

- E a situação do Rio Grande do Norte na época?

Giocondo - no Rio Grande do Norte, entre 30 e 35 - ou melhor, até a eleição do governador, em 34 - passaram cerca de 8 interventores. Lembro-me dos nomes de alguns: Hercolino Cascardo, Irineu Jofily, Aluísio Moura, Bertino Dutra e Mário Câmara... No caso do RN, há uma característica interessante: as forças civis que participaram do movimento de 30 tinham uma forte base popular. O Café Filho, vejam vocês, era um homem bastante popular, talvez dos mais radicais.

- E qual foi a posição deles em 1935?

Giocondo - Ele, pessoalmente, não aderiu ao movimento de 35, mas os cafeístas foram a grande base de massas da insurreição de Natal. Isto tem uma explicação: por exemplo, quando subia um interventor ligado às forças que dominavam antes de 30, os perréis...

- O que é isto?

Giocondo - Perréis, vem de Partido Republicano. Essa gente, que vinha de antes de 30, passou a disputar com o Café Filho a liderança do Estado. Chegado o momento em que Café Filho era alijado, a conseqüência era a mudança de toda a oficialidade da polícia. Então criava-se o seguinte: a polícia do Rio Grande do Norte tinha duas oficialidades, uma para quando subiam os perréis, outras para os cafeístas. Outro exemplo é a Guarda Civil. Quando Mário Câmara, interventor ligado às forças cafeístas, é substituído pelo Rafael Fernandes, que foi eleito governador, passaram a dominar as forças ligadas ao latifúndio, à elite dirigente do Rio Grande do Norte, aos perréis, ao pessoal de Mossoró, donos de salinas, das fazendas de algodão lá dos Seridós... Aí dissolveram a Guarda Civil, que era cafeísta e mudou toda a oficialidade da polícia.

- Um festival...
Giocondo - Claro. Havia uma grande instabilidade, permanente.  E o que acontecia?  Os políticos, tanto os cafeístas, como os perréis, trabalhavam a oficialidade do batalhão. Por exemplo, o capitão Everardo Barros de Vasconcelos, que depois foi general, era homem ligado aos perréis. Aluísio Moura, outro capitão, era ora ligado aos perréis, ora aos cafeístas, e assim por diante. Por outro lado, Café Filho, ao lado do apoio popular, era apoiado pelos Saldanha, pelo Benedito Saldanha, pelo Aristides Saldanha, que eram verdadeiros senhores feudais. Tinham um autêntico exército, forças que giravam em torno de 500 jagunços, à disposição deles. Conseguiram manter este status quo exatamente na medida que apoiaram a Revolução de 30.

- Nós, cabos, que já estávamos no movimento da ANL, abortamos um movimento da oficialidade para depor Mário Câmara, que era interventor. Daí decorreu que tiveram de intervir no batalhão. Foi para lá um major, Veríssimo, saber dos oficiais quais os que respeitavam a autoridade do interventor. Os que não respeitavam foram transferidos. Havia uma situação na qual a hierarquia não funcionava. E no caso específico do batalhão a coisa era mais séria ainda.  Por que?

Giocondo - Pelo seguinte: o 21º Batalhão de Caçadores era de Pernambuco... Como eu disse, o movimento de 31 foi dissolvido. Quase todo o efetivo foi para Fernando de Noronha. Depois disto, ele foi reorganizado, e foi aí que eu entrei nele. Quando cheguei lá, o que eu vi nas paredes foi “viva o comunismo”, “viva Luís Carlos Prestes”, e outras coisas do tipo. Vejam bem, nós, recrutas, entrando num ambiente deste tipo.  Giocondo contou que o 29º BC, de Natal, foi transferido para Recife e o 21º BC, que estava na Foz do Içá, Tocantins, no Amazonas, veio para Natal. “Um batalhão escalado na luta paulista de 32, sobrevivente da selva amazônica... Nós éramos elementos efetivamente dispostos a qualquer ação que se voltasse contra o status quo. Em Manaus, nós chegamos a nos reunir e conspirar para não saltar em Natal. Quando o navio chegasse ao porto nós nos levantaríamos, jogaríamos a oficialidade no mar... Na hora H foi dada a última forma e nós desembarcamos. Agora imaginem: chega a tropa em Natal, revoltada, e encontra um ambiente político onde várias facções procuram influir na vida do batalhão e utilizar a oficialidade para seus objetivos. E, como eu disse, isto vinha desde 30: se o interventor tinha o apoio do batalhão, ficava: se não tinha, saía. E isto tudo, como eu caracterizei anteriormente, combina-se a uma total desestabilização da hierarquia. Estava formado o caldo de cultura para 35.

- Como chegou ao RN a idéia da ANL?

Giocondo - No contexto desta efervescência, surge em todo o Brasil a Aliança Nacional Libertadora, um movimento de massa, com grande conteúdo popular. No Rio Grande do Norte, as forças que apoiavam o Café Filho passaram para o lado da ANL, que conseguiu, inclusive, o apoio de certos setores da situação.  Nós mesmos tínhamos contato com oficiais da polícia que eram simpáticos à ANL.

- E o integralismo, chegou a ter influência junto à tropa?

Giocondo - Não, junto à tropa, não. Talvez um pouco na oficialidade. Mas voltando à ANL e às relações do 21º BC com a polícia, mesmo no batalhão da polícia, havia cafeístas e adeptos da ANL. Colocada esta na ilegalidade, a coisa passou para o terreno conspirativo”. (final da 1ª parte da entrevista de Gioconco sobre a situação política do RN em 35).