terça-feira, 19 de março de 2019

A rebelião integralista de 1938 
e seus reflexos no Estado 

 
Levante deteve Getúlio em casa
mas faltou o apoio do Exército 

 
Texto de Luiz Gonzaga Cortez*

 
A rebelião de setores da Ação Integralista Brasileira-AIB contra o ditador Getúlio Vargas, em 11 de maio de 1938, no Rio de Janeiro, permanece esquecida pelos nossos políticos, historiadores e intelectuais. Os episódios de 23 a 27 de novembro de 1935, em Natal, Recife e Rio de Janeiro, são lembrados anualmente, pelos simpatizantes daquele movimento, inclusive pelos seus adversários.

 A insurreição não passou de uma tentativa de golpe para tirar Getúlio do poder e contou com a participação de dezenas de civis armados e oficiais do Exército, dentro os quais se destacaram o tenente Severo Fournier e o médico Belmiro Valverde. A rebelião ficou conhecida como a "intentona integralista", fracassou horas depois da recusa do general Gaspar Dutra, Ministro da Guerra, em apoiar o "putsch" dos camisas-verdes da AIB, organização fundada pelo escritor paulista Plinio Salgado, uma das figuras proeminentes da Semana de Arte Moderna de 1922.

Os integralistas mantiveram Getúlio detido num quarto do seu palácio durante quase 4 horas, segundo versões de historiadores, mas os líderes militares que tinham prometido apoio ao golpe, não atenderam aos apelos de reforços para derrubarem o ditador. Há versões de que o chefe Plinio Salgado não apoiou o golpe militar e se refugiou em São Paulo após não conter a sedição de seus liderados civis e militares da Marinha e do Exército. 
Getúlio Vargas tornou-se ditador com o golpe de 10 de novembro de 1937, apesar de vir governando o país com amplos poderes desde outubro de 1930. Enganou seus aliados à direita e à esquerda para se perpetuar no poder, inclusive Plínio Salgado, a quem ofereceu o cargo de Ministro da Educação. Plinio tinha trabalhado duramente em 1937 para sair candidato à Presidência da República pela AIB, organização conservadora, anticomunista, nacionalista e cristã ( contou com apoio de quase toda a cúpula da Igreja Católica brasileira). José Américo de Almeida e Armando Sales de Oliveira, representantes da burguesia industrial paulista e do latifúndio nordestino também estiveram em campanha eleitoral em 37. Os integralistas fizeram um plebiscito nas suas fileiras e 800 mil camisas-verdes, incluindo os do RN, apoiaram o nome de Plínio para Presidente. Cem mil integralistas desfilaram no Rio de Janeiro oferecendo apoio a Getúlio Vargas. Foram ao Palácio do Catete, no inicio de maio de 1937, ocasião em que Plínio Salgado, Gustavo Barroso e outros líderes integralistas comunicaram ao ditador o resultado do plebiscito.
Maquiavélico, Getúlio incentivou os integralistas e os setores liberais para prosseguirem suas campanhas para as eleições previstas para o ano seguinte, conforme preceituava a Constituição em vigor. Astuto e hábil articulador político, Getúlio executou o golpe em silêncio, com apoio das Forças Armadas, principalmente do general Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército. O menor civil do golpe de 10 de novembro de 1937 foi o intelectual mineiro Francisco Campos, um dos criadores de uma organização de direita em Belo Horizonte/MG.

O GOLPE

Após a implantação do "Estado Novo" - autoritário e repressivo - , os adversários de Getúlio Vargas se articularam numa conspiração para derrubá-lo do poder. Empresários e políticos de São Paulo participavam da trama que culminaria com o golpe militar em janeiro ou março de 38. No entanto, a insurreição somente ocorreu na noite de 11 de maio de 1938 com o ataque ao Palácio do Catete, residência do ditador.
Um dos chefes do integralismo, Olbiano de Melo, no seu livro "A Marcha da Revolução Social no Brasil", a polícia política prendeu dezenas de integralistas no Rio, São Paulo e outros Estados, após fracassada invasão da Rádio Mayrink Veiga do Rio de Janeiro, em março , comandada pelo dr. Jair Tavares e o tenente Loyola. Plínio refugiou-se em São Paulo, onde foi preso pela polícia política do regime, levado para a Fortaleza Santa Cruz, no Rio de Janeiro, de onde saiu para o exílio em Portugal. Somente retornaria em 1945. No exílio, escreveu uma das suas mais belas obras literárias, "A Vida de Jesus".
Conta Olbiano, que Plínio Salgado concordou com o golpe durante uma reunião secreta, realizada no Rio, que contou com a presença do Brigadeiro Newton Braga, mas que ele determinaria a data do levante golpe integralista. No entanto, em março o levante precipitou-se, após o fracasso de janeiro, com a tentativa de ocupação da rádio Mayrinck Veiga . "...viera em 11 de maio, com o ataque de Belmiro Valverde, chefiando um grupo de "camisas- verdes", ao Palácio Guanabara, já em desespero de causa, articulado com o general reformado Castro Júnior e com o grupo civil dos srs. Armando Sales de Oliveira, Júlio Mesquita Filho, Flores da Cunha e Otávio Mangabeira, tendo como agente de ligação o dr. José Paranhos do Rio Branco, e com os quais Plínio Salgado se unira para a insurreição geral de março".
Olbiano de Melo, que afirma nunca ter omitido sua opção pelo fascismo, então no auge na Europa e em crescimento no próprio Estados Unidos da América do Norte (Câmara Casucod escreveu um artigo sobre o crescimento do fascismo nos EUA), registra que ao médico Belmiro Valverde coube a tarefa de cercar o Palácio, "deter ali o Ditador e ainda os ministros militares em suas residências, sublevar parte da Marinha, até que o General Castro Júnior, secundado por outras altas patentes, comprometidas com o movimento, descesse com a Guarnição da Vila Militar para a cidade e se organizasse uma Junta Governativa que imediatamente promoveria o retorno da Nação aos quadros legais da Constituição de 1934. Valverde cumpriu integralmente a palavra empenhada. Teve em suas mãos por toda a madrugada do dia 11 de maio de 1938 o Sr. Getúlio Vargas completamente isolado do mundo, cercou as residências dos ministros militares, inclusive o apartamento do General Góis Monteiro, Chefe do Estado-Maior do Exército e levantou parte da guarnição da Escola Naval e do Arsenal da Marinha. Mas ao invés de terem a cobertura da Vila Militar, os rapazes que se assenhorearam do Palácio Guanabara, comandados pelo Tenente Severo Fournier, foram cercados e dominados ao raiar do dia por um contingente de tropas do Forte São João, dirigidas pessoalmente pelo General Gaspar Dutra, Ministro da Guerra. A reação continuou ainda pela manhã do lado da Marinha sob o comando do Tenente Halzzemann, que também foi dominado com os seus revoltosos, após ter sido gravemente ferido. Esta foi uma das atitudes mais varonis do movimento do Sigma que, de um modo geral, em todos os seus quadros pelos país afora sentia-se vilipendiado pelos senhores da situação. Valeu como um protesto, embora tenha custado a vida de vários "camisas-verdes", após serem presos, nos jardins do Palácio" ( Olbiano, op. cit., p.128, Edição O Cruzeiro, 1958).

Foram mortos friamente, após presos, por Lutero Vargas, irmão do ditador, os seguintes integralistas: Tenente Teófilo Otoni Jacould, Dionísio Pereira da Silva, Mário Salgueiro Viana, Waldemiro Petrone, José Rodrigues, Luis Candido, Manoel Gomes Vidal, Artur Pereira de Holanda e o cabo Juvêncio Henrique Pereira Dias. o tenente Fournier viria a falecer anos mais tarde vítima dos maus-tratos na prisão, no Rio. 

O chefe de polícia era o Capitão Felinto Muller, descendente de alemães, admirador de Hitler e responsável pela entrega da comunista alemã Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, aos nazistas. O coronel Euclides Figueiredo, pai do falecido general e ex-Presidente João B. Figueiredo, participou da "intentona" integralista e foi obrigado a se exilar. ( tinha sido condenado a 4 anos e 4 meses de prisão).

As forças do governo não sofreram baixas, mas mais de 1.500 pessoas, integralistas, simpatizantes e adversários de Getúlio, foram presas em todo o país. Respaldado pelo decreto-lei 428, de 16 de maio de 1938, o regime iniciou violenta repressão e transformou os julgamento do Tribunal de Segurança Nacional em uma verdadeira "blitz". O comandante Fernando Cockrane, Ayrton Plaissant, Lauro Antunes e Oswaldo Belém, condenados a l ano, foram punidos com três anos e quatro meses de prisão. Valverde foi condenado a 8 anos de prisão na Ilha de Fernando de Noronha( que estava cheia de presos comunistas que participaram da intentona de 1935) , de onde enviou vasta correspondência para Carlos Gondim, um dos dirigentes da AIB no Rio Grande do Norte. Gondim era chefe do serviço secreto dos integralistas potiguares e colaborou com os americanos em Natal durante a segunda guerra. As cartas de Valverde chegavam por via aérea, graças a intervenção consul americano em Natal.


Em Natal, a repressão policial atingiu diversas pessoas que nada sabiam da conspiração integralista, como o comerciante católico Carlos Gondim, detido por 13 dias, na Chefatura de Polícia, na Ribeira. Os comerciantes e integralistas Manoel Genésio Cortez Gomes e Sérgio Severo de Albuquerque Maranhão, entre outros, foram interrogados, tiveram suas residências vasculhadas pela polícia estadual. Foram considerados subversivos de direita. Governava o Estado o interventor Rafael Fernandes Gurjão, que tinha sido eleito em 1934, por via indireta, e aceitou ficar no poder após o golpe de novembro de 1937. Câmara Cascudo, conhecido folclorista e figura proeminente da cultura potiguar, não escreveu nada sobre a repressão policial contra os seus companheiros da Ação Integralista Brasileira, organização da qual foi um dos fundadores e um dos seus líderes no Rio Grande do Norte.

 
*Luiz Gonzaga Cortez é jornalista e pesquisador.

 

domingo, 17 de março de 2019


A GUERRA QUE QUASE HOUVE; O RETORNO








Tomislav R. Femenick – Do Instituto Histórico e Geográfico do RN



Dois fatos relativamente recentes voltam a suscitar a controversa que ainda existe com relação à fixação da divisa do Rio Grande do Norte com o Ceará. Desde 2009 tramita na Assembleia Legislativa do estado vizinho um projeto de Decreto Legislativo, que dispõe sobre a convocação de plebiscitos para decidir sobre os limites territoriais interestaduais. Em 14 de abril de 2011, o Diário Oficial do Estado do Ceará publicou ato daquela casa que criava uma Comissão Especial para diagnosticar a indefinição de divisas do Ceará com o Piauí, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba. Por trás dessa nova disputa estariam os royalties do petróleo que a Petrobras descobriu na divisa das cidades de Tabuleiro do Norte (CE) e Apodi (RN).
Todavia o problema vem de longe. O monopólio do sal, instituído pela coroa portuguesa permitia que apenas as províncias de São Tomé, Rio Grande e Pernambuco produzissem e comercializassem sal brasileiro, desde que em suas respectivas fronteiras. Em meados do século XVIII a Vila de Aracati era uma grande produtora de carne salgada e usava sal trazido de Portugal, que era gravado com altos impostos. Visando solucionar seu problema, Aracati solicitou a anexação das salinas do Rio Mossoró ao seu território, o que foi concedido por uma Carta Regia de 1793. Em 1801 o governo cearense tinha como ponto de referência do limite a margem esquerda do rio Mossoró, o que provocou protestos do governo da província do Rio Grande do Norte. A questão perdurou mesmo após a independência e durante todo o período do Império.
Em meados do século XIX, o desenvolvimento de Santa Luzia de Mossoró atraía mais e mais pessoas para a cidade e reavivou o clima de disputa fronteiriço com o Ceará. Caso típico foi a disputa em que a cidade se viu envolvida em torno das oficinas de carne-seca, quando alguns comerciantes de Aracati quiseram fechar os portos dos rios Assú e Mossoró, visando impedir a saída do produto. Sem mercado, as oficinas seriam fechadas. A situação se adensou em 1888, quando a Câmara daquela cidade cearense “mandou medir terrenos à margem esquerda do Mossoró” e tentou estender os limites de seu Município, absorvendo terras das localidades de Tibau e Grossos. Depois de marchas e contramarchas, um ouvidor substituto mandou dar posse dos terrenos em litígio à vila de Aracati, mas o território limítrofe continuou sem ser demarcado.
No início do século XX, a fronteira entre os dois Estados era marcada pela barra do rio Mossoró.  Em fins de janeiro de 1904, tropas do Rio Grande do Norte ali se posicionaram. Os cearenses reagiram, e “multidões se reuniam na praça Central de Fortaleza exigindo a guerra ao Rio Grande do Norte”. O governo do Ceará nomeou um Tenente-coronel do Exército, Salustiano Padilha, para expulsar as tropas potiguares. Em cinco de março de 1904, a tropa cearense, composta de duzentos e cinquenta homens, tomou posição em Aracati, a somente oitenta quilômetros da zona disputada.
Os cearenses se deslocaram de Aracati até Grossos, aonde chegaram no dia onze e ali estabeleceram seu quartel-general, porém não encontraram as forças potiguares, que estavam em Areia Branca. O comandante da expedição planejou atravessar de barcos a barra do rio e invadir a cidade de Areia Branca. Entretanto, alguns dos seus oficiais se anteciparam; cruzaram o rio, se entenderam com as tropas opostas e telegrafaram ao Presidente da Província do Ceará, recebendo deste a ordem para evitar a invasão do Rio Grande do Norte (que eles já haviam invadido quando entraram em Grossos).
Todavia, o Tenente-coronel Salustiano se negou a cumprir a ordem do seu governador e, às sete horas do dia seguinte, com apenas poucos homens, fez a travessia do rio e ficou esperando pelos outros, que nunca chegaram. Sem apoio, teve que se retirar.
O Presidente da República interveio na questão e mandou que as tropas de ambos os lados recuassem para suas bases. A primeira tentativa de solução pacífica da disputa da região contestada pelo dois Estados deu-se via arbitragem, portanto sem envolvimento dos Tribunais regulares. A decisão foi favorável ao Ceará. Nos Tribunais, o Rio Grande do Norte ganhou em três ocasiões diferentes: 30 de setembro de 1908; 02 de janeiro de 1915 e 17 de julho de 1920. Nosso advogado foi Rui Barbosa.
O problema ainda teve um outro desdobramento. Quando Aluísio Alves era governador, o Estado do Rio Grande do Norte fez a doação de glebas de terras devolutas a posseiros moradores em região fronteiriça com o Ceará, expedindo o competente documento de posse. Em outubro de 1967, vários proprietários de terras de Baraúnas, então distrito do Município de Mossoró, foram vítimas de arbitrariedades por parte de supostos donos de suas terras. Inesperadamente foram presos pela polícia cearense e levados para a cidade de Russas.
A quem interessa ressuscitar essa arenga? Nunca ouviram falar no “uti possidetis”, princípio do direito internacional que estabelece que quem ocupa um território possui direito sobre ele?

Tribuna do Norte. Natal, 17 mar. 2019

sábado, 16 de março de 2019

Comer ovos faz mal? Novo estudo diz que aumentam o risco de doenças cardíacas

Por conter muito colesterol na gema, os ovos não são o alimento ideal para a saúde, dizem investigadores norte-americanos. Contudo, alertam que não é preciso evitá-los: basta consumir com moderação
A questão volta a colocar-se: os ovos são maus para a saúde? Um novo estudo descobriu que os adultos que ingeriram mais ovos, e logo mais colesterol, correm um risco significativamente maior de sofrer uma doença cardiovascular. Mas os investigadores também sossegam as pessoas ao dizerem que num ovo há também nutrientes importantes e não é necessário uma dieta de ovos: só é preciso consumir com moderação.
Crise leva pessoas a morar em carro nos EUA
 

 
 
Barbara Harvey dorme com seus cães dentro de seu carro
Barbara Harvey dorme com seus cães dentro de seu carro
A cidade de Santa Bárbara se orgulha de seu estilo de vida tipicamente californiano, com praias, cafés e uma charmosa arquitetura de estilo espanhol.
É claro que tudo tem um preço robusto: localizadas entre as montanhas de Santa Ynez e o Oceano Pacífico, estão casas que valem milhões de dólares.
Mas, mesmo nesta ensolarada enseada de riquezas, muitos vivem longe do sonho norte-americano.
Em um estacionamento no lado oposto de uma rua de mansões luxuosas, a noite traz uma estranha visão.
Alguns carros chegam e estacionam nos cantos do terreno. Dentro de cada carro, mulheres, talvez alguns animais de estimação e malas cheias de coisas e roupas de cama.
A poucos metros de casas com quartos ociosos, estão os habitantes de Santa Bárbara que são obrigados a dormir em seus carros.
Sem-teto há pouco mais de um ano, eles são uma conseqüência direta do colapso do mercado imobiliário norte-americano.
Casas 4x4
Neste estacionamento apenas para mulheres, Bonnee (que revela apenas seu primeiro nome), usa um vestido azul e tem um comportamento de mulher de negócios.
Um ano atrás, ela vivia como, ironicamente, uma corretora de imóveis. Mas, quando as pessoas pararam de comprar casas, seu salário, baseado em comissões, secou e, como muitos clientes, ela não conseguiu pagar sua hipoteca.
De repente, ela se achou sem lugar para morar a não ser seu 4x4.
Pilhas de cobertores estão no porta-malas do veículo. Documentos pessoais estão nos compartimentos ao lado dos bancos. Uma caixa de maquiagem e uma carteirinha de uma academia de ginástica (onde ela toma banho) estão na frente. Com ela, constantemente, estão fotos de sua antiga vida.
Ela não consegue acreditar em sua situação.
"Meu Deus, o coração da América está sangrando", diz.
Lágrimas começam a sair de seus olhos.
"Eu sei que as coisas vão ficar melhores, mas é triste. Eu realmente lutei muito".
Um outro 4x4 entra no estacionamento e Barbara Harvey, de 67 anos, desce do carro.
Ela abre o porta-malas e dois grandes cães da raça golden retriever saem.
Barbara começa sua rotina noturna. Ela pega algumas de suas malas e tira um pijama e iogurtes (seu jantar). Ela então arruma cobertores na parte de trás do carro.
Barbara também costumava trabalhar com o financiamento de imóveis. Mas, desde abril, ela e seus cães, Ranger e Phoebe, passam todas as noites em seu carro. É apertado, mas ela diz que se ela dormir na diagonal, todos cabem dentro do veículo.
Nova tendência?
O estacionamento deixa as pessoas que dormem em carros entrarem a partir das 7h da noite, mas os banheiros públicos fecham com o pôr-do-sol.
Como resultado, Barbara diz que não bebe nenhum líquido depois que ela chega. De manhã, ela toma banho na casa de um amigo.
Vestida com roupas limpas e confortáveis e usando óculos escuros, ela não se parece em nada com o estereótipo do sem-teto.
"Vai começar a haver um monte de indivíduos que são de classe-média, mas que não podem comprar nada. Nós estamos em uma terrível confusão econômica. Acho que ainda não vimos nem metade do que vai acontecer com este país", diz Barbara.
Este novo fenômeno de sem-teto de classe média é difícil de quantificar, mas a New Beginnings, uma organização que cuida do sistema de estacionamentos-dormitórios em Santa Bárbara, diz que acomoda cerca de 55 pessoas em seis estacionamentos.
A assistente social Nancy Kapp, ela também uma ex-sem-teto, afirma que há uma lista de espera para espaço nestes estacionamentos e que ela recebe cada vez mais ligações de pessoas que estão para perder suas casas.
Ela diz que um novo tipo de sem-teto está surgindo nos EUA.
Pesadelo americano
"Ser pobre é como um câncer, agora este câncer está atingindo a classe-média", ela explica. "Não importa o quão forte você seja, é uma quebra na psique humana quando você começa a perder tudo que tem".
"Estas pessoas trabalharam a vida inteira para terem uma casa e agora tudo está desmoronando. Isto não é o sonho americano, é o pesadelo americano", diz Nancy.
Os preços de casas na Califórnia caíram 30% do início do ano até maio. Poucos lugares nos Estados Unidos foram tão atingidos.
Mas grupos imobiliários norte-americanos dizem que o aumento dos sem-teto nos EUA começou com o início da crise, no ano passado.
Vida em trailer
Em outro estacionamento em Santa Bárbara, Craig Miller, sua mulher Paige, e seus dois filhos dizem que se sentem apertados no pequeno trailer onde eles têm vivido por meses.
"É difícil manter as coisas limpas", diz Paige. "É difícil se sentir completo".
Originalmente da Flórida, a família cruzou os Estados Unidos para começar uma nova vida na Califórnia. Mas, incapazes de encontrar trabalho em tempo integral e incapazes de pagar aluguel, nas palavras de Craig, eles ficaram "presos".
Ele diz que, no início, era como férias, mas agora tudo está muito duro.
"Conseguir dinheiro para comida não é uma coisa na qual tínhamos que pensar antes", diz Miller.
"Nós esperamos conseguir sair daqui e conseguir um lugar para ficar. Estamos trabalhando duro para isso. Esta é apenas uma situação, não nosso destino".
Quando vai ficando escuro em Santa Bárbara, aqueles que dormem em carros se preparam para mais uma noite.
Mas todos precisam acordar cedo: não é permitido ficar lá depois das 7h da manhã.
Alguns trabalham, outros passam o dia dirigindo de um lugar para o outro.
Quando a noite cai de novo, eles voltam para o estacionamento.
Comparado com sem-teto de outros países e mesmo outros americanos, estes ainda têm sorte.
Mas se a crise econômica piorar, podem aparecer mais deles?
 

Olga Ladyzhenskaya: A matemática soviética rebelde que foi impedida de estudar 

Olga Ladyzhenskaya em três momentos da vidaDireito de imagemSOCIEDADE MATEMÁTICA DE SÃO PETERSBURGO
Image captionOs trabalhos de Olga Ladyzhenskaya focavam equações diferenciais
Ela publicou mais de 250 pesquisas, sete monografias e um livro, nos quais deixou conceitos matemáticos de enorme influência em áreas tão díspares quanto a probabilidade, a meteorologia e a medicina cardiovascular.
Mas muito antes disso Olga Ladyzhenskaya era uma jovem que, apesar de ter se formado no ensino médio com excelentes notas, foi recusada na Universidade Estadual de Leningrado.
A razão? Seu pai, Aleksandr Ivanovich, era considerado um "inimigo do Estado" soviético.
Ladyzhenskaya nasceu há apenas 96 anos, em 7 de março de 1922, em Kologriv, uma cidade rural localizada no oeste da atual Rússia.
Desde pequena, Olga demonstrava interesse e talento para o cálculo, sob influência do pai, professor de matemática.
Mas quando ela tinha apenas 15 anos de idade, seu pai foi preso e depois executado pelas autoridades soviéticas sob acusação de traição.
Olga LadyzhenskayaDireito de imagemSOCIEDADE MATEMÁTICA DE SÃO PETERSBURGO
Image captionOlga se tornou uma das pensadoras mais influentes de sua época
Essa sombra se espalharia mais tarde com a rejeição dela pela Universidade Estadual de Leningrado em 1939 e, paradoxalmente, a levaria a seguir os passos do pai e estudar matemática.
Após quatro anos como professora, ela finalmente conseguiu ser aceita na Universidade Estadual de Moscou e fez inclusive um curso de pós-graduação no instituto que a rejeitou, onde ela mais tarde trabalharia como pesquisadora.
Desde então, Ladyzhenskaya ascendeu no meio científico nacional até se tornar presidente da Sociedade Matemática de São Petersburgo e uma das pensadoras mais influentes de sua época.
Em agosto de 1991, durante um comício da Praça do Palácio, em São PetersburgoDireito de imagemSOCIEDADE MATEMÁTICA DE SÃO PETERSBURGO
Image captionEm agosto de 1991, durante um comício da Praça do Palácio, em São Petersburgo
E, ainda assim, "sempre foi vista como uma rebelde e tratada como tal pelo governo soviético", disse Peter D. Lax do Instituto Courant de Ciências Matemáticas da Universidade de Nova York disse ao The New York Times, após a morte do pesquisador em 2004, aos 81 anos de idade.

As ideias dela

Os trabalhos de Olga Ladyzhenskaya focavam equações diferenciais, a mesma área na qual se especializou o matemático americano John Nash, vencedor do Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas em Memória a Alfred Nobel de 1994, interpretado por Russell Crowe em Uma Mente Brilhante (2002). Por esse motivo, os dois são comparados muitas vezes.
Embora a pesquisa de Ladyzhenskaya tenha vastas aplicações, é provável que sua maior contribuição para os mortais comuns seja no campo da meteorologia.
Olga LadyzhenskayaDireito de imagemGOOGLE DOODLE
Image captionO doodle do Google em homenagem a Olga Ladyzhenskaya
Graças aos seus cálculos, foi possível prever com maior precisão o movimento das nuvens nas tempestades e, portanto, ter melhores previsões do tempo.
Mas, além de seu trabalho nas equações conhecidas como equações de Navier-Stokes, seus artigos impulsionaram avanços no estudo da dinâmica dos fluidos.
De acordo com um extenso texto publicado em 2004 pela American Mathematical Society em homenagem a Ladyzhenskaya, sua carreira "mostra que, mesmo nos dias mais sombrios do totalitarismo soviético, havia estudiosos corajosos".
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