APRESENTAÇÃO
Luiz Gonzaga Cortez é
jornalista profissional, um dos fundadores da Cooperativa dos Jornalistas de
Natal Ltda. – Coojornat e integrante do Sindicato dos Jornalistas Profissionais
do Rio Grande do Norte. É formado em
Comunicação Social (bacharelado em jornalismo)
pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foi repórter político, de polícia e de cidades
dos jornais “Diário de Natal” e “Tribuna do Norte” (editor de polícia) e editor
geral do extinto semanário “Dois Pontos”, de Natal-RN.
Foi o ganhador do Concurso
de Reportagens “Elias Souto”, da Fundação José Augusto, por três vezes
consecutivas (1984, 1985 e 1987), com as reportagens “A Pequena História do
Integralismo do RN”, “O Comunismo e as
Lutas Políticas do RN na Década de 30” e “Luiz Maranhão, mártir do povo”
(revista Flagrantes-Out/87).
Livros do autor:
Pequena História do Integralismo no RN – Co-edição da Fundação José
Augusto—Clima – Natal – 1986
Cientistas e Pesquisadores Norte-rio-grandenses – Co-edição da Editora
da UFRN – Federação das Indústrias do
RN-Diário de Natal – IEL – CLIMA – Natal – 1983
Câmara Cascudo, jornalista integralista. Em parceria com o Centro de Ciências Humanas,
Letras e Artes – CCHLA, da UFRN. Natal –
1995.
Em preparo: Campanha de
Alfabetização de Adultos de Angicos (Método Paulo Freire). Reportagens.Prêmio
Ubirajara Macedo de Jornalismo – Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RN
(1993).
Histórias da resistência ao regime militar. Reportagens publicadas na
“Tribuna do Norte” – Natal/Rn (1992).
ESCLARECIMENTOS
Este livro reúne 20 reportagens publicadas no semanário natalense “O
POTI”, entre 26.05.85 a 24.11.85, intituladas “O Comunismo e as lutas políticas
do RN na década de 30”. A série de reportagens concorreu ao prêmio-concurso
‘Elias Souto”, da Fundação José Augusto, em 1985, obtendo o 1º lugar.
Além das vinte reportagens, o autor adicionou outras matérias sobre a
insurreição comunista em Natal e o tiroteio na Serra do Doutor, local do
enfrentamento de rebeldes e civis armados por fazendeiros e políticos
conservadores, inclusive integralistas.
Para efeito de comparação com depoimentos prestados por participantes e
testemunhas dos acontecimentos de novembro de 35 no RN, o autor transcreveu
trechos do depoimento de Giocondo Dias, ex-cabo do 21º BC, publicado no livro “Objetivos dos
Comunistas”, p. 141, “1935, Novembro: O Levante de Natal”. (Editora Novos Rumos
Ltda., São Paulo, 1983).
O autor
SUMÁRIO
I.
Gastão queria derrubar governo em
35............................24
II.
Ex-cabo do 21º BC quase mata vinte
..............................33
III.
Mário Câmara não topou a
revolução..............................45
IV.
Giocondo quase morre com 17
facadas............................56
V.
A versão do dirigente do PCB sobre as causas que provocaram a insurreição
de novembro de 35.................76
VI.
Dias: Igreja não
combateu o levante...............................87
VII.
Dias. Errei ao
mandar fuzilar três..................................111
VIII. Em
35, os coronéis fugiram da luta................................119
IX.
Na Serra do Doutor não houve
vitória............................127
X.
Médico
foi o comandante da revolução no agreste........133
XI.
Bancário entregou muita gente em
35...............................................145
XII.
Muita confusão e traição na intentona...........................161
XIII. Agente
da polícia antecipou a revolta............................170
XIV. O
fim da revolução pareceu carnaval.............................183
XV.
Veterano comunista diz que 35 foi uma
precipitação....198
XVI. Jornal
oficial não registrou “herói”................................211
XVII.
O chefe da polícia caiu numa
cilada...............................223
XVIII. Adulteraram o relatório da
insurreição...........................235
XIX. Na
Praia do Meio se tramou a revolta............................240
XX.
Havia até dentista entre os
presos...................................285
Anexos............................................................................298
I.
Complementos de apontamentos sobre a novembrada...300
II.
O “herói”do caso
........................................................304
III.
Herói da
pantomima.......................................................306
IV.
Serra do Doutor: as versões sobre a “Batalha de
Itararé”............................................................................317
V.
Um episódio sempre
distorcido......................................332
VI.
Otto Guerra: Igreja não foi conivente com a insurreição
........................................................................................342
VII. Padre
registrou insurreição no dia da . ...........padroeira.....................
................................................... 357
VIII
Medeiros se defende
(carta)...........................................367
IX
Ex-companheiro fala sobre Djalma Maranhão..............374
Prefácio
Por Eduardo Maffei
A Ideologia
Alemã fora escrita, como viria a ser o Manifesto Comunista por Marx e Engels.
Onze anos depois da publicação desta, ainda os manuscritos de colaboração não
se haviam transformado em livro.
Marx, então, em 1859, diria que “circunstâncias diversas” haviam impedido sua
publicação, pelo que ambos abandonaram o projeto editorial, entregando os
manuscritos “à crítica roedora dos ratos”, como disse Marx. Felizmente isso não
aconteceu porque, em 1932, 73 anos depois, foi publicado em alemão, violando o
ineditismo, pelo Instituto de Marxismo Leninismo de Moscou. Se não fora essa circunstância feliz, não
poderíamos vir a saber da única caracterização científica do que representa a
História. Destacando o papel da mesma escreveram: “Conhecemos apenas uma ciência, a ciência da História. A História pode
ser examinada sob dois aspectos: história da natureza e história dos homens. Os
dois aspectos, contudo, não são separáveis: enquanto existirem homens, a
história da natureza e a história dos homens se condicionarão reciprocamente.
Desde, entretanto, que a sociedade se dividiu em
classes, remontando ao princípio dos acontecimentos, criaram-se, de acordo com
os interesses dessa divisão, dois tipos de história. Uma, a oficial, ao sabor
das classes dominantes que ignora o povo que a faz, deixando-o à sombra dos
figurões, da crônica de fatos, eivada de datas e nomes como acontece com a
Bíblia e dos faraós. Essa crônica foi que a conferiu a Herodoto o cognome de
Pai da História. Aconteceu, entretanto, só com Tulcídedes, história passou a ser tratada como
ciência e não como crônica. Em sua História
esse sábio grego, cuidando das guerras do Peloponeso, de tão precisa e tal
forma abordou a Peste de Atenas,
doença avassalante já extinta, que é ao seu livro que os médicos e
epidemilogistas recorrem para estudá-la, ignorando Hipócrates que a assistiu e,
mesmo considerado o Pai da Medicina, nada de válido deixou sobre ela, não
percebendo o que representava. Os cronistas herodoticos, e Hipócrates entre
eles, preocuparam-se em assinalar a morte de uma vítima ilustre dessa peste,
Péricles, mas não a estudaram.
Há portanto, desde há muito, duas histórias. Uma,
a oficial e outra, ciência, que, infelizmente, em virtude do mascaramento
oficialista, só pode ser feita, na maioria dos casos, sob prospecção. Reza a
sabedoria hindu que a verdade é, como a luz, branca. Que uma vez decomposta
pelo prisma adquire as sete cores do arco-íris. E a cada mais tempo que o mundo
acontece, a oficial vai mascarando os acontecimentos à sua imagem e semelhança.
E há então tantas verdades que não dizem respeito à verdade. No que se refere à
intentona, esse mascaramento sedimentou muita mentira. Ainda recentemente,
defendendo na UNICAMP, uma tese sobre o PCB e a Internacional Comunista, o
historiador herodotico Paulo Sérgio Pinheiro, tomando partido, investiu contra
a lógica dos fatos, estabelecendo a sua verdade mascarada oficial, fazendo por
ignorar que, em História, é do nosso dever, considerar a verdade, liberta de
preconceitos, como uma imposição de honestidade indispensável para a elaboração
de uma consciência crítica e positiva. A simples triagem da documentação
existente, com opiniões contraditórias, sobre a intentona, demonstra que o
levantamento da verdade tulcídidica materialista, impessoal, está por ser
feita. Daí a importância deste livro de Luiz Gonzaga Cortez que, por procurar a
verdade, vai desgostar muita gente desmascarada que procurou edificar a
história com fanfarronice, seja o que de conservadorismo Dinarte Mariz ou de
que “companheirismo” Giocondo Dias procurou perpetuar.
No Brasil, onde as classes dominantes têm o mesmo
desprezo pelo povo que faz a História que suas congêneres d’além mar, isso se
torna mais evidente porque tem o seu núcleo central no que houver de pior em
nossa formação, os degredados. O que, por uma subconsciência histórica, explica
a extrema ferocidade do “paizinho” Getúlio e seus “filhinhos” contra os
vencidos de novembro de 1935. É celebre o fato contado por João Ribeiro em sua História
do Brasil, daquele bispo português de Leiria que assim se despedia
da escória extraditada para a colônia: “Vá degredado para o Brasil, donde
voltará rico e honrado”. Enfim é a
história oficial de gente de bem porque possui bens!... Mas essa escória
preferiu permanecer, dedicando-se ao roubo de terras aos índios e à sua
escravização. Tendo por pano de fundo o desastroso episódio das capitanias
hereditárias que deu origem à essa praga nacional, o latifúndio, mas escravista
que feudalista.
Toda a história do Brasil é caracterizada por
episódio de descompasso e subseqüente acomodação. A Independência foi uma
acomodação entre as classes dominantes lusas e nossas, tendo por denominador
comum a permanência do latifúndio. E assim, como acontece com a crosta
terrestre que, quando se descompassa em sua estrutura, origina terremotos, no
Brasil os terremotos sociais foram substituídos por mansos fenômenos de
acomodação. Orgulhamo-nos de uma história sem sangue, ignorando que ele não se
fez por acomodação. O povo de que as páginas da história oficial não tomava
conhecimento, limitando-se à mansidão do “Independência ou Morte”, continuou a
luta pelos seus direitos que se opunham ao escravismo e ao latifúndio, eixos
dos interesses do poder dominante. As lutas populares que se seguiram à
Independência, entre as quais a Balaiada no Maranhão e especialmente a Cabanagem
na Amazônia, são provas disso. A Cabanagem,
foi, realmente, a mais importante, através da qual, pela primeira vez, no
Brasil, o povo atingiu o poder, embora carente de ideologia da qual pudesse se
ter aproveitado da relação de forças existente.
A tomada do poder pelo povo repetir-se-ia no Brasil, precisamente um
século depois em Natal, em 1935. A Cabanagem, entretanto, cumpriu sua
função histórica de proporcionar a independência da Amazônia que vinha sendo
mascarada por brasileiros de parceria com os também dominantes “caramurua”,
portugueses que enchiam seus bolsos aqui, mas tinham o coração e a cabeça
naquilo que, para eles , continuava sendo o Reino, Portugal. Com todas as características de uma aventura,
a Intentona, entretanto, não cumpriu a missão a que se destinava e que, foi
utilizada, pelas classes dominantes para, através de uma campanha de calúnias,
impor a ferocidade do terror, daqueles desgraçado últimos anos 30 e primeiros
40. Os cabanos foram, também, uma vez derrotados, massacrados pela gente
luso-brasileira com extrema ferocidade, porque lutavam por uma independência
real que trouxesse uma modificação em benefício das extensas camadas populares,
índios e escravos, inclusive.
Caio Prado Jr. Em Formação do Brasil Contemporâneo,
1943, pgs. 5 e 6, explicando aquele tempo de começo do século XIX, escreveu:
“Tínhamos, naquele momento, chegado a um ponto morto. A obra colonizadora dos
portugueses, na base em que se assentava e que, em conjunto, formava aquele
sistema, esgotara suas possibilidades. Perecer ou modificar, tal era o
dilema que se apresentava ao Brasil. “Com o sete de setembro o Brasil não
perecera mas também pouco se modificara. Oficialmente se acomodara. E o
artífice dessa acomodação, quem coordenou as forças reacionárias que não
desejavam uma independência total, foi Feijó que, com sua tirania de liberdade
limitada, não pode compreender o quanto de ruim representava essa acomodação
para que tivéssemos um Brasil unido, como de acordo com os interesses
acomodatícios, moldou, mas com seu povo independente. Padecemos dessas
acomodações até hoje. Disso que se diz jeitinho brasileiro...
Duvido que não só a Internacional Comunista como o
PCB, quando se enveredaram pelo caminho da, até então renegada e condenada,
Frente Única das forças progressistas, conhecessem qualquer coisa sobre as
lutas populares brasileiras, especialmente a Cabanagem. Não se
estudava Canudos e conselheiro, mas aceitava-se o cangaço, forma degenerada de
luta, e Lampião! O que importava era a Revolução de Outubro e os sovietes,
considerados antimarxisticamente como modelos e não como simples referência
como convinha. O arquivo da Cabanagem acha-se em Belém,
praticamente virgem, sem que, até agora alguém se interessasse pelo tesouro
representando por esses documentos para o melhor conhecimento do Brasil. E, para escrever um ensaio sobre essa ilíada
paraense, tive que lançar não de processo dedutivos e de prospecção
sócio-histórica porque a melhor, e praticamente única, obra, redigida e
publicada paulatinamente em cinco volumes entre 1865 e 1890, por Domingos
Antônio Raiol, que pela Cabanagem se
interessou, porque procurava pelo seu pai que fora vereador em Vigia, morto
quando os cabanos tomaram a cidade. A obra – reeditada pela Universidade do
Pará em três volumes em 1970 – do ponto de vista da classe dominante é séria
mas tremendamente contra os cabanos, embora mantendo um mínimo respeito pelos
acontecimentos. Raiol pertencera à elite burocrática do Império, havendo
atingido o baronato. Paralelizando os dois acontecimentos populares, o livro
sob prefácio, de Luiz Gonzaga Cortez transformar-se-á num documento obrigatório
para a historiografia tulcídidica brasileira. Entrevistando muitos
sobreviventes prestou inestimável serviço à história das nossas lutas
populares.
Tudo demonstra que os marxistas (!?) do PCB e
da IC (Internacional Comunista) que
influíram decididamente no movimento que eclodiu em novembro de 1935, não
tivessem dado conta do valor da história como ciência segundo Marx e Engels,
como da importância de estudá-la e conhecê-la para lhe dar o rumo certo. Marx
estudou profundamente o episódio da Comuna de Paris para que fosse aproveitado
como experiência. Lenine fez do levante de 1905 tese e estudo experimental,
rompendo com Plekanov que fora seu mestre mas não compreendera aquele
espontaneismo dos trabalhadores russos. E Trotsky escreveria sobre esse
novembro um livro monumental: 1905. Eles transformaram a derrota
em tese para estudo. Pergunta-se: os responsáveis pelo nosso novembro de 1935
fizeram qualquer coisa parecida? Como se propunha a modificar a estrutura do
sistema econômico russo, Lenine estudou-o a fundo, escrevendo a obra O
Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia. Caio Prado
Jr. e Nelson Werneck Sodré, que melhor estudaram as condições do nosso
desenvolvimento, são quase que ignorados pela militância. Depois da derrota de
1905 a intelectualidade russa, frustrada no campo político, tal como aconteceu
e acontece entre nós, começou a se enveredar pelos atalhos do idealismo e
misticismo. Então Lenine estudou profundamente filosofia. Transformou-se num
rato de bibliotecas. Conta-se até que, muitos anos depois, já dirigente da URSS
pós outubro de 17, um funcionário de
certa biblioteca inglesa perguntava: “Porquê aquele russo, baixinho e calvo
nunca mais apareceu? Morreu?” Escreveu então sua mais extraordinária obra sobre
os princípios filosóficos do marxismo, Materialismo e Empírio-Criticismo. Pergunta-se: onde
estava e onde está a nossa frente de luta ideológica? E quando a questão de
poder se lhe apresentou, homisiado na Finlândia, escreveu algo extraordinário: O
Estado e a Revolução. Nossos marxistas, até hoje não tem uma
visão marxista do Estado brasileiro. Contentam-se com essa miscelânea dos
sociólogos que andam, por aí, nas universidades, impondo suas opiniões, quase
sempre idealistas. E quando, dias depois, retornou à Rússia, pela primeira das
duas vezes em 1917, como líder revolucionário inconteste, ao desembarcar na estação
Finlândia em Petrogrado - hoje Leningrado -, lançou as célebres Teses de Abril.
E assim, os bolchevistas, na antevéspera de se tornarem o dínamo do povo russo
a caminho do poder já sabiam o que queriam e o que podiam. No Brasil os
comunistas não sabiam, em 1935, o que queriam e nem o que podiam.
O movimento de novembro de 1935 não contava com um estudo
preliminar sobre as questões de nossa sociedade que foi esteriotipada como
feudal-burguesia, um híbrido só possível a primários. E, até hoje, acham-se
perdidos. Uns porque sendo o latifúndio a dominante, o confundem com
feudalismo, ignorando que ele, que perdera Roma - Plínio, citado por Engels,
dissera: “latinfundia perdidere Itálian”- não era feudal; era escravista. Da mesma
forma que existe um processo peculiar de produção asiático, o latifúndio moldou
um processo peculiar brasileiro. Há quem afirma e quem infirme a existência do
feudalismo como etapa do nosso desenvolvimento. Mas caberia - o que não foi
feito - aos militantes intelectuais estudar profundamente a influência do
latifúndio no emperramento da nossa evolução e conscientizar as massas.
Quando o alemão tão brasileiro como o italiano Garibaldi,
Harry Berger, ligou-se ao movimento comunista brasileiro nos anos 30 para
emprestar sua colaboração, transmitindo seus conhecimentos teóricos e sua
experiência revolucionária internacional, procurou se contactar com o movimento
camponês, partindo da premissa que o latifúndio era o peso morto fundamental de
que padecia, desde suas origens, o Brasil. Manteve uns tantos contatos com uns
poucos camponeses que a irresponsabilidade, não só de Miranda, como de todo PCB
que não se opusera às suas fanfarronices, multiplicara por milhares e milhares.
Berger era experiente. Verificou que não havia movimento camponês suficiente,
condenando qualquer movimento precipitado. Como ele outros, porque verificaram
que não havia condições revolucionárias, também se opuseram e foram
marginalizados, embora experiente, tais como Christiano Cordeiro, Heitor
Ferreira Lima, Eduardo Xavier, o Abóbora e mais que eles porque deixou sua
opinião documentada, João Barreto Leite Filho. Mas pela total inexistência de
democracia interna não foram ouvidos. Quando o levante foi irresponsavelmente
precipitado em cadeia em Natal, Recife e Rio de Janeiro os renitentes aceitaram
a, já não mais precipitação, provocação. O mesmo não aconteceu com Roberto
Morena, elemento altamente capacitado, que era dirigente em Porto Alegre.
Carregou, apesar de haver depois lutado contra o fascismo nas Brigadas
Internacionais na Guerra Civil Espanhola, a pecha de covarde porque não se
aventurara ao levante. O livro atual de Cortez é de muita importância porque
demonstra que não houve, durante os dias de domínio revolucionário no Rio Grande
do Norte, nenhuma participação camponesa favorável. Pelo contrário, a que houve foi de oposição. E também,
diferentemente do que Giocondo Dias viria a contar, a não ser meia dúzia de
cidades do Agreste, em virtude da militância de cafeistas que supunham lutar,
ao lado da oligarquia dos Câmaras, e não da ANL as tropas revolucionárias não
ocuparam dois terços do estado!
Nelson Werneck Sodré, em seu recente livro, A
Intentona Comunista de 1935, editado por Mercado Aberto, estudando, com
a fina argúcia que lhe é própria, as condições de então, concluiu: “O fato é
que no tormentoso quadro entre 1930 e 1935, não havia, no Brasil, uma
situação
revolucionária” (pg. 15). O
levante de 1935 teve todas as características golpistas e tenentistas. Seus
responsáveis acreditavam muito nos quartéis, ignorando o povo. Nem os militantes
do PCB tiveram conhecimento antecipado de sua eclosão. Foram surpreendidos. O
que, entretanto, não aconteceu com o governo que não só o esperava como auxiliou sua precipitação. Faltava, essa é que é a realidade, capacitação
política e conhecimento da realidade brasileira da parte dos dirigentes comunistas.
No livro de Cortez vamos encontrar documentos que justificam estas palavras,
especialmente no de Santa que alertou que não era “hora de se cometer qualquer
loucura”.
No citado livro, à pag 47, Nelson Werneck Sodré escreveu:
“E a decisão deveria caber, portanto, às forças que aqui lutavam. As
informações que levariam à decisão eram fornecidas pelo PCB, como era norma da
IC. À direção do PCB, pois, coube a decisão de partir para a luta armada”.
Em fins de 34 e começo de 35 a IC, em virtude dos informes apoteóticos que lhe
vinham sendo transmitidos pelo PCB, realizou muitas reuniões para ampla discussão
das possibilidades apresentadas pela situação brasileira de, através da frente
única, chegar-se à insurreição. O grupo liderado pelos capacitados e experientes
Dimitrov e Togliatti que conheciam o fascismo na pele, opôs-se à aventura, mas
foi vencido pelo encabeçado por Miranda, moleque internacional e dirigente
máximo do PCB e que atingira esse posto por manobras de audácia e aventura
políticas, Prestes que desconhecia as tropas que comandaria e pelo
temperamental - ele exigiu a aceitação de Prestes pelo PCB, que reagia (e como
estavam certos os membros do PCB!) à sua possível influência tenentista pequeno
burguesa, dando murro na mesa - Manuilski. Foi uma decisão tomada à base de
informações fantásticas.
A Aliança Nacional Libertadora lançada em 30 de março de
1935, agitou profundamente o país, tomando o caráter de conscientização das
massas, no mais empolgante movimento que a nação conhecera. Mas fora mais
criação de tenentistas inconformados com ainda grande prestígio junto ao povo,
sobretudo porque sentiam-se traídos por Getúlio, que do PCB. É verdade que
desde os primeiros instantes foram os militantes deste partido os melhores da
ANL, jogando todas suas forças no processo de agitação. E à medida que esta se
radicalizava pelas palavras de ordem avançadas demais do PCB e, especialmente,
de Prestes, a frente única estreitou-se e, depois de sua ilegalização, restrita
ao PCB que não analisou essa primeira derrota, insistindo na tese da luta
armada. O povo não mexera uma pena de protesto contra o fechamento da ANL mas,
ignorando o objetivo, o PCB passou a agir no subjetivo, confundindo aquilo que
havia sido extensa agitação com profunda organização, preparando aquilo que,
segundo frisei na conferência feita em 05-03-87, no campus da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, a convite de sua associação de docentes, a
ADURN, como episódio encerrou o ciclo do tenentismo. A intentona foi o último
ato do tenentismo. À página 91 do citado livro de Nelson Werneck Sodré, lançado
posteriormente, minhas iguais palavras aos potiguares, ecoaram como letras: “Em
tudo e por tudo”, escreveu esse historiador, “foi a derradeira manifestação do
Tenentismo inconformado com a sua marginalização e superação”.
O que é importante sobre o histórico novembro de 35 é seu
estudo cada vez mais profundo como lição. E daí a importância deste livro de
Cortez que buliu num formigueiro aparentemente extinto, cutucando o diabo com
vara curta. A Comuna de Paris teve a análise de Marx, o 1905 russo teve a
análise de Lenine. O nosso novembro ficou órfão de análises. E então aconteceu
o que ainda está acontecendo, por falta de análises. Um jogo de empurra da
derrota por quem não deveria ignorar que uma derrota bem estudada já é meio
caminho andado para a vitória. O PCB em novembro de 1935 não se achava
preparado nem para a vitória; o governo contra o qual lutava, sim. Ainda
fumegavam as armas quando se desencadeou a campanha de calúnias adrede
preparada. Que moças haviam sido violentadas, que os comunistas cometeram
excesso contra inocentes. As reportagens de Cortez demonstram como o getulismo
se cevou de calúnias. E, enquanto isso, assassinava presos indefesos,
amplamente derrotados, nas grotas de Currais Novos. Malvino Reis, no Recife,
também fuzilou inermes prisioneiros sem qualquer julgamento. Mas em Natal,
Cortez demonstra que ninguém foi morto, enquanto dormia, por camaradas de
armas. Como de resto, embora essa calúnia seja assoalhada, à cada terroristica
comemoração pelas forças vitoriosas, todos os 27 de novembro, ninguém disse até
hoje o nome da vítima, do algoz e onde isso aconteceu. Agildo Barata conta, em
seu livro Vida de um Revolucionário, como encostou na parede Adauto Lúcio
Cardoso e Carlos de Lacerda nos seus tempos de vereança no Distrito Federal do
Rio de Janeiro. Está em ata da Câmara de Vereadores a retratação de Cardoso e
Lacerda. Mas, tão pronto livres de quem os desafiasse, esses dois
anti-getulistas voltaram a propagar as calúnias.. getulistas! E foram muito
bons assoalhadores. Nunca Getúlio teve aliados no campo da calúnia tão eficazes
como esses dois! E em Natal, conforme documenta Cortez, até a gente “bem” que
assistia uma solenidade junto com o
governador, foi escoltada, com segurança e respeito, para suas residências nos
bairros chiques.
Conta Renan, se não me engano, nos Os Evangelhos, um dos
seus livros sobre as origens do cristianismo, estranhando a uniformidade, quase
que decalcada, das diferentes narrativas, que era de se colocar em dúvida que
os Evangelhos tivessem sido escritos por quatro pessoas diferentes. E se perguntássemos
a diferentes veteranos das campanhas napoleônicas pela seqüência das batalhas
empenhadas, haveria um baralhamento de datas. Luiz Gonzaga Cortez, através de
suas entrevistas enfeixadas neste livro, com os participantes do movimento em
Natal, prestou inestimável serviço para elucidação de fatos importantes. O
“valente” Dinarte Mariz covarde e simplesmente fugiu; Giocondo Dias quando
viria a afirmar que eles, os revolucionários, haviam tomado conta de dois
terços do estado, dava vazão à mitomania. Gastão Costa Nunes que se confessa,
até hoje, 81 anos, medularmente anticomunista, “fanático seguidor de Café
Filho, queria lutar para derrubar o governo”. Foi, depois de preso, parar na
Ilha Grande onde diz ter feito amizade com Luiz Carlos Prestes etc. Prestes
nunca esteve preso na Ilha Grande! Mas, embora esses lapsos de depoentes, dos
quais se originam as lendas, em mãos de um estudioso do episódio, este livro é
de muito valor. Quem viver verá.
Desde o primeiro dia, como se já tivessem a palavra no
arsenal de guerra psicológica, o movimento foi qualificado de intentona. E
desde então os revolucionários puseram-se na defensiva também com respeito a
essa qualificação. Pois bem, os dicionaristas, denominam de intentona qualquer
intento louco e o intento de novembro de 1935 foi realmente louco. Marx não
renegou os comunardos quando apelidou a Comuna de Paris como “assalto ao céu
por bravos loucos”. Para os revolucionários brasileiros a expressão intentona -
e é preciso que se dê legitimidade a esse termo - deve ser entendida como os
patriotas brasileiros entenderam Tiradentes - que, aliás, foi vilipendiado por
Getúlio Vargas quando transformou o 21 de abril em Dia da Polícia - e a
Inconfidência. E, inconfidência, significa deslealdade ou infidelidade. O que
dá nobreza às palavras são os fatos que com elas tentam menosprezar ou
menoscabar. E, então, a menos que se aceite o menoscabo, ou se considere
desprezível, porque não intento louco, intentona?
Eduardo
Maffei
OBS: Este texto foi escrito em 1987.
Eduardo Maffei foi médico, polígrafo e historiador, autor da tetratologia
Maria da Greve e o Etopeu (A Greve, Maria da Greve, Vidas sem Norte, A Morte do
Sapateiro) além do depoimento-histórico A Batalha da Praça da Sé. Integrou o Conselho Consultivo da Revista dos
Profissionais de História do Rio Grande do Sul, História - ensino e pesquisa.
GASTÃO
QUERIA DERRUBAR GOVERNO EM 35
Sobre a insurreição militar e civil de 23 de novembro de
1935, em Natal, planejada e chefiada por inferiores do Exército e integrantes
civis do Comitê Regional do Partido Comunista do Brasil-PCB, que liderava as
ações da Aliança Nacional Libertadora no RN, ainda não se escreveu sobre a
participação de Gastão e Costa Nunes, hoje com 81 anos de idade (1).
Muitos livros, teses e conferências foram produzidas
sobre a fracassada revolução de 35, que contou com a participação de elementos
do PCB, socialistas, sociais-democratas, da burguesia, da classe média,
seguidores do ex-interventor Mário Câmara, de João Café Filho e alguns
componentes do Partido Popular, de José Augusto Bezerra de Medeiros, estes
pensando que o movimento era para derrubar Getúlio Vargas que, em 1930, tinha
provocado a marginalização dos políticos oligarcas do Seridó potiguar. (O
envolvimento dos maristas e populistas na intentona será enfocado em outra
reportagem).
Assim como os chamados “grandes historiadores” patrícios
da política brasileira nunca se preocuparam no aprofundamento do estudo
científico dos movimentos de massa de direita, no Brasil e no RN, os
pesquisadores norte-rio-grandenses não tiveram a iniciativa de pesquisar a
participação da “arraia-miúda” no Movimento Comunista de 35, no território
potiguar. (Os comunistas da Nova República odeiam a denominação Movimento
Comunista de 35, mas não se pode ir contra as afirmações comprovadas com fatos
e documentos). Como a pesquisa histórica e política do Rio Grande do Norte
sempre foi elitista e acomodada, a figura de Gastão Costa Nunes, gazeteiro em
1935, não aparece em nenhum estudo acadêmico ou matéria jornalística, de autor
conterrâneo, sobre a insurreição que constituiu o primeiro e único governo
marxista na América do Sul.
Doente de erisipela e de glaucoma, sobrevivendo com uma
pequena pensão do INPS, Gastão Nunes reside hoje numa modesta casinha da rua
São Francisco, 48, no bairro do Alecrim, juntamente com duas das quatro filhas.
Apesar de doente e cansado, está lúcido e afirma gostar de falar sobre a sua
participação na revolta de 1935.
XXI.
XXII.
REVOLUCIONÁRIO
“Naquele tempo, eu trabalhava com Luiz Romão, na Agência
Pernambucana, na Ribeira, loja que vendia jornais, revistas e livros de todo o
mundo. Eu lia o que podia ler, nas folgas, pois o meu trabalho era vender
jornais pela cidade. Bom, nasci revolucionário, pois comecei a me revoltar em
casa, e assim continuei. Em 1926, era enfermeiro e viajei para Pau dos
Ferros-RN, a fim de entregar munição aos fazendeiros que iriam dar combate aos
tenentes da Coluna Prestes, que estava para passar por São Miguel-RN. Então,
quando estourou a revolução de 35 em Natal, eu aderi logo, como muita gente
fez, sem saber nada de comunismo, que o negócio era de comunistas etc. Eu era
seguidor fanático de Café Filho e quando os cafeístas entraram no movimento,
apesar de Café não ter mandado ninguém participar ou pegar em armas, eu me
apresentei logo. Entrei no meio do povo que queria lutar para derrubar o
governo. Todo mundo pensava que o governo ia cair, pois o quartel da Política
Militar, onde hoje é a Casa do Estudante, na rua da Misericórdia, já estava
praticamente dominado na tarde de domingo (dia 24.11.35).
“Mesmo sendo anticomunista, como ainda sou, fui para o
quartel do Exército, o 21º Batalhão de Caçadores (o 21º BC foi demolido e no
seu lugar foi construído o Colégio Estadual Winston Churchill, na avenida Rio
Branco, Cidade Alta), onde vi um bocado de gente que não gostava de mim. Miguel Moreira, Mário Cabral e Lauro Lago não
gostavam de mim. Não sei quem deu a ordem, mas eu terminei recebendo um
mosquetão, farta munição e mais 9 homens armados, fardados e municiados, com a
missão de fazer uma vistoria no Hotel Internacional, na rua Chile, de
Theodorico Bezerra (hoteleiro que tinha contribuído para o fracasso do comício
da Aliança Liberal, em 1930, que trazia Batista Luzardo para falar ao povo de
Natal, na Ribeira).
“Peguei o pessoal e fui fazer a vistoria na madrugada do
dia 25, segunda-feira, tudo transcorreu direitinho e depois mandei o Sr.
Santana botar dez cafés para meu pelotão. E assim foi feito, tranqüilamente.
Depois que tomamos o café no hotel, uma pessoa disse para mim: “rapaz, a
revolução pode fracassar e vão denunciar que você tomou café de graça aqui”.
Pensei um pouco e resolvi pagar a conta. Acho que foi por isso que o “seo”
Santana não depôs contra mim, no inquérito. O engraçado é que, anos
depois, já solto, eu botei um ponto de
verduras e frutas no mercado da Cidade e me tornei vendedor de frutas no hotel
de Theodorico, pois ‘seo” Santana era o gerente e não ficou com raiva de min.
Na verdade, a minha entrada na Revolução de 35 era para me vingar de um
deputado (Gastão não forneceu o nome) que tinha me ameaçado de fazer engolir um
exemplar do jornal de Café Filho, “O Jornal”, que era impresso nas proximidades
da igreja de Bom Jesus, na Ribeira. O deputado disse que eu ia engolir o jornal
com cerveja. Mas a revolução foi tão curta que não deu tempo para me vingar,
pois o homem sumiu e foi até bom eu não ter-me vingado. Se tivesse feito a
vingança, eu tinha “puxado” uma cadeia mais longa”, contou Gastão Nunes.
XXIII. PRISÃO
PERPÉTUA
Ele informou que, após o fracasso da insurreição, vários
líderes comunistas reuniram-se numa casa da Praia do Meio, a fim de tentar
reunir os revolucionários para uma segunda investida contra as forças
governamentais.
Na reunião, ficou decidido que seria infrutífera qualquer ação militar,
tendo em vista que as tropas federais, vindas da Paraíba, já estavam nas proximidades
da capital e as principais lideranças da revolução tinham debandado. Dois dias
depois foi preso pela polícia e trancafiado no quartel do 21º BC, onde chegou a
ser visitado pelo então industrial e fazendeiro Dinarte Mariz. “Dinarte me viu
e disse que eu ia pegar prisão perpétua”, diz, sorrindo, Gastão Nunes, que
passou meses recolhido na prisão da Ilha Grande, no Rio de Janeiro.
PESCARIA
Gastão disse que em 1936 foi embarcado num paquete para
Recife, onde dezenas de presos, civis e militares, do Rio Grande do Norte,
Pernambuco e Paraíba, foram transferidos para outro navio. Ele não se lembra do
nome da embarcação (“parece que era o Baependi”), mas se recorda que um
sargento do Exército, do 21º BC, de Natal, o professor João Bastista Galvão
(que integrou a junta revolucionária que governou Natal durante quatro dias),.
um tabelião da cidade de Baixa Verde, hoje João Câmara e o escritor Graciliano
Ramos viajaram com ele para o Rio de Janeiro. Na Ilha Grande, fez amizades com
Hercolino Cascardo, Luiz Carlos Prestes, capitão Agildo Barata (chefe da
rebelião numa guarnição do Exército do Rio de Janeiro) e o capitão Sisson,
entre outros. (2)
“Na viagem de navio, a fome era muito grande, além dos maus tratos.
Reclamei comida ao comandante do navio. Ele disse que não tinha comida, o que
me revoltou. Então, pedi iscas e anzóis para pescar. O comandante demorou para
me atender e eu fiquei gritando que ali tinha muita gente inocente, que não era
comunista, que era revolucionário cafeísta e topava qualquer parada. O
professor Galvão e Graciliano Ramos ouviram eu dizer isso. Pesquei vários
peixes no meio da viagem, em alto mar e matei a fome de muita gente. Na Ilha
Grande, os presos sofriam muito. Comigo não fizeram maus tratos porque eu tinha
feito amizades com vários homens da Polícia Especial do Rio de Janeiro, onde
trabalhei em 1928, como o delegado Dr. Brandão, do 2º Distrito. Na Ilha Grande,
passei alguns meses e depois me mandaram para Natal, onde fiquei preso até
1941. Botei uma fábrica de tamancos na prisão e consegui sobreviver”, relatou
Gastão.
UM EXEMPLAR DO DN
“Agora eu quero deixar registrado o seguinte: tive o
grande prazer de conhecer gente como Luiz Carlos Prestes, capitão Agildo
Barata, capitão Sisson, Hercolino Cascardo e outros, cujos nomes não me lembro.
Eu não era comunista, mas me dei bem com esse pessoal. Eles eram muito
solidários. O capitão Agildo era macho, muito brabo e inteligente.
“Hoje durmo tranqüilo e sou um homem calmo, pois não fiz
mal a ninguém e não levei dinheiro de ninguém. Sou um homem pobre.
Quando estou doente, corro para o meu primo legítimo, Dr.
Helen Costa. Olhe, depois que publicar essa reportagem, traga um jornal para
mim, porque eu não posso comprar, concluiu Gastão Nunes, citado no livro “Memórias
do Cárcere”, 1º volume, do escritor Graciliano Ramos.
NOTAS:
1- Esta entrevista foi publicada na edição de
“O Poti”, jornal de Natal, edição de 26 de maio de 1985.
2- Luiz Carlos Prestes e João
Batista Galvão não foram companheiros de viagem de Gastão Nunes. Prestes e Galvão não cumpriram pena na Ilha
Grande. A propósito ver entrevista de Cipriano Galvão (O Poti, 10.11.1985, p.
24), na matéria intitulada “Na Praia do Meio se tramou a revolta”.
EX-CABO DO 21º BC QUASE MATA
VINTE
“Hablo de coisas
que existem. Dios me libre de inventar cosas cuando estoy cantando” Pablo
Neruda.
“O jornalismo
investigativo nunca se deu bem com a história oficial. Freqüentemente gosta de
sacudi-la com revelações, incômodas, graças à fascinação por detalhes obscuros
que os historiadores acadêmicos costumam desprezar”. Jorge Escosteguy (In “Isto
é”, n.º 460, p. 84, de 16.10.85).
Entre os fatos desconhecidos dos historiadores que
pesquisaram sobre a revolução de 35, no Rio Grande do Norte, está o episódio
ocorrido no local hoje denominado Praça Dom Vital, Cidade Alta, em Natal,
especificamente no trecho compreendido entre o prédio do Tribunal Regional
Eleitoral e a casa de 1º. andar, onde funcionou a assessoria de imprensa do
Palácio Potengi.
Naquele local, por volta de 22 horas do dia 23 de novembro de 1935,
quando estava no auge o tiroteio entre os insurretos e os defensores do quartel do Batalhão da Polícia Militar, na
rua “Salgadeira (hoje rua da Misericórdia), aconteceu o episódio que quase se
transformava numa tragédia. Quem evitou a liquidação de um grupo de 20 homens
da Polícia Militar (soldados, cabos e sargentos) foi o então cabo
radiotelegrafista do 21º Batalhão de Caçadores do Exército, João Wanderley.
A GRANDE RAJADA
Em entrevista concedida no dia 24, quinta-feira, em sua
residência na rua Pinto Martins, Petrópolis, o industrial aposentado João
Wanderley, 68 anos, contou mais detalhes sobre a sua participação na revolta
militar de 35.
“Durante a vigência do governo revolucionário de novembro de 35, eu tive
uma participação discreta, pois era radio-telegrafista do quartel do 21º BC.
Muito novo, com 18 anos, o ataque contra o Quartel da Polícia Militar se efetuava
pelo lado direito. Na esquina da rua João da Mata com a Praça André de
Albuquerque, uma metralhadora nossa despejava balas em cima do quartel do PM.
Naquela hora ninguém atacava pelo outro lado, onde está hoje a Praça João
Tibúrcio. Sai do quartel do 21º BC, a pé, com uma metralhadora leve, marca
Hotkiss, fabricada em Herstal, Bélgica, juntamente com um companheiro chamado
Lauro, sobrinho de João Pegado Cortez, (Conde de Miramonte) . Quando cheguei
perto da praça Dom Vital, que era um descampado, já tinham feito um buraco para
colocar nossos homens, protegidos por sacos de areia. Mas só havia o buraco.
Então notei que o beco que dá acesso à rua Presidente Passos (essa rua se une
com a “Salgadeira”, que passava em frente ao antigo Quartel da PM, hoje Casa do
Estudante do RN), estava completamente livre. Por ali poderia passar um efetivo
da PM com o objetivo de atacar o 21º BC.
De imediato, procurei instalar a metralhadora no buraco e ficar de
sobreaviso e atento. Foi só o que deu: em poucos minutos apareceu um grupo de
uns 20 homens da Polícia, andando tranqüilamente armados e fardados,
demonstrando que iam em missão de combate. Puxei o gatilho da metralhadora e
esperei que o grupo se aproximasse mais, porque estava meio escuro. O meu
companheiro, Lauro, disse para mim: “Cabo velho, bem na caixa dos peitos”. Como
eu não era doido, pensei no que ia fazer e calculei a rajada para 40
centímetros acima da cabeça do pessoal. Mirei, puxei o gatilho e segurei a
metralhadora quando ela começou a disparar.
Olhe, foi um Deus nos acuda! Não ficou ninguém no beco. Todos correram para a rua Presidente Passos,
deixando no beco bonés, botinas, mochilas e fuzis. A debandada terminou no quartel da PM, sem o
registro de nenhuma baixa”, conta, sorrindo, João Wanderley.
”SÓ MORREU UMA GALINHA”
Depois da rajada de metralhadora, na praça Dom Vital, o
cabo Wanderley rumou, rastejando por alguns buracos, para a outra extremidade
da praça André de Albuquerque. Numa casa situada nas proximidades da “Praça
João Tibúrcio”, ele tomou nova posição de combate.
O tiroteio estava muito grande. Deixei outro pessoal no
buraco da praça Dom Vital e consegui entrar numa casa vizinha à residência de
Felinto Manso. A família estava muito nervosa, mas permitiu que entrássemos,
pois se tratava de uma revolução e estávamos fardados. Quando cheguei no
quintal da casa, onde existia um galinheiro, fiquei observando os atiradores do
quartel da Polícia Militar, na minha frente, a uns 150 metros. Em cada janela
do quartel havia um atirador. O meu objetivo era silenciar esses atiradores.
Atravessei o galinheiro e alcancei uma balaustrada, que ainda hoje existe no
mesmo local. Lá, instalei a metralhadora e fiquei dando rajadas nas janelas do
quartel, cujos atiradores pararam de atirar. Sei que eles deram uns tiros em
minha direção porque, quando deixei de atirar, vi uma galinha morta no
galinheiro e fiquei com um calombo na testa provocado por um pedaço de
concreto. Foram as duas missões de combate que tive durante a Revolução de 35”,
adiantou João Wanderley, militar da reserva não remunerada do Exército.
TESTEMUNHA DA MORTE DO SOLDADO
O major da reserva da Polícia Militar do RN,. Enéas de
Araújo, 83 anos, residente na rua Joaquim Fagundes, 670, Tirol, juntamente com
o seu sobrinho, José Eurípedes de Vasconcelos, concedeu entrevista ao repórter
sobre alguns fatos da revolução de 35. Bastante lúcido, Enéas de Araújo disse
que somente agora tomou conhecimento de que Sizenando Filgueira foi o autor do
disparo que matou o soldado da PM, Luiz Gonzaga de Souza.
Enéas Araújo, respondeu algumas indagações do repórter.
-Quando terminou o tiroteio na rua da Salgadeira?
Enéas - “Alguns
autores dizem que terminou na tarde do dia 24 de novembro, mas às 6 horas da
manhã daquele domingo, eu estive nas proximidades do quartel e não havia
tiroteio. Pode ter sido um descanso, mas
não havia tiroteio. Depois do meio-dia
os homens que estavam no quartel começaram a fugir. Em torno de 80 homens
estavam no quartel(1). Entre os que se
feriram na fuga estava o meu irmão, Leopoldo José de Vasconcelos, pai de
Euripedes, mas Joaquim Gomes de Melo, José Ananias Pereira e Antônio Ananias
Pereira quebraram as pernas. Anísio Vasconcelos levou um tiro na perna quando
estava pulando o muro do quartel. Leonel de Souza Cabral, o músico José Tito de
Medeiros, Luiz Gonzaga César de Paiva, Euclides Moreira e Silva, o mestre da
banda, estavam no quartel durante todo o tiroteio”.
- O senhor viu o soldado Luiz Gonzaga lutando?
Enéas - “Eu não era
da Polícia. A nossa família morava perto
do quartel e eu desejava ingressar na polícia. Bom, mas quando terminou o
tiroteio, procurei os meus familiares e não os encontrei em casa. Rumei para a
rua João da Mata e encontrei-me com Mário Cabral junto a um caminhão, cheio de
soldados do Exército. Fui na casa do tenente José Pedro, no Alecrim e, de lá,
saí a cavalo a procurar do meu irmão, Leopoldo, que naquele instante estava na
rua do Arame, todo ferido”.
- Eu quero saber se o senhor viu o soldado Luiz
Gonzaga?
Enéas - “Antes de
chegar na rua do Arame, passei na rua da Salgadeira, perto do quartel e
encontrei um grupo de rapazes. Em seguida, apareceu o tenente Pm Moisés da
Costa Pereira, tendo os rapazes dito pra ele: “Tenente, tem um soldado morto na
lama do Passo”. “E tem? Então vamos fazer uma caridade de ir buscar”, respondeu
o tenente. Aí, ele saiu com os rapazes para retirar o cadáver de Luiz Gonzaga,
que era recruta do quartel e ainda não tinha vestido farda”.
- O senhor também ajudou?
Enéas - “ Eu não,
pois estava receoso de me meter naquilo, por causa das revoluções de 30 e
32. Em 30, eu tinha visto a revolução em
Recife. Não fui buscar, mas fiquei observando todo o trabalho. O tenente Moisés
foi quem trouxe o cadáver de Luiz Gonzaga para cima da calçada do lado direito
do quartel. De soldado ele só tinha as
botinas, trajando calça e camisa. Não
estava nu da cintura para cima, como disse Sizenando Filgueira. Eu só vim saber que foi Sizenando que matou
Luiz Gonzaga porque ele declarou isso, pois nesses últimos 50 anos ninguém
sabia nada a respeito. O 2º sargento Pedro Vicente, que morreu como coronel,
foi o homem que manejou a metralhadora do quartel da Polícia, sendo auxiliado
por Luiz Gonzaga. O 1º Sargento Luiz
Gonzaga César de Paiva, mestre da banda, me contou que ele e Euclides Moreira
da Silva, fugiram para o mangue, com o recruta Luiz Gonzaga, em direção à Base
Naval, quando ouviu o tiro que jogou Luiz Gonzaga dentro da lama. Sizenando
disse que Luiz Gonzaga estava armado e fazendo pontaria para ele, antes de
matá-lo. Mas Luiz Gonzaga César de Paiva
me disse que ele não morreu em combate e caiu sem fuzil. Depois consideraram
Luiz Gonzaga como herói porque ele ajudou a municiar a metralhadora. Homens
como o tenente Zuza Paulino, Bilac Faria, Pedro Vicente, Joaquim de Moura e
outros foram verdadeiros heróis na luta. Na verdade, Luiz Gonzaga de Souza era
recruta e foi alistado uns 30 dias antes da revolução. Outra coisa que eu
queria dizer: Quintino, um dos chefes da revolução, não era sargento, mas
músico de 1ª classe do Exército”. (João Wanderley, confirma e adianta que havia
equivalência ao posto de 1º. sargento).
Quando Enéas de Araújo concedia a entrevista, apareceu o
motorista aposentado pelo INPS, José Batista da Silva, 76 anos, residente na
rua Romualdo Galvão, 32, Tirol. Batista disse que em novembro de 1935 era motorista
da esposa do governador Rafael Fernandes, Leonila Fernandes de Queiroz. Ele
contou que passou os três dias do governo revolucionário no bairro do Alecrim e
que não viu muita coisa.
“Quando estourou a rebelião, me mandaram buscar um carro
de dona Leonila. Consegui pegar o carro e escondê-lo no quintal da casa de dona
Anunciada Vilar, debaixo de umas mangueiras. O carro ficou lá durante o governo
comunista.
- Ouviu falar sobre o soldado Luiz Gonzaga?
Batista - “Eu sei que
começaram a comemorar a sua morte por volta de 1943”.
- Onde estava quando estourou a revolução?
Batista - “Na Vila
Ciccinato, a casa do governador. Vi quando mandaram um sargento baixinho,
vexadinho, avisar às autoridades que estavam no Teatro Carlos Gomes, que a
revolução tinha começado”.
- Ouviu falar que o Governador Rafael Fernandes ou a
alguns dos seus auxiliares foram asilados nos navios mexicanos, no rio Potengi?
Batista - “Eu soube
que esse pessoal ficou no rebocador “Heitor Perdigão”, da Marinha Brasileira,
que estava na boca da barra a uns três quilômetros do rio Potengi”.
- Conhecia Sizenando Filgueira?
Batista - “Conheci.
Era um homem bem relacionado com as autoridades. Era da Guarda Civil, no
governo de Mário Câmara. Sizenando foi o meu chefe, no tempo da guerra, em
Parnamirim, quando trabalhávamos na Esso Standard Oil. O chefe dele era Mister
Calabria, com quem Sizenando brigava muito no serviço. Não tenho nada contra
Sizenando. Só posso dizer que ele deve continuar como um homem de bem, pois foi
um bom colega”.
- Enéas Araújo, interrompe e diz:
“ Bote aí os nomes do tenente
José Rosa, capitão José Nicácio e Abílio Campos, pois eles foram presos como
comunistas. Não eram comunistas, mas maristas e cafeístas”. Ao lado, Eurípedes
Vasconcelos assiste a conversa e confirma as declarações do seu tio, Enéas de
Araújo.
NOTA:
1- Enéas Araújo errou; no quartel da Polícia Militar estavam 49
militares.
MÁRIO CÂMARA NÃO TOPOU A
REVOLUÇÃO
O ex-interventor (governador) do Estado do RN, Mário
Câmara que, em 14 de outubro de 1934, perdeu a eleição para a Assembléia
Constituinte Estadual de 35 (ele integrava a Aliança Social, uma coligação do
Partido Social Democrático e o Partido Social Nacionalista, de Café Filho), foi
acusado de covarde ao recusar participar de um amplo movimento armado para
impedir a posse de Rafael Fernandes, considerada pelos comunistas como o
representante do reacionarismo potiguar.
Rafael Fernandes era do Partido Popular que elegeu 14
deputados e a Aliança Social 11, sendo três do PSD (marista), Ciccinato Chaves
(que foi o proprietário da casa que viria a ser a sede do governo
revolucionário popular de novembro de 1935), Djalma Marinho e Felipe Guerra e
oito do PSN, cafeísta: Abelardo
Calafange e Benedito Saldanha,, coronel
do Alto Oeste do RN e de Alto Santo, Ceará), Gil Soares, José Lopes
Varela, Amâncio Leite (amigo de Benedito Saldanha). Raimundo Macedo, Sandoval
Wanderley e Maltez Fernandes. Os populistas elegeram 14 deputados para a
Constituinte Estadual, obtendo maioria para eleger, via indireta, o governador
Rafael Fernandes, que tomaria posse em 1935. Devido as fortes ligações com os
comunistas e os integrantes da Aliança Nacional Libertadora (ANL), os maristas
e cafeístas teriam sido convidados para um golpe armado contra a oligarquia do
algodão do Seridó e seus aliados da região salineira, cuja maior expressão foi
Rafael Fernandes.
É o que se depreende com a leitura de alguns documentos
apreendidos na casa de Luiz Carlos Prestes, no Rio de Janeiro, em 1936, que
constam dos “Excertos da publicação:
Arquivos da Delegacia Especial de Segurança Política e Social - Volume
III - Polícia Civil do Distrito Federal - Rio”. 1938. Segundo cópias em poder
de João Alfredo, empresário gráfico de Natal, os documentos foram apreendidos
pela Polícia do Distrito federal, a famigerada polícia do nazista Felinto
Müller, após a intentona de novembro de 1935,” nos arquivos dos chefes
comunistas”.
O documento 36.C, datado de 31 de outubro de 1935, Rio de
Janeiro, trata-se de uma correspondência de um dirigente do Partido Comunista
do Brasil-PCB, aos seus companheiros do Rio Grande do Norte. É neste documento
que Mário Câmara é acusado de covardia pelos comunistas, a vanguarda da ANL na
ilegalidade.
Na íntegra, o documento diz o seguinte. “ Companheiros do
Rio grande do Norte. Confirmo o recebimento da carta de 23.10.35 e nossa resposta
imediata de 28 do corrente. O essencial no momento é desenvolver lutar independentes,
ampliar a nossa frente, aumentando nossas forças com todos os desiludidos com a
covardia de Câmara e seus sequazes. São os magníficos primeiros passos dados
com a formação da Frente Democrática pelas Liberdades Populares, convocação e
realização de comícios em Natal etc. Compreendemos o quanto é séria e perigosa
a atual situação estadual e estamos de inteiro acordo com vocês, quando afirmam
que não podermos deixar de ocupar as posições de vanguarda nas lutas populares
que se avizinham. Ninguém pode ser contrário ao começo de grandes lutas armadas
justamente no Rio Grande do Norte e seria oportunismo de pior espécie refrear
as lutas populares sob o pretexto que não é ainda possível começar no resto do
país. Precisamos estar à frente do Povo e dirigi-los nas suas lutas. Nada de
passividade nem de oportunismo. O que nós sempre combatemos foi o golpismo, a
tendência de seguir os elementos golpistas de um ou de outro partido
revolucionário.
Pela carta de vocês, compreendemos que o que se passa
atualmente no Estado, é coisa já diferente. Os elementos combativos de Mário
Câmara e Café Filho, estão desiludidos
com os seus chefes e ameaçados pela reação e pela fome, querendo tomar armas
contra o novo governo. Ao mesmo tempo toda a polícia está ameaçada de ser
desarmada ou ter seus quadros dirigentes substituídos por pessoas de confiança
dos novos governistas. As informações enviadas não são suficientes para que
possamos ter um quadro mais exato da situação, mas pelo que conhecemos
compreendemos quanto é séria a situação. Para a ANL, ainda não é conveniente
tentar um grande movimento nacional nem mesmo precipitar os outros Estados do
Nordeste. Sem uma ação simultânea nos outros Estados não acreditamos que seja
viável nem oportuno lançar no Rio Grande do Norte a palavra de ordem da tomada
imediata do poder. Há muitos elementos militares, especialmente oficiais do
Exército, aliancistas, sinceros revolucionários que só acompanharão um
movimento de caráter nacional ou pelo menos de grande envergadura abarcando um
certo número de outros Estados. Ora, atualmente encontra-se em Natal uma forte
concentração de forças do Exército e lá também se acha o próprio comandante da
Região, Gal Rabelo.
Nessas condições não nos seria favorável lutar, logo de
início contra os soldados do Exército. Mas mesmo sem lançar como palavra de
ordem imediata tomada do poder pela ANL no Estado devemos, sem nenhum receio,
dirigir e estar à frente de todos os que quiserem lutar contra a reação, pelas
liberdades populares, civis e militares. Caso na Polícia Estadual e na Guarda
Civil haja um ambiente contrário ao novo governo assim como ameaça de
expulsões, devemos corajosamente lançar a palavra de ordem de não entregar as
armas, palavra de ordem de revolta imediata contra os novos dominadores. Se as
forças militares de que dispomos forem suficientes para dominar na capital, o
que não supomos, será então o caso de organizar o nosso governo. Mas se as
nossas forças forem relativamente pequenas e não contarem com o apoio do
Exército, devem tomar as armas e munição e marchar para o interior do Estado.
Neste último caso a luta deve ser justificada pela necessidade de impedir a
expulsão dos oficiais e soldados aliancistas das fileiras da Polícia, assim
como em defesa dos direitos populares. Em muitos pontos de interior será então
possível tomar o poder e organizar o governo popular. Tais governos devem ser
ocupados pelas pessoas de maior prestígio popular em cada localidade e em
nenhuma hipótese devem ser denominados de governos soviéticos. Devem ser
governos genuinamente populares que executem imediatamente uma série de medidas
em benefício do povo, contra a imperialismo e os grandes proprietários mais
reacionários. E será indispensável evitar todo e qualquer esquerdismo numa ação
de tais governos locais, porque, como primeiros que organizamos no país, devem
bem refletir o programa popular amplo da ANL, desmascarando os que dizem ser a
ANL uma simples máscara do Partido Comunista. Enfim, o que queremos dizer é que
a tentativa do novo governo de nos desarmar deve e pode ser respondida com
grandes lutas. É indispensável que os companheiros compreendam a possibilidade
de lutas armadas e mesmo de revoltas militares, independentemente da questão de
poder em todo o Estado. Tais lutas terão uma grande importância principalmente
se as soubermos ligar com as lutas dos sertanejos e sua repercussão em todo o
país precipitará o lançamento da palavra de ordem da insurreição no resto do
país.
Qualquer que seja a situação devemos utilizá-la ao mais
possível para ganhar para a ANL, a grande maioria dos partidários de Câmara e
Café Filho, devemos reforçar o nosso trabalho no interior, organizar os
sertanejos de dirigir suas lutas sem medo que eles se transformem em lutas
armadas, defender as liberdades populares, os direitos dos funcionários
ameaçados pelo novo governo, assim como fazer o possível para que os nossos
elementos na Polícia Militar não entreguem suas armas, preferindo a revolta
armada à expulsão.
Nas condições atuais do Brasil não é aventura ter a
coragem de iniciar lutas armadas independentemente do resto do País.
Marchamos aceleradamente para o momento da insurreição no
conjunto nacional e não temos o direito de, a espera de tal momento, sacrificar
as posições que já possuímos num ou outro ponto. São muitas as formas de lutas
anteriores à insurreição e a todas elas nos devemos lançar corajosamente.
Faremos o possível para enviar o quanto antes até ai um companheiro da
Diretoria Nacional com as últimas instruções. Vocês precisam nos manter a par
de tudo que se for por aí passando”.
CHEFES DA ANL NÃO QUERIAM UM GOLPE MILITAR EM 35
O documento n.º 85-C sobre a Aliança Nacional Libertadora
e a situação política no Rio Grande do Norte é uma correspondência endereçada
por um dirigente do Partido Comunista do Brasil - PCB, residente no Rio de
Janeiro, a um aliancista de Natal. O documento é do segundo semestre de 1935 e
tem o timbre confidencial, segundo se deduz de uma cópia da transcrição dos
‘Excertos da publicação do Departamento de Polícia Especial do Distrito
Federal, de 1938, republicado pela Imprensa Oficial do RN em 1938. Os documentos
da ANL e do PCB foram apreendidos em 1936 nas residências dos chefes das duas
organizações que lutavam contra Getúlio Vargas, que veio se tornar mais
autoritário e desumano após o golpe de novembro de 1937, com o famoso golpe
militar que implantou o “Estado Novo” no Brasil, modelo tupiniquim do fascismo
europeu, elaborado por Francisco Campos e outros fascistas caboclos.
O documento relata as negociações mantidas pelos
comunistas e aliancistas com os políticos da Aliança Social, agrupamento que
reunia os seguidores de Mário Câmara e Café Filho, no Rio Grande do Norte.(
Este trecho foi publicado em O Poti de 22/09/1985, p.24, na 14a
reportagem da série “O comunismo e as lutas políticas do RN na década de 30”).
Eis a transcrição do Documento 85-C
DOCUMENTO 85-C
“A ANL e a situação política no Estado do Rio Grande do
Norte. (Confidencial).
3) Frente a vitória eleitoral reconhecida pelo Tribunal
Superior Eleitoral ao Partido Populista, alguns chefes do bloco Câmara-Café
Filho ameaçam desencadear lutas armadas e não permitir a posse de um governo
populista. Tudo indica além disso que o próprio Câmara e os elementos mais
racionários de seu partido já se dispõem a entregar pacificamente o poder. É
necessário utilizar este momento para ganhar para a ANL, os melhores elementos
que ainda confiam em Câmara ou nos seus elementos, que dizem que vão lutar
contra a implantação de um governo ainda mais reacionário do que o atual no Rio
Grande do Norte. Deve chamar as massas populares inclusive as que ainda seguem
os dois partidos em luta para demonstrarem na rua a sua vontade de luta contra
a reação e pelos direitos democráticos mais elementares, direito de reunião, de
palavra falada ou escrita. Pela
legalidade da ANL, pelo desarmamento dos bandos integralistas. Chamar, em
apelos e manifestos, os elementos de esquerda dos dois partidos a declararem
sua adesão a tais manifestações. A ANL precisa declarar que apoiará, nas
condições atuais qualquer governo que se disponha a garantir os direitos
democráticos populares, a desarmar os bandos integralistas e de capangas dos
grandes proprietários, a garantir a legalidade para a ANL e para todas as
organizações operárias, camponeses e populares. Na base de uma tal declaração,
desmascarar a Câmara e os demais chefes reacionários de seu partido que, com
medo do povo, entregam pacificamente o poder ao governo reacionário. Com os elementos do partido de Câmara-Café Filho que
se dispunham a lutar com a ANL em frente única na base do programa, organizar
imediatamente grandes manifestações em todo o Estado, aproveitando as
circunstâncias favoráveis para que a ANL apareça em público, ganhe a rua e
propague o seu programa (o do manifesto de Prestes a 5 de julho), o único que
realmente acabará com a situação de miséria e de reação e que só poderá ser
executado pelo governo popular nacional revolucionário com Prestes à frente.
4) Muitos chefes do partido camarista só querem saber
porém se a ANL os acompanhará em qualquer golpe militar contra a implantação de
um governo populista no Estado. Devemos mostrar aos homens honestos como será
contraproducente uma luta militar restrita ao Estado do Rio Grande do Norte e
mesmo aos estados do Norte, mas que se eles não querem acompanhar a ANL no
trabalho de propagação de massas para uma luta em todo Brasil podem, no
entanto, estar certos de que a ANL não ficará noutra frente a um golpe armado
no Estado, tomando naturalmente posição ao lado do povo contra qualquer governo
reacionário, por um governo que se declare e dê as necessárias garantias de que
será, antifascista, que dará legalidade a ANL, etc. Mas se tais elementos
querem realmente lutar devem começar por armar o povo, fazer declarações
públicas no sentido de que permitirão a atividade legal da ANL e dos sindicatos
- que exigirão o desarmamento dos bandos integralistas. Os aliancistas devem
conhecer todas as tentativas de luta armada no Estado e sem se deixarem
arrastar nos golpes militares, precisam realmente mobilizar as massas para uma
atividade independente, preparando greves, demonstrações, etc, através das
quais conseguirão no momento de uma luta armada exigir a execução de promessas,
defender as reivindicações das massas, exigir o desarmamento dos bandos
integralistas, a legalidade para a ANL, etc
.................................................................................
GIOCONDO QUASE MORRE COM 17
FACADAS
A insurreição de novembro de 1935, em Natal,
desenrolou-se de forma totalmente desorganizada, apesar dos poucos e pequenos
saques aos estabelecimentos comerciais. Não havia coordenação logística e
estratégica. Não havia comando unificado. Não havia planejamento. Não se sabia
em que iria dar a revolução.
Estas informações foram prestadas pelo ex-1º cabo
telegrafista do Exército, do 21º Batalhão de Caçadores, João Wanderley,
industrial na área metalúrgica, aposentado, que participou do movimento militar
de 35, em Natal, ao lado de Giocondo Dias e do sargento músico Quintino
Clementino de Barros, natural de Serra Negra do Norte (região Seridó do RN,
conterrâneo do falecido senador Dinarte Mariz, político ultraconservador.
Quintino, enfermeiro, habilidade que adquiriu no presídio de Fernando de
Noronha, de onde foi solto com ajuda de Dinarte Mariz e Juvenal Lamartine de
Faria, faleceu em Anápolis, Goiás, pobre e isolado dos familiares).
Quase cinqüenta anos depois da revolução vermelha, mais
conhecida por Novembrada ou Intentona
Comunista de 35, João
Wanderley, residente nas proximidades da Praia do Meio, aos 69 anos de idade,
concedeu rápida entrevista ao O Poti, a fim de relembrar os fatos e deixar um
depoimento para a história política do Rio Grande do Norte.
“Durante toda a revolução houve muita falta de
controle. Muitos soldados ficavam
atirando a esmo pelas ruas da cidade e os grupos desgarrados, sem comandos,
eram muitos. Não existiam comando e disciplina revolucionária. Apesar dos
grupos soltos e desagarrados, até hoje, fico admirado não ter acontecido
nenhuma ofensa à honra pessoal. É verdade que ocorreram alguns pequenos saques,
mas o caso da Casa da Viúva Machado, na Ribeira, não foi um saque, um
roubo. Não, a loja da Viúva Machado foi o centro
abastecedor de gêneros alimentícios da Revolução. Mesmo assim, eu asseguro que
bastava um grupo de 20 homens, organizados, armados e de direita para abortar a
revolução, tal era a desorganização. A revolução não acabou logo porque a
direita não reagiu por causa da surpresa e da apatia. Se fosse hoje, claro, a
coisa teria sido diferente. A direita hoje é organizada, armada, faz
propaganda, se reúne, etc. Por exemplo: alguns revolucionários resolveram
queimar um cartório que existia na frente do “Magestic”, no cruzamento das ruas
Ulisses Caldas e Vigário Bartolomeu, na Cidade Alta. Então, o pessoal foi lá e queimou o cartório.
Não sei quem mandou queimar, apesar de eu ter assistido tudo. Talvez alguém
interessado em dar fim a algum ou alguns processos. Bom, o pessoal foi lá e
queimou tudo. Não sobrou nada e ninguém fez nada para controlar ou apagar o
incêndio. Era assim, uma desorganização total. Se estivesse aparecido uns 20
homens decididos e treinados, a coisa tinha acabado no nascedouro. O sargento
Quintino, gente muito boa, caladão e culto, vivia aperreado. Baixinho, Quintino
andava pra cima e pra baixo com um revólver pequenininho na cintura e um cinto
sobre a túnica. Eu digo que Quintino (Ministro da Defesa da Junta
Revolucionária Popular de 35 em Natal) vivia aperreado porque o pessoal vivia
em cima dele, pressionando para fazer isso e aquilo e ele ficava indeciso. Na
realidade, ninguém sabia o que fazer na área militar”, disse o aposentado João
Wanderley.
PARTICIPAÇÃO DOS PRESOS
Wanderley entrou no Exercito com 15 anos de idade. Isso
foi possível porque ele aumentou a idade para 17 anos. Entrou no Quartel do 29º
BC em 1932 e foi mandado para Mato Grosso, a fim de combater a revolução
constitucionalista de São Paulo. Em Mato Grosso, o efetivo do 29º BC quis se
revoltar e se posicionar em favor dos paulistas. Como castigo, segundo conta
Wanderley, o contingente do 29º BC foi transferido para o Amazonas, na
fronteira, em virtude da guerra entre Bolívia e Paraguai, a Guerra
do Chaco. Depois, o batalhão veio para Natal e no início de 1933, foi
transferido para Recife, sendo substituído pelo 21º Batalhão de Caçadores, do
Recife, no final de 33.
Apesar de não concordar com as afirmações de Giocondo
Dias sobre a organização militar e civil durante a insurreição de 23 a 27 de
novembro de 35, em Natal, João Wanderley assegura que o ambiente político
naqueles anos era de “conspiração permanente”.
Mas a revolução de 35 não foi feita em nome do comunismo
ou do socialismo. A Aliança Nacional Libertadora, que tinha um hino, assim como
os integralistas tinham o seu hino, foi a bandeira de luta da revolução. Em
Natal, todo o efetivo militar do 21º BC
estava ligado a ANL, aliado aos cafeístas, que estavam debaixo politicamente. A
demissão de 300 guardas-civis pelo governador Rafael Fernandes foi o estopim da
revolução. É claro que o pessoal militar queria fazer a revolução, à exceção
dos oficiais. Por isso, eu sempre digo que a revolução de 35 foi uma revolução
de cabos.
Todos os cabos do Exército participaram da revolução
inclusive eu, que era rádio-telegrafista.
Sobre a soltura dos presos comuns da Casa de Detenção, onde hoje está o
Centro de Turismo, já escreveram muita coisa, mas eu asseguro para você que
esses presos participaram da revolução com toda garra. Os presos tiveram uma
atuação decisiva. Centenas de presos foram soltos e, ao invés de irem para suas
casas, para juntos de seus familiares ou “caírem do mundo”, eles foram lutar
contra o pessoal da Polícia Militar, no
quartel, na rua da Salgadeira (hoje rua da Misericórdia, Cidade Alta, onde fica
a Casa do Estudante do RN). Os presos lutaram corajosamente e ficaram aqui até
o fim da Revolução, isto é, ao final da tarde de terça-feira, dia 26, quando
começou a debandada geral. No dia 27,
não tinha mais ninguém. Como não tinha mais nenhum dirigente revolucionário em
Natal, os presos resolveram “cair no mundo”, afirmou João Wanderley.
A PRISÃO VIROU ACADEMIA
Ele disse que a sua prisão, em virtude de sua
participação na revolução como rádio-telegrafista, ocorreu quando estava
completando 17 anos de idade (no papel, sua idade era 19 anos), “O 21º BC era
comandando por um oficial gaúcho, grandalhão e bonachão. Um dia depois da revolução, eu fui preso no
quartel. O oficial chegou para mim e perguntou: “Mas, rapaz, você foi um dos
tais?”. Eu respondi na hora: “Fui revolucionário”. Me prenderam na hora e jogaram numa alvarenga
que estava no porto, o Butiá, onde passamos o dia sob o sol
quente. Depois fomos para Recife onde ficamos trancafiados numa prisão imunda,
a Casa de Detenção. Lá, vi, dezenas de vezes, o sargento Quintino deitado numa
rede, se balançando e calado. Passava dias sem dizer uma palavra. A prisão em
Recife foi uma verdadeira escola, pois quem não era e queria, virou comunista.
Quem era comunista e não queria mais saber de comunismo, abandonou tudo e virou
anticomunista. A Casa de Detenção do Recife foi transformada uma verdadeira
academia de marxismo. Por incrível que pareça,
nas celas se ministravam verdadeiros cursos de marxismo. Tinha professor e tudo
o que uma academia tem. Mas isso aconteceu depois que a repressão diminuiu. Lá,
a gente ficava sabendo de tudo o que se passava no mundo. Mas nunca soubemos quem foi o agente do
Partido Comunista que veio do Rio de Janeiro para dar a ordem de deflagração da
revolução em Natal. O PCB chegou a fazer um verdadeiro inquérito na Casa de
Detenção do Recife para descobrir quem foi esse homem que chegou em Natal,
dando ordens para todo mundo, que precipitou os acontecimentos. Naquele tempo,
o partido era tão frágil, o pessoal era tão verde, imaturo, que todo mundo não
desconfiou desse homem que chegou dando ordens à torto e a direito. No final do
inquérito, nada foi elucidado. Dizem que foi a polícia quem mandou esse homem,
mas ainda é um mistério no Partido Comunista, do qual nunca fui membro. Tudo isso
soube na prisão do Recife, porque eu ficava ouvindo e participando das
conversas dos comunistas presos. Em tempo:
Luiz Cleodon Medeiros, natural de Currais Novos/RN, revolucionário em
1935, em entrevista dada em 29 de agosto
de 1987, disse que conheceu dois presos na cadeia de Recife, de nacionalidade
russa, conhecidos por Aarão Glorenquem e Jacó Clingó. Para ele, os principais
chefes do movimento foram Quintino, Giocondo, cabos Valverde, Mourão, Guerra e
Ponte, além do sargento Wanderley.
Cleodon disse que o disparo que atingiu Giocondo foi
acidental e o seu autor foi um recruta, imediatamente substituído por Quintino.
O tiroteio na serra do Doutor, segundo Cleodon, foi na quarta-feira, dia 27.
Soldado do 21 BC, participou do ataque ao Esquadrão de Cavalaria, juntamente
com a soldadesca "desnorteada, sem liderança, dando tiros na rua"
Disse ainda que um grupo de soldados, numa estrada de Jundiaí, município de
Macaíba, esperou os sertanejos que vinham de Panelas, mas que eles não
apareceram.
Sobre o tenente Rangel: por onde ia passando, levava o
dinheiro das prefeituras. Tenente Roberto, do 21 BC: foi contra a revolta e
ganhou a simpatia dos soldados. Luiz Albino Moreira, Abel, João Cícero, Tenente
Bezerra, foram os primeiros presos no quartel do 21 BC quando estourou a
rebelião. "Eles iam chegando e a gente prendendo",disse.
Foram muito atuantes na revolta, segundo Cleodon: os
sargentos José, Waldemar e Eliziel Diniz Henriques, do 21 BC. O sargento
Barradas era do movimento e fugiu. Preso, foi orientado a denunciar os
companheiros. O interrogador principal foi o coronel Portela. "Ninguém
sabia nada de comunismo, o que vim conhecer nas aulas dadas pelo Partido, na
cadeia de Recife. Diziam que a revolução era nacional, trocaram a senha e deu
no que deu, pois era para estourar no dia 27. O cabo Walfredo, interrogado,
disse que era coisa de comunista. Idem o cabo Farias. A causa principal da
revolta foi a desincorporação dos cabos e soldados na véspera. Os chefes
dos cinquenta rebeldes que foram para o
Seridó, com o objetivo de dominar a região, foram os sargentos Aquino e Santos,
mas o baluarte da revolução foi o segundo cabo Antonio Andrade (falecido em
meados de 1998), conhecido por Totinha. Ele foi preso, sofreu muito, mas foi
anistiado e retornou ao Exército como sargento. Totinha foi preso comigo no
Recife. Eu tinha 3 meses de caserna, era um matuto", afirmou Cleodon.
"Os civis fizeram a revolta, os militares deram a sustentação".
Ao autor, Antonio Andrade, que não quis se aprofundar no
assunto, disse que se os comunistas tivessem sido os vitoriosos, o seu herói
seria o soldado Cândido Mariano das Neves, que morreu no assédio ao quartel da
Polícia Militar. "Foi uma luta de compadres, pois a grande maioria dos
recrutas do BPM, tinha saído do 21 BC há quatro meses. Luiz Gonzaga, que era
doente mental, foi morto por Sizenando, um policial civil, sem necessidade, nos
mangues", disse Antonio Andrade. Em fevereiro de 1997, ele recusou-se a
dar entrevista ao autor e a uma equipe da televisão GNT para uma reportagem organizada
por Fernando Morais, apesar de ter prometido, alegando que tinha sofrido muito no passsado, que era um
homem idoso e não desejava novas complicações políticas.
Antonio Andrade revelou que o sargento Abel foi quem
manejou a metralhadora na subida da Serra do Doutor e, após 10 rajadas, botou
os civis seridoenses para correr. O sargento Cantídio também atirou com
metralhadora no mesmo local e ficou perturbado depois do fracasso da revolta
comunista. Em Natal, tempos depois, matou a sogra e a esposa.
NAVIOS MEXICANOS (1)
João Wanderley afirmou, ainda, que o cabo Giocondo Dias,
seu companheiro e amigo de caserna, era um homem destemido e líder da
revolução de 35. “Chequei a ficar pálido
e lívido quando vi Giocondo com a cabeça enfaixada. Causou muita preocupação o
ferimento em Giocondo, pois ele era um dos cabeças do movimento”, relembra
Wanderley.
Sobre os navios mexicanos surtos no Rio Potengi, perto do
porto de Natal durante a Revolução de 35, nos quais alguns auxiliares do
Governador Rafael Fernandes se refugiaram, além de vários oficiais do Exército,
João Wanderley disse que se lembra dos oficiais da Marinha Mexicana que
procuraram comida na Vila Cicinato, sede da Junta Revolucionária Popular. (2)
Os oficiais
desceram dos seus navios e vieram comprar comida. O governo da revolução
mandou que eles tirassem alimentos na Casa Machado. Eles tiraram os alimentos
que precisavam e depois perguntaram: “quanto paga? quanto paga?”. Quintino respondeu: “não paga nada. Querem mais? Se quiserem,
podem levar mais”. Eles ficaram alegres e foram embora para os seus três
navios, pequenos e branquinhos. Não eram
cinco navios, eram três, afirma João Wanderley, sargento da reserva não
remunerada do Exército.
AS FACADAS EM GIOCONDO
Na casa de Detenção do Recife chegou a informação de que
uma mulher tentou transar com ele. Giocondo recusou porque estava sendo
obsequiado pelo dono da fazenda. Ela, então, acusou Giocondo de tentar
seduzi-la. Mas Giocondo sempre negou essa versão. Eu acredito na versão de
Giocondo porque ele sempre foi um rapaz sincero, honesto e corajoso. Acho que
ele não seria capaz de trair um amigo. Tudo isso eu soube na prisão através de
membros do Partido Comunista. Pessoalmente, não conversei com Giocondo sobre
esse fato, pois a última vez que vi Giocondo foi durante a revolução de 35,
disse João Wanderley.
Ele confirma que Giocondo recebeu 17 cutiladas de faca e
punhal em diversas parte do corpo, desferidas por Paulo Teixeira, um fazendeiro
residente no município de Lages-RN (hoje Jardim de Angicos), na localidade em
que está encravada a Fazenda Primavera, que
pertenceu a Alzira Soriano, a primeira prefeita da América do Sul. (3).
Ao contrário do que noticiamos em outra reportagem o cabo
Giocondo Dias não foi salvo pelo sargento Genésio Cabral (existia um Genésio
Cabral de Lima, na Polícia Militar), mas por Genésio Cabral de Macedo.
O ‘salvador” de Giocondo não era da PM. Era comerciante.
Segundo informações prestadas por Fátima Cabral, filha de Genésio Cabral de
Macedo, o seu pai nasceu no dia 28 de agosto de 1905 e faleceu a 26 de janeiro
de 1976. Passou a infância em Touros e Santana do Matos, onde negociou com
algodão. Viajava muito pelos municípios de Currais Novos, Santana do Matos,
Lages e Angicos, como gerente-sócio da firma “João Câmara Indústria e Comércio
S.A.”.
Genésio Cabral de Macedo foi juiz Municipal e
vice-prefeito do distrito de São Romão (F. Pedroza). Foi presidente do Banco do
Estado do RN, no governo José Varela. Deputado Estadual em duas legislaturas,
dirigentes do PSD e 1º Secretário da Assembléia Legislativa. Secretário da Fazenda no governo Dinarte Mariz,
aposentando-se como Superintendente de Fiscalização (Aluízio Alves colocou-o em
disponibilidade). Aposentado, ainda foi prefeito de São Rafael e Santana do
Matos.
Segundo a filha de Genésio C. de Macedo, é verdade que
Giocondo Dias, homiziado na Fazenda Primavera, pelo seu
amigo Paulo Teixeira, recebeu 18 cutiladas. (4) O fato foi presenciado por
Nezinho Procópio, Capitão João Pedro, delegado de Polícia de Lages e autor da
prisão de Giocondo Dias. “Giocondo não foi morto porque meu pai chegou na hora h.
Giocondo estava amarrado numa árvore e sendo esfaqueado pelo amigo furioso”,
contou Fátima. Ela disse ao repórter que essas informações foram transmitidas
pelos seus pais. O desembargador aposentado João Maria Furtado, no seu livro
“Vertentes” registra superficialmente esse evento. O médico Onofre Lopes da
Silva foi quem tratou dos ferimentos de Giocondo. O agressor, Paulo Teixeira,
autor das facadas, andou armado, em Macaíba,
ao lado de Giocondo Dias, Cabo do Exército, durante a insurreição, segundo J.
M. Furtado (“Vertentes, página 142). (5)
NOTAS:
1- Os navios mexicanos, “avisos”, eram
similares, em tamanho às atuais corvetas. Tinham reduzidas tripulações.
2-
A casa da Vila Cinccinato, antiga
residência oficial do Governador do Estado, localizava-se na rua Trairi,
defronte ao Palácio dos Esportes “Djalma Maranhão”. Na década de 70 funcionou
como sede da Secretaria da Educação e Cultura do Estado e, mais tarde, Centro
de Ensino Supletivo e Centro de Educação Especial (superdotados).
3- A
jornalista Heloísa Galvão, que integrou o Diário de Natal, pesquisou sobre
Alzira Soriano, segundo notícia
publicada na edição de 05.08.1987 e publicou livro em Natal sobre a primeira mulher eleita prefeita no Brasil.
4- Paulo
Teixeira, irmão de Luíza Alzira Teixeira de Vasconcelos Soriano, em entrevista
ao jornalista Carlos Lyra (Memória Viva, Nossa Editora, Natal, 1987, p. 196 e
seguintes) conta que Giocondo Dias e o cabo Adalberto efetuaram a transferência
dos auxiliares do governador Rafael Fernandes para o navio mexicano G-24,
Alzira Soriano convenceu Paulo a abrigar Giocondo na Fazenda Primavera,
município de Lages, hoje Jardim de Angicos.
Paulo Teixeira desmente que tenha amarrado e dado 17 facadas em Giocondo.
Segundo informações prestadas por familiares de P. Teixeira, Giocondo era amigo
dele, inclusive bebiam juntos nos bares de Natal, enquanto Guiomar Matos, irmã
do então deputado Pedro Matos, vivia na Fazenda Primavera.
Eis trecho da
entrevista de Paulo Teixeira a Carlos Lyra:
“PAULO TEIXEIRA - Não, não o conhecia. Houve esse entendimento da
família de Luís Júlio com Alzira, e levaram Giocondo para a minha fazenda. Bem,
depois de algum tempo, alguns dias, quando chegou em casa (eu tinha uma turma
de muita confiança, na fazenda), começaram a me contar umas tantas coisas.
Então, pedi:
- Bem, eu sou
um homem de negócio, vivo fora de casa, vocês dêem cobertura a isso.
Até quem um
dia, um dos moradores me disse:
- “Seu” Paulo,
tá havendo isso, isso... (entendimentos dele com minha mulher).
E então perguntei a ela, que já sabia das minhas
atitudes, que eram bastante duras, e Guiomar me respondeu:
- Não! Ele
procura me conquistar...
Mas, eu que sou um homem que não acredita nessas coisas,
sempre tenho desconfiança de mulher, fui a ele, que já estava preso, atrás de
fugir.
- Você não
foge! Agora, você vai me contar essa história direito.
E ele, então começou a tentar me levar na conversa:
- Giocondo, eu
não sou menino! Você sabe como eu sou, minhas atitudes como são.
Isso durou horas, essa conversa com ele. Ai, tomei a
atitude:
- Você me
perdoe, mas, agora, você vai confessar o que houve! Então, dei um golpe de
punhal. Não para matar.
Queria, apenas a
confissão dele.
Carlos Lyra -
Quantos golpes?
P. Teixeira - Uns
quatro golpes?
Carlos Lyra -
Onde?
P. Teixeira - Um
no rosto (maçã do rosto), um debaixo do braço (axila), esse foi o mais grave, e
outros pela barriga. Tudo isso, beliscão, como se diz: beliscão para exigir confissão.
Mas, como ele não queria de maneira nenhuma... apliquei.. esse foi o mais
grave! - o último na barriga. Ele, então:
- Não me mate,
que eu confesso! Aí, chamei uns três
cabras de testemunha, e ele contou toda a história. Era o que eu queria: disse
que estava sendo conquistado. Nisso, gritam e me chamam: alarme na fazenda, que
mamãe estava morrendo, essas coisas... Corro até onde estava minha mãe, dei uma
injeção nela, e saí dizendo:
- Agora, vou tomar minha atitude. Num momento desse, eu
estava louco, mas, minha mulher já tinha fugido para a casa de um morador. Eu
sabia que ela estava lá. Procurei, mas ela, nesse meio tempo (parece que o
morador facilitou a ida), pegou um caminhão na estrada e fugiu. E, finalmente,
ficou nisso. No outro dia, minha mãe nervosa, eu disse: - Passe um telegrama ao
tenente João Pedro, que é autoridade, para vir buscar esse homem.
Ausentei-me de casa. Então, chegou um carro com João
Pedro, Nezinho Procópio, Olinto Procópio, Genésio Cabral de Macedo e levaram o
homem. O negócio foi este.
João Medeiros - E
essa história de você ter amarrado o homem?
P. Teixeira -
Mentira! É uma mentira. Eu não amarrei o homem, e nem ninguém salvou ele. A
questão é que tomei a atitude, porque queria a confissão dele. Logo que houve a
confissão, eu precisava que ele vivesse. Minha honra estava em jogo e eu
precisava de uma defesa. Depois, fui acusado, respondi júri, e fui absolvido.
Meu advogado foi Manoel Varela, que foi, também, que me convenceu, lá, para
fazer um desquite amigável, porque no processo eu estava com toda a razão”.
5- No
seu livro “Vertentes” Gráfica Olímpica Editora Ltda, 1976, Rio de Janeiro,
página 141-142) o desembargador aposentado João Maria Furtado, conta o
seguinte: “Em Macaíba, por exemplo, Paulo Teixeira, populista de prestígio em
Lages, onde era proprietário, entrou à frente dos revoltosos que estabeleceram
num salão térreo de um sobrado seu quartel general. E em cima permaneceu João
Severiano da Câmara, amigo de Paulo Teixeira, que saíra de Baixa-Verde. Ficou
resguardado perfeitamente. E como, quando dos depoimentos tomados ali, apareceu
o nome de Paulo Teixeira, o escrivão Cornélio Leite, propositadamente (já tinha
uma péssima letra) a fez tão ilegível que não pode depois serem decifrados
muitos trechos do que fora escrito.
Tantos envolvimentos teve esse populista Paulo Teixeira
na revolta (nada sofreu e nem seu nome sequer apareceu em processo) que levou
um dos principais elementos militares revoltosos para uma de suas fazendas em
Lages, o cabo Giocondo, depois militante ativo do Partido Comunista Brasileiro.
Lá ficou ele ao abrigo de prisão durante mais de um ano. Posteriormente, porém,
se desavindo com o proprietário, depois de uma tentativa de morte em que o
protegido foi ferido a punhal, foi entregue à Polícia”.
Na página 160, João Maria Furtado, registra mais o
seguinte: “Tenho, desde 1935, com dados da época e não pelo registro de
memória, uma lista desses “populistas”- adeptos do Partido Popular - que elegeu
o governador Rafael Fernandes, com pormenorização de fatos e circunstâncias
elucidativas da participação de cada um na revolta vermelha naquele ano. Com
relação, por exemplo, a Paulo Teixeira,
além do que foi narrado anteriormente, ele andou de metralhadora em punho,
juntamente com o cabo Giocondo, do 21º BC, em Macaíba, ambos se havendo hospedado
na residência de Mesquita Filho, chefe político populista ali”.
A VERSÃO DO DIRIGENTE DO PCB SOBRE AS CAUSAS QUE PROVOCARAM A
INSURREIÇÃO DE NOVEMBRO DE 35 (I).
Para o secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro,
o baiano Giocondo Gerbasi Alves Dias, ex-cabo do Exército, do 21º Batalhão de
Caçadores de Natal, que perdeu uma cunhada na entrada do quartel da Polícia
Militar, na insurreição de novembro de 1935 , a revolta foi precipitada.
Em 1981, Giocondo concedeu entrevista a três jornalistas
de São Paulo (José Paulo Netto, Luiz Arturo Obojes e Regis Fratti, da “Voz da
Unidade”, cujo extrato foi publicado no livro “Giocondo Dias. Os Objetivos dos
Comunistas”. Na entrevista, Giocondo diz que a Aliança Nacional Libertadora não
foi instrumento do PCB para realizar a revolução de novembro de 35.
Depois de explicar a situação política e social do Brasil
nos anos 30, Giocondo afirma que a revolução que levou Getúlio Vargas ao poder
conseguiu mudar o país, apesar da estrutura da sociedade não ter sido tocada.
“Criou-se uma situação onde os setores que preponderavam
no aparelho do Estado foram afastados, outros subiram. E estes processos nunca
se dão de forma pacífica, sempre ocorre algum tipo de quebra da hierarquia,
sempre os de “baixo” encontram alguma fenda para a sua ação. Vejam bem: a
Revolução de 30 trouxe consigo uma situação de tumulto, de caos, não só no
aparelho do Estado mas, principalmente nas Forças Armadas. Se não prestarmos
atenção a estes aparentes detalhes, vamos pensar que o movimento de 35 foi
fruto da vontade e da ação de uns poucos indivíduos, ou da ANL, ou mesmo do
Partido. Para ilustrar melhor, vou dar exemplos lá no Rio Grande do Norte, cujo
processo acompanhei de perto.
- Quantos anos de PCB você tinha,
na época?
Giocondo - Eu tinha
cerca de um ano e meio de partido - ainda não era marxista, não tinha lido
nenhum livro marxista. Bem, a Revolução de 30 trouxe para as Forças Armadas uma
situação caótica. No processo de conspiração, cabos, sargentos, e tenentes
passaram a exercer funções nos quadros das Forças Armadas, muito acima de sua
graduação real. Houve cabos promovidos, comissionados a sargentos,
segundo-tenente e outros postos. Sargentos foram guindados ao posto de capitão
e houve casos até de capitães promovidos a general de brigada, como, por
exemplo, o Juarez Távora, que praticamente passou a ser “vice-rei” do Nordeste.
Ele decidia sobre os destinos dos coronéis, dos generais - tudo, lá no
Nordeste, era ele que decidia...
- Isto alterou completamente a estrutura de comando
das Forças Armadas...
Giocondo - É. Por
outro lado, a Revolução de 30 era a esperança de grandes parcelas da população...
- Você está dizendo que houve grande participação
popular?
Giocondo - Exatamente.
Ela teve no seu desenvolvimento um forte componente popular, que depois não se
refletiu em seus efeitos. Isso trouxe uma grande decepção para a massa e
desencanto aos que participaram diretamente do processo. Isto tem a ver com o
que eu coloquei antes, a respeito da hierarquia. No processo de estabilização
do poder oriundo de 30, houve a tentativa de voltar à situação anterior, em
particular no Exército. Imaginem: o indivíduo participa, atinge o grau de
capitão e depois da vitória o máximo que consegue - e com grande esforço - é
tornar-se tenente comissionado.
- As pessoas foram rebaixadas?
Giocondo - Foram.
Exatamente essa parte da história não é contada. Afinal é mais fácil propagar o
anticomunismo do que explicar a base real do descontentamento na corporação...
Vou fazer um pequeno relato, embora superficial, do que eu via, como cabo. Após
a revolução de 30, progressivamente, a elite dirigente foi recuperando,
retomando o poder, mesmo que não pudesse fazer as coisas retrocederem à
situação de antes de 30. Uma de suas principais “frentes de restauração”, eram
as Forçar Armadas. Esta situação de mudança/restauração foi criando uma
instabilidade, uma quebra de hierarquia, já citada por mim anteriormente. Por outro lado, os homens que haviam se
destacado em 30 passaram, em muitos casos, a serem pessoas de prestígio em seus
Estados. Juarez Távora, que passou a mandar no Nordeste; Sergipe foi entregue a
Mainard Gomes, tenente, que foi um dos chefes do movimento Pernambuco, vejam
vocês, ficou sob a influência de Carlos de Lima Cavalcanti, que era usineiro,
um dos corifeus de 30. Mas, por outro lado, o que é que aconteceu? Aqueles
cabos e sargentos que participaram como oficiais, quando se tentou restabelecer
a hierarquia, chegaram ao máximo, à situação de segundos-tenentes comissionados
no batalhão. Resultado: imediatamente desentenderam-se com o Carlos de Lima e
surgiu o movimento do 21º Batalhão de Caçadores, de 1931.
- Foram derrotados?
Giocondo - De fato. No
Recife, em 1931, o 21º Batalhão de Caçadores, comandados por tenentes
comissionados, pelos tenentes Passos e Hélio Coutinho, além de vários outros -, levantou-se contra o
Carlos de Lima Cavalcanti. Foram derrotados e deportados para Fernando de
Noronha. No Piauí, os cabos se levantaram, tomaram conta do batalhão e do
Governo do Estado. Isso entre 31 e 32, não sei precisar bem a data. Mas eu sei
os nomes dos cabos que comandaram o movimento e governaram o Piauí durante
alguns dias: Cabo Aluísio e Cabo Amador. O batalhão de Manaus levantou-se nesse
mesmo período. Todos esses dados são escamoteados, faz-se questão de apagá-los
da História do Brasil. Não se fala da situação do Exército de 30 e 35, das
figuras e da agitação no aparelho militar. Se esses dados são ocultados, fica
mais fácil tentar descaracterizar o Novembro de 35...
- Mas essa agitação era fruto apenas da quebra da
hierarquia?
Giocondo- Não. O pano de fundo era insatisfação econômico-social, a decepção
profunda com os rumos globais tomados pelo movimento de 30. Por exemplo, Agildo
Barata foi um dos comandantes de 30. Ele - com outros combatentes - acabou
vindo para a ANL; antes disso, havia participado do movimento
constitucionalista de 1932. Este é um caso, mas há outros. A decepção com os
rumos que a coisa havia tomado levou estes homens a quê? A procurar uma saída,
uma saída que, efetivamente, enfrentasse os problemas que o processo de 30 não
tinha resolvido; a dependência ao imperialismo, a questão agrária, etc. Estes
homens não eram comunistas.
- E a situação do Rio Grande do Norte na época?
Giocondo - no Rio
Grande do Norte, entre 30 e 35 - ou melhor, até a eleição do governador, em 34
- passaram cerca de 8 interventores. Lembro-me dos nomes de alguns: Hercolino
Cascardo, Irineu Jofily, Aluísio Moura, Bertino Dutra e Mário Câmara... No caso
do RN, há uma característica interessante: as forças civis que participaram do
movimento de 30 tinham uma forte base popular. O Café Filho, vejam vocês, era
um homem bastante popular, talvez dos mais radicais.
- E qual foi a posição deles em 1935?
Giocondo - Ele,
pessoalmente, não aderiu ao movimento de 35, mas os cafeístas foram a grande
base de massas da insurreição de Natal. Isto tem uma explicação: por exemplo,
quando subia um interventor ligado às forças que dominavam antes de 30, os perréis...
- O que é isto?
Giocondo - Perréis,
vem de Partido Republicano. Essa gente, que vinha de antes de 30, passou a
disputar com o Café Filho a liderança do Estado. Chegado o momento em que Café
Filho era alijado, a conseqüência era a mudança de toda a oficialidade da polícia.
Então criava-se o seguinte: a polícia do Rio Grande do Norte tinha duas
oficialidades, uma para quando subiam os perréis, outras para os cafeístas.
Outro exemplo é a Guarda Civil. Quando Mário Câmara, interventor ligado às forças
cafeístas, é substituído pelo Rafael Fernandes, que foi eleito governador,
passaram a dominar as forças ligadas ao latifúndio, à elite dirigente do Rio
Grande do Norte, aos perréis, ao pessoal de Mossoró, donos de salinas, das
fazendas de algodão lá dos Seridós... Aí dissolveram a Guarda Civil, que era
cafeísta e mudou toda a oficialidade da polícia.
- Um festival...
Giocondo - Claro.
Havia uma grande instabilidade, permanente.
E o que acontecia? Os políticos, tanto os cafeístas, como os
perréis,
trabalhavam a oficialidade do batalhão. Por exemplo, o capitão Everardo Barros
de Vasconcelos, que depois foi general, era homem ligado aos perréis.
Aluísio Moura, outro capitão, era ora ligado aos perréis, ora aos cafeístas, e assim por diante. Por outro
lado, Café Filho, ao lado do apoio popular, era apoiado pelos Saldanha, pelo
Benedito Saldanha, pelo Aristides Saldanha, que eram verdadeiros senhores
feudais. Tinham um autêntico exército, forças que giravam em torno de 500
jagunços, à disposição deles. Conseguiram manter este status quo exatamente na
medida que apoiaram a Revolução de 30.
- Nós, cabos, que já estávamos no movimento da ANL,
abortamos um movimento da oficialidade para depor Mário Câmara, que era
interventor. Daí decorreu que tiveram de intervir no batalhão. Foi para lá um
major, Veríssimo, saber dos oficiais quais os que respeitavam a autoridade do
interventor. Os que não respeitavam foram transferidos. Havia uma situação na
qual a hierarquia não funcionava. E no caso específico do batalhão a coisa era
mais séria ainda. Por que?
Giocondo - Pelo
seguinte: o 21º Batalhão de Caçadores era de Pernambuco... Como eu disse, o
movimento de 31 foi dissolvido. Quase todo o efetivo foi para Fernando de
Noronha. Depois disto, ele foi reorganizado, e foi aí que eu entrei nele. Quando
cheguei lá, o que eu vi nas paredes foi “viva o comunismo”, “viva Luís Carlos
Prestes”, e outras coisas do tipo. Vejam bem, nós, recrutas, entrando num
ambiente deste tipo. Giocondo contou que
o 29º BC, de Natal, foi transferido para Recife e o 21º BC, que estava na Foz
do Içá, Tocantins, no Amazonas, veio para Natal. “Um batalhão escalado na luta
paulista de 32, sobrevivente da selva amazônica... Nós éramos elementos
efetivamente dispostos a qualquer ação que se voltasse contra o status
quo. Em Manaus, nós chegamos a nos reunir e conspirar para não saltar
em Natal. Quando o navio chegasse ao porto nós nos levantaríamos, jogaríamos a
oficialidade no mar... Na hora H foi dada a última forma e nós
desembarcamos. Agora imaginem: chega a tropa em Natal, revoltada, e encontra um
ambiente político onde várias facções procuram influir na vida do batalhão e
utilizar a oficialidade para seus objetivos. E, como eu disse, isto vinha desde
30: se o interventor tinha o apoio do batalhão, ficava: se não tinha, saía. E
isto tudo, como eu caracterizei anteriormente, combina-se a uma total
desestabilização da hierarquia. Estava formado o caldo de cultura para 35.
- Como chegou ao RN a idéia da ANL?
Giocondo - No contexto
desta efervescência, surge em todo o Brasil a Aliança Nacional Libertadora, um
movimento de massa, com grande conteúdo popular. No Rio Grande do Norte, as
forças que apoiavam o Café Filho passaram para o lado da ANL, que conseguiu,
inclusive, o apoio de certos setores da situação. Nós mesmos tínhamos contato com oficiais da
polícia que eram simpáticos à ANL.
- E o integralismo, chegou a ter influência junto à
tropa?
Giocondo - Não, junto
à tropa, não. Talvez um pouco na oficialidade. Mas voltando à ANL e às relações
do 21º BC com a polícia, mesmo no batalhão da polícia, havia cafeístas
e adeptos da ANL. Colocada esta na ilegalidade, a coisa passou para o terreno
conspirativo”. (final da 1ª parte da entrevista de Gioconco sobre a situação
política do RN em 35).